
O Turista Aprendiz chega às Rocas, um dos bairros mais antigos de Natal, e nos convida a acompanhá-lo até uma região que outrora fora “valhacouto dos facinorosos”. Sua escrita, aqui, está particularmente detalhada. Escreve o ambiente e a gente que se alegra com seu entusiasmo. Mário está prestes a assistir ao ensaio da Chegança ao Natal, dança dramática que encena os fatos cotidianos de um navio de guerra. Seu olhar, iluminado diante da força popular, imperfeita, viva, brasileira, anota o valor da resistência e das artes nordestinas, que o comovem até a sublime exaltação.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, não deixe de conferir texto de Eneida Leal Cunha para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (18 de dezembro, 21 horas)

Rocas é um bairro antigo da cidade. Quando a gente desemboca no lugar chamado Coqueiros a iluminação acaba, o pé assustado principia andando vagarento na areia mole e um farrancho de coqueiros na esquerda assombra a claridade ambiente produzida por todas as estrelinhas do universo.
Si estivessemos em 1906 por exemplo, passar por ali é que não passavamos. Por debaixo dêsses coqueiros havia naquele tempo um diluvio de casinhas de palha, valhacouto dos facinorosos de Natal. Quem se aventurava por ali, 19 horas passadas, saindo vivo, saía pelo menos sem uma orelha, ficada nas mãos de Dois de Paus, de Cancão de Fogo e outros salteadores praceanos que a tradição exasperou no medo. Coqueiros era, em plena cidade de Natal, uma especie de ninho de cangaceiro que nem os socavões de Riacho do Navio, faz pouco, em Pernambuco.
Mas agora a gente caminha descansado por ali, na direção do Areal. Alguem cruzando com a gente, é individuo humilde, bem manso, dos nossos. Sau’da sempre:
— Boa…
A gente secunda:
— Boa-noite.
Pouco adiante a areia empina numa duna secular, já fixa. E’ o Areal chamado, um morro cheio de casas proletarias alinhadas numa rua bem larga rodamoinhando no vento. Por ali moram embarcadiços, catraieiros, operarios das docas. Duma ou doutra casa o candieiro vem na porta ver a gente passar. A rua está viva. Sons de pandeiro, pessoal se cahmando. um tambor mais pra longe e na porta da venda um ajuntamento.
Vão ensaiar a Chegança pra Natal. Gente boa. Se enthusiasmam com a nossa curiosidade. — “Ninguem mais não entra não! só os moços!” Vão buscar cadeiras pra nós e na saleta cimentada que o candieiro ventado alumeia de sombras, cantam, dançam, representam duas horas, sem parada.
E fico maravilhado. Está claro que não se trata duma obra-de-arte perfeita como tecnica porêm desde muito já que percebi o ridiculo e a vacuidade da perfeição. Postas em fóco inda mais, pela monotonia e vulgaridade do conjunto, surgem coisas dum valor sublime que me comovem até á exaltação.
Todas essas danças-dramaticas inda permanecidas tão vivas na parte norte e nordeste do paiz, andam muito misturadas, umas trazem elementos de outras, influências novas penetram nelas; junto duma lição camoneana brota um brasileirismo danado, contando fatos de agora, tão impossiveis que a Turquia chega a conhecer a fôrça do “braço brasileiro” na presença do imperador Guilherme II. Esta Chegança afinal descreve os fatos quotidianos da “Nau Fragata”, navio de guerra. O episodio principal é ainda a luta da maruja cristã dela com os turcos. Isso entremeiado de episodios diarios, baldeação de bordo, uma revolta, contrabando de dois guarda-marinhas, trabalhos do médico e do capelão. A luta entre cristãos e mouros é simplesmente prodigiosa. Dança dura. Os dois dançarinos da nossa frente são formidaveis como ritmo, as espadas se chocam de com fôrça, até quando as meninotas é que combatem; o rei mouro, uma figura de opereta formidavelmente comica, vai mimando a fraqueza gradativa com expressão forte. E a dança violenta segue mais de 30 minutos, saltada, cantada aos berros, numa resistencia de nordestino, sem que ninguem não arreie. E a Chegança inda continua depois quasi uma hora! Alguns dos cantos são lindos. Surgem quadras tão puras, dum sentimento ingenuo digno de alemão… Meu prazer está compacto como o vento… Os paulistas não conhecem nada disso… Vado a pranzare con Ruth… Wie get’s ihnen… Merci…
MÁRIO DE ANDRADE
