
Mário de Andrade passa sua primeira noite em Natal. Instalado no bairro Alto do Tirol, deixa-se transportar às praças de uma Florença renascentista. É a musicalidade nordestina que o contagia, levando-o a revisitar o que já escrevera sobre a música brasileira. Nesse ensejo, reflete ainda sobre os limites do seu ofício. Seria ele, afinal, um folclorista? Um cientista? A essas indagações, o próprio Mário oferece resposta, com sua característica ironia.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir texto de Rômulo Almeida para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (15 de dezembro, 22 horas)

Me deito depois dêste primeiro dia de Natal. Estou que nem posso dormir de felicidade. Me estiro na cama e o vento vem, bate em mim cantando feito coqueiro. Por aqui chamam de “coqueiro” o cantador de “cocos”. Não se trata de vegetal não, se trata do homem mais cantador dêsse mundo: nordestino.
O vento de Natal é mano dêle. Moro no bairro alto do Tyrol, ruas largas, abertas… A erudição me lembra as praças da primeira Florença renascente, destinadas aos “cantastorie”, onde êles dedilhavam o alaúde, a trompa marinha cantando sem mais fim. Aqui tambem. O vento canta, os passarinhos, a gente do povo passando. O homem que leva e traz as vacas daqui perto, não trabalha sem aboiar… Aqui em casa tambem. Todos cantamos, cocos, embolados, sambas, dobrados, modinhas… A famanada “Praieira”… “A palmilhar estradas longas, de longa veiu para te ver”, Natal…
No meu “Ensaio sobre Musica Brasileira” botei “A palmilhar longas estradas”… Porêm “O Trovador Potyguar”, cuja existencia só descubro agora, me corrige pra mais brasileiro a colocação do qualificativo. É: “estradas longas”. Aliás já reparei que o meu livro, na parte segunda, está com um bom numero de informações inexatas. Um adelas, que importa diretamente á Musica, me desgostou bem. A moda graúcha “Prenda Minha”, está completamente errada como ritmo, me afirmou alguem que a conhecia… grafei certo, como escutei, porêm a pessoa que a cantou pra mim, é que deformava o ritmo. Erro mesmo de importancia grande só descobri êsse e deus-queira! que não tenha mais nenhum.
Já afirmei que não sou folclorista. O folclorista hoje é uma sciencia, dizem… Me interesso pela sciencia porêm não tenho capacidade pra ser scientista. Minha intenção é fornecer documentação pra musico e não, passar vinte anos escrevendo tres volumes sobre a expressão fisionomica do lagarto…
Porêm me sinto desgostoso… É triste a gente viver ao léu das informações, praceano da sua rua calçada, bonde lapa, escrevendo, trabalhando, querendo ser util, dando por paus e por pedras e a vaidade. Nem posso neste momento realizar a sensação completa deste Natal gostoso que amo como a minha mão direita…
MÁRIO DE ANDRADE
