
O organizador do Glossário Silviano Santiago, Mario Cámara (UBA), assina o novo verbete que publicamos hoje: cosmopolitismos discrepantes.
O verbete explora as relações entre três conceitos centrais na obra de Silviano: “entre-lugar”, “cosmopolitismo do pobre” e “cosmopolitismo discrepante”. Se os dois primeiros são amplamente conhecidos e comentados na fortuna crítica do autor, “cosmopolitismo discrepante” tem uso mais recente, aparecendo em dois textos de Grafias de vida (2023). Segundo Cámara, tomado de empréstimo de James Clifford, para quem os “cosmopolitismos discrepantes” refletem formas de ser cosmopolita que não se encaixam no modelo universalista, Silviano mobiliza este conceito tanto para analisar a geração modernista, que, a seu ver, construiu um projeto capaz de acolher e conter os “cosmopolitismos discrepantes”, quanto para mirar o futuro, propondo uma revisão plural e democrática do cânone em língua portuguesa. Cámara sugere que a relação entre os três conceitos não deve ser compreendida de modo linear, mas como parte da insistência do escritor e crítico mineiro em problematizar o lugar diferencial da cultura brasileira no cenário global.
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Cosmopolitismos discrepantes
Por Mario Cámara (UBA)
Há alguma relação entre o conceito de “cosmopolitismo do pobre”, que Silviano utilizou em um ensaio homônimo de 2002, e o conceito de “cosmopolitismo discrepante” que, tomando de James Clifford, ele emprega em dois dos ensaios reunidos em Grafias de vida? Esses dois conceitos, por sua vez, podem ser vinculados ao ensaio “O entre-lugar do discurso latino-americano”, concebido em 1969 e publicado em 1978?
A resposta não é simples. Ainda que possamos afirmar que há relações entre os conceitos, a dificuldade está em determinar que tipo de relação eles estabelecem. Funcionam como um tripé, em que cada conceito aborda uma zona problemática distinta? Ou deveríamos lê-los de forma progressiva, como se Silviano, ao dar continuidade à sua reflexão sobre as culturas pós-coloniais, ou, mais precisamente, sobre as políticas culturais em nações pós-coloniais, fosse encontrando formas de análise mais ajustadas e satisfatórias? Confio que poderei oferecer uma resposta ao final deste verbete.
Esclareço que meu objetivo aqui é examinar o conceito de “cosmopolitismos discrepantes”, mas ele se compreende melhor se posto em relação com os outros dois mencionados. Lembremos brevemente que o eixo central de “O entre-lugar do discurso latino-americano” consistia em propor um modo de processar a cultura dos países centrais do Ocidente sem que essa recepção se transformasse em mera cópia ou em um rechaço isolacionista. Para além da ideia de antropofagia oswaldiana que circulava no texto, Silviano propunha os conceitos de tradução (uma tradução sempre desviada ou desviadora), suplemento (tomado de Jacques Derrida) e “texto escrevível” (de Roland Barthes). Lidar com o centro a partir da periferia implicava, então, mastigar, traduzir, assinalar lacunas e reescrever, como faz, por exemplo, Eça de Queirós ao reescrever Madame Bovary, de Gustave Flaubert, ou como faz Borges, em “Pierre Menard, autor do Quixote”, ao reescrever o Dom Quixote de Cervantes.
Mesmo sem que o conceito de cosmopolitismo aparecesse de forma explícita, ele estava implícito no intenso trânsito de ideias, conceitos e ficções por meio da importação de livros, da visita de intelectuais estrangeiros e da circulação de revistas e suplementos culturais europeus. A isso podemos somar as estadias, breves ou prolongadas, de intelectuais e artistas brasileiros em terras europeias, como muitos dos modernistas que passaram longas temporadas em Paris. O “entre-lugar” é, como diria Pierre Bourdieu, um texto de combate, que convida a uma recepção ativa dos materiais culturais produzidos nas culturas centrais.
No ensaio “O cosmopolitismo do pobre”, o olhar de Silviano se amplia. Já não se trata unicamente da relação norte-sul, mas também das possíveis relações sul-sul. Não se fala mais em devoração, tradução ou reescrita, mas em estratégias voltadas à construção de alianças globais ou à elaboração de representações que exibam cosmopolitismos pós-coloniais, como faz, por exemplo, a cantora mineira Clara Nunes com a cultura angolana. Esse deslocamento analítico de Silviano leva em conta o impacto da internet na circulação descentralizada do conhecimento e o papel das ONGs na construção de pontes e vínculos diversos.
O ponto central do ensaio está na percepção do despertar de identidades e culturas que o Estado-nação brasileiro e sua comunidade imaginada não quiseram ou não conseguiram integrar. Nesse sentido, é relevante o seguinte fragmento:
…sob o império das elites governamentais e empresariais e das leis do país, várias e diferentes etnias, várias e diferentes culturas nacionais se cruzaram patriarcal e fraternalmente (os termos são caros a Gilberto Freyre). Misturaram-se para constituir uma outra e original cultura nacional, soberana, cujas dominantes, no caso brasileiro, foram o extermínio dos índios, o modelo escravocrata de colonização, o silêncio das mulheres e das minorias sexuais.
São agora os povos indígenas, a população afro-brasileira, as mulheres e as dissidências sexuais que começam a fazer uso dessas alianças e articulações globais, construindo um cosmopolitismo descentralizado. Alianças e articulações que lhes permitem recuperar vozes, memórias e ancestralidades, e, com isso, problematizar ou mesmo abalar a comunidade imaginada e cordial que conhecemos como Brasil. Ou ainda, fazer alianças com a produção cultural dos países centrais, como o grupo teatral “Nós do Morro”, da favela do Vidigal, que participou do Fórum Shakespeare e teve aulas com Cicely Berry, professora da Royal Shakespeare Company. “O cosmopolitismo do pobre” é um texto voltado ao presente, que busca mapear as transformações que vinham ocorrendo na cultura brasileira como resultado dessas alianças.
Vejamos agora, finalmente, ao conceito de “cosmopolitismo discrepante”. Silviano, como antecipei, toma esse conceito do livro Itinerários transculturais (1997), de James Clifford. O ensaio de Clifford busca ampliar o conceito de “cosmopolitismo”, extraindo-o de uma espécie de lugar-comum que situa o sujeito cosmopolita como um viajante privilegiado e experiente, para se concentrar nos viajantes cujos deslocamentos ocorreram em condições de opressão. Refere-se às populações escravizadas transplantadas da África para as Américas, às migrações provocadas por guerras ou por questões econômicas. Como funcionam essas migrações? Como essas populações habitam os novos territórios e o que trazem consigo? Clifford adverte que:
Mesmo as condições mais duras de viagem, os regimes mais exploradores, não reprimem inteiramente a resistência ou a emergência de culturas diaspóricas ou migrantes. A história da escravidão transatlântica, para mencionar apenas um exemplo particularmente violento – uma experiência que incluía deportação, desenraizamento, transplante e renascimento –, desembocou em uma variedade de culturas negras interconectadas: afro-americanas, afro-caribenhas, britânicas e sul-americanas.
São essas interações, como a da escravidão transatlântica, mas também muitas outras, que podem ser pensadas sob a ótica de um cosmopolitismo discrepante, conceito que permite escapar tanto da ideia de uma monocultura quanto de um relativismo cultural insípido. Mais uma vez, as redes e memórias das populações deslocadas entram em tensão e, ao mesmo tempo, problematizam e alimentam a cultura que as recebe, sem que se perca, como o próprio conceito indica, o caráter conflituoso dessa inserção. Em resumo, os “cosmopolitismos discrepantes”, para Clifford, refletem outras formas de ser cosmopolita que não se encaixam no modelo universalista nem na narrativa hegemônica do cosmopolitismo ocidental. Concentram-se, ao contrário, em experiências de mobilidade, diáspora e tradução cultural que desafiam as estruturas de poder global e as noções de identidade fixa.
Silviano utiliza o conceito em dois textos de Grafias de vida: “Sentimento de vida, sentimento de mundo” e “Apenas uma literatura escrita em língua portuguesa”. São dois ensaios que olham para o passado e para o futuro. Na primeira parte de “Sentimento de vida, sentimento de mundo”, Silviano revisita a geração modernista e introduz o conceito de “cosmopolitismos discrepantes”:
Clifford desloca o interesse do cientista social pelo estudo da morada (dwelling), para alocá-lo às estradas emaranhadas e multidirecionais pelas quais as culturas, quando em situação de cruzamento, ou de hibridização, viajam (travel). Para tal, cria o termo discrepant cosmopolitanisms (cosmopolitismos discrepantes), que será de utilidade nesse momento da apresentação, pois nos conduzirá aos tópicos seguintes – identidades e etnias em trânsito.
Tomarei como ponto de partida os tópicos enunciados nessa citação, “identidades” e “etnias em trânsito”. O primeiro aspecto é, como antecipei, um retorno ao passado. Ou melhor, aos anos da geração modernista, para identificar de que modo essa geração foi capaz de interpretar os cosmopolitismos discrepantes constitutivos da cultura brasileira, mas reprimidos ou marginalizados pela comunidade imaginada do projeto de Estado-nação do século XIX. Silviano relê, em termos de cosmopolitismos discrepantes, a população escravizada e transplantada em diáspora para o Brasil e observa, por exemplo, que os escravizados radicados em Minas Gerais, além de atuarem como força de trabalho nas minas, produziram parte do barroco daquela região. Dirá então que o objeto barroco carrega os horrores e as virtudes desse cosmopolitismo. Ou seja, constitui prova contundente da diáspora e da resiliência e riqueza das culturas transplantadas. Esse barroco mineiro, sustenta Silviano, “será gradativamente elevado pelos jovens vanguardistas à condição de legítima tradição híbrida na cultura brasileira, todas e todos encantados com a força e a originalidade de seu valor artístico”.
A operação de leitura não para aí. Silviano faz ingressar nos cosmopolitismos discrepantes a própria população portuguesa transplantada durante a colonização. Assim, os modernistas reencontram “a influência europeia por um mergulho no detalhe europeu colonial somado ao detalhe africano diaspórico, os dois transplantados para a jovem nação brasileira, de onde fora banida a ancestralidade indígena”. Note-se que a ancestralidade indígena ainda não figura em sua análise. Ela será incorporada no segundo ensaio.
Interesso-me por dois aspectos dessa leitura de Silviano. Em primeiro lugar, a centralidade da geração modernista para a formulação de um projeto cultural alternativo – e discrepantemente cosmopolita – ao projeto cultural estatal do século XIX. Por meio da capacidade de ver os detalhes crioulos do barroco mineiro e de escutar, neste caso, a língua “precária” e “rica” (são palavras de Silviano) das classes populares, os modernistas não apenas inventam uma vanguarda, mas acolhem, em suas criações, os “africanos diaspóricos, ex-escravizados ou descendentes de escravizados, na tradição nacional europeizada e indianista”. O segundo aspecto a destacar nos conduz ao presente. Em um contexto de acirrados conflitos identitários e de radicalização dos movimentos de extrema direita, Silviano reencontra no modelo cultural da geração modernista um projeto capaz de conter os cosmopolitismos discrepantes, inclusive os indígenas, que habitam o território chamado Brasil.
Por isso, e mirando o futuro, em “Apenas uma literatura em língua portuguesa” Silviano propõe a abertura do cânone, de um cânone monolítico e imperial. É necessário, como ele afirma, realizar uma revisão plural e democrática da língua portuguesa (algo que a geração modernista conseguiu realizar). Nas palavras dele: “não teria chegado o momento de liberar à literatura brasileira as águas amazônicas e as atlânticas diaspóricas?”. Trata-se de um apelo que, como se vê, já incorpora “as culturas amazônicas”, ou seja, as populações e culturas indígenas. Com referências a Machado de Assis, a Sousândrade, a Clarice, vai se tornando claro que Silviano pede uma nova escuta dessa “língua tão fascinante e tão fatalmente indomável quanto a língua portuguesa falada e escrita no Brasil”, constituída no calor dos cosmopolitismos discrepantes.
Expus, aqui, as relações entre entre-lugar, cosmopolitismo do pobre e cosmopolitismo discrepante. Embora essas conexões sejam evidentes, não devem ser compreendidas em termos de uma evolução linear. Elas refletem, antes, a insistência de Silviano em pensar o lugar diferencial da cultura brasileira em um cenário global, ao mesmo tempo em que examinam seus componentes: as redes e associações dos cosmopolitas pobres, as populações transplantadas, suas heranças e ancestralidades, e as marcas linguísticas da língua indomável brasileira. Os três ensaios analisados talvez possam ser pensados como uma espécie de kit para seguir pensando e intervindo nos tempos turbulentos que nos cabem viver.
Sobre o autor
Mario Cámara é professor de literatura brasileira na Universidade de Buenos Aires, professor de teoria literária na Universidade Nacional de Artes e pesquisador independente no CONICET.
Cosmopolitismos discrepantes
¿Hay alguna relación entre el concepto de “cosmopolitismo do pobre”, que Silviano utilizó en un ensayo homónimo de 2002, y el concepto de “cosmopolitismo discrepante” que, tomándolo de James Clifford, emplea en dos de los ensayos que componen su reciente Grafias de vida? ¿Estos dos conceptos, a su vez, pueden vincularse con el ensayo “O entre-lugar do discurso latino-americano”, concebido en 1969 y publicado en 1978?
La respuesta no es sencilla. Si bien podemos afirmar que hay relaciones entre los conceptos, la dificultad radica en determinar qué tipo de relación establecen. ¿Funcionan como un trípode en el que cada concepto aborda una zona problemática distinta? ¿O deberíamos leerlos de manera progresiva, como si Silviano, al continuar su reflexión sobre las culturas poscoloniales o, más precisamente sobre las políticas culturales en naciones poscoloniales, fuera encontrando formas de análisis más ajustadas y satisfactorias? Confío en poder ofrecer una respuesta al final de mi entrada.
Aclaro que mi objetivo es examinar el concepto de “cosmopolitismos discrepantes”, pero dicho concepto se comprende mejor si se pone en relación con los otros dos mencionados en el párrafo anterior. Recordemos brevemente que el eje central de “O entre-lugar do discurso latinoamericano” era proponer un modo de procesar la cultura de los países centrales de Occidente sin que esa recepción se transformara en mera copia o en un rechazo aislacionista. Además de la idea de antropofagia oswaldiana que circulaba por el texto, Silviano proponía los conceptos de traducción (una traducción siempre desviada o desviante), suplemento (tomado de Jacques Derrida) y “texto escribible” (tomado de Roland Barthes). Lidiar con el centro desde la periferia implicaba entonces masticar, traducir, señalar lagunas y reescribir, tal como, por ejemplo, Eça de Queiroz reescribe Madame Bovary de Gustave Flaubert o como Borges reescribe, en “Pierre Menard, autor del Quijote”, el Don Quijote de Cervantes.
Sin que el concepto de cosmopolitismo apareciera explícitamente, estaba implícito en el tráfico intenso de ideas, conceptos y ficciones a través de la importación de libros, la visita de intelectuales extranjeros y la circulación de revistas y suplementos culturales europeos. A esto podemos sumar las estadías, breves o prolongadas, de intelectuales y artistas brasileños en tierras europeas, como muchos de los modernistas que pasaron largas temporadas en París. El “entre-lugar” es, como diría Pierre Bourdieu, un texto de combate que invita a una recepción activa de los materiales culturales producidos en las culturales centrales.
En “O cosmopolitismo do pobre”, la mirada de Silviano se amplía. No se trata únicamente de la relación norte-sur, sino también de las posibles relaciones sur-sur. Ya no hay devoración, traducción o reescritura, sino estrategias que apuntan a la construcción de alianzas globales o a la elaboración de representaciones que exhiban cosmopolitismos poscoloniales, tal como lo hace la cantante minera Clara Nunes con la cultura angolana. Este desplazamiento analítico de Silviano considera el impacto de Internet en la circulación descentralizada del conocimiento y el papel de las ONG en la construcción de puentes y vinculaciones diversas.
Como punto central del ensayo, Silviano percibe el despertar de identidades y culturas que el Estado nación brasileño y su comunidad imaginada no habían querido, o podido, integrar. En este sentido, resulta relevante el siguiente fragmento:
…sob o imperio das elites governamentais e empresariais e das leis do país, várias e diferentes etnias, várias e diferentes culturas nacionais se cruzaram patriarcal e fraternalmente (os termos são caros a Gilberto Freyre). Misturaram-se para constituir una outra e original cultura nacional, osberana, cujas dominantes, no caso brasileiro, foram o exterminío dos índios, o modelo escravocrata de colonização, o silêncio das mulheres e das minorias sexuais.
Los pueblos indígenas, la población afrobrasileña, las mujeres y las disidencias sexuales son ahora quienes comienzan a hacer uso de las alianzas y articulaciones globales construyendo un cosmopolitismo descentralizado. Alianzas y articulaciones que les permiten recuperar voces, memorias y ancestralidades, y con ello problematizar, incluso sacudir, la comunidad imaginada y cordial que conocemos como Brasil. O bien hacer alianzas con la producción cultural de los países centrales, como el grupo de teatro “Nós do morro”, de la favela de Vidigal, que participó del Forúm Shakespeare y pudo tomar clases con Cicely Berry, profesora de la Royal Shakespeare Company. “O cosmopolitismo do pobre” es un texto sobre el presente, que busca mapear las transformaciones que se estaban produciendo en la cultura brasileña como resultado de esas alianzas.
Vayamos ahora, finalmente, al concepto de “cosmopolitismo discrepante”. Silviano, como anticipé, lo toma del libro Itinerarios transculturales (1997) de James Clifford. El ensayo de Clifford busca ampliar el concepto de “cosmopolitismo”, extraerlo de una suerte de lugar común que ubica al sujeto cosmopolita como un viajero privilegiado y experimentado, para enfocarse en los viajeros cuyo desplazamiento se ha dado en condiciones de opresión. Se refiere a las poblaciones esclavizadas que fueron trasplantadas desde África a América, a las migraciones causadas por conflictos bélicos o por cuestiones económicas. ¿Cómo funcionan esas migraciones? ¿Cómo habitan el nuevo territorio y que traen consigo? Clifford advierte que
incluso las condiciones más duras de viaje, los regímenes más explotadores, no reprimen enteramente la resistencia o la emergencia de culturas diaspóricas o migrantes. La historia de la esclavitud transatlántica, para mencionar sólo un ejemplo particularmente violento, una experiencia que incluía la deportación, el desarraigo, el trasplante y el renacimiento ha desembocado en una variedad de culturas negras interconectadas: afroamericanas, afrocaribeñas, británicas y sudamericanas.
Son esas interacciones, la de la esclavitud transatlántica, pero también muchas otras, las que pueden pensarse desde la óptica de un cosmopolitismo discrepante, concepto que permite sortear, por supuesto, tanto la idea de una monocultura como la de un relativismo cultural insípido. Una vez más, redes y memorias de las poblaciones desplazadas, entran en tensión, y al mismo tiempo problematizan y alimentan, la cultura que las recepciona sin que se pierda, como el concepto lo indica, el carácter conflictual de esa inserción. Para Clifford, en resumen, los “cosmopolitismos discrepantes” reflejan modos otros de ser cosmopolita que no encajan en el modelo universalista ni en la narrativa hegemónica del cosmopolitismo occidental. Se enfocan, en cambio, en experiencias de movilidad, diáspora y traducción cultural que desafían las estructuras de poder global y las nociones de identidad fija.
Silviano utiliza el concepto en dos textos de Grafias de vida, “Sentimiento de vida, sentimiento de mundo” y “Apenas uma literatura escrita en língua portuguesa”. Se trata de dos ensayos con los que apunta al pasado y al futuro. En la primera parte de “Sentimiento de vida, sentimiento de mundo”, Silviano revisita la generación modernista e introduce introduce el concepto de “cosmopolitismos discrepantes”:
Clifford desloca o interesse do cientista social pelo estudo da morada (dwelling), para alocá-lo às estradas emaranhadas e multidirecionais pelas quais as culturas, quando em situação de cruzamento, ou de hibridização, viajam (travel). Para tal, cria o termo discrepant cosmopolitanisms (cosmopolitismos discrepantes), que será de utilidade nesse momento da apresentação, pois nos conduzirá aos tópicos seguintes — identidades e etnias em trânsito.
Tomaré en consideración los tópicos enunciados en la cita precedente, “identidades” y “etnias en tránsito”, para comenzar. El primer punto es, como anticipé, un retorno al pasado. O mejor dicho, un retorno a los años de la generación modernista para leer allí de qué modo esa generación pudo interpretar los cosmopolitismos discrepantes constitutivos de la cultura brasileña pero reprimidos o marginalizados por la comunidad imaginada del proyecto de estado nación brasileño del siglo XIX. Silviano relee, en términos de cosmopolitismos discrepantes, la población esclavizada y trasplantada en diáspora a Brasil y observa, por ejemplo, que la población esclavizada radicada en Minas Gérais además de ser utilizada como mano de obra en las minas, produjo parte del barroco de aquella región. Dirá entonces Silviano que el objeto barroco guarda los horrores y la virtudes de ese cosmopolitismo, es decir que constituye prueba contundente de esa diáspora y de la resiliencia y riqueza de las culturas trasplantadas. Ese barroco minero, sostiene Silviano, “será gradativamente elevado pelos jovens vanguardistas à condição de legitima tradição híbrida na cultura brasileira, todas e todos encantados com a força e a originalidade de seu valor artístico”.
La operación de lectura no termina allí. Silviano hace ingresar a los cosmopolitismos discrepantes a la propia población portuguesa trasplantada durante la colonia. De modo tal que los modernistas reencuentran la “influência europeia por um mergulho no detalhe europeu colonial somado ao detalhe africano diaspórico, os dois transplantados para a jovem nação brasileira, de onde fora banida a ancestralidade indígena”. Obsérvese que la ancestralidad indígena no figura todavía en su análisis, lo hará en el segundo ensayo.
Me interesan dos aspectos de la lectura de Silviano. En primer lugar, la centralidad de la generación modernista para elaborar un proyecto cultural alternativo, y discrepantemente cosmopolita, al proyecto cultural estatal del siglo XIX. A través de la capacidad de ver, los detalles criollos de barroco minero, y de escuchar, en este caso la lengua “precaria” y “rica” (son palabras de Silviano) de las clases populares, los modernistas no solo inventan una vanguardia sino que abrigan, en sus creaciones, a los “africanos diaspóricos, ex-escravizados ou descendentes de escravizados, na tradição nacional europeizada e indianista”. El segundo aspecto a destacar nos conduce al presente. En un contexto de conflictos identitarios muy acentuado y de radicalización de los movimientos de extrema derecha, Silviano reencuentra en el modelo cultural de la generación modernista un proyecto capaz de contener los cosmopolitismos discrepantes, incluso los indígenas, que habitan ese territorio llamado Brasil.
Por ello, y apuntando al futuro, en “Apenas uma literatura em língua portuguesa” Silviano pide abrir el canon, un canon monolítico e imperial. Es necesario, afirma, hacer una revisión plural y democrática de la lengua portuguesa (algo que consiguió hace la generación modernista) y se pregunta “não teria chegado o momento de liberar à literatura brasileira as águas amazônicas e as atlânticas diaspóricas?”. Un pedido que, como se puede observar ya incorpora “las culturas amazónicas”, es decir las poblaciones y culturas indígenas. Con referencias a Machados de Assis, a Soussândrade, a Clarice, va quedando claro que Silviano pide una nueva escucha de esa “língua tão fascinante e tão fatalmente indomável quanto a língua portuguesa falada e escrita no Brasil”, constituida al calor de los cosmpolitismos discrepantes.
He planteado las relaciones entre entre-lugar, cosmopolitismo do pobre y cosmopolitismo discrepante. Si bien estas conexiones son evidentes, no deben entenderse en términos de evolución lineal. Más bien, reflejan la insistencia de Silviano en pensar el lugar diferencial de la cultura brasileña en un escenario global, al tiempo que examinan sus componentes: las redes y asociaciones de los cosmopolitas pobres, las poblaciones trasplantadas, sus herencias y ancestralidades, y las marcas lingüísticas en la lengua indomable brasileña. Los tres ensayos recorridos quizá podrían pensarse como una suerte kit para seguir pensando e interviniendo en los turbulentos tiempos que nos toca vivir.
Sobre el autor
Mario Cámara es profesor de literatura brasileña en la Universidad de Buenos Aires, profesor de teoría literaria en la Universidad Nacional de las Artes e investigador independiente del CONICET.
