Série Back to the 70s | Sobre “A vida em outro lugar: crônica do exílio”, por Angela Leite Lopes

Publicamos hoje na série Back to the 70s: Euforia e sombras, uma prévia da mesa “A vida em outro lugar: crônica do exílio”, de Angela Leite Lopes, com debate de Gilberto Hochman (Fiocruz) e mediação de Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ). A gravação será disponibilizada nesta sexta-feira, 29/05, às 17h no canal da BVPS no Youtube.

O título “A vida em outro lugar”, além de síntese da experiência no exílio, assume, no livro, o sentido de uma prática de si. Em meio ao recrudescimento das ameaças à democracia brasileira em 2018, Angela Leite Lopes retorna às memórias dos anos passados fora do país, consequência da perseguição política sofrida por seus pais durante a ditadura militar. No conjunto dos relatos de filhos de exilados, seu livro incentiva a pensar o exílio – e, de maneira mais geral, a convivência entre culturas –, a partir da condição de permanente estrangeira, sublinhando os intervalos de diferença que compõem qualquer tentativa de assimilação cultural. Se nossas relações com a tradição europeia estão absorvidas por essa questão, como trabalhar a subjetividade individual dentro desse espaço especulativo?

Leia o texto e acompanhe a mesa. Você é nossa/o convidada/o especial!

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Sobre A vida em outro lugar: crônica do exílio

Por Angela Leite Lopes (UFRJ)

“Em Brasília, 19h”. Meu pai estava na rede, no jardim de inverno, ouvindo “A hora do Brasil” no rádio portátil, num dia de abril de 1969. E eis que ele ouve a notícia de que ele e minha mãe tinham sido aposentados da UFRJ pelo AI-5.

[…] Lembro bem do dia em que saiu a lista dos professores punidos. Meus pais iam receber convidados para o jantar. Minha mãe estava pegando louça e outros apetrechos num armário que ficava no corredor. Meu pai estava na rede, no jardim de inverno, onde gostava de descansar, ouvindo a “Hora do Brasil”. A lista estava sendo divulgada naquele momento e o nome de vários de seus amigos e colegas estavam sendo anunciados ali. Meu pai se levanta, vai até minha mãe e aponta para o rádio. Nesse momento, a voz do speaker diz: “José Leite Lopes”. Ele então vai voltando pra rede, mas logo volta e avisa: “Você também!”. Alvoroço! Eu me aproximo pra saber o que estava acontecendo e me dizem que meus pais “foram aposentados”. Minha reação é de alegria: “Minha mãe vai ficar mais tempo em casa!” Só aos poucos, passada a comoção, vão me explicando o que aquilo tudo significava. Inclusive e principalmente que, em algum momento, iríamos de novo embora do Brasil.

Não consigo situar com precisão se foi antes ou depois desse anúncio que houve uma “batida” policial lá em casa. Estávamos minha vó, minha mãe e eu. Os oficiais da polícia tocaram, se apresentaram e perguntaram se havia algum menor em casa e que era para retirá-lo, para que não se alegasse que tinha havido qualquer tipo de coação. Minha mãe então desceu comigo até a papelaria. Quando voltamos, eles ainda estavam lá na sala, sentados, tomando um cafezinho. Tinham revistado as estantes ao alcance da altura deles – e eram mais para baixinhos, diga-se de passagem. Minha mãe perguntou se não queriam uma escada, pois se fôssemos esconder alguma coisa, seria lá no alto, não estaria dando sopa assim. Eles declinaram…

[…] Outra “batida” que aconteceu, esta sim com certeza depois da aposentadoria dos meus pais, foi a dos alunos da minha mãe do Instituto de Matemática da UFRJ. Fui eu que atendi à porta. Um grupo de representantes dos estudantes trazia um abaixo-assinado em solidariedade por seu afastamento compulsório e arbitrário.

Nossa vida foi ficando mais atribulada. Havia um carro suspeito estacionado na esquina da nossa rua. Algumas vezes, meus pais não iam dormir em casa, temendo perseguição. A saída era mesmo ir embora do país (Lopes, 2025: 67, 71, 75).

Esse é o preâmbulo da minha entrada nos anos 1970, marcada pelo exílio, pela volta ao Brasil alguns anos depois, pela série de adaptações linguístico-culturais e por recomposições familiares. Procuro retratar tudo isso no livro que lancei pela Editora UFRJ em dezembro de 2025, A vida em outro lugar: crônica do exílio.

A escrita do livro foi, na verdade, um desdobramento da minha fala no ciclo de debates “O que aconteceu com os físicos durante a ditadura” que Lígia Rodrigues organizou no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF em 2018. Os ataques à nossa democracia tornavam-se tão violentos que a necessidade de mostrar para as novas gerações o que de fato ocorreu durantes os 21 anos de regime militar no Brasil era urgente, imperioso. Era – e ainda é – importante lembrar não apenas das perseguições políticas como também e principalmente de como essas perseguições afetaram a vida das famílias das pessoas perseguidas. No meu caso, meus pais, ambos professores da UFRJ, haviam sido aposentados pelo AI-5 em abril de 1969, o que fez com que meu pai fosse para Pittsburgh, nos EUA, para a universidade Carnegie Mellon, e depois para Estrasburgo, na França, para a universidade Louis Pasteur e o Centre de Recherches Nucléaires de Cronenbourg, acompanhado por minha mãe e por mim – a caçula dos três filhos.

Não à toa, meu livro veio se somar a outros, nos quais filhos de exilados, como eu, relatam as aventuras e desventuras que caracterizaram sua infância, acompanhando o périplo dos pais que fugiam da violência da repressão do estado brasileiro nos anos 1960/1970 até meados dos anos 1980.

A conversa que aconteceu durante o lançamento do livro na Casa da Ciência da UFRJ, contou com a participação de Eurídice Figueiredo, professora da UFF, e de Gilberto Hochman, pesquisador da Fiocruz[1], e foi a oportunidade para se contextualizar e ampliar o escopo do que está contado ali. Gilberto Hochman falou sobre a troca de cartas pessoais entre o meu pai e Haity Moussatché, um dos cassados de Manguinhos, entrando em detalhes não apenas quanto ao sentimento que o exilio provocava neles como também quanto às circunstâncias nem sempre fáceis nas quais os cientistas conseguiam dar prosseguimento a suas pesquisas – e isso tinha que se dar fora do Brasil. Eurídice Figueiredo, que acompanhou de perto meu processo de escrita, comentou como foi se dando a produção literária sobre o exílio, como ela aponta no prefácio do livro.

Ao lado dos antigos militantes que continuam escrevendo e dando suas versões da História, sob a forma referencial ou ficcional, as novas gerações se juntam a esse coro de vozes que só faz crescer: filhas, viúvas, irmãos, há uma gama profusa de obras de parentes das vítimas […]. Pode-se afirmar que não se escreve sobre a ditadura da mesma maneira nos anos 1960, nos anos 1980 e a partir de 2000, porque a experiência se transforma ao longo do tempo, dá-se uma decantação de modo a possibilitar obras menos realistas, em novos formatos (Figueiredo, 2025: 9).

Na esteira dessas colocações, me foi perguntado se a escrita do livro teria me ajudado a elaborar a experiência do exílio, ao que respondi prontamente que não, que na verdade tratava-se de um assunto que eu conseguia rememorar sem maiores danos emocionais. Observo, entretanto, que a partir da escrita do livro e do compartilhamento dessa minha experiência com as de outras (outrora) crianças que passaram por situações análogas, esse assunto passou a reverberar de outra maneira em mim. Parece que abriu um baú de memórias do qual vão saindo várias imagens e os mais diversos episódios do passado.

Na verdade, na origem dessa escrita havia de fato uma espécie de baú…

Quando minha mãe morreu, em 2013, eu fiquei impactada com o tanto de memória que havia acumulado em suas gavetas e armários: documentos, fotos e cartas, como a da sua bisavó datada dos primeiros anos do século XX. A vontade de fazer algo com aquilo foi me acompanhando desde então.

Durante alguns anos fui fazendo anotações dispersas num caderninho: “O que se faz com a memória? O que se faz com os objetos da memória: documentos, diários, cartas… Transmissão, preservação, dispersão e até destruição…” (27 de abril de 2014).  Logo em seguida começo um pequeno texto, “Uma noite em 1967”, que se tornaria o embrião do capítulo inicial de A vida em outro lugar.

Em dezembro de 2015, eu já registrava no mesmo caderninho a vontade de escrever “algo como memórias – para registrar a experiência do exílio” e anoto algumas lembranças de passeios, filmes, peças de teatro. Esse desejo estava atrelado ao fato de estarmos sentindo que nossa democracia vinha sendo cada vez mais ameaçada.

Mas foi a participação no ciclo de debates no CBPF que me fez perceber que havia realmente uma pertinência em tornar pública essa experiência pessoal. E desde então, principalmente depois do lançamento do livro, quando houve uma troca com as pessoas na plateia, parece que a memória foi sendo estimulada, fazendo com que mais e mais lembranças voltassem à tona, para além das que estão registradas na publicação.

O fio condutor do livro são as lembranças da criança e da adolescente que eu era quando meu pai primeiro se autoexilou, em 1964, e poucos anos depois, em 1969, partiu para o exílio duradouro (em 1967, houve uma certa distensão no regime militar e vários professores universitários que haviam partido em exílio voluntário retornaram ao Brasil, como foi o caso do meu pai). Essas lembranças dialogam com documentos oficiais: fichas do Dops do meu pai e da minha mãe, conseguidas pelo meu irmão Sergio no Arquivo Público Estadual; cartas e telegramas de personalidades científicas que pertencem ao arquivo pessoal do meu irmão Sylvio; abaixo-assinado dos estudantes do Instituto de Matemática da UFRJ em solidariedade à minha mãe, que consta do arquivo dela no MAST. Além de cartas nossas, desenhos, cartazes, folhetos e muitas fotos, um acervo variado guardado por mim, pela vó Marieta, por minha mãe, por meu pai, cujo arquivo está no CPDOC-FGV.

Esse diálogo entre a escrita e os documentos vai revelando como se deu a construção do meu imaginário, povoado pelos acontecimentos do mundo à minha volta, pela vivência em duas línguas e duas culturas distintas.  Como escreve Luciana Villas-Boas na orelha do livro: “Angela intercala à narrativa pessoal um conjunto variado de materiais – desenhos, cartões-postais, cartas, documentos oficiais – bem como reflexões que alinhavam ‘a teia de falas passadas, presentes, imaginadas’”. A ideia do livro não é somente evocar memórias, mas ir (se) revelando a sua construção.

Memória não é passado. É uma construção presente que dialoga com o passado e que se relaciona diretamente com a imaginação. E nos anos 1960 e 1970 havia uma grande esperança… na imaginação, reivindicava-se o poder à imaginação. Para a criança e adolescente que eu era, foram os anos do aprendizado da injustiça e da violência nos âmbitos político e social. Mas foram também os anos da descoberta da cultura e da chamada contracultura. Da militância armada e do “poder da flor”. Todos esses movimentos eram fascinantes e determinavam as músicas que eu ouvia, as roupas que eu vestia, as imagens que eu recebia e recriava.

Nossa estadia em Pittsburgh não foi muito longa, apenas um ano letivo. Mas sem dúvida o clima de protestos contra a guerra do Vietnã – estávamos lá quando quatro estudantes foram mortos durante protestos em Ohio – deixou marcas profundas no meu imaginário. Uma fusão entre o Make love not war e a luta contra as ditaduras na América Latina, mas também em Portugal, na Espanha e na Grécia, que me acompanhou durante toda minha adolescência, e em especial nos anos em que vivi em Estrasburgo, na França.

Apesar do horror, da depressão dos banidos e dos exilados, da realidade que era viver num clima literalmente sombrio – morávamos na fronteira da França com a Alemanha, nas margens do rio Reno, onde os invernos são longos e brumosos, os dias curtos – sabemos que havia, mesmo assim, algo de muito vigoroso e criativo nessa época. Eram os anos da transgressão política e de costumes – e tudo isso me fascinava.

A essa efervescência cultural vem se somar outro aspecto pessoal: por eu ter crescido e sido educada entre línguas – o português e o francês, mas também o inglês, na rápida passagem por Pittsburgh, e o dialeto falado em Estrasburgo, o alsaciano – acabei desenvolvendo um interesse especial pela maneira como o sentido se constrói, mais do que por aquilo que dele se depreende. Um falar entre línguas que representa para mim uma abertura para o poético. Quando criança, tive que conviver e atuar em ambientes onde eu não entendia nem sabia falar. A compreensão vem por camadas, por aproximações e muito especialmente pela imaginação. Antes de dominar o sentido de uma palavra, a gente o imagina e assim vai se arriscando na construção das frases. Algo que, confesso, me acontece por vezes até hoje. Essa experiência me conduziu de forma muito natural, por assim dizer, para a tradução. Fazer falar uma língua numa outra: é isso que mais me agrada no ato de traduzir. Não trazer o sentido de uma língua para outra, mas possibilitar que o leitor ou o espectador faça uma experiência plurilinguística e por vezes até de deriva de sentido.

Mas há um outro aspecto muito importante também quando se trabalha, como é o meu caso, com a tradução do português para o francês e do francês para o português. Há um hiato entre a assimilação cultural, imaginária da obra francesa pelo leitor ou o espectador brasileiro e a que se produz no outro sentido, quando se leva uma obra brasileira para o público francês. No fundo, toda a nossa história está impregnada dessa relação e falar sobre isso seria o tema de outro debate: todo o conhecimento que adquirimos da cultura europeia, tudo que não foi transmitido das culturas dos países ditos periféricos para os europeus.

É com essa questão que encaminho o final do meu livro e essas considerações aqui para o ciclo Back to the 70s:

A escolha de Nelson Rodrigues como tema da minha tese de doutorado na Universidade Paris 1 [nos anos 1980] se deu pelo fato de a discussão em torno do trágico ser de atualidade no debate teórico na França, com as pesquisas tanto acadêmicas quanto artísticas do filósofo Philippe Lacoue-Labarthe e do diretor Michel Deutsch, por exemplo. Foi o programa do espetáculo Les Phéniciennes, que ambos apresentaram no Teatro Nacional de Estrasburgo – TNS e que me foi enviado por minha amiga Madeleine Rebaudières, que me fez optar definitivamente pela questão do trágico no teatro de Nelson Rodrigues como objeto da tese.

Intuitivamente – pois isso só foi ficando claro para mim ao longo dos anos e das circunstâncias – eu estava abrindo espaço para que a visão teatral de Nelson Rodrigues, a contribuição que ele traz para o teatro tal como concebido na tradição greco-latina, fosse introduzida no panorama teatral francês. Tarefa árdua porque, para o leitor ou espectador francês, na maioria das vezes, Nelson Rodrigues traria uma experiência “brasileira” para a cena, eclipsando assim que aquilo que ele está colocando em jogo é a própria noção de teatro ocidental.

Trabalhar com os textos de Valère Novarina é abrir espaço para que a tradução traga à tona, na língua própria do tradutor, todo o seu potencial criativo, originário, propulsor de novos sentidos. Novarina recria o francês e, com isso, propõe que a língua na qual sua obra está sendo traduzida seja recriada também. O que traz uma nova dimensão para a relação intercultural subjacente a todo trabalho de tradução, a de um diálogo e uma troca em sentidos mais profundos. […]

Traduzindo obras de autores franceses e francófonos, em especial a de Valère Novarina, a teia de relações com a França continua se ampliando.

Mas, para mim, o mais importante no exercício da tradução é a possibilidade não apenas de viver com as duas línguas – o português e o francês –, de tomar parte na criação delas, como também, e principalmente, de me manter “estrangeira” em relação às duas.


Nota

[1] Eurídice Figueiredo produziu uma pesquisa importante sobre a relação entre literatura, ditadura e produção feminina; Gilberto Hochman tem se interessado em pesquisar as trocas de cartas pessoais de cientistas brasileiros no exílio.

Referências

BOITEUX, Bayard do Coutto & POSTIGO, Vanuza Campos (Orgs.). (2020). Memórias de filhos de exilados políticos, Rio de Janeiro: Editora Mourthé.

FIGUEIREDO, Eurídice. (2025). Escrever é uma forma de resistência. In: LOPES, Angela Leite.  A vida em outro lugar: crônica do exílio.

LOPES, Angela Leite. (2025). A vida em outro lugar: crônica do exílio. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.