A Sociologia Digital e suas interfaces | A construção de um campo de investigação sociológica sobre Inteligência Artificial, por Dimitri Fazito e Veridiana Cordeiro

Continuando os posts da série A Sociologia Digital e suas Interfaces, publicamos hoje texto de Dimitri Fazito (UFMG) e Veridiana Cordeiro (USP), no qual mostram como as tecnologias digitais têm transformado profundamente a vida social, afetando o trabalho, as instituições, as interações e a produção de identidades.

Em um contexto marcado pela centralidade dos algoritmos, pela produção massiva de dados e pela emergência da inteligência artificial generativa, as relações sociais passam a ser mediadas por plataformas, dando origem a novas formas de sociabilidade e a instituições híbridas. Nesse cenário, no âmbito dos estudos da Sociologia Digital, os autores apresentam a Sociologia dos Algoritmos como uma abordagem central para compreender as dinâmicas e os critérios de legitimidade das sociedades digitais contemporâneas.

A Sociologia Digital e suas Interfaces é uma série da BVPS Edições, com curadoria de Richard Miskolci. A série vai ao ar semanalmente, sempre às quartas-feiras. Outros posts da série podem ser conferidos aqui.

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A construção de um campo de investigação sociológica sobre Inteligência Artificial

Por Dimitri Fazito (UFMG) &

Veridiana Domingos Cordeiro (USP)

Nos últimos anos, as Ciências Sociais têm debatido intensamente as mudanças ocorridas a partir de inovações tecnológicas digitais que impactam diretamente a organização do mundo social, desde a ordem do trabalho (automação, precarização e aumento da velocidade da produção), passando pela ordem institucional política e econômica (inovação de modelos de negócio, concepções, normas de controle, regulação e governança), até processos que fundamentam o cotidiano das interações humanas e a formação de identidades sociais (a mobilização política nas redes sociais online, a produção de si através do Self conectado digitalmente, a datificação do conhecimento social armazenado em plataformas digitais globalizadas).

Essas discussões se iniciam com o processo de disseminação da internet entre o final do século XX e o início do século XXI. Entretanto, após a década de 2010, a produção massiva de dados, possibilitada pela coleta de dados online, permitiu o desenvolvimento de novas técnicas relativas à análise de big data, que, por sua vez, passaram a alimentar grandes modelos que possibilitaram o desenvolvimento da inteligência artificial generativa. Nos últimos quinze anos, portanto, a Sociologia teve que dar conta de todas as transformações que três grandes marcos tecnológicos trouxeram ao mundo social:

  • a conectividade e a digitalização da vida;
  • a produção massiva de dados e a implementação de algoritmos em plataformas que medeiam relações socioeconômicas;
  • o surgimento da inteligência artificial generativa, que transformou completamente a maneira como produzimos conhecimento no mundo (produção escrita, produção audiovisual, produção científica, etc.).

Para esse conjunto de reflexões produzido pela Sociologia, deu-se o nome de “Sociologia Digital”, que se configurou como um conjunto de pesquisas com diferentes abordagens teóricas e metodológicas que tentam dar respostas a fenômenos contemporâneos decorrentes da digitalização e da datificação do mundo. Já há uma produção nacional crescente sobre a temática e seus desdobramentos históricos e temáticos, tais como: a digitalização da vida social (Miskolci, 2016), os problemas enfrentados pela Sociologia (Nascimento, 2020; Cordeiro, Waizbort & Gomes, 2023; Cordeiro, 2021), as consequências da datificação (Faustino & Lippold, 2023), entre outros.

Cada uma dessas transformações gerou um conjunto de estudos e respostas para analisar os impactos sociais da época. Os primeiros trabalhos sobre a temática tratavam da questão da conectividade e digitalização, especialmente durante a emergência da internet (Abbate, 1999), explorando profundamente como as tecnologias digitais transformavam as relações sociais e a própria natureza da sociabilidade humana (Baym, 2011; Van Dijck, 2013, 2011a, 2011b).

Com o avanço e a popularização da internet, houve um processo de produção massiva de dados, que foram usados por Big Techs para desenvolver plataformas digitais orientadas a dados com amplo uso social: tanto para mediar relacionamentos (Facebook, Instagram, LinkedIn, Tinder, entre outros), quanto relações econômicas e de prestação de serviços (Airbnb, IFood, Uber, entre outros). Esse processo culminou em um fenômeno conhecido como plataformização, isto é, a integração sociotécnica profunda entre indivíduos humanos, algoritmos e sistemas coletivos.

Essa integração tem produzido novas formas de sociabilidade (como as chamadas “sociabilidades digitais”), que têm provocado mudanças radicais e disruptivas nas instituições e nos circuitos de interação social, alterando as relações em termos de intensidade, equivalência e reciprocidade nos processos de reprodução social. A maior parte das reflexões a respeito provém de áreas afins, como a Comunicação Social (Van Dijck et al., 2018) ou a Psicologia Social (Zuboff, 2021). Apesar disso, a Sociologia tem produzido reflexões relevantes sobre questões de epistemologia e de teoria social (Kenney, 2015; Kitchin, 2014).

Por fim, estudos mais recentes têm tentado trazer perspectivas sobre o impacto da inteligência artificial no mundo social. A predominância de estudos de Sociologia Econômica e do Trabalho sobre a temática ainda permanece relevante e avança com novos debates e pesquisas inovadores, mas outras abordagens epistemológicas parecem repisar pontos críticos já levantados décadas atrás, diante da avalanche sociotécnica e seus deslizamentos fenomenológicos espaço-temporais do mundo da vida contemporânea (ver Couldry & Hepp, 2016: caps. 5 e 6).

A heterogeneidade de abordagens congregadas na chamada Sociologia Digital pode tornar o campo difícil de navegar. Por isso, iremos, aqui, considerar nossa revisão crítica a partir de uma perspectiva promissora: a chamada Sociologia dos Algoritmos, proposta por diferentes cientistas sociais nos últimos vinte anos (Marion Fourcade, Jenna Burrell, Fleur Johns, Massimo Airoldi, entre outros).

A possibilidade de uma Sociologia dos Algoritmos está fortemente conectada ao fato histórico da emergência de uma sociedade cada vez mais integrada tecnologicamente por meio de processos de produção, circulação e consumo de bens e serviços “algoritmizados”. O fenômeno da “algoritmização” se apresenta, factualmente, quando boa parte das interações sociais cotidianas assimila uma lógica algorítmica (incorporada e automatizada subjetivamente em indivíduos e grupos) para a resolução de problemas e tomadas de decisão, induzindo comportamentos específicos que se “naturalizam” e se difundem como modelos sociais legítimos e, frequentemente, dominantes (Beer, 2017).

Vários exemplos cotidianos ilustram esse processo, como o deslocamento urbano por meio de aplicativos de mapas de vias e trajetos, o uso de plataformas de mobilidade como o Uber; a conversação cotidiana por meio da troca de mensagens pessoais via aplicativos de SMS ou redes sociais online como o WhatsApp (que procuram emular interações face a face); a organização do tempo e das atividades de trabalho com o uso de agendas eletrônicas compartilhadas, como o Google Workspace; a consulta terapêutica utilizando LLMs como o ChatGPT, entre outras possibilidades.

Como sugerem Burrell & Fourcade (2021), a algoritmização se desenvolveu ao longo de um processo histórico antes de se apresentar firmemente consolidada e “naturalizada”, incorporada institucionalmente à vida social cotidiana, e remonta a formas de organização técnica das atividades administrativas na esfera pública, especialmente dos Estados e dos Mercados na modernidade, confundindo-se com a evolução do próprio pensamento social e da produção do conhecimento segundo a lógica da razão instrumental nas sociedades industriais e pós-industriais. Nesse processo histórico, o desenvolvimento paralelo e complementar dos algoritmos, da computação e da economia da atenção levou ao capitalismo plataformizado como modelo de negócios fundado na globalização sociotécnica proporcionada pela internet (suas diversas camadas de infraestrutura e fases de desenvolvimento automatizado, padronizado e autonomista – da World Wide Web no início dos anos 1990 até o atual momento da Internet das Coisas).

A centralidade da algoritmização nesse processo está ligada diretamente ao desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) e a seus impactos diretos sobre a vida social contemporânea. Consideramos que a Sociologia deve entrar nesse debate sobre a sociedade plataformizada e o surgimento da IA a partir de questionamentos sociológicos acerca do fenômeno da algoritmização.

Primeiro, porque o persistente problema da interação entre humanos e não humanos (máquinas, em especial aquelas alimentadas por processos de algoritmização e pelo desenvolvimento da IA) tornou-se uma questão central para a compreensão da sociabilidade e da institucionalidade em diversas dimensões da vida cotidiana. Devemos nos perguntar como o “código” (representação dos algoritmos aplicados) se estabelece na realidade vivida e interage com ela, eventualmente transformando-a ou promovendo uma mediação digitalizada entre humanos, máquinas e o próprio ambiente.

Qual é a relação da codificação algorítmica com normas e regras sociais? E como o elemento tácito do entendimento social comum sobre as normas – que projeta e sustenta a ordem institucional – interage causalmente com os códigos de mediação social nas interações digitais entre humanos e máquinas, incidindo sobre a construção social da realidade? Ao fim e ao cabo, a Sociologia tem demonstrado, a partir de diferentes tradições de pesquisa, que a algoritmização implica inovações complexas em torno da agência, da cultura e de novos dispositivos sociotécnicos que, em recursividade, ressignificam padrões de interação e de atribuição de sentido à vida prática.

Um segundo aspecto refere-se ao problema da construção social da realidade digital: do analógico ao digital, e do offline (interação face a face direta e copresença) ao online (interação face a face midiatizada, incorporada, estendida, situada e ativada). A ordem da interação social e algorítmica – da internet à plataformização, datificação e ao rastreamento cotidiano do Self – demanda da Sociologia uma renovação crítica profunda, tanto teórica quanto metodológica. O objeto sociológico, tradicionalmente concentrado nas interações humanas face a face (analógicas, de contiguidade e equivalência), sofre alterações definitivas com a mediação sociotécnica dos algoritmos (pensemos especialmente nas interações com agentes de IA e na experiência prática de tecnologias de Realidade Virtual). Há debates sociológicos consistentes sobre a produção do “eu social” a partir da perspectiva do Self Conectado (Networked Self – Rainie & Wellman, 2012; Chayko, 2015) e pesquisas sobre o Rastreamento do Self (Self Tracking – Lupton, 2014; Couldry & Hepp, 2016), revelando novos padrões de sociabilidade integrados entre o digital e o analógico, cujo desenvolvimento se ancora em processos algorítmicos complexos e de grande escala.

O desenvolvimento de uma Sociologia dos Algoritmos emerge como imperativo teórico e empírico diante das profundas transformações que a algoritmização imprime sobre a tessitura social contemporânea. Essa necessidade transcende o interesse acadêmico, configurando-se como demanda urgente para compreender as reconfigurações fundamentais nas formas de sociabilidade, de poder e de produção de sentido que caracterizam nossa época. A Sociologia dos Algoritmos emerge da confluência de múltiplas tradições sociológicas que, confrontadas com o desafio da algoritmização, convergem para formar um campo de investigação distintivo. A Inteligência Artificial, inicialmente tratada como objeto externo à análise sociológica, revela-se progressivamente como um fenômeno constitutivamente social, que demanda ferramentas analíticas específicas.

Os trabalhos seminais de Marion Fourcade, Jenna Burrell, Fleur Johns, Donald MacKenzie e Massimo Airoldi estabelecem os contornos teóricos específicos da Sociologia dos Algoritmos. Esses autores desenvolvem uma análise sofisticada das relações recursivas entre cultura e código, identificando três movimentos fundamentais: cultura-no-código, código-na-cultura e código-no-código. Essas dinâmicas estabelecem circuitos de retroalimentação entre aprendizado social e aprendizado de máquina, nos quais a distinção entre processos sociais e computacionais se torna progressivamente difusa.

A força do código na cultura deriva da incorporação de um poder simbólico específico à codificação “inteligente”. Essa forma de poder manifesta-se na capacidade de processar informações em novas dimensões espaço-temporais, operando com instantaneidade e estabelecendo ordenamentos simultaneamente ordinais, hierárquicos e diferenciados. Os sistemas algorítmicos não apenas processam informação, mas a nomeiam, identificam, valoram, associam e estabelecem similaridades, criando taxonomias dinâmicas que reconstituem continuamente a ordem classificatória da cultura. Esse processo estabelece recursividades que geram novas disposições e composições sociais, tensionando e reconfigurando categorias existentes.

A socialização contemporânea ocorre por meio de processos que envolvem tanto o Self humano quanto o que podemos denominar “Self maquínico” – a constituição de identidades e agências algorítmicas por meio de processos de aprendizado. O conceito de habitus, tradicionalmente aplicado à incorporação de estruturas sociais em disposições duráveis dos agentes humanos, encontra paralelo no “machine habitus” proposto por Airoldi, no qual algoritmos desenvolvem disposições a partir do treinamento em dados socialmente estruturados. Essa convergência entre processos de aprendizagem humana e maquínica não implica equivalência, mas revela homologias estruturais que demandam análise sociológica sistemática.

A institucionalização desses processos na cultura digital contemporânea manifesta-se na emergência de novas formas normativas que combinam elementos sociais e algorítmicos. As instituições digitais não são meras versões automatizadas de instituições tradicionais, mas configurações híbridas nas quais regras sociais e protocolos computacionais se entrelaçam de maneira complexa. A legitimidade institucional passa a depender não apenas de processos sociais de reconhecimento e validação, mas também de desempenhos algorítmicos que produzem eficiência, previsibilidade e escalabilidade.

O desenvolvimento da Sociologia dos Algoritmos dependerá da capacidade de articular essas múltiplas dimensões em frameworks teóricos coerentes, preservando a complexidade dos fenômenos estudados sem sacrificar o rigor analítico. Esse campo emergente não representa apenas uma especialização adicional dentro da Sociologia, mas um espaço de renovação teórica e metodológica que desafia e enriquece a disciplina como um todo, oferecendo ferramentas indispensáveis para compreender as sociedades algoritmicamente mediadas do século XXI.


Referências

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Sobre os autores

Dimitri Fazito é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Coordenador do Grupo de Pesquisa CNPq Sociologia Digital e IA e do Laboratório de Sociabilidades Digitais (UFMG).

Veridiana Domingos Cordeiro é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Coordenadora da Iniciativa Understanding AI do Instituto de Estudos Avançados (USP) e do Grupo de Pesquisa CNPq Sociologia Digital e IA. É também pesquisadora do Centro de Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquinas (USP).