Ressurgências | Argonautas do São Francisco, por Alcida Rita Ramos, Francisco Sarmento e Felipe Tuxá

Alcida Rita Ramos (Unb) e Francisco Sarmento (Clã yãâhi di’ipeé, KAAPI) recebem Felipe Tuxá (UFBA) na edição de abril de Ressurgências, coluna que examina as ações de retomada indígena no tempo presente: de terras, de línguas, de habilidades e, acima de tudo, de dignidade. 

Em Argonautas do São Francisco, somos levados ao “Velho Chico”, rio que atravessa um sem-fim de vidas pelo interior de diferentes estados do Nordeste, e cuja existência há muito exerce efeitos simbólicos, econômicos e sociais sobre seus habitantes. No texto, Felipe Tuxá, indígena e professor de antropologia na UFBA, compartilha o ponto de vista do povo Tuxá sobre essa antiga coexistência com o Rio, que foi lamentavelmente transformada pelos arroubos autoritários de outrora, quando decidiram que o rio poderia ser represado e os habitantes desterrados de suas histórias. Assim, após décadas aguardando por uma nunca chegada demarcação de terras, Felipe Tuxá destaca as recentes conquistas e batalhas de seu povo.

Para conferir outros textos da coluna Ressurgências, clique aqui. E para ficar por dentro de todas as nossas postagens, você pode assinar nossa lista de e-mails, seguir nosso Instagram ou entrar no canal da BVPS no WhatsApp. Boa leitura!


Argonautas do São Francisco

Por Alcida Rita Ramos (UnB)

Francisco Sarmento (Clã yãâhi di’ipeé, KAAPI)

Felipe Tuxá (UFBA)

Esta série de colunas é organizada por Alcida Rita Ramos e Francisco Sarmento, mas cada uma delas apresenta um terceiro personagem que traz um tema específico. Desta vez, temos a companhia de Felipe Cruz, jovem antropólogo da Universidade Federal da Bahia, da etnia Tuxá, que nos traz a extraordinária história do seu povo que perdeu parte de suas terras para inundações provocadas por hidrelétricas, barreiras à liberdade do imponente Rio São Francisco.

Felipe e sua geração contam hoje apenas com a memória dos mais velhos para saborear vicariamente o que era usufruir da grandeza do Rio São Francisco. Um São Francisco livre de amarras, livre de represas, acolhedor na sua majestade, manso na sua generosidade. Vamos acompanhar o lamento de Felipe pela perda de tamanha dádiva.

Sim, dadivoso, o Velho Chico ofertou ao povo Tuxá as terras férteis de suas ilhas às centenas, para que fundassem uma vida anfíbia, quase idílica entre terra e água.

Lembram as hortas flutuantes ‒ as Chinampas dos astecas ‒ com uma diferença. Não tendo sido agraciados com a pujança de um São Francisco, eles mesmos construíram as ilhas férteis nos lagos de Tenochitlán. Já os Tuxá herdaram de algum Demiurgo as Chinampas naturais do seu eterno Opará.

Chinampas astecas

Isso nos remete ainda a outro “povo das águas”. Pois, assim como os Tuxá narrados por Felipe elaboraram uma existência indissociável das águas do Chico – onde memória, território e pessoa se entrelaçam –, os Paumari, espertos pescadores e captores de quelônios, também construíram sua vida em íntima relação com os regimes fluviais, entre o rio, os lagos, as ilhas e a várzea, habitando e transitando sobre “flutuantes” e paisagens móveis do Purus, ao sul do Amazonas.

Em ambos os casos, não se trata apenas de adaptação ao meio, mas da produção de mundos onde o aquático organiza formas de sociabilidade, mobilidade e imaginação. Ainda que forçados a viver em terra firme, esse campo conceitual permanece.

O rio é, pois, arquivo de histórias e fundamento da pessoa e produtor de relações sociais e cosmológicas. Tal aproximação entre terra e água expõe diferentes, porém convergentes, tecnologias de habitar as águas. Ali o ambiente não é cenário, mas agente constitutivo da vida.

Vida flutuante dos Paumari do Rio Purus

Passemos aos Tuxá.

Ilhas celestiais, tecnologias ancestrais e outras futuridades Tuxá

Felipe Tuxá

Uma das coisas que percebi desde que ingressei na antropologia foi que, dentre as narrativas indígenas mais apreciadas por etnólogos e demais estudiosos, destacavam-se aquelas mais remotas, sobre as origens e o surgimento do mundo. Para eles, o valor dessas histórias parece repousar no que revelam sobre a multiplicidade de realizações do gênero humano. Para o povo Tuxá, mais do que falar do passado, elas nos oferecem um repertório que informa as nossas leituras do presente e de futuro. Em outras palavras, são uma bússola ancestral. Muitas vezes chamadas de mitos, são narrativas que expressam particularidades da consciência histórica dos povos indígenas. Estão repletas de importância não apenas para a compreensão do passado, mas também para entender como cada grupo indígena dá sentido ao presente. Ao mesmo tempo, ao desafiar linearidades, elas nos oferecem um arsenal para o futuro.

A história dos Tuxá, transmitida por gerações, menciona uma grande enchente, às vezes chamada de dilúvio, do Rio São Francisco. Meu avô contava que teria acontecido em 1606, forçando cerca de 600 indígenas da Ilha de Zorobabé a mudar para a terra firme na margem baiana. Embora a história varie em pequenos detalhes, dependendo de quem a conta, há um núcleo que se mantém: um grande volume d’água que veio devorando tudo, acabando com as ilhas. Os antigos improvisaram jangadas com plantas leves que boiavam até encontrar um chão para ficar. E foi assim que chegamos a Nova Rodelas, onde hoje está nossa aldeia.

Esse episódio abre caminho para pensarmos sobre as muitas camadas do mundo Tuxá, repleto de histórias fluviais dispersas no tempo, com ilhas imemoriais, encantados e trânsitos aquáticos. À luz dos atuais embates por justiça, como os Tuxá retêm o passado para dar sentido, não apenas ao presente, mas também ao futuro de vidas vividas e pensadas sempre junto ao Rio São Francisco, chamado por nós de Opará?

A região do sub-Médio e Baixo São Francisco, compreendendo hoje os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, foi o lar de muitos povos indígenas. A área ocupada pelos Tuxá, mais especificamente, onde o Rio divide a Bahia de Pernambuco, é destacada em registros historiográficos pelas grandes cachoeiras e pelas dezenas, quiçá centenas, de ilhas e ilhotas. Em 1950, o antropólogo norte-americano William Hohenthal Jr. empreendeu expedições no São Francisco. Delas vêm as primeiras anotações sobre os povos do seu curso Baixo e sub-Médio, tirando-os da invisibilidade etnográfica. Em 1952, disse ele, havia cerca de 200 pessoas tuxá em Rodelas. Descreveu-as como pescadores e “índios de canoa”, embarcações feitas de troncos de árvores com um curto mastro e vela pequena e triangular de algodão, comprada dos brancos. Suas fotografias e legendas registram a vida cotidiana e o regime de dupla morada entre as ilhas e a terra firme.

William Hohenthal Jr.: “Canoas dos índios Tuxá. Voltamos da Ilha da Viúva a Rodelas na margem baiana do Rio São Francisco. Uma cerimônia de jurema acabou-se de celebrar. Março de 1952”

Todos os observadores que passaram por ali enfatizaram a centralidade do rio na vida tuxá. O território tradicional consistia em mais de trinta ilhas e ilhotas pelas quais transitávamos todos os dias em afazeres econômicos, domésticos e rituais. Ao longo do tempo, fomos perdendo o acesso às ilhas, conforme os brancos, os ditos “civilizados”, invadiam e tomavam a região. Para isso, recorriam a ameaças e ao uso da força e à soltura de bois e outros animais nas ilhas para destruir as plantações indígenas. Ao final do século XX, de todas as ilhas daquele vasto e complexo território fluvial, apenas a Ilha da Viúva, de mais de três quilômetros e meio, estava na posse dos indígenas. Era a última por onde somente eles transitavam e plantavam. Viviam juntos, usufruindo da existência pregressa que ainda estava ali, indelevelmente inscrita na paisagem. A aldeia propriamente dita estava na cidade de Rodelas. Nas ilhas estavam as roças. Os dias eram esse ir e vir pelas águas do Opará. Plantava-se abóbora, cebola, feijão e também arroz inundado, seguindo o próprio nível da vazante que se alterava sazonalmente.

Eu nunca estive fisicamente na Ilha da Viúva. No fim dos anos 80, uma nova enchente levou-a embora e provocou mais um êxodo dos Tuxá, desta vez, pela construção da Hidrelétrica de Itaparica, outra obra faraônica saída da imaginação de ditadores delirantes. Na sua lógica desenvolvimentista e ufanista, rios podiam ser encarcerados e pessoas podiam ser expulsas de suas terras, especialmente, os irrelevantes povos indígenas. Do deslocamento forçado em 1988 até o presente, temos navegado em águas turbulentas e estranhas. Promessas foram feitas e nunca cumpridas, pois as instituições democráticas de direito, repostas com a redemocratização, sempre nos falharam. Desde que esse último esbulho tragou ilhas, memórias e gentes, os Tuxá seguem sem terra.

Em contextos como este, quando se instala uma ruptura drástica entre mundos, a memória, a oralidade e a imaginação ganham destaque para que essas histórias possam ser passadas entre gerações e antigos sonhos possam ser refeitos. Para os mais velhos, isso deflagrou um processo de situar e ressituar incessantemente o rio e suas águas: de um lado, a visão instrumental que via a água como um meio produtivo para geração de energia; de outro, um ente completo e plenamente realizado, finalizado e perfeito. Antes da hidrelétrica, a vida tuxá girava em torno das águas do Opará e de sua paisagem. Em cada local, o que se passou está inscrito na paisagem e depositado em camadas de sentido. As águas corriam livres e estrondosas em corredeiras para o mar, mas, ao mesmo tempo, permaneciam nos lugares como história para os Tuxá. No barulho das águas estava o seu canto, protagonista dessa história.

Aquilo que ouvi, crescendo junto aos meus primos, em histórias contadas por avós e tios vem ganhando novos sentidos em mim à medida que envelheço e exerço o ofício de antropólogo. Hoje percebo que, quando os mais velhos falam da vida na Velha Rodelas, trazem o passado de volta pelo caminho de pedras, paisagens, sensações e lugares expressivos e indissociáveis de sua constituição como pessoas. Durante meu trabalho de campo, numa conversa com o Pajé Armando, já falecido, ele me contou sobre todas as ilhas que recordava. Tomou de um graveto e começou a listar e desenhar na areia aquilo tudo que precisava puxar da memória. Chamou pelo nome dezenas de ilhas e ilhotas! Mais de trinta anos depois do alagamento! Prosseguiu contando eventos dispersos naquela territorialidade aquática, marcados por sobrenomes de “homens grandes” responsáveis pelo esbulho. Lembrou pontos da paisagem e de uma pedra específica, a Pedra da Gaivota, onde gostava de se banhar e sentir a água escorrendo pelos ombros e pescoço. Por fim, falou de como, ao andar pelas ilhas, se lembrava dos “índios velhos já falecidos” que alcançou em vida, certo de que era a sua presença e proteção naquele território que o fazia não temer pelo futuro.

Eu e meu irmão em Dzorobabé retomando não apenas terra, mas uma história interrompida

Hoje percebo que essas histórias falam de uma noção de pessoa, da pessoa Tuxá, que passa, necessariamente, pelo Rio, não apenas porque essa água nos nutre fisicamente, mas porque ela faz o próprio ser, clareia a mente e alivia o sistema nervoso. Ao falar da vida de alguém e de sua passagem pelo mundo, aparece o Rio. O banho de rio é associado à vida toda, mas, em especial, à infância. Os mais jovens precisam se banhar para se tornarem Tuxás adultos. Precisam aprender a sonhar à beira do Rio.

A minha geração veio logo após o desterro. O rio não mais corria livre. Percebemos que o nosso único acesso àquele universo era pela contação de histórias. Falavam-nos de um mundo que não existia mais, mas, ao mesmo tempo, ao falar dele, faziam-no existir novamente. É como na arte “Saudade” da minha prima, a artista visual Yacunã Tuxá. Eu sempre senti que, na Nova Rodelas, as ilhas estavam presentes, não embaixo d’água, mas pairando sobre nós. Presentes na ausência, são ilhas que existem fora da geografia física, mas dentro de uma paisagem da memória, do sonho, da ancestralidade, como verdadeiras ilhas celestiais.

“Saudade” de Yacunã Tuxá

Em 2017, às vésperas do aniversário de trinta anos do deslocamento, o povo Tuxá se recusou a continuar esperando que o Estado brasileiro demarcasse um território para nós. Não foi por acaso que consagramos como primeiro território a ser retomado e autodemarcado uma parcela de terra sagrada, às margens do São Francisco, em frente à Ilha Dzorobabé, hoje submersa, que nos deu origem. Foi ali que levantamos o que chamamos de Aldeia Avó, de onde saímos em 1606.

Lá criamos uma nova morada perto das águas e, mais do que isso, no lar dos antigos. Nesse território, que frequento desde criança, é comum encontrarmos material arqueológico de superfície. É uma área de dunas, cuja formação se altera diariamente com a força do vento. Num breve passeio, encontramos material lítico, restos de cerâmica, urnas funerárias e pontas de flecha. Numa conjuntura política que busca apagar a presença indígena com miseráveis subterfúgios, como o marco temporal, essas são as marcas atemporais dos antigos que lá viveram. O “material coletado” tem datações antigas. Para nós, porém, importa outra coisa. Sandro Tuxá, um dos nossos líderes, ao ser indagado sobre os hábitos dos “antigos”, falou dessas peças nas dunas: “Eles cavavam suas sepulturas e deixavam ali [os objetos] para dizer que ali eles viveram, ali eles habitaram, para que quando as novas gerações chegassem pudessem declarar que aquilo era nosso”. Na sua sabedoria, previram que essa “cultura material” seria necessária na luta pela terra hoje, para embasar laudos e processos demarcatórios. Deixar vestígios foi, portanto, uma ação estratégica para que fossem encontrados na hora certa.

E foi assim que juntamos passado, presente e futuro. Isso é tecnologia ancestral.