Glossário Silviano Santiago | Cosmopolitismo do pobre, por Paloma Vidal

Cosmopolitismo do pobre é o novo verbete que publicamos no Glossário Silviano Santiago, projeto coletivo organizado por Mario Cámara.

O verbete escrito por Paloma Vidal (Unifesp) discute as questões lançadas por Silviano Santiago desde o ensaio “O entre-lugar do discurso latino-americano”, em que ele se perguntava qual seria a atitude do artista de um país periférico em relação à cultura hegemônica, até a formulação do conceito de “cosmopolitismo do pobre”, que aparece pela primeira vez em um texto de 2002 e dá título à coletânea de ensaios publicada por Silviano em 2004. Segundo Vidal, ao trabalhar com esse conceito, Silviano propõe ler, a partir das margens sul-americanas, o debate sobre globalização tal como estabelecido na academia norte-americana, questionando as desigualdades geopolíticas e os pontos cegos de um multiculturalismo autocomplacente.

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Cosmopolitismo do pobre

Por Paloma Vidal (Unifesp)

No dia 15 de março de 2018, um dia depois do assassinato de Marielle Franco, foi publicada no site francês maculture.fr, dedicado à dança contemporânea, uma entrevista com Lia Rodrigues, por ocasião da reestreia na França do espetáculo May B, de Maguy Marin, com os dançarinos da Escola Livre de Dança da Maré. Nela, a dançarina e coreógrafa brasileira, que participou de May B no momento de sua estreia, em 1981, e se manteve ligada à sua criadora desde então, diz à entrevistadora que é preciso tentar imaginar o que significa ser uma artista no Brasil e esclarece que o financiamento desse projeto é inteiramente francês. Mais ainda: “Todo o dinheiro que eu utilizo para continuar meu projeto artístico vem da Europa […] Sem isso, eu não poderia continuar meu trabalho”. O mesmo vale para os alunos e alunas da companhia. A isso ela acrescenta: “Esse diálogo é muito importante, mas nos dois sentidos. Eu não acredito que apenas nós estejamos aprendendo. Para aprender, é preciso realmente avançar de mãos dadas, em pé de igualdade”.

A fala de Rodrigues, e seu projeto artístico, podem ser lidos como uma resposta a uma pergunta que Silviano Santiago (2000: 17) lançava em seu ensaio sobre o “entre-lugar”: “Qual seria a atitude do artista de um país em evidente inferioridade econômica com relação à cultura ocidental, à cultura da metrópole, e finalmente à cultura de seu próprio país?”. “O entre-lugar do discurso latino-americano”, finalizado em 1971 e publicado em livro em 1978, como abertura de Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural, já indicava que a pergunta não poderia ter “uma resposta fácil ou agradável”. Naquele momento não interessava tanto a Silviano seguir as pistas dessa “inferioridade econômica” que fica tão em evidência na experiência de Rodrigues. É por aí que é possível entrar no “cosmopolitismo do pobre”, que dá nome a um coletânea de ensaios publicada pela editora da UFMG em 2004, com o subtítulo “crítica literária e crítica cultural”, e a um de seus textos em particular, originalmente publicado em 2002, no segundo número de Margens/Márgenes, revista concebida entre as cidades brasileiras e argentinas de Belo Horizonte, Buenos Aires, Mar del Plata e Salvador.

O contexto de publicação do ensaio está inscrito – de maneira enviesada, como é de preferência de nosso autor – no próprio texto: um pensamento sobre as alianças entre as margens/márgenes, que apareciam representadas no título bilíngue da revista. A Argentina, na qual em dezembro do ano anterior eclodira uma de suas maiores crises institucionais, políticas e econômicas, se associava com um Brasil que, no momento de publicação da revista, já elegera Lula como presidente. “Eu me encontrava em Buenos Aires, em um Estado-nação do sul que transformara suas estruturas estatais para reformular suas funções dentro da ordem global”, situa Josefina Ludmer em “Temporalidades del presente”, ensaio que se segue na revista ao de Silviano. Ludmer lê de noite as ficções que compara com os jornais do dia seguinte, para responder à pergunta: “como pensar um presente no qual estamos incluídos?”. Mobilizar um cosmopolitismo do pobre é também se perguntar pelo presente situado no Sul global. Ludmer lê o corpus literário do ano 2000 na Argentina contiguamente a cenas dos noticiários, incluídas em notas, para compreender a emergência, nos protestos de 2001, de um novo sujeito político: a família como organização que não se limita mais ao espaço privado, diante dos ataques de um neoliberalismo cada vez mais globalizado. Já Silviano passeia pela Internet e extrai dessa ferramenta bastante nova no Brasil informações sobre organizações políticas e culturais, como o MST ou o grupo de teatro “Nós do Morro”, cujo caráter internacionalista interessa a ele destacar como exemplo concreto do que está caracterizando como cosmopolitismo do pobre.

Então, como caracterizá-lo? Como também é de preferência de nosso autor, no ensaio haverá um desvio que nos fará viajar quando justamente de deslocamentos se trata. O filme Viagem ao princípio do mundo (1997), do diretor português Manoel de Oliveira, é a máquina do tempo que permite situar o presente em relação ao passado e ao futuro: “Introduzir a ideia da estável e anacrônica aldeia portuguesa na discussão sobre a instável e pós-moderna aldeia global, constituída em trânsito pelos circuitos econômicos do mundo globalizado, pode trazer alguma originalidade ao debate hoje em vigência” (Santiago, 2004: 49-50, itálicos no original). A partir dessa primeira distinção se desdobra uma outra, que o filme exibe, entre dois tipos de pobreza em ação na economia transnacional. Por um lado, os trabalhadores pobres ligados à terra, excluídos de um mundo motorizado e tecnocrático, que os reduz “à condição de párias da sociedade global”; por outro, esses mesmos trabalhadores tornando-se os imigrantes pobres nas periferias das metrópoles transnacionais, que recrutam “os desprivilegiados do mundo que estejam dispostos a fazer os chamados serviços do lar e de limpeza e aceitem transgredir as leis nacionais estabelecidas pelos serviços de migração” (Santiago, 2004: 51).

É esse segundo personagem que protagonizará a crítica a um multiculturalismo que o 11 de setembro de 2001 veio jogar na lata de lixo do novo milênio. Se o filme de Manoel de Oliveira serve para dramatizar dentro da Europa mesma essa desigualdade social transnacional, Silviano está interessado também em ler a partir das margens sul-americanas o debate sobre globalização tal como foi estabelecido nos campi das universidades dos Estados Unidos, onde ele ensinou nos anos 1960.

Foi nesse país que Silviano apresentou os dois textos que, dentro do livro O cosmopolitismo do pobre, emolduram o ensaio de mesmo nome: “Atração do mundo: políticas de globalização e de identidade na moderna cultura brasileira”, que abre o livro, foi uma conferência na Universidade da Califórnia em Berkeley, em 1995; já “Uma literatura anfíbia”, que se segue a “O cosmopolitismo do pobre”, foi lido em homenagem a José Saramago na John F. Kennedy Library, em Boston, em 2002. De uma costa à outra, nesse país com dois oceanos – como escreveu João Gilberto Noll em romance publicado também em 2002 –,  Silviano faz uma genealogia de um cosmopolitismo atravessado pelas contradições próprias dos escritores, “dublês de intelectuais”, de uma nação colonizada e escravocrata, marcada pelo analfabetismo. Partindo de Minha formação de Joaquim Nabuco para estabelecer um “paradigma inicial”, que será desdobrado e desconstruído, de Machado de Assis a Mário de Andrade, passando por Antonio Candido e Caio Prado Jr., chega-se, na conferência de 1995, a uma discussão sobre “como esses paradigmas estão sendo questionados na nossa época pelos atores sociais reunidos em torno da mesa para discutir como deverá ser conduzida no Brasil a globalização do planeta proposta pelas nações hegemônicas” (Santiago, 2004: 12). Quanto à “Uma literatura anfíbia”, trata-se de colocar o escritor brasileiro contemporâneo cara a cara com um hipotético leitor estrangeiro cosmopolita que desconhece suas condições e lhe exige uma escolha entre arte e política: ele deveria ou denunciar ou deleitar. Mas é a opção pela forma literária anfíbia, vista por esse público como uma impureza desnecessária, que Silviano defende como a afirmação de que, ainda hoje, o escritor brasileiro precisa se responsabilizar pela sua condição privilegiada em um país onde não houve universalização do ensino.

Podemos nos perguntar como o ensaio “O cosmopolitismo do pobre” retoma e suplementa a discussão sobre globalização tal como apresentada na conferência de 1995. Se na conferência ela se inscrevia em uma linha temporal (do século XIX ao presente, com escalas nas primeiras décadas do século XX) que define a modernidade cultural nacional, a escolha de saída pelo filme de Manoel de Oliveira no ensaio de 2002 define uma opção pela sobreposição de tempos e espaços, cuja descrição e problematização ocupará nosso autor por quase dez páginas, metade da extensão do texto. O filme é, por si só, um objeto transnacional que encena, por sua vez, através de mise en abîme, um drama que envolve o isolamento cultural e a precarização econômica de quem atravessa as fronteiras nacionais seguindo o fluxo do capital globalizado, pontos cegos de um multiculturalismo autocomplacente que o “cosmopolitismo do pobre” vem contradizer. Dividido em duas partes, o ensaio se dedica então, na segunda, a diferenciar um antigo e um novo multiculturalismo, sendo que este último será o que possibilitará compreender certas práticas culturais e obras artísticas contemporâneas cujos agentes são os excluídos do cosmopolitismo das elites nacionais, essas analisadas em relação à sua “atração do mundo” e seu afã por valores universais. Já na palestra de 1995 a adesão ao multiculturalismo aparecia como resposta crítica das novas gerações a essa postura universalista excludente, sustentando a reivindicação de uma política cultural identitária por parte de grupos minoritários e marginalizados. Desdobrado em dois, em diálogo com novas teorizações sobre a globalização que assinalam sua aliança com as elites dominantes dos estados-nação, como Globalization and its discontents (1998), de Saskia Sassen, o multiculturalismo se torna uma ferramenta para:

(1) dar conta do influxo de migrantes pobres, na maioria ex-camponeses, nas megalópoles pós-modernas, constituindo seus legítimos e clandestinos moradores, e (2) resgatar, de permeio, grupos étnicos e sociais, economicamente desfavorecidos no processo assinalado de multiculturalismo a serviço do estado-nação (Santiago, 2004: 59).

A partir daí, Silviano visualiza, naquele início do século XXI, “uma virada cosmopolita”, na qual esses grupos marginalizados podem se tornar agentes culturais a partir da articulação de alianças transnacionais capazes de transpor as limitações impostas pela carência econômica. As últimas páginas do ensaio são dedicadas a passear pela Internet em busca de exemplos variados de “cosmopolitismos do pobre”: interessam a Silviano especialmente os sites em que está disponível material de difusão, com dados, bibliografia, depoimentos etc., de movimentos culturais que buscam alcançar um público nacional e internacional, como no caso do site oficial do compositor Martinho da Vila, do qual ele destaca o projeto de encontros internacionais de arte negra, denominados Kizombas, que produziram intercâmbios entre o Brasil e mais de 30 países, como Angola, Moçambique, Guiana Francesa e Estados Unidos.

A experiência com que escolhi começar esta entrada se encaixa no que Silviano descreve no final de “O cosmopolitismo do pobre”: “muitos dos jovens artistas moradores em comunidades carentes têm viajado a países estrangeiros e apresentado seu trabalho em palcos internacionais. Duas ou três décadas atrás seria impensável esse tipo de contato entre profissionais duma cultura hegemônica e representantes jovens duma cultura pobre num país como o Brasil” (Santiago, 2004: 62-63). A Escola Livre de Dança da Maré, criada em 2011, é uma parceria de Lia Rodrigues com a Redes da Maré, “uma organização da sociedade civil, que nasceu da mobilização comunitária a partir dos anos 80, nas favelas da Maré. Formalizada em 2007, tem como missão tecer as redes necessárias para efetivar os direitos da população do conjunto de 15 favelas da Maré, onde residem mais de 140 mil pessoas”. O assassinato de Marielle, cria da Maré, foi um atentado brutal que não pode ser compreendido fora do contexto ao qual Silviano se aproxima neste momento, com o cuidado, a responsabilidade e a visão que caracterizam seu pensamento.

Referências

LUDMER, Josefina. (2002). Temporalidades del presente. Margens/Márgenes, no 2, dezembro de 2002, p. 14-27. 

SANTIAGO, Silviano. (2000). O entre-lugar do discurso latino-americano. In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre a dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, p. 9-26.

SANTIAGO, Silviano. (2004). Atração do mundo: políticas de globalização e de identidade na moderna cultura brasileira. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora da UFMG, p. 11-44.

SANTIAGO, Silviano. (2004). O cosmopolitismo do pobre. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora da UFMG, p. 45-63.  

SANTIAGO, Silviano. (2004). Uma literatura anfíbia. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora da UFMG, p. 64-73.

Sobre a autora

Paloma Vidal é escritora, tradutora e professora de Teoria Literária da Universidade Federal de São Paulo.


Cosmopolitismo del pobre

El 15 de marzo de 2018, un día después del asesinato de Marielle Franco, se publicó en el sitio francés maculture.fr una entrevista con Lia Rodrigues con motivo del reestreno en Francia del espectáculo May B, de Maguy Marin, interpretado por los bailarines de la Escola Livre de Dança da Maré. Allí, la bailarina y coreógrafa brasileña, que participó en May B en el momento de su estreno, en 1981, y se ha mantenido vinculada a su creadora desde entonces, le dice a la entrevistadora que es necesario intentar imaginar lo que significa ser una artista en Brasil, y aclara que la financiación de ese proyecto es enteramente francesa. Más aún: “Todo el dinero que utilizo para continuar mi proyecto artístico proviene de Europa […] Sin eso, no podría continuar con mi trabajo”. Lo mismo vale para los alumnos y alumnas de la compañía. A esto añade: “Ese diálogo es muy importante, pero en ambos sentidos. No creo que solo nosotros estemos aprendiendo. Para aprender, realmente es necesario avanzar tomados de la mano, en pie de igualdad”.

Las palabras de Rodrigues, y su proyecto artístico, pueden leerse como una respuesta a una pregunta que Silviano Santiago (2000: 17) formulaba en su ensayo sobre el “entre-lugar”: ¿Cuál sería la actitud del artista de un país en evidente inferioridad económica en relación con la cultura occidental, con la cultura de la metrópoli, y finalmente con la cultura de su propio país?”. “O entre-lugar do discurso latino-americano”, finalizado en 1971 y publicado en libro en 1978 como apertura de Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural, ya indicaba que la pregunta no podía tener “una respuesta fácil ni agradable”. En ese momento, no le interesaba tanto a Silviano seguir las pistas de esa “inferioridad económica” que resulta tan evidente en la experiencia de Rodrigues. Es por allí que se puede ingresar al “cosmopolitismo do pobre”, título de una recopilación de ensayos publicada por la editorial de la UFMG en 2004, con el subtítulo “crítica literária e crítica cultural”, y también de uno de sus textos en particular, publicado originalmente en 2002 en el segundo número de Margens/Márgenes, revista concebida entre las ciudades brasileñas y argentinas de Belo Horizonte, Buenos Aires, Mar del Plata y Salvador.

El contexto de publicación del ensayo está inscrito – de manera oblicua, como prefiere nuestro autor – en el propio texto: una reflexión sobre las alianzas entre las margens/márgenes, que aparecían representadas en el título bilingüe de la revista. Argentina, donde en diciembre del año anterior había estallado una de sus mayores crisis institucionales, políticas y económicas, se asociaba con un Brasil que, en el momento de publicación de la revista, ya había elegido a Lula como presidente. “Me encontraba en Buenos Aires, en un Estado-nación del sur que había transformado sus estructuras estatales para reformular sus funciones dentro del orden global”, señala Josefina Ludmer en “Temporalidades del presente”, ensayo que sigue al de Silviano en la revista. Ludmer lee por la noche las ficciones que compara con los periódicos del día siguiente, para responder a la pregunta: “¿cómo pensar un presente en el que estamos incluidos?”. Movilizar un cosmopolitismo del pobre es también preguntarse por el presente situado en el sur global. Ludmer lee el corpus literario del año 2000 en Argentina contiguamente a escenas de los noticieros, incluidas en notas, para comprender la emergencia, en las protestas de 2001, de un nuevo sujeto político: la familia como organización que ya no se limita al espacio privado, ante los ataques de un neoliberalismo cada vez más globalizado. Silviano, por su parte, navega por Internet y extrae de esa herramienta – aún bastante nueva en Brasil – informaciones sobre organizaciones políticas y culturales como el MST o el grupo de teatro “Nós do Morro”, cuyo carácter internacionalista le interesa destacar como ejemplo concreto de lo que está caracterizando como cosmopolitismo del pobre.

Entonces, ¿cómo caracterizarlo? Como también es de la preferencia de nuestro autor, en el ensayo habrá un desvío que nos hará viajar, justo cuando se trata de desplazamientos. La película Viagem ao princípio do mundo (1997), del director portugués Manoel de Oliveira, es la máquina del tiempo que permite situar el presente en relación con el pasado y el futuro: “Introducir la idea de la estable y anacrónica aldea portuguesa en la discusión sobre la inestable y posmoderna aldea global, constituida en tránsito por los circuitos económicos del mundo globalizado, puede aportar alguna originalidad al debate vigente” (Santiago, 2004: 49-50, cursivas en el original). A partir de esta primera distinción se despliega otra, que muestra la película, entre dos tipos de pobreza en acción en la economía transnacional. Por un lado, los trabajadores pobres ligados a la tierra, excluidos de un mundo motorizado y tecnocrático, que los reduce “a la condición de parias de la sociedad global”; por otro lado, esos mismos trabajadores convirtiéndose en inmigrantes pobres en las periferias de las metrópolis transnacionales, que reclutan “a los desposeídos del mundo que estén dispuestos a realizar los llamados servicios del hogar y de limpieza y acepten transgredir las leyes nacionales establecidas por los servicios de migración” (Santiago, 2004: 51).

Es este segundo personaje quien protagonizará la crítica a un multiculturalismo que el 11 de septiembre de 2001 arrojó al basurero del nuevo milenio. Si la película de Manoel de Oliveira sirve para dramatizar dentro de la propia Europa esa desigualdad social transnacional, a Silviano también le interesa leer desde los márgenes sudamericanos el debate sobre la globalización tal como se estableció en los campus de las universidades de Estados Unidos, donde enseñó en los años sesenta.

Fue en ese país donde Silviano presentó los dos textos que, dentro del libro O cosmopolitismo do pobre, enmarcan el ensayo del mismo nombre: “Atração do mundo: políticas de globalização e de identidade na moderna cultura brasileira”, que abre el libro, fue una conferencia en la Universidad de California en Berkeley, en 1995; mientras que “Uma literatura anfíbia”, que sigue a “O cosmopolitismo do pobre”, fue leído en homenaje a José Saramago en la John F. Kennedy Library, en Boston, en 2002. De una costa a otra, en ese país con dos océanos – como escribió João Gilberto Noll en una novela publicada también en 2002 –, Silviano traza una genealogía de un cosmopolitismo atravesado por las contradicciones propias de los escritores, “dobles de intelectuales”, de una nación colonizada y esclavista, marcada por el analfabetismo. Partiendo de Minha formação de Joaquim Nabuco para establecer un “paradigma inicial”, que será luego desplegado y deconstruido – de Machado de Assis a Mário de Andrade, pasando por Antonio Candido y Caio Prado Jr.–, se llega, en la conferencia de 1995, a una discusión sobre “cómo esos paradigmas están siendo cuestionados en nuestra época por los actores sociales reunidos en torno a la mesa para debatir cómo debe conducirse en Brasil la globalización del planeta propuesta por las naciones hegemónicas” (Santiago, 2004: 12). En cuanto a “Uma literatura anfíbia”, se trata de poner al escritor brasileño contemporáneo cara a cara con un hipotético lector extranjero cosmopolita que desconoce sus condiciones y le exige una elección entre arte y política: debería o bien denunciar o bien deleitar. Pero es la opción por la forma literaria anfibia – vista por ese público como una impureza innecesaria – la que Silviano defiende como afirmación de que, aún hoy, el escritor brasileño necesita responsabilizarse por su condición privilegiada en un país donde no hubo universalización de la enseñanza.

Podemos preguntarnos cómo el ensaio “O cosmopolitismo do pobre” retoma y complementa la discusión sobre globalización tal como se presentó en la conferencia de 1995. Si en esta se inscribía en una línea temporal (del siglo XIX al presente, con escalas en las primeras décadas del siglo XX) que define la modernidad cultural nacional, la elección de partir de la película de Manoel de Oliveira en el ensayo de 2002 indica una opción por la superposición de tiempos y espacios, cuya descripción y problematización ocupará a nuestro autor por casi diez páginas, la mitad de la extensión del texto. La película es, en sí misma, un objeto transnacional que representa, a su vez, mediante una mise en abîme, un drama que involucra el aislamiento cultural y la precarización económica de quienes atraviesan las fronteras nacionales siguiendo el flujo del capital globalizado, puntos ciegos de un multiculturalismo autocomplaciente que el “cosmopolitismo del pobre” viene a contradecir. Dividido en dos partes, el ensayo se dedica entonces, en la segunda, a diferenciar un antiguo y un nuevo multiculturalismo, siendo este último el que permitirá comprender ciertas prácticas culturales y obras artísticas contemporáneas cuyos agentes son los excluidos del cosmopolitismo de las élites nacionales, analizadas estas en relación con su “atracción del mundo” y su afán por los valores universales. Ya en la conferencia de 1995, la adhesión al multiculturalismo aparecía como una respuesta crítica de las nuevas generaciones a esa postura universalista excluyente, sustentando la reivindicación de una política cultural identitaria por parte de grupos minoritarios y marginados. Desdoblado en dos vertientes, en diálogo con nuevas teorizaciones sobre la globalización que señalan su alianza con las élites dominantes de los Estados-nación, como Globalization and its discontents (1998), de Saskia Sassen, el multiculturalismo se convierte en una herramienta para:

(1) dar cuenta del influjo de migrantes pobres, en su mayoría ex campesinos, en las megalópolis posmodernas, constituyéndose como sus legítimos y clandestinos habitantes, y (2) rescatar, al mismo tiempo, a grupos étnicos y sociales económicamente desfavorecidos en el proceso señalado de multiculturalismo al servicio del Estado-nación (Santiago, 2004: 59).

A partir de ahí, Silviano visualiza, en ese inicio del siglo XXI, “un giro cosmopolita”, en el cual esos grupos marginados pueden convertirse en agentes culturales a partir de la articulación de alianzas transnacionales capaces de superar las limitaciones impuestas por la carencia económica. Las últimas páginas del ensayo se dedican a navegar por Internet en busca de ejemplos variados de “cosmopolitismos del pobre”: le interesan especialmente a Silviano los sitios web en los que está disponible material de difusión, con datos, bibliografía, testimonios, etc., de movimientos culturales que buscan alcanzar un público nacional e internacional, como en el caso del sitio oficial del compositor Martinho da Vila, del cual destaca el proyecto de encuentros internacionales de arte negro, denominados Kizombas, que generaron intercambios entre Brasil y más de 30 países, como Angola, Mozambique, Guayana Francesa y Estados Unidos.

La experiencia con la que decidí comenzar esta entrada encaja en lo que Silviano describe al final de “O cosmopolitismo do pobre”: “muchos de los jóvenes artistas que viven en comunidades carenciadas han viajado a países extranjeros y presentado su trabajo en escenarios internacionales. Dos o tres décadas atrás sería impensable este tipo de contacto entre profesionales de una cultura hegemónica y representantes jóvenes de una cultura pobre en un país como Brasil” (Santiago, 2004: 62-63). La Escola Livre de Dança da Maré, creada en 2011, es una asociación entre Lia Rodrigues y Redes da Maré, “una organización de la sociedad civil que nació de la movilización comunitaria a partir de los años 80, en las favelas de Maré. Formalizada en 2007, tiene como misión tejer las redes necesarias para garantizar los derechos de la población del conjunto de 15 favelas de Maré, donde viven más de 140 mil personas”. El asesinato de Marielle, hija de Maré, fue un atentado brutal que no puede comprenderse fuera del contexto al que Silviano se aproxima en ese momento, con el cuidado, la responsabilidad y la visión que caracterizan su pensamiento.

Referências

LUDMER, Josefina. (2002). Temporalidades del presente. Margens/Márgenes, no 2, dezembro de 2002, p. 14-27. 

SANTIAGO, Silviano. (2000). O entre-lugar do discurso latino-americano. In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre a dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, p. 9-26.

SANTIAGO, Silviano. (2004). Atração do mundo: políticas de globalização e de identidade na moderna cultura brasileira. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora da UFMG, p. 11-44.

SANTIAGO, Silviano. (2004). O cosmopolitismo do pobre. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora da UFMG, p. 45-63.  

SANTIAGO, Silviano. (2004). Uma literatura anfíbia. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora da UFMG, p. 64-73.

Sobre la autora

Paloma Vidal es escritora, traductora y profesora de Teoría Literaria en la Universidade Federal de São Paulo.