
Na iminência do Ano-Novo, Mário de Andrade aproveita uma breve pausa em Natal para refletir sobre o sentido das tradições. Afinal, quais delas orientam sua literatura? Como conciliar o “moderno” com o “antigo”? Nessa crônica do tempo, o escritor reflete ainda sobre dilemas urbanos e aponta aquilo que considera algumas das positivas particularidade natalenses.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (29 de dezembro, 17 horas)
Natal é feito S. Paulo: cidade mocinha, podendo progredir á vontade sem ter coisas que doi destruir. Isso é muito importante pra nós. O problema da destruição ou conservação da Sé, da Bahia, por exemplo, confesso que por mim não sei resolver. Os prós e os contras da destruição se igualam na forçura dentro de mim e creio que vou achando uma graça dolorida nos partidarios e antagonistas da destruição.
Dizem que sou modernista e… paciencia! O certo é que jamais neguei as tradições brasileiras, as estudo e procuro continuar a meu modo dentro delas. É incontestavel que Gregorio de Matos, Dirceu, Alvares de Azevedo, Casemiro de Abreu, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Bilac ou Vicente de Carvalho são mestres que dirigem a minha literatura. Eu os imito. O que a gente carece, é distinguir tradição e tradição. Tem tradições moveis e tradições imoveis. Aquelas são uteis, tem importancia enorme, a gente as deve conservar talqualmente estão porquê elas se transformam pelo simples facto da mobilidade que têm. Assim por exemplo a cantiga, a poesia, a dança populares.
As tradições imoveis não evoluem por si mesmas. Na infinita maioria dos casos são prejudiciais. Algumas são perfeitamente ridiculas que nem a “carroça” do rei da Inglaterra. Destas a gente só pode aproveitar o espirito, a psicologia e não a forma objectiva. A tolice basica da arquitetura “neo-colonial” está nisso: pegaram, a maioria, nas formas decorativas coloniais, reduziram elas a fórmulas, que ajuntaram restacueramente, dentro do espirito de arrivismo, que domina as partes progressistas do paiz. O resultado foi 89 por centro das feitas aleijões medonhos.
O problema da Sé da Bahia está mas é enunciado errado. É muito mais grandioso do que a derrubada ou não derrubada dum casarão pra alargamento de rua. O proprio centro urbano da cidade alta é que se tem de resolver si é pratico ou não ficar onde está. Todas aquelas ladeiras, quedas de sopetão, torceduras de terrenos são absolutamente contrárias a qualquer norma utilitaria de urbanismo contemporaneo. Não é possivel aplainar aquilo e retificar as ruas sem arrazar tudo. Ou se destroi tudo pra atualisar aquilo ou, qualquer paliativo destruirá tradições curiosas e mesmo valiosas que nem a dita Sé, não passando de paliativo e não resolvendo nada — êsse é o problema.
Natal não possui problema dêsse. O que é velho não é… antigo, pouco ou nenhum valor têm. Natal tem seu futuro enorme como banco de riquezas fundamentais sal, gado, algodão, assucar, e como pouso natural das asas europeas. As tradições dela são todas moveis, danças, cantorias. Essa felicidade americana de Natal está se objectivando neste momento como a inauguração do Aero-Clube. A população natalense moldura o segundo campo aviatorio da cidade. O excelente edificio do clube está cheinho. Tenis, piscina, bar, o patio central cantando agua de repucho, bom pra se conversar. Os aeroplanos estão pintando o sete no ar. As natalenses são bonitas, bem vestidas, os homens de branco, venta o vento, calor sem garra mas verdadeiro, nenhuma Europa tradicional, te dana! um bem-estar de agora.
MÁRIO DE ANDRADE
