
Ressurgências é a nova coluna de Alcida Rita Ramos (Unb) e Francisco Sarmento (Clã yãâhi di’ipeé, KAAPI) na BVPS. Juntos, eles unirão forças, mensalmente, para examinar as ressurgências indígenas: movimento que tem tomado o tempo, a energia e sustentado a esperança desses povos de reverter o esbulho dos séculos. Aqui se inicia, portanto, um longo mergulho nas ações de retomada. Ações preenchidas por esforço e convicção nos princípios ancestrais, que afloram e criam algo novo no seu ato de reconquistar. Que essa nova empreitada abra margem para conhecermos um pouco mais desse Brasil não só profundo, mas alargado, criativo, inspirador: plural como o universo.
Para uma ambição dessa magnitude, Alcida Rita Ramos, nossa colaboradora de longa data, contará com a ajuda de Francisco Sarmento, aprendiz de Sábio Tukano, doutor em antropologia, frequentador da filosofia ocidental e seguidor de sua própria tradição. Neste texto de estreia, intitulado Nossas vozes, o leitor poderá conhecê-los melhor, bem como à pŕopria coluna, que nos acompanhará sempre às sextas-feiras. Como Sarmento nos provoca, “o que acontece com a antropologia quando nós, indígenas, a encaramos, habitamos e transformamos?”. Resta ler para conferir.
Com este, completam-se 43 textos publicados por Alcida Rita Ramos na BVPS! Passando por Autorais, Desassossegos, Modulações, além de participações em outras séries e ocupações do blog. Em cada iniciativa, em cada novo texto, a presença do seu inconfundível selo de qualidade intelectual e autoria.
Boa leitura!
Nossas vozes
Por Alcida Rita Ramos (UnB)
Francisco Sarmento (Clã yãâhi di’ipeé, KAAPI)
Alcida. “Você é uma mulher de 20 anos vestida de 80”. Assim ouvi de um colega do pilates no dia do seu aniversário em novembro de 2025. Já me tinha classificado de “velhinha saudável”, mas sua veia poética se revelou naquele dia, ao fazer 21 anos. Autista ‒ para mim altruísta ‒, sensível como sói ser, ele me embalou aquela noite de insônia com uma sensação incontida de bem-estar. Então, pensei, meu invólucro de rugas e cabelos brancos ‒ pois era a isso que ele se referia ‒ não é suficiente para esconder a minha vitalidade, que bom! E como quero continuar a exercê-la per omnia saecula saeculorum, piso em 2026 com disposição, se não renovada, ao menos, de pé.
Beirando os 90 (algo mais do que apresento aos olhos do meu co-pilatista), chego ao ponto de atrevimento intelectual capaz de sacudir sem pruridos os cânones acadêmicos que sempre me tolheram. Não culpo a antropologia (meu eterno alimento mental), muito pelo contrário, pois foi ela que me fez o que sou e não me arrependo nem um pouco. Culpo os antropólogos de carreira, os profissionais das regras, aqueles que erguem cercas de arame farpado à imaginação dos etnógrafos que, com toda razão, se entregam a outras lógicas, a outros mundos, a outros céus. Os que temem a contaminação dos pensamentos antropológicos vindos das aldeias, aquilo a que tenho chamado de antropologia ecumênica.
Tenho agora autonomia, segurança e destreza para alongar a ousadia e dar à nova série ‒ Ressurgências ‒ destas colunas o músculo forte que sustente à altura um Elogio à Sabedoria Indígena, que estava apenas insinuado nas colunas anteriores.
Ressurgências ressoa a Retomadas, movimento que tem tomado o tempo, a energia e sustentado a esperança dos povos indígenas de reverter o esbulho de séculos. São retomadas de terras, de línguas, de habilidades e, acima de tudo, de dignidade. São ações que requerem esforços por vezes sobre-humanos, maiores que a própria vida. Exigem uma ferrenha convicção nos princípios ancestrais, convicção que tem resistido a mais de 500 anos de assaltos à integridade cultural, territorial e até mesmo existencial dos indígenas. Retomadas, para Trudruá Dorrico, a jovem makuxi que açoita com palavras os assaltantes, passaram a ser, sem rodeios, “um modo de vida”. Retomadas declaradas ilegais pelo Estado brasileiro desde dezembro de 2025. Quando o Supremo Tribunal Federal derrubou a tese do Marco Temporal, também derrubou a legalidade das retomadas de terras pelos povos indígenas. Sim, a legalidade, mas não a legitimidade de se lutar para reaver o que se perdeu, ou melhor, o que foi tomado de maneira espúria e, essa sim, ilegal.
Esta série de colunas dedica-se a examinar retomadas que são sempre mais do que a “mera” recuperação de bens perdidos. São ressurgências, afloramentos que não se contentam em repor o que se perdeu, mas criar algo novo no ato de reconquistar. Ali sempre se acrescenta alguma coisa: novas sementes, novos alimentos, novos idiomas, novas ideias, novas habilidades, novas artes. À moda de Lavoisier, nesse espaço de experimentação interétnica, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. E assim vemos os Yanomami exportando cogumelos e, com os vizinhos Ye’kwana, chocolate especial; os Paiter Suruí vendendo café orgânico; os Ashaninka coletando sementes para recuperar fauna e flora; os Pataxó enriquecendo o mundo ao reaprender a língua Patxohã com os Maxacali, seus parentes mineiros; a estudante tupinambá de antropologia reaprendendo a tecer as penas do inefável manto quinhentista; sem falar do manancial de escritores e artistas plásticos que trazem a nobreza da sensibilidade indígena ao mundo embrutecido de um Ocidente decrépito. Embora não mereça, a sociedade ao redor deveria conhecer este Brasil, não só profundo, mas alargado, criativo, inspirador. De preferência, seguir o conselho de Fernando Pessoa que, não sendo etnógrafo, criou seus próprios outros ‒ os heterônimos: “Sê plural como o universo!”
Para pôr em prática a ambição de seguir a trilha das Retomadas indígenas, quero e preciso de ajuda. Ajuda qualificada. Ajuda de luxo! Quem me ajuda é Francisco Sarmento, aprendiz de Sábio Tukano, doutor em antropologia, frequentador da filosofia ocidental e, last but not least, ferrenho admirador e seguidor da sua própria tradição. Pela mão de Francisco Sarmento, meu generoso Relações Públicas, quero dar a conhecer a este blog o frescor das vozes indígenas, que o Brasil deveria ter orgulho de ouvir e com elas aprender. É com imenso orgulho que vejo minha voz solitária, que vem apregoando uma antropologia ecumênica, reverberando num dos mais refinados exemplos de pensamento indígena. E assim começo o ano dando a palavra a Francisco Sarmento. Dele quero saber o que o impeliu à antropologia, o que o repele, o que o atrai e o que vislumbra nela. Francisco, a palavra é sua!

Foto: Theodor Koch-Grümberg, Rio Tiquié, 1905
Francisco. Quando você me passa a palavra, penso que não falo apenas como alguém que percorreu uma formação disciplinar[1], mas como alguém cuja própria existência foi interpelada pela antropologia, pois minha trajetória começou muito antes, há 38 anos, ainda no rio Teiá, na região do Rio Negro, no noroeste amazônico brasileiro. Começou nas relações, nas formas próprias de aprender, escutar e pensar o mundo como um Tukano do clã yãâhi di’ipeé. A antropologia não foi uma descoberta intelectual isolada. Foi um exercício tenso, às vezes contraditório, entre mundos que sempre estiveram em relação desigual. Assim, quero responder à sua pergunta desdobrando-a em três:
O que me atraiu na antropologia?
Não foi apenas a disciplina em si, mas a possibilidade de encetar uma disputa narrativa. Jovem de mente inquieta, cresci com o desejo de saber os saberes do meu povo e os saberes do pensamento ocidental. Então vi meu povo sendo descrito, interpretado e enquadrado por outros. A antropologia aparecia ali como o campo autorizado a falar sobre nós. Aproximar-me dela foi um gesto intelectual e político. Compreender por dentro o mecanismo que historicamente nos transformou em objeto seria, portanto, uma tarefa necessária.
Com esse gesto, abri também um campo de criação. Há em meus textos a impessoalidade e a objetividade – para dar mostras a outros antropólogos de que entendo do assunto –, mas há também inquietação: como escrever sem me separar do mundo que me constitui? Como tratar conhecimentos sem revelar as maneiras próprias como meu povo os pensa, ou seja, as suas categorias? Ali está o primeiro deslocamento: a antropologia não pode ser apenas ferramenta de descrição, ela precisa ser espaço de elaboração.
Com isso, o antropólogo não deve apenas dialogar com a disciplina, mas tensionar seus limites ontológicos. Na escrita, a língua, os conceitos, as formas de organização do texto, tudo passa a operar como parte da argumentação. Não se trata de aplicar teorias a um universo indígena, mas de permitir que categorias próprias reorganizem o campo conceitual da antropologia. A atração inicial, portanto, vai da curiosidade crítica à aposta na transformação interna da própria disciplina.
Nesse movimento, a etnologia torna-se atraente quando deixa de ser apenas um espaço para falar sobre os povos indígenas e passa a ser atravessada por intelectuais indígenas que falam desde os seus próprios conhecimentos. Então, o que me chamou a atenção foi esse esforço de inflexão. Mas ressalto que não basta ocupar um lugar, é preciso mexer o chão que o apoia.
Como vejo a antropologia por dentro, sendo parte dela?
Fazer parte da antropologia é uma experiência ambígua. Por um lado, é reconhecer sua potência crítica. A disciplina construiu ferramentas importantes para desmontar naturalizações, denunciar violências coloniais e produzir alianças. Não podemos ignorar esse legado. Por outro lado, é impossível não perceber que a antropologia carrega marcas profundas de sua origem colonial. Estruturou-se sobre a assimetria entre quem observa e quem é observado. Mesmo quando essa assimetria é criticada, ela reaparece, muitas vezes de maneira sutil, na decisão do que conta como teoria, no idioma legítimo, na forma aceitável de escrita, nos critérios de validação.
Por isso, a presença indígena na antropologia não pode ser lida apenas como “inclusão” ou “diversidade”. Trata-se de algo mais radical: uma transformação das condições de produção do conhecimento. Quando indígenas escrevem antropologia, não estão apenas acrescentando novos dados ao acervo existente, estão deslocando as bases do próprio campo.
Contudo, insisto que a disciplina só se torna mais atraente quando aceita ser afetada[2]. Ou seja, a questão não é apenas abrir espaço para novos sujeitos, mas admitir que outras formas de pensar, narrar e teorizar também são antropologia. Isso implica revisar hierarquias conceituais e reconhecer que há teorias nas práticas narrativas, na oralidade, na cosmopolítica indígena.
Tendo percorrido seu caminho, vejo uma antropologia em disputa. De um lado, há forças que desejam mantê-la reconhecível, estável, fiel a certos cânones. De outro, há movimentos, muitos deles protagonizados por intelectuais indígenas, que a empurram para um campo mais plural, onde teoria não é monopólio euro-americano.
Sendo assim, ser parte da antropologia não significa, para mim, aderir integralmente a ela. Significa habitá-la como território de “fronteira”, nome que traduziríamos em tukano como taîro (linha de divisa ou de junção), termo usado pelos kumuá (sábios) para indicar o local do encontro de dois mundos cosmológicos. Não vou abandonar meu mundo pela academia, mas carregar comigo outras formas de pensar e fazê-las dialogar, discordar, conversar.
Como a antropologia poderia ser?
Se a antropologia nasceu como ciência da alteridade, talvez seu desafio atual seja tornar-se ciência da reciprocidade ou complementaridade, a que chamamos apekákãhasehe sãasehé (apeká: coisa relativa a outro; -kãha-: oriundo de; sãá: dar complemento a). Isso implica abandonar, definitivamente, a posição confortável de quem apenas interpreta o outro sem ser igualmente interpretado. Poderia então se transformar num espaço onde a diferença não é apenas objeto de análise, mas o princípio organizador do próprio campo. Para isso, é preciso reconhecer que múltiplas epistemologias não são “saberes tradicionais” a ser traduzidos, mas sistemas teóricos capazes de produzir conceitos; como já demonstrado, por exemplo, no trabalho de antropólogos e antropólogas indígenas da minha região, o Rio Negro.
Ao mobilizar categorias próprias na língua original, procura-se mostrar que a tradução não é neutra. Há conceitos que não cabem integralmente na língua acadêmica dominante. O texto não apenas comunica um conteúdo, mas produz um deslocamento epistemológico. A antropologia que poderia ser é aquela que aceita esse deslocamento como parte constitutiva e não como exceção exótica.
Mas isso também implica rever a centralidade da escrita como única forma legítima de produzir conhecimento. Penso, portanto, que a antropologia poderia dialogar mais seriamente com outras formas de expressão – narrativas orais, cantos, performances, objetos, marcas na paisagem etc. –, não como ilustração etnográfica, mas como expressão do pensamento.
A antropologia poderia abandonar, definitivamente, a ideia de “campo” como lugar de coleta e assumir a pesquisa como relação continuada, comprometida, implicada. Isso significa reconhecer que produzir conhecimento é também produzir efeitos políticos. Para os povos indígenas, esses efeitos são concretos, incidem sobre direitos territoriais, políticas públicas, reconhecimento jurídico. Com isso, a disciplina poderia ser menos ansiosa por universalidade e mais aberta à coexistência de múltiplas visões. Isso não é relativismo absoluto, mas reconhecimento de que a verdade não é monopólio de um único sistema epistemológico.
Finalmente, a antropologia poderia admitir que ela mesma está vivendo uma ressurgência. A presença crescente de intelectuais indígenas no país não é uma fase passageira, mas uma transformação estrutural. Essa presença não pede autorização, pois já está reconfigurando o campo disciplinar.
Se no início a pergunta era como a antropologia nos via, hoje, a questão se reverte: o que acontece com a antropologia quando nós, indígenas, a encaramos, habitamos e transformamos? Talvez a resposta esteja menos num modelo ideal de disciplina e mais na disposição de aceitar que está sendo reinventada. Desse modo, a antropologia pode se tornar um espaço de encontro real entre mundos, um espaço de taîro, “junção” (a filosofia ocidental diria “fusão de horizontes”). No entanto, isso exige coragem institucional, abertura conceitual e até ânimo de perder a centralidade.
Falo, portanto, não apenas como alguém que foi atraído pela antropologia, mas como alguém que a atravessa e é atravessado por ela. Se há algo que pude enxergar, é que a disciplina não está pronta, completa, finalizada. Está em movimento e é nesse movimento – às vezes tenso, às vezes fecundo – que se abre a possibilidade de uma antropologia viva e duradoura, disposta a se reinventar.

Alcida. Tudo isto me é facultado porque existe a BVPS, esse oásis do pensar silvestre, livre de amarras, que vem mostrando que há vida ativa fora desse Saara em expansão chamado Academia. Sou uma beneficiária da visão grande-angular do sociólogo (quem diria!) André Botelho. Fã assumida. Que inquietudes o sacudiram para jogá-lo na aventura da Biblioteca Virtual do Pensamento Social? É o que quero saber. É o que outros frequentadores da BVPS, com certeza, devem querer saber. Em breve!
Notas
[1] Francisco Sarmento (2025). A’to ni’i uúkũkãharã niiwã diporókãharã: Assim disseram os antigos – História e conhecimento entre os ye’pâ-masa no Alto Rio Negro, Noroeste Amazônico. Tese de doutorado. Universidade de Brasília, 2025.
[2] Sobre esse tema, ver Francisco Sarmento. Com os indígenas, uma Antropologia mais atraente. Anuário Antropológico, v. 48, n. 1, p.73-77, 2023.

Francisco Sarmento, do povo Ye’pâ-Masa (ou Tukano), é doutor em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB). Integra o Grupo de Pesquisas Antropológicas e Linguísticas do Noroeste Amazônico – KAAPI. Desenvolve pesquisas na área cultural do Alto Rio Negro (Brasil–Colômbia) integrando Etnologia, Etno-história Mitologia e Arqueologia de povos da família linguística Tukano Oriental.
