Sociológicas | Descobrindo os labirintos das plantações paulistas, por Maria Moraes

Estreamos hoje a participação de Maria Moraes (UFSCar) na série Sociológicas! Uma das mais importantes pesquisadoras do trabalho rural no Brasil, a socióloga nos acompanhará em nove episódios quinzenais pelos labirintos das plantações paulistas – como o título desta abertura bem anuncia –, desconstruindo as imagens triunfalistas do agronegócio. Neles, ela realiza uma leitura a contrapelo da história agrária brasileira para revelar, nas camadas ocultas sob os discursos do progresso e da modernização, as paisagens invisibilizadas do mundo do trabalho, sobretudo no que diz respeito à participação feminina.

Pesquisadora do mundo rural há mais de quatro décadas, Maria Moraes dedicou-se às transformações do trabalho nas terras paulistas, às reestruturações produtivas, à concentração da propriedade da terra, às migrações e ao avanço de grandes grupos econômicos nacionais e internacionais. Laureada com o Prêmio Érico Vannucci Mendes em 2005 e com o Prêmio de Excelência Acadêmica Antonio Flávio Pierucci em Sociologia, conferido pela ANPOCS em 2024, é autora de obras fundamentais como Errantes do Fim do Século (1999) e A luta pela terra: experiência e memória (2004). Após passagem por cursos de pós-graduação de diversas instituições, atua desde 2007 como professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos. Ela, e nós da BVPS, esperamos que estas reflexões possam contribuir para provocar outras e novas formas de ver as vidas, os corpos e as resistências de quem sustenta o país por baixo do mar de cana.

Sociológicas é um espaço de reflexão da BVPS Edições, voltado para discutir problemas do presente e os processos sociais que este ainda oculta, a partir de uma perspectiva sociológica. A série conta com a assessoria editorial de Onildo Correa (PPGSA/UFRJ).

Boa leitura!


Abertura

Descobrindo os labirintos das plantações paulistas

Por Maria Moraes (UFSCar)

O viajante que percorrer as estradas paulistas avistará a monotonia da paisagem de um verdadeiro mar de cana. São seis milhões de hectares, responsáveis pela produção gigantesca de açúcar e etanol, destinados ao mercado internacional e nacional. Além dos canaviais, o viajante também avistará as grandes máquinas, colheitadeiras, caminhões-tanque, caminhões com até quatro gaiolas para o transporte da cana, tratores, plantadeiras, pivôs para irrigação e distribuição de vinhaça, além de drones e aeronaves agrícolas empregados na pulverização aérea de herbicidas, fungicidas e fertilizantes. No entanto, avistará poucos ônibus (Rurais) que transportam os trabalhadores.

Esse mar de cana foi se formando a partir da década de 1960, com o surgimento de grandes usinas em várias regiões do estado. No período entre 1960 e 2005, predominava o corte manual da cana queimada, realizada por migrantes, vindos do Vale do rio Jequitinhonha (MG) e de estados do nordeste do Brasil. A presença de máquinas, pouco a pouco foi aumentando. A partir de então, o processo de mecanização se acelerou até se completar nos dias de hoje. Este processo resultou no estancamento das migrações permanentemente temporárias, resultando no apagamento da memória e da história dos migrantes que labutaram nas terras paulistas. Um verdadeiro processo de expulsão e memoricídio.

Ademais das grandes plantações de cana, o viajante também avistará os pomares de laranjas e os cafezais. O estado de São Paulo é o maior produtor de suco de laranja do país, exportado, principalmente para os EUA. Nos laranjais, o trabalho da colheita é feito manualmente pelos homens e mulheres provenientes do Nordeste, particularmente, do estado do Piauí. Nos cafezais, predomina a colheita mecanizada. Há também em lugares mais distanciados das estradas, granjas para produção de ovos e aves. Em 2025, segundo dados do IEA (Instituto de Economia Agrícola), a produção de ovos, a maior do país, foi de 16,7 bilhões de unidades, representando um crescimento de 7% em relação ao ano anterior.

Por mais de quatro décadas, venho acompanhando a história do trabalho e dos/as trabalhadores/as nas terras paulistas, bem como suas metamorfoses definidas pelas reestruturações produtivas, concentração da propriedade da terra e domínio de grandes empresas nacionais e internacionaisi.

Meu intento é, seguindo as pegadas de Walter Benjamin, escovar essa história a contrapelo, por meio da metáfora do palimpsestoii, ou seja, escovar e raspar a superfície, a fim de avistar as camadas até então invisibilizadas, escondidas. A grandiosidade da produção do denominado agronegócio é mostrada anualmente nas feiras, as agrishows, realizadas na cidade de Ribeirão Preto, a capital mundial do etanol. No que diz respeito especificamente à agroindústria canavieira, o discurso do desenvolvimento promovido pelo setor foi e tem sido bastante acentuado. O Estado conta com a colaboração de empresários, políticos e meios de comunicação para difundir a ideologia do etanol. A nova imagem revela os números gigantescos da produção, mas esconde a degradação socioambiental: uso de agroquímicos por drones e aviões e uso excessivo de água, pois cada vez mais há a necessidade de irrigação dos canaviais em razão dos períodos de seca, sem contar que para cada litro de etanol são consumidos 13 litros de água, e as formas de exploração laboral, caracterizadas pela imposição de metas abusivas que, muitas vezes, extrapolavam os limites físicos dos trabalhadores e, até mesmo, ocorrências de trabalho escravizado, as quais têm diminuído nos últimos anos em razão da ação da Promotoria Pública.

À estrutura de poder econômico e político, soma-se o poder simbólico, manifesto, sobretudo nas agrishow. Em Ribeirão Preto, no final de abril de 2025, foi realizada a 30ª. feira, que reuniu 195 mil participantes e contou com a exposição de 800 marcas de produtos agropecuários, e movimentou mais de 13 bilhões de reais. É a vitrine do agro, assim denominado. Helicópteros, jatos particulares, aviões transportavam os visitantes estrangeiros e nacionais que desembarcavam em São Paulo. Compradores, empresários se somam aos políticos locais, prefeitos, vereadores, além de governadores, deputados, ministros e presidentes da República (de diferentes coligações políticas). As grandes máquinas são expostas em inúmeros estandes, pelos seus representantes.

Ademais, a feira é, assim, o lugar da mostra da moda feminina do agro, criada por estilistas, composta de botas, chapéus, roupas com visuais próprios. É também o lugar onde o som da música do agronejo, de vários cantores, substitui a música caipira ou a sertaneja. Também é o lugar onde as indústrias de tratores e máquinas agrícolas expõem os tratores cor de rosa, um chamariz para as mulheres trabalhadoras do agro. Os números da produção sempre se reportam aos milhões, bilhões. A cana de açúcar ocupa quase seis milhões de hectares no estado de São Paulo, sendo um pouco mais de 8 milhões no país. Os dados quantitativos revelam uma produção crescente, assim como os níveis de produtividade. Na safra 2024-25, o Estado de São Paulo foi responsável por 53% da produção nacional de cana-de-açúcar, com 26 milhões de toneladas de açúcar e 13,5 bilhões de litros de etanol, segundo os dados da CONAB.

Na contramão das imagens expostas nas feiras e dos discursos políticos e midiáticos sobre a grandiosidade do agro, a proposta para o BVPS é convidar os/as leitores/as a penetrarem nos labirintos desta produção a fim de avistarem outras paisagens ocultadas e invisibilizadas – o mundo do trabalho. Tal como Ariadne, convido os/as leitores/as para seguirem o fio condutor até os labirintos onde se acham aqueles e aquelas que trabalham nessas plantações. Oxalá, as reflexões acerca desse mundo escondido possam contribuir não só para aumentar seus conhecimentos sobre esse tema, como também provocar outros olhares, outras formas de ver as paisagens do mar de cana paulista.

Seguindo esta toada, a raspagem das camadas do palimpsesto não segue uma linha do tempo linear, mas, circular, onde tempo/espaço formam uma simbiose, constituída por elementos contraditórios, onde verso/reverso, continuidade/descontinuidade se acham presentes. Nas quatro décadas de pesquisa nos campos paulistas e nas regiões de origem dos/as migrantes, pude acompanhar as mudanças e permanências relativas à situação de homens e mulheres que contribuíram para a riqueza e acumulação dos capitais dessas plantações.

Na década de 1960, houve a grande transformação nas estruturas produtivas até então, vigentes. Foi o período da chamada revolução verde, que continuou durante a ditadura militar, sob a égide do Estado. No estado de São Paulo predominava a cultura cafeeira até a década de 1950. Aos poucos, as grandes usinas de cana de açúcar vão se instalando e as terras destinadas aos cafezais foram transformadas em plantações de cana, constituindo-se no chamado mar de cana, e em laranjais, visando a produção de suco para exportação. No que se refere aos cafezais, a diminuição da área foi seguida por sucessivas fases de restruturação produtiva, concentrando-se em poucos municípios, especialmente, na região da Ata Mogiana.

Esse processo foi caracterizado pela concentração da propriedade da terra e expulsão de sitiantes, parceiros e arrendatários, além dos colonos, trabalhadores residentes nas fazendas cafeeiras. Houve, assim, num curto período, a mudança total da paisagem do mudo rural paulista. Os contingentes expulsos instalaram-se nas periferias das cidades e, aos poucos, foram retornando às plantações, na condição de boias frias, trabalhadores temporários, que viviam nas cidades e trabalhavam no campo. Até os finais de 1980, eram transportados em carrocerias de caminhões, sem nenhuma segurança, o que levou muitos à morte, em razão dos acidentes ocorridos.

As mulheres foram as maiores vítimas deste processo de modernização, tendo em vista a continuidade da dominação patriarcal, antes, centrada na figura do pai-patrão e, agora, sujeitas ao domínio dos representantes do controle e disciplina das empresas. Ademais passaram a vivenciar a dupla jornada de trabalho, caracterizada pelo tempo na lavoura e na esfera doméstica (trabalho reprodutivo).

Em razão do crescimento vertiginoso das plantações, as empresas passaram a importar a mão de obra dos/as migrantes, provenientes do Vale do Jequitinhonha (MG) e estados do nordeste, ou seja, regiões mais pobres do país, mormente, a partir da crise do petróleo em 1972, quando, foi posto em prática a produção de etanol para substituir a gasolina para os carros particulares. O Pró Álcool, gestado pelos governos militares, impulsionou mais ainda as mudanças da estrutura produtiva das plantações canavieiras. Paulatinamente, constituiu-se o grande exército de trabalhadores inseridos no processo que denominei de migrações permanentemente temporárias, no qual a permanência era temporária, onde o viver era dividido entre o cá e lá, entre o partir e o ficar.

Durante as décadas seguintes, centenas de milhares de migrantes temporários aportaram às terras paulistas em busca de trabalho, a grande maioria constituída de homens jovens, dotados de maior força física para as árduas tarefas. Ainda que a força de trabalho feminina fosse em menor quantidade, as mulheres sempre estiveram presentes nessas plantações, muitas vezes, exercendo as piores tarefas como a distribuição de veneno, a recolha de pedras nos canaviais, limpeza de curvas-de-nível, além da colheita de laranjas, por meio do uso de escadas de ferro, e o trabalho em granjas.

A partir dos anos de 2010, novas reconfigurações dos capitais foram sendo implantadas, por meio da chamada agricultura 4.0, que consiste no emprego de tecnologias avançadas e das TIs. Assim, centenas de milhares de postos de trabalho foram extintos, sobretudo, dos migrantes, surgindo novas formas de exploração e de inserção das mulheres como operadoras de máquinas.

Vale ressaltar que as formas de exploração laboral não podem ser consideradas separadamente dos processos sociais de dominação de gênero e raça/etnia. São processos historicamente distintos, embora entrelaçados, formando uma simbiose. Do mesmo modo, embora separados, geograficamente, os mundos do trabalho paulista e os das regiões de origem dos migrantes, acham-se imbricados. São processos sociais regidos pelos mesmos determinantes.

Nesta toada e seguindo a proposta acordada com o professor André Botelho, para o BVPS, priorizarei nos próximos episódios a participação feminina nos canaviais, laranjais, numa granja em São Paulo, e em dois locais de origem das migrações: Vale do Jequitinhonha (camponesas) e Maranhão (quebradeiras de coco). Serão nove episódios, assim distribuídos: nos canaviais (05 episódios); na granja (01 episódio); nos laranjais (01 episódio); nas grotas e veredas (01 episódio); nos babaçuais (01 episódio).


Notas

[i] Visando ir na contramão do memoricídio, optei por reunir os áudios das entrevistas gravadas com trabalhadoras/es em São Paulo e nos locais de origem dos/as migrantes – Vale do rio Jequitinhonha (MG), Bahia, Maranhão, Paraíba e Piauí – além de vídeos, fotos e algumas produções no Repositório Vozes e Memórias: https://www.vozesememorias.com.br/

[ii] Palimpsesto é um termo grego, datado do século V a.C. que significa um pergaminho composto de múltiplas camadas de escrita sobrepostas. Melhor dizendo, reaproveitava-se um pergaminho já escrito raspando seu conteúdo, todavia a camada anterior permanecia parcialmente visível.