Série Back to the 70s | A curtição e a opressão na poesia brasileira dos anos 70, por Eduardo Coelho

Hoje na série Back to the 70s: Euforia e sombras, publicamos uma prévia da apresentação “A curtição e a opressão na poesia brasileira dos anos 70”, de Eduardo Coelho, que será transmitida ao vivo nesta sexta-feira, 08/05, às 17h no canal da BVPS no Youtube, com debate de Frederico Coelho (PUC-Rio).

Se por um lado a “curtição” no início da década de 1970 foi reivindicada como traço de comportamento de uma geração, no texto, Eduardo Coelho observa o lugar incômodo que o termo ocupou na crítica literária. Diante disso, o autor propõe uma leitura da poesia marginal voltada à materialidade dos livros, cujas edições semiartesanais incorporaram intervenções gráficas capazes de mobilizar uma nova sensibilidade, mais afinada com o estado de “sufoco” vivido no contexto da ditadura brasileira.

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A curtição e a opressão na poesia brasileira dos anos 70

Por Eduardo Coelho (UFRJ e PACC/UFRJ)

Desde que surgiu na cena literária brasileira, nos anos 1970, a poesia dita “marginal” tem sido regularmente associada à curtição, que consiste numa característica da contracultura. Não se tratava de qualquer singularidade dessa poesia: como uma marca comportamental da juventude dos novos tempos, a palavra “curtição” habitava as folhas da imprensa oficial e alternativa, constando em textos críticos, crônicas, matérias jornalísticas, entrevistas, anúncios publicitários os mais diversos e até mesmo no título de um movimento religioso jovem, “Jesus é curtição”, noticiado no Jornal do Brasil de 10 de novembro de 1971[1].

Em entrevista realizada por Gilse Campos com Gal Costa, veiculada pelo Jornal do Brasil de 27 e 28 de dezembro de 1970, a cantora explicava: “Curtição é você aproveitar, saber sentir as coisas a cada minuto, tirar tudo o que elas têm para oferecer, ir até lá no fundo” (Campos, 1970: 2). Nesse mesmo periódico, em seu número de 5 e 6 de setembro de 1971, Luiz Paulo Horta apontou que a curtição era a onda filosófica do momento, que compreendia o “clima de descoberta das coisas, como elas são aqui e agora, que os hippies instalaram na nossa cultura […]– um protesto violento e necessário contra uma visão do mundo que esvaziava o Presente colocando tudo em termos de Evolução” (Horta, 1971: 6).

No ensaio “Os abutres”, publicado em 1973 na Revista Vozes e depois no livro Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural, Silviano Santiago destacou a relação entre literatura e curtição, analisando dois livros recém-publicados: de poesia, Me segura qu’eu vou dar um troço, de Waly Salomão, e de ficção, Urubu-Rei, de Gramiro de Matos, ambos de 1972. Em tal ensaio, Silviano argumentou que a “curtição (sen-si-bi-li-da-de de uma geração, sensação, estado de espírito, conceito operacional, arma hermenêutica, termômetro, barômetro, divisor de águas, etc.)” (Santiago, 1978: 123) já havia sido consagrada pela música popular, sobretudo pelo grupo baiano de que Caetano Veloso e Gilberto Gil faziam parte; em seguida, observou que a nova geração, de caráter gregário, buscava dessacralizar a escritura e desprezar a ordem dominante por meio de um comportamento voltado ao prazer.

Ao fim da primeira seção de “Os abutres”, Silviano Santiago destacou uma nova maneira para tratar das artes daquela época:

Seria preciso começar a pensar as manifestações artísticas da nossa época não tanto em termos de leitura mas em termos de curtição (novas regras para apreensão do objeto artístico). Uma desloca a outra e inaugura um novo reino de gozo, de deleite, de fruição, de prazer estético (Santiago, 1978: 126).

Contudo, após a primeira leva de publicações da poesia dita “marginal”, a curtição como traço de comportamento não se tornaria um aspecto tão determinante para as novas poéticas vigentes. Ao menos, elas sofreriam oposição interna, que revelava um tensionamento entre o prazer e o estado de “sufoco”, este último decorrente das ações repressivas da ditadura, intensificadas a partir de 1968, por meio do Ato Institucional no 5.

Além disso, no campo específico da política literária, alguns críticos parecem ter evitado, estrategicamente, o uso da palavra “curtição” em seus textos, talvez para não cair na esteriotipia que tal termo apresentava logo nos primeiros anos da década de 1970. Enfim, o conceito curtição saturou-se rapidamente, pouco depois que o ensaio de Silviano Santiago veio a público. Exemplo notável disso é a falta desse vocábulo na introdução de 26 poetas hoje (Hollanda, 1998), antologia lançada em 1976 por Heloisa Buarque de Hollanda, que consistiu numa tentativa de aquecer o debate em torno das poéticas então contemporâneas. Se por um lado a introdução de Helô não discutiu efetivamente os impactos da ditadura, o que, posteriormente, na segunda edição da antologia, ela avaliou como “autocensura”, por outro lado a palavra “curtição” e tudo que ela sugeria de alienação não conquistou espaço em seu texto introdutório.

Torna-se importante ler não apenas os versos de poetas do “sufoco”, mas também a estrutura maior em que seus versos estão inseridos, o livro, o que talvez favoreça a percepção das marcas de violência que são perdidas nas edições comercializadas pelo mercado tradicional do livro. Trata-se, portanto, de também ler o livro e sua materialidade, especialmente em relação às produções independentes ou alternativas, em que os poetas escreviam os textos e ainda participavam das etapas seguintes da cadeia produtiva do livro. Não é de menor importância observar que foi por meio de livros semiartesanais de poesia que parte da política especificamente literária da época se manifestou. Dessa maneira, me parece interessante ler essa produção em termos de materialidade do livro e seu diálogo com os poemas nele inseridos.

Num manifesto publicado em 1974, “El nuevo arte de hacer libros”, o artista, editor e escritor mexicano Ulises Carrión explicou que, na velha arte, o escritor não se implicava no “libro real”: “Él escribe el texto. El resto lo hacen los lacayos, los artesanos, los obreros, los otros”. Já na arte nova, a escritura corresponde à primeira etapa da cadeia que, uma vez completa, vai chegar ao leitor. Carrión então concluiu, em seguida: “En el arte nuevo el escritor asume la responsabilidad del proceso entero.” (Carrión, 2023: 9).

Em outra passagem do seu manifesto, Ulises Carrión destacou que, no livro novo, as palavras não estão isoladas, mas conversam com outros signos. Assim, para ler a arte nova, é necessário “aprehender el libro en tanto que estructura, identificar sus elementos y entender la función de éstos.” (Carrión, 2023: 19).

Um dos elementos fundamentais das edições alternativas se concentra no fato de que, muitas vezes, em meio aos poemas há recursos gráficos como desenhos ou colagens, em que despontam armas, giletes, impressões digitais, entre outros. Em alguns casos, as capas, criadas por meio de um pacto entre poetas e artistas visuais da mesma geração, apresentam índices de violência, direta ou indiretamente relacionados às ações repressivas da ditadura. Nesses casos, é importante levar em conta que, uma vez inserido em toda a cadeia produtiva, o escritor atuava, de alguma maneira, na concepção das capas. Embora parte da crítica caracterize as edições alternativas como “precárias”, houve rapidamente uma profissionalização referente aos aspectos gráficos dos livros e hoje eles podem ser entendidos, inclusive, como influenciadores de rumos futuros que o mercado editorial tomaria adiante, nos anos 1980, como é o caso das capas da coleção Cantadas Literárias, publicada pela editora Brasiliense. Abandonar parcialmente a ideia de “precariedade” associada às edições ditas “marginais” pode motivar novas e inovadoras leituras sobre a poesia e o livro produzidos naquela época.

A possibilidade de leitura das edições artesanais em termos de materialidade do livro se torna interessante, entre outros, com Preço da passagem, de Chacal, publicado em 1972, com 31 folhas soltas reunidas num envelope pardo que apresenta um texto carimbado em cada um dos seus lados, em cor vermelha. Na frente, consta o nome do autor (“Chacal”) e, no verso, em linhas separadas, encontram-se, respectivamente, o título do livro, a técnica de impressão (“Edição Mimeografada”), a tiragem (“1000 Exemplares”) e o número de folhas. Em formato atípico de livro, 12,7×20,2 cm, as folhas não contêm paginação, de modo que os textos e as imagens podem ser lidos sob sequências diversas, desestabilizando o princípio de linearidade típico de volumes em brochura ou grampeados. Assim, o leitor é liberado da ordem imposta pelos livros sob encadeamento mais tradicional. Falta linearidade, ainda, acerca da própria composição de cada página, que muda conforme a imagem trabalhada na mancha gráfica e/ou conforme a tipografia usada, que, às vezes, é manuscrita, evitando os modelos tipográficos industriais; às vezes, há mistura entre manuscrito e tipografia maquínica.

Em uma das páginas, encontramos o seguinte texto/imagem:

Aqui, o poema visual problematiza, com ambiguidade, as práticas e a condição do perseguido. O verso “ELE TRANSOU NAS BOCAS” compreende um duplo sentido: um relacionado aos pontos de venda de drogas, as bocas de fumo, outro relacionado ao sexo oral. Por encontrarmos as palavras escritas em caixa-alta, não sabemos se as “ÁGUAS SUJAS DO RIO” dizem respeito ao curso de água doce ou à cidade do Rio de Janeiro. Além disso, a frase superior que circunda a imagem, “ELE VIU TODAS AS MARGENS DO RIO”, nos traz a ideia de marginalidade, reproduzindo a mesma ambiguidade referente à palavra “RIO”. A mensagem menos afeita à ambiguidade é aquela que trata justamente de o personagem em questão estar sendo “PER/SEGUIDO”. Finalmente, não podemos desconsiderar que a foto reproduzida é de um homem negro, estimulando outras reflexões em torno da condição à margem, bem como outro motivo para a perseguição, o racismo.

 A experiência de leitura em termos de materialidade do livro torna-se profundamente diferente quando nos encontramos frente ao mesmo texto impresso na poesia reunida de Chacal (2016: 134), publicada pela Editora 34 sob o título Tudo (e mais um pouco): poesia reunida (1971-2016):

Analisar comparativamente as duas versões do poema (uma visual, outra exclusivamente textual) nos revela, com nitidez, o quanto a nova instância de autoria amplia a noção de escritura, como observa o editor e escritor argentino Eric Schierloh, que em 2022 publicou o livro La escritura aumentada. Conforme Schierloh, a “escritura aumentada” consiste na convergência da “escritura en um sentido tentativo, exploratorio y amplio, y la edición artesanal en tanto nueva instancia autoral (nueva instancia intelectual más allá del texto, y nueva instancia material más allá de la producción de un original” (Schierloh, 2023: 22). O contato e o diálogo entre signos linguísticos e signos visuais desencadeiam, no caso dos exemplos demonstrados de Chacal, uma potencialização de aspectos direta ou indiretamente relacionados ao Estado ditatorial brasileiro, militar, dos anos 1970, que em outras produções, mesmo de Chacal, mobilizam uma “nova sensibilidade” condicionada mais pelo medo, pela paranoia, pela loucura, pela violência sistêmica do que pela curtição, o que podemos constatar em poemas de Charles Peixoto, Nicolas Behr, entre outros.

Com a participação de Fred Coelho como debatedor, são questões desse tipo que pretendo expandir nesta sexta-feira, dia 8 de maio, às 17h, no seminário Back to the 70s: Euforia e sombras, a ser transmitido no canal da BVPS no Youtube.


Nota

[1] Cf. Campanha da Fraternidade no Paraná usará cartaz que mostra Cristo de gravata, Jornal do Brasil, 1971: 13.

Referências

CAMPANHA DA FRATERNIDADE NO PARANÁ USARÁ CARTAZ QUE MOSTRA CRISTO DE GRAVATA. (1971). Jornal do Brasil, 1º Caderno, Rio de Janeiro, p. 13, 10 nov. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&pesq=%22curti%C3%A7%C3%A3o%22&pasta=ano%20197&hf=memoria.bn.gov.br&pagfis=221999. Acesso em: 26 abr. 2026.

CAMPOS, Gilse. (1970). O canto livre de Gal. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, p. 2, 27 e 28 dez. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&pesq=%22curtição%22&pasta=ano%20197&hf=memoria.bn.gov.br&pagfis=201415. Acesso em: 30 abr. 2026.

CARRIÓN, Ulises. (2023). El arte nuevo de hacer libros. In: SCHIERLOH, Eric (Org.). Publicar es amplificar: antología sobre escritura, edición, impresión, manufactura editorial, publicación, distribuición & DIY. 2ª edição. La Plata: Barba de Abejas.

CHACAL. (2016). Tudo (e mais um pouco): poesia reunida (1971-2016). São Paulo: Editora 34.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (1998). 26 poetas hoje. 2ª edição. Rio de Janeiro: Aeroplano.

HORTA, Luiz Paulo. (1971). Notas ecológicas. Jornal do Brasil, Especial, Rio de Janeiro, p. 6, 5 e 6 set. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&pesq=%22curtição%22&pasta=ano%20197&hf=memoria.bn.gov.br&pagfis=217734. Acesso em: 30 abr. 2026.

SANTIAGO, Silviano. (1978). Os abutres. In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva; Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.

SCHIERLOH, Eric. (2023). La escritura aumentada. 4ª reimpressão. La Plata: Barba de Abejas.