Michel Misse (1951-2025)

A BVPS lamenta profundamente o falecimento do professor Michel Misse, ocorrido ontem, 14 de agosto de 2025, no Rio de Janeiro. Sociólogo, foi professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde ingressou em 1978 e se aposentou em 2019, mantendo-se ativo como colaborador no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA-UFRJ), que ajudou a criar.

Graduado em Ciências Sociais (IFCS-UFRJ, 1974), mestre (IUPERJ, 1979) e doutor em Sociologia (IUPERJ, 1999), Michel Misse foi fundador e diretor desde 1999 do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU), no qual coordenou uma ampla agenda de pesquisas sobre violência, criminalidade e segurança pública, além de ter criado um periódico especializado nesses temas: Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social. Atuou também na gestão acadêmica: foi vice-diretor e diretor do IFCS-UFRJ (1986-1993), dirigiu o Departamento de Ciências Sociais e o de Sociologia da UFRJ, bem como a Editora UFRJ.

Sua produção teórica e empírica modelou o campo da sociologia da violência e do crime no Brasil. Desde sua tese Malandros, marginais e vagabundos: a acumulação social da violência no Rio de Janeiro (1999), Michel Misse propôs uma perspectiva inovadora sobre a violência urbana como uma representação social baseada “em uma forte reação social ao que é experimentado como aquilo que fere o sentimento de segurança e os valores da vida, da dignidade humana e da propriedade”, o que produz historicamente uma “sujeição criminal” de certos indivíduos e grupos ao estigmatizar suas identidades como “bandidos”. Obras como Crime e violência no Brasil contemporâneo (2006), Acusados e acusadores (2008), As guardas municipais no Brasil (2010) e O inquérito policial no Brasil (2010) tornaram-se referências fundamentais na área. Organizou ainda coletâneas como Conflitos de grande interesse (2012) e Mercados ilegais, violência e criminalização (2018).

Sua trajetória intelectual e institucional deixa um legado duradouro. Formador de gerações de pesquisadores, articulou teoria crítica, estudos empíricos e compromisso com temas urgentes para a democracia e a justiça social.

À família, aos amigos e estudantes manifestamos nosso sincero sentimento de pesar e deixamos nosso abraço.

O velório de Michel Misse ocorre hoje, das 10h às 15h, na Sala do Polo Internacional Lima Barreto de Transculturalismo, no térreo do IFCS.

A seguir, como uma forma de homenagem, repostamos o texto escrito por Michel ano passado para o Especial BVPS sobre os 60 anos do Golpe de 1964, no qual narra suas lembranças de adolescente do golpe e dos primeiros anos da ditadura entre Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo, e o Rio de Janeiro.


Memórias adolescentes de um golpe de estado

Por Michel Misse (UFRJ)

Estava para fazer treze anos em fins de março de 1964. Estudava no Liceu Muniz Freire, tradicional escola pública de segundo grau de Cachoeiro de Itapemirim, Estado do Espírito Santo. Havia, na época, outras duas escolas de segundo grau em Cachoeiro: o Colégio Cristo Rei, das freiras, e a Escola Técnica de Comércio, da família Herkenhoff. Os três colégios disputavam os aplausos das ruas com seus desfiles escolares nas festividades da cidade, à maneira norte-americana, com bandas de música, balizas e carros alegóricos. Como os demais colegas, desfilava nessas datas uniformizado com o meu dólmã, copiado do uniforme do Colégio Pedro II do Rio. Desfilava orgulhoso e concentrado.

Pois foi na manhã de primeiro de abril de 1964 que se deu a surpresa. Quando abri a janela do meu quarto, às seis horas da manhã, antes de me arrumar para ir ao Liceu, a plataforma da estação ferroviária, defronte à minha casa, estava cheia de soldados deitados no chão com metralhadoras apontadas para a rua, isto é, apontadas na minha direção, na janela do sobrado. Sabíamos que o país atravessava uma crise, mas não entendi de imediato a razão daqueles soldados, do então famoso 3º Batalhão de Caçadores, estarem assim dispostos, deitados no chão da plataforma e dirigindo as suas metralhadoras para mim! Corri ao rádio!

Busquei instintivamente a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Um locutor anunciava que tropas do Exército haviam saído de Juiz de Fora em direção ao Rio no dia anterior e já se encontravam nas imediações do Palácio Guanabara, onde o Presidente João Goulart passara a noite. O locutor, emocionado, falava em resistência, em legalidade, que o Presidente havia se deslocado da Guanabara para Brasília, que Leonel Brizola liderava a resistência no Rio Grande do Sul. Eu ouvia, preocupado, mas pensava: “Hoje não vai ter aulas! Acho que não vou hoje ao Liceu”.

Até janeiro de 1964, Cachoeiro não recebia sinais de televisão. A instalação de uma torre para transmissão dos canais de televisão do Rio iniciara a corrida na cidade para a compra dos aparelhos de tevê. Meu pai foi dos primeiros a comprar um, da marca Philco, com válvulas e 21 polegadas. Lembro-me bem de ter assistido, pela TV Tupi, Canal 6, à transmissão do Comício da Central do Brasil, na noite de sexta-feira, 13 de março. João Goulart, com a primeira-dama, Maria Tereza, ao lado, decretava o início da reforma agrária. A crise política se aguçava e falávamos disso no Liceu e em casa, mas sem entender muito bem o que se passava. As irmãs de minha mãe e um primo, que moravam no Rio, eram lacerdistas. Acusavam Jango de comunista. Meu pai não parecia muito preocupado com a política, e sim com a inflação, que o obrigava a remarcar os preços das mercadorias da loja com uma frequência inusitada. Ele lutara na Primeira Guerra Mundial e suas histórias haviam me fascinado tanto que ganhei uma Enciclopédia Delta Larousse, de 15 volumes, para me levar de vez, como aconteceu, para os estudos históricos e sociais. Outras influências foram o professor de História, Luiz Claudio Gazir, um liberal que não perdia a oportunidade de atacar os integralistas que ainda insistiam no Sigma; e João Baptista Herkenhoff, hoje desembargador aposentado em Vitória, que começou a nossa (minha e de outros colegas) socialização política em seu curso de Organização Social e Política Brasileira (OSPB). Gazir faleceu este ano, aos 86 anos, em Vila Velha; Joãozinho Herkenhoff, como o chamávamos, está, felizmente, bem vivo em Vitória. Fica aqui registrada a minha homenagem a eles. Foi a nossa geração, depois de 64, quem reiniciou o movimento estudantil em Cachoeiro, dirigindo o Grêmio do Liceu e a Casa do Estudante, que tinha sede própria, salão de festas e associados.

Os trens da Leopoldina Railways faziam suas manobras do outro lado da rua da minha casa. A “Maria Fumaça”, o vagão de carvão, os coches vazios de passageiros, os vagões de carga, enfileirados ou estacionados em três ou quatro trilhos paralelos, permitiam uma arrumação constante das composições que aguardavam a vez de partir. Uma longa plataforma de passageiros começava um pouco antes do sobrado onde nasci e vivia e se estendia à direita até o limite da minha vista, quando eu me debruçava à janela do quarto. A plataforma terminava na Estação Ferroviária onde, em letras pretas, estava escrito o nome da cidade: Cachoeiro de Itapemirim.

O sobrado, que meu pai construíra com meu tio nos primeiros anos da década de 1940, recebera o nome de minha avó paterna, ainda viva e que morava conosco: Edifício Santa Helena. Ficava na Rua Coronel Francisco Braga, 57-59, rua que terminava nas imediações da estação de trens. Francisco Braga fora prefeito da cidade e pai dos escritores Rubem e Newton Braga. Do lado esquerdo do sobrado, no térreo, ficava a loja de papai e, no andar superior, a nossa casa; no lado direito, a loja e, em cima, a casa de meu tio. Ambos, com minha avó, meu avô e dois irmãos, emigraram do Líbano para o Brasil em 1927. O meu avô, Cesar, entretanto, não chegou a pisar no continente: passou do navio direto para a Ilha das Flores, na baía de Guanabara, e ali permaneceu retido pelas autoridades sanitárias do Distrito Federal por ter nos olhos um tracoma – uma doença contagiosa ainda sem cura –, que o impediu de conhecer o Brasil. Deportado, retornou ao Líbano, onde faleceu alguns anos depois. A história me foi contada várias vezes, a assinalar uma ruptura drástica na família. A Ilha das Flores fora, desde o século XIX, lugar de triagem dos imigrantes que aportavam na capital federal. É hoje um museu, o Museu da Imigração. Tenho uma rara gravura da ilha no século XIX, que comprei de um bouquinista em Paris e que pretendo algum dia doar ao museu.

A Nacional continuava a transmitir que havia resistência ao golpe militar quando a rádio foi ocupada pelos militares e passou a veicular hinos e notícias da vitória do golpe. Soube anos depois que o mesmo ocorreu na Rádio MEC, quando militares, sob o comando do ex-diretor da Faculdade Nacional de Filosofia, Eremildo Viana, tomaram o controle da emissora e destituíram do cargo a professora Maria Yeda Leite Linhares, sua diretora nomeada. Eremildo virou depois personagem satírico do jornalista Elio Gaspari, que por ele foi expulso da faculdade onde estudava História. Eu mesmo, ainda sem o saber, seria aluno de Eremildo seis anos depois, com ele já conhecido nacionalmente pelas crônicas de Sérgio Porto e pelas delações que fizera de seus colegas professores da FNFi. Muito mais tarde, em 1978, tentou impedir a minha contratação como professor do IFCS/UFRJ, mas foi vencido no colegiado interdepartamental pelos votos dos professores Celso Lemos, da Filosofia, e Antônio Celso Pereira, das Ciências Sociais. Guardo a ata até hoje. O idiota restara só, como um fio desencapado pelo golpe de 1964.

Desci para a loja e avisei que não teria aulas, e o que estava ocorrendo no Rio. Meu pai, um pouco cético, contou-me que, em 1935, os integralistas estavam reunidos em comício em frente à estação, aguardando a chegada de Plinio Salgado, quando uma metralhadora, postada no alto da estação, começou a pipocar na direção deles. O trem com a comitiva integralista, que estava chegando à estação, não parou: continuou em direção a Vitória. Os camisas-verdes correram para se proteger e invadiram, em pânico, o comércio do então jovem imigrante libanês, que assistiu a tudo perplexo com a comicidade da situação. Seriam eles outra vez?

Liguei o rádio da loja, um pequeno e antigo transmissor de plástico preto duro com botões moles. Sem a buscar, caí na Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, que transmitia diretamente do Palácio Guanabara um discurso do então governador Carlos Lacerda. Este, aos gritos, clamava: “Venha me buscar, Almirante Aragão! Venha aqui ao Palácio, eu o receberei à bala!”. Fiquei ouvindo os impropérios de Lacerda ao tal Almirante Aragão, sem saber da sua relevância naquela situação. Imaginei que ele estava cercando o Palácio onde se refugiara, mas não era nada disso, soube depois. O governador da Guanabara e principal instigador do golpe estava mal-informado: Aragão fora preso, e Lacerda não corria perigo…

Cachoeiro de Itapemirim tinha um grande líder sindical ferroviário atuando na capital federal: Demistóclides Baptista, o “Batistinha”, que chegara a deputado federal pelo PTB na Guanabara. Chegou a ter a mesma fama nacional de Lula quando este liderava as greves no ABC na década seguinte. Batistinha era irmão do meu querido professor Deusdedit Baptista, ex-diretor do Liceu e cidadão exemplar da cidade. Negros e socialistas ambos, Batistinha tentou impedir a chegada das tropas de Mourão Filho, que vinham pela Avenida Brasil em direção à Avenida Francisco Bicalho. Mandou atravessar um trem – toda uma composição – nos trilhos que cortavam a avenida em direção à Estação da Leopoldina, de modo a obstar a passagem das tropas. Não funcionou e ele teve que buscar asilo. Foi um dos primeiros da lista de cassados do novo regime.

Duas casas após o sobrado dos Misse ficavam as “Lojas Kleber”, a casa comercial de propriedade de uma simpática figura humana da minha infância, Kleber Massena. Eu gostava dele e era amigo de um de seus filhos, Chico, mas todos diziam que Kleber era comunista. Minha mãe atenuava a acusação lembrando que “seu Kleber” era também espírita kardecista. Embora secretário municipal do PCB, ele não se incomodava em assumir publicamente sua religião, mesmo sendo marxista convicto. Pois “seu Kleber” foi um dos primeiros presos em Cachoeiro logo após o golpe de 1964. Levaram-no para Vitória, mas não sem antes terem que retirar de seu pescoço uma tabuleta onde se lia: “Nesta Terra Ninguém Manda”! Voltou semanas depois ao seu comércio, após ter sido torturado e nada revelado de ninguém. Manteve-se calado e só voltou a ser preso após o AI-5, iniciando uma sucessão de novas detenções. Talvez tivesse a minha idade de hoje naquele tempo. Alguns anos depois, quando fui eu o preso, lembrei-me de “Seu Kleber” e de sua infinita paciência com os que lhe queriam mandar.

Voltei à Rádio Nacional e à TV Tupi. A emissora de Chateaubriand alardeava, no Repórter Esso, que a Pátria estava salva do comunismo. O golpe militar ganhava apoio civil, a grande imprensa comemorava, os jornais de Cachoeiro abriam manchetes enaltecedoras à “Revolução Redentora” e, imitando o que acontecia no Rio na semana seguinte, foi organizada na cidade a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Senhoras da sociedade, com seus maridos à tiracolo, ganharam as ruas nas imediações da Praça Jerônimo Monteiro com seus galhardetes e suas faixas patrióticas. Rezavam em voz alta e cantavam o hino nacional no lugar onde, meses antes, desfilávamos com nossa banda marcial e com a evolução de nossas balizas. Meus pais, felizmente, preferiram ficar em casa. Eu fui ver, curioso e emocionado, o que parecia ser um novo capítulo destemido e patriótico da História nacional! Mal sabia eu o quanto esse capítulo seria covarde, duradouro e nefasto para a minha e as gerações vindouras.

No final do ano, o professor Deusdedit me procurou e me ofereceu uma caixa de charutos com dezenas de fichas dentro. O filho de Rubem Braga, Roberto, havia criado anos antes, no Liceu, o “Clube de Correspondência Internacional”, que propiciava contatos com amigos de outros países e incentivava também o estudo de línguas estrangeiras. O Clube não durou muito, e Deusdedit queria reavivá-lo. Chamei colegas de variadas turmas e começamos a nos reunir. Ali recomeçava o movimento estudantil em Cachoeiro. Fizeram parte da diretoria, entre outros, Paulo Herkenhoff Filho, o atual e respeitado curador do Museu de Arte do Rio, e Jorge Luiz de Souza, que foi porta-voz da Presidência da República no governo Sarney, após penar mais de um ano de prisão na Vila Militar durante o regime dos generais. Foi outro que iniciou a sua vida política a partir daquela velha caixa de charutos. Nilson Roberty, professor de engenharia na UFRJ, também estava nessa turma. Nas rodas em torno do grupo, o poeta e compositor Sérgio Sampaio.

Do Clube de Correspondência partimos para a Casa do Estudante e, desta, para a criação, em 1965, do jornal estudantil O Estandarte e, com apoio de colegas do Rio, à fundação do Cineclube Glauber Rocha. Exibimos A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Vidas Secas e Sol sobre a Lama. Quando anunciamos Os Fuzis, já era demais para a repressão: fecharam o cineclube e levaram alguns colegas detidos para serem interrogados no “Tiro de Guerra”.

Quatro anos depois, eu já estava morando e estudando no Rio. Como eu, vários dos meus colegas do Liceu saíram de Cachoeiro para se prepararem para o vestibular. Começavam as primeiras faculdades em Cachoeiro, mas o horizonte dessa geração, como da anterior, já havia escolhido Vitória, São Paulo e o Rio de Janeiro. Já estudavam no Rio Sérgio Bermudes, o grande advogado, Bruno Torres Paraíso, jornalista no Correio da Manhã, e Antonio Fuzer, radialista, todos ex-diretores da Casa do Estudante. Em 1968, a agitação contra a ditadura ganhava cada vez mais relevância e parte da grande imprensa – ao menos de seus principais formadores de opinião – já se colocava em rota de colisão com o regime.

Já com meus dezessete anos e a lembrança dos idos de abril de 1964, fui, em junho de 1968, ao Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, após uma convocação para organizar uma nova e, desta vez, grandiosa manifestação. No palco, artistas que adorávamos – como Chico Buarque, Caetano Veloso, Cacilda Becker – eram tantos quanto os intelectuais – como o psicanalista Hélio Peregrino, José Américo Pessanha (professor de filosofia do IFCS), Antônio Callado… Discutia-se a organização de uma grande manifestação na Cinelândia. Foi o começo da famosa Passeata dos Cem Mil. Depois, em dezembro, uma reunião no Teatro República, em frente ao Correio da Manhã, na Rua Gomes Freire, de jornalistas estudantis. A reunião foi encerrada com uma invasão policial, com o próprio Secretário de Segurança à frente da tropa civil, que revistou alguns e prendeu outros de nós. O AI-5 estava sendo anunciado pelo locutor Alberto Curi, na televisão, e não sabíamos. Fui para casa com a impressão de que estava começando tudo outra vez – e ainda pior. O chamado para a luta armada encerrou as melhores expectativas quanto ao fim da ditadura. E Sérgio Sampaio, que já estava no Rio, cantou, como que a insistir no improvável, que ainda queria botar o bloco na rua.