
O que pode surgir de um simples pedido para ver um Pastoril de Ano Novo, em pleno sertão potiguar? Mário de Andrade interrompe brevemente sua sequência de crônicas de viagem para narrar um caso que, apesar de parecer invenção literária, de tão insólito, é “absolutamente verdadeiro”. A história de Clotildes e Antonio de Oliveira Bretas, um senhor de engenho norte-rio-grandense, levada às últimas consequências por uma inusitada obstinação. Como é de se esperar, a ironia e o fino senso de humor do modernista deixa o causo ainda mais irresistível.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (17 de dezembro, 21 horas)
Eis um caso brasileiro succedido com norte-riograndenses.
No municipio de Penha, suponhamos que Antonio de Oliveira Bretas era senhor de engenho, homem já de seus trinta e cinco anos, casado com dona Clotildes, homem atarracado, falando alto. Dona Clotildes chamava êle “seu Antonio”. A mana dela também morava na fazenda que não era grande não, produção curta mas de aguardente famosa no bairro.
Na vespera de Ano Bom, dançavam um Pastoril muito preparado na vila da Boa Vista, ficada a umas tres leguas do engenho e dona Clotildes quiz vêr. Estava no quarto costurando um laço de vestido, chamou a negrinha:
— Vá dizer pra seu Antonio que eu quero que ele me leve na Boa Vista, ver o Pastoril.
A negrinha foi.
— Fale pra dona Clotildes que não quero ir na Boa Vista hoje.
A negrinha foi e voltou falando que dona Clotildes mandava dizer que queria mesmo ir ver o Pastoril. O senhor de engenho embrabeceu.
— Pois si ela quizer ir que vá sozinha! Não levo ninguem não!
Dona Clotildes teve raiva.
— Clotildes! ôh Clotildes!…
Que Clotildes nada! O vestido caseiro estava atirado na cama. O sapato caseiro junto da cama. Dona Clotildes tinha partida com a mana.
Dia 3 de janeiro, um vizinho portou no engenho, chamou Antonio de Oliveira Bretas e deu o recado.
Dona Clotilde mandava pedir pra êle ir busca-la, passando Reis.
— Foi sozinha! Pois que venha sozinha! Não vou buscar ninguem não!
E não foi mesmo. Dona Clotildes de certo achou desafôro aquilo e ficou esperando na vida. E um mês passou.
E agora? O senhor de engenho careceu de ir na vila por amor duns negocios. Ir lá?… Parecia por causa da mulher… Mandou um amigo. Dona Clotildes soube, se moeu de raiva, agora é que não voltava sem seu Antonio ir busca-la!
Dois mezes passaram, tres… Passou um ano, passaram dois anos, rapazes!… No engenho, seu Antonio vivia sozinho, não mostrava tristeza, mandava limpar o quarto-de-casados, sem que mudassem nada do lugar. O sapato direito, um pouco mais pra lá, com a ponta beijando a mancha do assoalho. O vestido caseiro de dona Clotildes dormia de atravessado na cama os dias inativos daqueles anos. Quantos passaram? Parece incrivel mas é absolutamente verdadeiro: passaram nove anos.
Numa noite de Luna dona Clotildes voltou. Era ali pelas 20 horas, Aitonio de Oliveira Bretas fumava na sala de entrada, conversando com um amigo, portado no engenho pra comprar aguardente. Este chegou na porta da casa, de repente se calou, aprumou a vista:
— Compadre!
— Que foi.
— Homem, parece que é dona Clotildes que vem lá na estrada!…
— Hum.
Era dona Clotildes com a mana dela. Apeou do cavalo e chegou na porta.
— Da licença, seu Antonio!…
— A senhora não carece de pedir licença nesta casa.
Não houve uma explicação, uma recriminação, nada. Dona Clotildes entrou meia ressabiada. Foi até o quarto. O vestido caseiro dela, aquele, meu Deus! faziam nove anos, estava até jogado com raiva de atravessado na cama. Os sapatos, mesma coisa, no chão, sem alinhamento. Quarto o mesmo. Ar, o mesmo. E nove anos passados.
Dona Clotildes trocou de roupa, era momento de comer, mandou agora a moça-feita da negrinha botar tudo na mesa. Ceiaram. Trocaram as palavras quotidianas, quer isto? quer aquilo? quero, não quero não, dormiram, se levantaram, etc.
MÁRIO DE ANDRADE
