
Após breve dormida em Guarabira, Mário de Andrade retoma o compasso do trem, que levanta poeira em direção ao verde-mar de Natal. Seu olhar recolhe a beleza agreste de animais, bromélias e xiquexiques; seus ouvidos captam conversas repletas de imagens, como se saídas de um José de Alencar mais realista. Fascinado pelo cotidiano nordestino e pelas paisagens que se transformam a cada hora de percurso, o viajante então converte a realidade em poesia. A partir dos próximos dias, será na capital Potiguar que ele terá sua nova morada. Não perca.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Great Western (14 de dezembro)

A dormida em Guarabira traz o coração nas mãos. A’s quatro horas inaugura a vida um canto passando. O trem torna a partir no horario e acorda a polvadeira do Universo. Franqueza: neste passo da estrado o pó é uma coisa realmente deslumbrante. Um passageiro se queixa alto pro empregado. E êste:
– Ah… e quando chegar mais pra diante então, danou-se! Eu até já tenho uma olaria por dentro, é tijolo, telha, jarro!… Si poeira se exportasse, nordeste não tinha crise não! era S. Paulo!
Aliás o pitoresco, o bemfalante da conversa do nordestino geral, é extraordinario. Sem esfôrço, falam quasi como os indios de José de Alencar. Com mais realismo, está claro. Gostam de apalpar o assunto com imagens quotidianas dum inesperado de susto, é admiravel.
Itamatahy… Duas Estradas… A frequencia de urubú exagera a sêca, afinal das contas não muito grande por aqui. Vacas isoladas, bezerros, até cabras, presas por uma cordinha nalgum toco do chão… Pra não partirem por êsse mundo campeando agua. Uma associação me comove, lembrando aquele boi mansinho duma estrofe de “coco”…
Por trás da serra
ôh mana,
Tem um boi morto,
ôh mana,
Quando era vivo,
ôh mana,
Comia sôrto,
ôh mana!…
Perto de Caiçara o terreno se torna perdendo, grandes pedras. No meio delas o xiquexique brota gosado, homogeneo, artistico e nordestinamente acaçapado. Bromelias cor-de-morango e uma ramaria branquiçada, não sei si marmeleiro ou jurema, branquiçada, desfolhada, escorraçando o verde ilhada cada vez mais raro na paizagem infiel.
Pouco a pouco se tornou bem mais frequente a presença do gado. Já estou no Rio Grande do Norte, pertencente ao meu amigo Luiz da Camara Cascudo, e o prazer vai enfeitando o presepe. Bois acaracúsados, bonitos e reconheciveis como letra de amigo. Também o habitante se embonita de novo, mais cor da terra. Os pansudinhos nús, expiando o trem-de-ferro. Na latada das casas minusculas as mulheres sempre de vermelho florescem artificialmente.
Ali pelas 10 horas a vista reverdece com facilidade. Um ventão bate na gente, saido das moitas, mãos humidas. O horizonte, que Pernambuco passado, se afastou do trem, toma um ar de recta, que, ajuntado ás primeiras conversas sobre sol, nos aproximam do mar.
Junto de Joyaninha os engenhos reaparecem. Por de trás da usina estão encordoando a bagaceira. Ar viril de vida por tudo. Só algum guia de cargueiro quando sinão quando passa no passa da egua, encarapitado quasi na anca do animal e me amulega a sensação. Em Papary almoço caju’s e cocos verdes. O horizonte de repente encurta bem prá direita e cai da banda de lá. Na barra dele o matinho ralo, certas feitas desaparece numa careca de duna. São as práias, é o mar-de-punga, oa-lê-lê-lê, é o verde mar de navegar!… E por hora e meia assim, ventada, despoeirada, o trem de ferro que vem de Pernambuco, vai fazendo “vuco, vuco” e entra em Natal. Pontualmente. Quatorze horas.
MÁRIO DE ANDRADE
