
Nos bairros operários de Natal, Mário de Andrade observa o cotidiano do trabalho e da moradia. Alecrim e Rocas desenham um cenário sem mucambos, mas nem por isso livre de dificuldades. Ainda assim, mesmo sob o ritmo rotinizado do trabalho e dos dias, irrompem cantigas que fazem persistir uma dimensão humana. Essa é uma crônica sobre proletários.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. À tarde, confira novo texto de Lilia Schwarcz e Lúcia Stumpf para a série! Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Natal (2 de Janeiro)
Em Natal os bairros onde param os proletarios são principalmente os dois: o do Alecrim e Rocas. Tambem nas alturas da Lagoa Sêca mora bastante operario que devido á careza do bonde, come areia todo dia pra atingir o centro da cidade, longe. Só no Alecrim moram pra mais de 12 mil almas. Rocas está situado em plena duna, movediça ainda.
Não ha mucambo. O mangue fica da outra banda do Potengy, onde ninguem não mora. No Alecrim como em Rocas as casas são cobertas de telha e muitas de tijolo. Se enfileiram, pequititas, porta e janela de frente, em avenidas magnificas, todas com o duplo de largura da rua comum paulistana. A previdencia de Pedro Velho, delineou o futuro da cidade esplendidamente. Rua estreita só mesmo na parte antiga de Natal. Nas casinhas dos operarios se entra numa sala de viver comunicada por um corredor quasi da mesma largura com outro mais ou menos corredor, fundo da casa onde a mulher cozinha e todos comem. O espaço que se emparedou entre êsses corredores e sala é a “camarinha”, quarto pra dormir. No geral se dorme em rede.
A comida é bem monotona. Farinha, feijão e carne-sêca. Tambem usam a carne-de-sol, pouco secada e pouco duravel. Bacalhau. Especialmente o “voadô” salgado, que pescam em quantidade nas costas do Rio Grande do Norte. A pescaria do voadô é bem curiosa e, si fizer alguma, hei de descrever.
O operario toma seu cafezinho de manhã: vai pro serviço. A maioria trabuca no algodão e no assucar. Descalços no geral, calça e paletô de algodãozinho, ás vezes sem camisa, que calor! cobrindo a cabeça com o chapéu de palha de carnaúba, muitas feitas de forma fantasista, muito engraçada.
Pronto: estão trabalhando. Quando sinão quando uma cantiga. Trabalho duro, ar de satisfação — a mesma filosofia da “paciencia!” comum de brasileiro. Tem hora pra almôço. Os do assucar muitas feitas não almoçam. Desde manhãzinha prepararam o barril de mocororó que mata a sêde e sustenta até a hora de janta, noitinha, lá em casa. Dizem que o mocororó é muito alimentar: dose forte de assucar bruto, agua e talhadas de limão. Usam tambem a nossa “garapa” sulista, caldo de cana puro, que nos tempos de moenda é a bebida comum dos engenhos.
No geral foram oito horas de trabalho. Nunca menos e bastantes vezes mais. Comparando com o sul a vida geral nordestina é barata mas pro operario não me parece que seja não. Si o trabalhador pode sempre alcançar com os biscates ai por uns dez milreis diarios, o salario oscila de 3 pra 6 milreis, me informaram. É pouco si a gente lembra que o quilo de carne verde inferior custa dois milreis na cidade.
MÁRIO DE ANDRADE
