
Rômulo Santos de Almeida, doutorando em Sociologia pelo PPGS/UFPE, junta-se a Mário de Andrade em nossa travessia pelos Nordestes. Seu texto apresenta um balanço das crônicas de viagem já lidas até aqui, além de algumas informações e impressões sobre o que ainda está por vir. O autor, assim, argumenta em favor de uma das principais características do poeta paulista, que vemos se reafirmar crônica após crônica de O turista aprendiz: a capacidade empática de escuta e aprendizado diante de mundos novos. A viagem ao Nordeste, diz Almeida, impactou enormemente tanto a vida pessoal quanto o projeto de Mário de Andrade, com repercussões concretas à realidade brasileira. Não deixe de conferir.
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Boa leitura!
Uma aventura de sensibilidade e missão: Mário de Andrade e o Nordeste nas páginas de O turista aprendiz
Por Rômulo Santos de Almeida (PPGS/UFPE)

“O Nordeste marcou em mim, na minha vida, na minha obra. […] acho que nada existe no Nordeste igual à gostosura de Belém. Mas não é Belém que eu vivo, é o Nordeste” (Andrade, 2010: 264). Este breve relato foi escrito por Mário de Andrade em 22 de maio de 1933, numa carta endereçada ao escritor Luís da Câmara Cascudo. Mais do que curiosa admiração, o autor de Macunaíma se via profundamente envolvido com os mistérios e dilemas desse pedaço do Brasil. E motivos tinha de sobra. Além dos amigos, distribuídos por praticamente todos os estados nordestinos, ele encarava o lugar como um dos maiores esteios culturais do país, um contraponto necessário ao excessivo imediatismo instrumental das civilizações modernas e um refúgio para a alma. Não se tratava, porém, de uma miragem idealizada. O paulista reconhecia – a ponto de sentir na pele – os problemas enfrentados pela região, demonstrando compromisso na denúncia das mazelas sociais e do subdesenvolvimento. Todavia, sua inquietação era tamanha que desejou morar, sem sucesso, em Areia Preta, no Rio Grande do Norte, e em Tambaú, na Paraíba. Numa missiva anterior, datada de 19 de maio de 1930 e enviada ao poeta Manuel Bandeira, Mário parecia encarar tal possibilidade como um destino: “[…] estou de posse duma casinha de dois centímetros na praia de Areia Preta em Natal. […] Casa já tenho e a resolução de passar no Nordeste meu fim de vida é séria” (Andrade; Moraes, 2001: 446).
Sabendo que precisava completar uma faceta de sua formação intelectual, predominantemente livresca, ele viajou ao Norte e Nordeste. O fruto dessas excursões resultou no livro O turista aprendiz, escrito em forma de diário e dividido em duas partes: a primeira narra a ida do autor ao Norte, entre 1927 e 1928, e recebe o título de “viagens pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega”; a segunda compõe a sua jornada ao Nordeste, realizada entre 1928 e 1929, denominada de “viagem etnográfica”[1]. A despeito de revisar tais escritos em 1943, Mário não teve tempo de sistematizar todo o material coletado, dando ao seu diário – publicado em 1976, após rigorosa organização de Telê Porto Ancona Lopez – um caráter fragmentário e aberto (Botelho, 2013; Duarte, 2022; Lopez, 2002a, 2002b, 2002c, 2005; Lopez; Figueiredo, 2015; Souza; Tomazzoni, 2021)[2].
Confiante nos saldos positivos das andanças pelo Norte, o poeta decidiu, mais uma vez, numa atitude empática de “descentramento” de cartografias geográficas e teóricas, lançar-se na escuta cautelosa da alteridade. Foi assim, imbuído de sensibilidade e missão, que Mário resolveu concretizar seu projeto de visitar o Nordeste. Escolheu os meses que continham o maior número de festividades e, saindo de São Paulo, embarcou num vagão de trem em 27 de novembro de 1928, após despedir-se de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, amigos e alunos. No dia seguinte, chegou ao Rio de Janeiro, onde encontrou-se com a cantora Julieta Telles de Menezes e com o compositor Luciano Gallet. Permaneceu na capital federal até o dia 3 de dezembro, afastando-se da Baía de Guanabara dentro do barco Manaus. Achando-se muito urbano, o poeta mudou o visual, trocando o chapéu de palha por um boné. Ao desembarcar, no dia 7, na antiga São Salvador, ficou embasbacado com o centro da cidade, repleta de casas amontoadas num verdadeiro rebuliço de janelas, andares e telhados. Eis a sua impressão: “ruas que tombam, que trepam, casas apinhadas e com tanto enfeite que parecem estar cheias de gente nas janelas, o barulho nem é tamanho assim porém dá impressão de enorme, um enorme grito” (Andrade, 2002: 192).
Chegando a Maceió na tarde do dia 8, Mário deslumbrou-se com o colorido do mar e a cidade pareceu-lhe, no meio, arquitetonicamente discreta e sincera. Durante a estada, encontrou-se com José Lins do Rego, Jorge de Lima e provou da culinária local. Adentrou o Recife no dia 11. Atento aos detalhes do caminho, sobretudo casas e estradas, o modernista cruzou o bairro de Paulista, o engenho Monjope e dirigiu-se até Igaraçu, onde conheceu a matriz de São Cosme e Damião e o convento de São Francisco. De volta ao Recife, a convite de Gilberto Freyre e na companhia de Manuel Bandeira, Mário passeou de lancha pelo rio Capibaribe[3]. No outro dia, caminhando pela praia da Boa Vista, grafou com amargura a insalubridade dos mocambos, que acumulavam sertanejos pobres e miseráveis. Saindo do Recife no dia 13, Mário rumou à Paraíba. Viu engenhos, plantações de cana e macaxeira, alguns coqueiros rareados e experimentou, espalhada na paisagem, uma sensação pesarosa de seca. No dia 14, após atravessar vários lugarejos paraibanos, o poeta aportou em Natal, no Rio Grande do Norte. Esta foi a cidade que provavelmente mais o agradou em todo o seu percurso. E isso não só pela beleza das criações populares – cocos, emboladas, desafios, modinhas etc. –, mas porque, segundo observou, ela apresentava ser mais democrática e moderna. Tinha um ar de chácara e de praça, era bem construída e até mesmo nas casas proletárias, à beira do rio Potengi, havia possibilidade de viver com algum conforto.
Enquanto o tempo transcorria, Mário frequentava inúmeras localidades da capital potiguar, desde a praça Padre João Maria até à praia de Areia Preta, Rocas, Coqueiros e morro do Areal, onde viu uma Chegança e assistiu, entusiasmado, cantos e danças dramáticas. Conversou com Jorge Fernandes, Câmara Cascudo e Barôncio Guerra, escutou coqueiros, coletou melodias e versos, deliciou-se com comidas típicas, contemplou procissão e pastoris, visitou capelas, sítios e interessou-se pela feitiçaria, decidindo “fechar o corpo” no terreiro de dona Plastina. No começo de janeiro de 1929, o escritor aproveitou para ir a Bom Jardim; descreveu a zona de engenhos, registrou a labuta dos trabalhadores e o fabrico do mel. No dia 10, em Natal, anotou no seu diário o encontro emocionante que teve com o coqueiro Chico Antônio. Com voz grave e expressiva, ele cantou para o modernista a embolada Boi Tungão, executada, sem parar, durante dez minutos[4]. Nada melhor do que a descrição do próprio Mário:
Que artista. A voz dele é quente e duma simpatia incomparável. A respiração é tão longa que mesmo depois da embolada inda Chico Antônio sustenta a nota final enquanto o coro entra no refrão. O que faz com o ritmo não se diz! Enquanto os três ganzás, único acompanhamento instrumental que aprecia, se movem interminavelmente no compasso unário, na “pancada do ganzá”, Chico Antônio vai fraseando com uma força inventiva incomparável, tais sutilezas certas feitas que a notação erudita nem pense em grafar, se estrepa. E quando tomado pela exaltação musical, o que canta em pleno sonho, não se sabe mais se é música, se é esporte, se é heroísmo. Não se perde uma palavra que nem faz pouco, ajoelhado pro Boi Tungão, ganzá parado, gesticulando com as mãos doiradas, bem magras, contando a briga que teve com o diabo no inferno, numa embolada sem refrão, durada por dez minutos sem parar. Sem parar. Olhos lindos, relumeando numa luz que não era do mundo mais. Não era desse mundo mais (Andrade, 2002: 246).
Nos próximos dias, movido por uma curiosidade insaciável e senso de missão intelectual, Mário passeou pelo engenho de Cunhaú, tirou fotografias, colheu dados sobre a região potiguar do açúcar e encaminhou-se para as zonas produtoras de algodão e sal. De um lado, elogiou as instalações elétricas que facilitavam o labor do salineiro, de outro, denunciou as paupérrimas condições de trabalho. Com o coração apertado e os olhos doendo de tristeza diante de cortejos de retirantes que via pelas estradas, Mário dirigiu-se à cidade de Açu, transpassou o arruado do Espírito Santo, Augusto Severo, Caraúbas, Gavião e Boa Esperança. Ansioso para conhecer o sertão paraibano, e mais uma vez assombrado ao ver sertanejos morrendo de fome em plena seca, o poeta foi a Caicó, Catolé do Rocha, Brejo do Cruz e adentrou a região do Seridó, a mais “progressista” e valorizada pelo algodão. De uma cidade a outra, ele retornou ao Rio Grande do Norte e partiu de Natal no dia 27 de janeiro. Antes, porém, reencontrou o coqueiro Chico Antônio, que o presenteou com um ganzá.
De volta à Paraíba, reviu os amigos José Américo de Almeida, Silvino Olavo, Ademar Vidal, Antenor Navarro, Antônio Bento e visitou João Pessoa, presidente do Estado. Desfrutou de passeios pela praia de Tambaú, escutou cocos, assistiu ensaio de cabocolinhos, coletou danças, cantigas e deleitou-se com o gracioso convento de São Francisco. Seguindo seu itinerário, o escritor desceu no Recife no dia 8 de fevereiro. Hospedado no Glória Hotel, recebeu visitas, almoçou com Ascenso Ferreira e Stella Griz Ferreira, foi à feira do Bacurau e, no dia 10, domingo de carnaval, contagiado por intensa euforia, junto com alguns companheiros, dançou frevo e consumiu éter e cocaína. Enquanto os dias seguiam, jantou com Ernani Braga, andou pelas cidades de Escada, Cabo e Olinda, sobrevoou de avião biplano o campo do Ibura, compareceu ao engenho do pai de Cícero Dias e ao engenho Martinica. Como que num passe de mágica, semelhante aos deslocamentos macunaímicos, no dia 21, Mário já estava em Maceió, com direito à recepção de amigos. Finalmente, em três dias, após cruzar a Bahia e o Rio de Janeiro, a brisa arlequinal da Pauliceia tocou-lhe os nervos. Estava em casa.
Tamanha jornada ensejou em Mário um profundo aprendizado. Sua peregrinação por mundos desconhecidos, diversos e desiguais, não visava apenas à coleta de dados folclóricos e populares. É certo que existia um intuito, mais ou menos evidente, de propagar e nacionalizar para o restante dos Brasis o seu ideário modernista, forjado, sobretudo, em latitudes sudestinas. Essa questão inspirou determinadas ressalvas – como as de Kothe (2004), Fischer (2013, 2022) e outras – ao modernismo paulista e a certas figuras que, a exemplo de Mário, ocuparam e ocupam um seleto recinto no nosso cânone literário e cultural. À revelia disso, é inegável a preocupação do poeta em exercitar a empatia, direcionada ao reconhecimento social, político e epistemológico dos portadores sociais e dos produtores de cultura. Tal agenda ganhará concretude institucional a partir da década de 1930, quando o escritor, envolvido com equipes, acervos patrimoniais e à frente do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, desenvolverá um conjunto de políticas e ações voltadas ao estudo do “material” brasileiro. O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), a Sociedade de Etnografia e Folclore (SEF) e a Missão de Pesquisas Folclóricas, são alguns órgãos dignos de nota e que expressam, em sua materialidade, um pouco da aventura séria, sensível e missionária de Mário de Andrade[5].
Notas
[1] O título da primeira parte é uma paródia de livros escritos por viajantes, cronistas coloniais e uma brincadeira com a obra de seu avô materno Joaquim de Almeida Leite Moraes, autor de Apontamentos de viagem de São Paulo à capital de Goiás, desta ao Pará, pelos rios Araguaia e Tocantins, e do Pará à Corte. Considerações administrativas e políticas (1883). Cercada de referências, a própria designação O turista aprendiz pode ser interpretada como uma possível homenagem a Paul Dukas, compositor muito apreciado pelos modernistas e autor de O aprendiz de feiticeiro (Lopez, 2002b).
[2] Com uma variedade homérica de dados etnográficos em mãos, Mário planejava publicar uma obra de maior fôlego, intitulada Na pancada do ganzá, que também veio a lume postumamente – com meticulosa preparação de Oneyda Alvarenga – em seis volumes: Danças Dramáticas do Brasil (três volumes), Música de feitiçaria do Brasil, Os cocos e As melodias do boi e outras peças. Conferir Enrique Valarelli Menezes (2019).
[3] Gilberto Freyre foi, simultaneamente, um crítico e um admirador de Mário. Durante o período no qual o modernista esteve em Pernambucano, o jornal A Província, na época dirigido pelo sociólogo, acompanhou de perto os passos do viajante, dedicando-lhe uma cobertura especial e oferecendo-lhe suas páginas para que o poeta expusesse seus achados e impressões. Para mais informações, conferir Silvana Moreli Vicente Dias (2017). Ver também: Antonio Dimas (2002).
[4] O impacto desse artista foi tamanho que Mário de Andrade o transformou em personagem do livro Café e da série Vida de Cantador, publicada em agosto-setembro de 1943.
[5] A este respeito, consultar O modernismo como movimento cultural, de André Botelho e Maurício Hoelz (2022).
Referências
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