
Mário de Andrade chega ao destino, em Bom Jardim, e escreve uma crônica sobre a rotina de um engenho de cana-de-açúcar. Descreve os aromas, os afazeres, as pessoas, a meladura pesada de açucar que escorre pelos canaletes até sua escrita. Há neste texto um quê especial de curiosidade por parte do modernista.
Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.
Boa leitura!
O Turista Aprendiz
Bom Jardim (8 de janeiro)
Na anca do terreno o Sol se achata no amarelo sem gôsto da bagaceira. Perfume lerdo que não toma corpo bem; não se sabe si de pinga, de assucar, de caldo de cana. Bois. Tres, quatro bois imoveis mastigando a cana amassada, fortes, alguns de bom estilo caracú na anca, no pêlo. Mas já os estigmas do zebú principiam aparecendo na zona… Só invocando santos, e com bastante raiva, que nem no coco:
“Cruzeiro! Santa Maria!
Mãi de Deus do Paraná!…”
O zebú no Brasil creio mesmo já é fatalidade, não se escapa mais dele não…
Vem o “cambiteiro” com os jericos, tres, no passo miudinho de quem dança um “baiano”. Nos cabitos triangulares a cana vai deitada, ultimos restos da safra do ano, arrastando no bagaço os topes de folha verde feito um adeus.
Pela porta do engenho escurentada mais pela fôrça da luz de fora, dois homens vêm, um na frente, outro atrás, rituais, erectos, no sempre passo miudinho e dançarino dos “brejeiros” (gente do brejo). Carregam a “padiola” com os bagaços da cana já moída. Trazem apenas calça e o chapéu de palha de carnaúba, chinesissimos na forma. E que cor bonita a dessa gente!… Envergonha o branco insosso dos brancos… Um pardo doirado, bronze novo, sob o cabelo de indio ás vezes, liso quasi espetado.
Entro no engenho. É dos de bangue, movido a vapor; descreverei a tecnica deles amanhã. Os homens se movendo na entre-sombra malhada de sol, seminús, sempre os chapéus chins: meio que me colonialisa a sensação. Não parece mais Brasil… Está com geito da gente andar turistando pelas Africas e Asias do atraso inglês, francês, italiano, não sei quem mais!… Todos os atrasos de conveniencia colonial.
Depois do engenho verde, a casa faz uma queda. No outro plano de lá é a “casa de caldeira”…
“Vamo fazê meladura, ôh!…
Lá na casa de caldeira!…”
que nem na cantiga-de-trabalho. E estão de facto fazendo meladura. O canalete conduz o caldo de cana pra cascatear pesado, pesado de assucar, num tanque de cimento — o “farol”, como se diz. A fantasista etimologia popular anda já falando em… “farol”…
Fronteiro ao parol está o grupo das tachas fabricando assucar. Outro malaio, bigodinho ralo, trabuca ali. É “cunzinhadô”, como se diz em Pernambuco, — o Mestre, o homem importante que dá o ponto no mel. A musculatura dele quer que eu estude com nomes scientificos a anatomia do costado humano. Felizmente que não sei… Vejo mas é o oiro duro daquele corpo, se movendo no esfôrço, transportando por cocos enormes com o cabo preso no tecto, o caldo fervendo, oiro claro, duma pra outra caldeira. Ás vezes o vento vem e achata a fumaça da fervedura. Esconde tudo. Fumaça acaba aos poucos, e a scena revive, o oiro fundo do homem perfilando sobre o oiro claro das espumas das tachas. Na última, o mel está no ponto. A espuma, mais profunda, quasi cor das epidermes daqui foi se entumecendo, entumecendo, oval, com um biquinho no centro, ver um peito de moça. “Peito de moça” é que falam mesmo… Peito de moça… É o assucar, delicioso, alimentar, apaixonante, moreno e lindo mesmo como um peito de moça daqui.
MÁRIO DE ANDRADE
