
A crença nos oráculos parece pertencer a um passado distante. No entanto, em nova edição de sua coluna, Renato Ortiz (Unicamp) revisita essa antiga aspiração humana – a previsão do futuro – para refletir sobre as formas particulares que tem assumido no contemporâneo. Ortiz analisa, assim, a emergência da futurologia como expressão característica da modernidade. Apoiados na linguagem da ciência, os futurólogos prometem reduzir as incertezas do amanhã, transformar o desconhecido em objeto de cálculo e o indefinido em presumível. Até que ponto suas previsões diferem das antigas práticas divinatórias, entretanto, é a questão.
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O Futuro e a Crença
Por Renato Ortiz (Unicamp)
A função social do oráculo é prever o futuro, tornar o indeterminado e o indefinido presumíveis; isso significa que aquilo que virá encontra-se prefigurado de antemão. Podem existir algumas dúvidas a seu respeito, uma neblina que se interpõe entre o atual e os fatos que acontecerão. Entretanto, o oráculo possui a capacidade e a sabedoria para contornar tais adversidades. No antigo mundo helênico, acreditava-se que Delfos ocupava o centro do universo. Conta-se que Zeus tinha enviado duas águias para voarem em direções contrárias; após terem percorrido toda a Terra, elas se encontraram em um mesmo local, o umbigo do mundo. Delfos era uma instituição de prestígio na arte divinatória, ali residiam as pítias, porta-vozes de Apolo, o deus-sol. A consulta se fazia oralmente. O interessado perguntava à entidade (uma mulher — os eruditos debatem se elas entravam ou não em transe) o que desejava saber, ela respondia de maneira enigmática. Entre os iorubás ocorria o mesmo, mas a consultação não se fazia na forma de diálogo. A mediação com o sagrado realizava-se através do rosário de Ifá, colar com pendentes de fava de opelé que permitia desvendar o futuro. A posição das favas, lançadas em um tabuleiro, indicava o sentido do que estaria por vir. A profecia anunciava assim o destino por ela preconizado, como no mito de Édito, que ainda na infância anteviu sua sorte trágica: o assassinato do pai e o matrimônio com a mãe (Jocasta). A vida seria a realização de um vaticínio anunciado. Os atos de cada um corresponderiam a um imperativo que os transcenderia; diante do caminho traçado pelos deuses ou pelos orixás, restaria aos indivíduos o fardo de sua existência.
Dificilmente a verdade manifesta nos mitos sobreviveria aos tempos atuais. Na hipermodernidade o indivíduo se imagina — essa é a ilusão — como demiurgo do mundo. A noção de destino como uma vontade transcendente colide com sua idiossincrasia, ela não se dobra a uma imposição alheia a seu próprio Ser. Porém, a crença em se prever o futuro, longe de fenecer, permanece; com outra roupagem transforma-se e se fortalece. Seria insensato tomar ao pé-da-letra as palavras enigmáticas das pítias quando se sabe que a mitologia helênica se perdeu com a Antiguidade. Ou, ao se consultar a ialorixá de um candomblé, nos convencermos inteiramente das afirmações ditadas pelo jogo dos búzios. Essas práticas subsistem entre nós, mas perdem em convicção coletiva. Por isso a crença necessita ser remodelada, recomposta. A futurologia (existem cursos acadêmicos sobre essa quimera, faculdades, universidades, think-tanks) cumpre esse papel, ela encontra na ciência os argumentos para fundar sua legitimidade. Sua primeira preocupação é distinguir-se das crendices do passado, isto é, estabelece uma ruptura epistemológica com esse legado incômodo. O mantra de seu devaneio deve, portanto, ser repetido a exaustão: “baseado em evidências prever o futuro tornou-se uma ciência”. Ela se afasta assim das vertentes tradicionais, busca-se por algo “sólido”, socialmente convincente para se amparar. A futurologia é uma prática heteróclita que combina métodos oriundos de saberes distintos e discrepantes: estatística, modelos matemáticos, história, estudos populacionais, sociologia, psicologia, biologia, etc. (com o advento da Inteligência Artificial a esperança em sua imprecisão aumentou). Parcelas de disciplinas desconexas são costuradas para sustentar a credibilidade de um conjunto frágil. O intuito deste tipo de operação simbólica é claro, dar consistência ao que é instável. O raciocínio que a define é, entretanto, circular. Ele diz: ao se utilizar métodos científicos para se antever o que não existe ainda, a prática que o desvenda é necessariamente científica. Essa é a tautologia manifesta (também no kardecismo a “ciência” é utilizada para provar a existência dos espíritos). As divindades perdem o monopólio da arte da adivinhação e são substituídas por uma instância com maior credibilidade. Há ainda um traço que afasta a futurologia da tradição divinatória: a maleabilidade do destino. Esforça-se para que, de alguma maneira, o que se encontra desenhado previamente possa ser adulterado. Com os recursos científicos disponíveis, imagina-se a produção de cenários que eventualmente configurariam no presente uma alternativa ao que se esperar adiante (esse tipo de “metodologia” é celebrado sobretudo pelas grandes empresas na realização de seus negócios). Entretanto, a lógica de cartomante que funda a premonição permanece: “se tudo se passar como previsto, tudo assim será”.
Nem todos alcançam o futuro, apenas alguns privilegiados são ungidos pelos deuses. Entre o presente e o desconhecido há uma linha de separação, um pouco como o contraste entre o sagrado e o profano; entre eles existe uma zona liminar na qual se situam os agentes intermediários. Sua tarefa: colocar em contato esferas distintas. Van Gennep dizia que os rituais de passagem tinham como objetivo estabelecer a comunicação entre o sagrado e o profano. Para isso era necessário a presença de mediadores, ao abrir ou fechar as portas desses compartimentos, seriam capazes de controlar o fluxo entre eles. Desta maneira, torna-se inteligível o que se encontrava fora do alcance dos mortais. As pítias ou aqueles que interpretam os segredos de Ifá preenchem esta função, propiciam o liame entre o excepcional e o ordinário. Os futurólogos são os mediadores das crenças modernas, sua posição ambivalente, como Janus, olham para trás e para frente, lhes permite interpelar o presente e vislumbrar adiante. Mas em seu caminho conhecem os percalços da vida. Dizem que os profetas para terem êxito devem pregar para além do deserto, a doutrina professada necessita de acólitos, sem o que sua verdade seria vã. Felizmente, porém, a distância entre a crença e a realidade favorece a escuridão, a fresta na qual a suspeita se aloja. Entre a certeza preconizada e a vastidão do deserto as palavras se arrastam, resvalam em seu solo árido e se dissolvem na areia.
