
Dando continuidade à série Copa do Mundo na BVPS, publicamos hoje texto de Gustavo de Araujo (PPGS/Unicamp), em que lança um olhar sobre um fenômeno que vai muito além do gramado: a expansão silenciosa – e perigosa – das casas de apostas no futebol e seu funcionamento.
Com gigantes das chamadas “bets” patrocinando seleções, clubes e até a própria Copa do Mundo, bilhões circulam por trás de cada “odd”, enquanto o risco se normaliza e a fronteira entre as categorias de esporte, jogo e brincadeira se pulveriza. Como nos mostra Araujo, enquanto uns faturam fortunas, outros perdem tudo. E o futebol, palco dessa disputa bilionário, segue sendo explorado como meio por sua imensa popularidade.
Para acompanhar o post de abertura da série, clique aqui. Novos textos serão publicados todas as sextas-feiras, até o fim desta edição da Copa do Mundo.
Boa leitura!
Esporte, jogo ou brincadeira? Quando as apostas viram sucesso financeiro para uns e falência para outros
Por Gustavo Reis de Araujo (PPGS/Unicamp)
Nos estudos sobre esporte, política e sociedade há um grande número de autores e autoras que discutem a diferença entre as categorias esporte, jogo e brincadeira, em que se reflete sobre as diferenças e semelhanças entre uma modalidade organizada em níveis amadores e profissionais a partir de regras gerais nacionais e internacionais, práticas recreativas muitas vezes também mediadas por um conjunto de regras e os atos de ócio criativo voltados ao relaxamento em diferentes faixas etárias a partir de fins lúdicos. Parece coisa simples discernir cada um desses termos, contudo, se tão evidente fosse, não haveria tantas reflexões a fim de delimitar os lugares de cada um deles no gramado.
O uso da ideia de gramado e seus espaços não é acidental por aqui, mas sim uma referência ilustrativa ao momento em que estamos agora inseridos: período de Copa do Mundo de futebol profissional masculino. Apontado como o maior evento esportivo do mundo no que se refere à atratividade de espectadores, turismo aos países sede, reunião e confraternização de múltiplas nacionalidades, a competição envolve exorbitantes cifras de dinheiro geradas. E no decurso do século XXI, o torneio ganhou status de “megaevento” com seus aspectos gigantescos, grande público presente nos jogos e bilhões acompanhando de suas casas, além de parcerias com celebridades e artistas de outras modalidades.
Tudo isso administrado pela mais alta federação internacional do futebol, a FIFA (sigla para Federação Internacional de Futebol Associado), que lucra bilhões e bilhões por quadriênio, e quando já havíamos tecido todas as críticas e análises possíveis acerca dos modos como a FIFA, bem como os meios de comunicação e os governos locais dos países sediadores da Copa conseguem maximizar seus lucros com o megaevento, deixando muitas vezes de lado o mais essencial de tudo, o tal futebol, eis que surge um novo braço de ganhos, a nova galinha dos ovos de ouro. Surgem as casas de apostas atreladas ao jogo de futebol, ou como costumo nomear: o jogo do dinheiro.
O jogo do dinheiro
O termo bet vem do verbo em inglês to bet que significa apostar, cujo local organizado para tal ato são as chamadas casas de apostas. Esse modelo, embora tenha ganhado maior veiculação e popularidade nos últimos anos, é antigo e tem seus primeiros traços de sucesso no Reino Unido ainda no século XIX, período em que as apostas em corridas de cavalos possuíam grande apelo por parte da população. Voltando aos tempos atuais, as apostas ganharam espaço global a partir de seu atrelamento ao futebol, aos clubes de futebol, às entidades organizadoras do popular esporte e também a membros da elite política que, através de leis, decretos e novas legislações passaram a compreender as apostas como um caminho gerador de outras rendas no meio do futebol. Pode-se afirmar isso, uma vez que muitos dos países da América Latina e da Europa possuíam restrições e alguns, inclusive o Brasil, proibições ao jogo de apostas.
A partir de um pequeno levantamento acerca da Copa do Mundo que está em curso, inúmeras seleções possuem patrocínio de casas de apostas, para citar algumas: Argentina, Colômbia, México, Paraguai, Equador, Portugal e França. Contudo, o dado que salta aos olhos é de que a própria Copa terá sua bet patrocinadora oficial: Betano, a gigante grega com atuação nos maiores mercados da América e da Europa fechou contrato com a FIFA para estampar sua marca no megaevento esportivo com valores não divulgados. Para termos dimensão do tamanho da Betano, a casa de aposta patrocina o Clube de Regatas do Flamengo com o maior valor de patrocínio de uma bet em relação a um clube em território brasileiro[1]. Além disso, foi a que mais lucrou no mercado brasileiro em 2025 com mais de 1 bilhão e 400 milhões de dólares[2], patrocinando dois dos principais campeonatos nacionais brasileiros: a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro.
Pelos aportes financeiros e o faturamento anual somente no mercado brasileiro, percebe-se o tamanho dessa casa de aposta, cuja atuação agora alcança a Copa do Mundo. Assim, justifica-se a alcunha dada de “jogo do dinheiro” para a ação das casas de apostas no meio do futebol. Com faturamentos bilionários atraindo o protesto de outros setores das economias nacionais, como recentemente a Confederação Nacional do Comércio (CNC), que divulgou um estudo em que afirma a evasão de mais de 143 bilhões de reais do comércio varejista utilizados por pessoas em jogos de apostas[3].
Como funciona uma aposta?
O jogo de apostas foi proibido durante muitas décadas no Brasil, mas em 2018, a partir de decreto do então presidente Michel Temer, deixou de ser proibido, passando então a ocupar um lugar de “não-lugar”, o chamado limbo. Apesar de deixar de ser proibido, não havia legislação específica para regulamentá-lo, o que ocorreu somente em dezembro de 2023 a partir da Lei n º 14.790, a chamada “Lei das Bets”. A partir de sua promulgação, juridicamente entende-se uma aposta como “ato por meio do qual se coloca determinado valor em risco na expectativa de obtenção de um prêmio” e com “fator de multiplicação do valor apostado que define o montante a ser recebido pelo apostador, em caso de premiação, para cada unidade de moeda nacional apostada”[4].
Os palpites vão dos resultados propriamente ditos em que você aposta a favor de algo ou contra algo dentro de um evento esportivo. Apostando usualmente em placares, a aposta de um indivíduo é o ato indicativo de que ele acredita que tal ação ocorrerá em determinado evento esportivo. No entanto, a aposta é feita contra a casa de aposta, e se de fato ocorrer, o apostador ganha o valor, se não ocorrer, a casa de apostas retém o valor apostado. Essa relação é mediada pelas odds – do inglês, “probabilidades” –, pois na perspectiva das casas de apostas, todos os dados relativos a um evento esportivo são analisados para saber o grau de probabilidade de determinada ação ocorrer: são dados relacionados à qualidade das equipes em campo, histórico dessas equipes de confrontos entre si, valor simbólico e material da partida em questão e tantos outros elementos de análise que cercam uma partida, todos eles juntos formam o valor da odd.
Ela é inversamente proporcional: quanto maior, menos chance há de a ação ocorrer; quanto menor, mais provável seu acontecimento. Para compreendermos com mais detalhes, as odds são em valores o quanto um apostador ganhará caso seu palpite se concretize no evento esportivo. Por exemplo: se o apostador disser que ambas as equipes marcarão em uma partida de futebol e para tal ação a casa de aposta estiver pagando odd 2.75, e para tal palpite o apostador colocar 10 reais, caso se concretize, ele ganhará 10 x 2,75, totalizando 27,50 reais. Portanto, ao fim de sua aposta, seu lucro será de 17,50 reais.
Esporte, jogo ou brincadeira?
Algum tempo atrás, o jogador brasileiro Lucas Paquetá, atualmente no Flamengo, mas à época no West Ham da Inglaterra, foi indiciado pela Federação Inglesa de Futebol por supostos envolvimentos em apostas ao executar ações premeditadas em uma partida do Campeonato Inglês para favorecer conhecidos que haviam apostado. Nos atos em questão, o jogador tomou cartões amarelos, cujas apostas haviam sido feitas por apostadores no Brasil, mais precisamente na Ilha de Paquetá, local de nascimento do jogador.
Jogadores e demais profissionais ligados diretamente ao futebol são proibidos de participar de apostas esportivas, justamente por suas profissões mescladas ao jogo de apostas, poderem causar tipos de informações privilegiadas e ferir a ética esportiva. Após a revogação da lei que proibia as apostas de cota fixa em competições de futebol no território nacional em 2018, esse aquecido mercado entrou rapidamente no Brasil, causando uma certa “onipresença” das apostas no mundo do esporte e do futebol em especial. De camisas de clubes, passando por torneios de futebol, até personalidades do mundo da bola protagonizando publicidades, em todos os lados se vê alusões às tais bets. Essa “onipresença” gera uma certa naturalização no ato de apostar, trazendo a impressão de mera brincadeira corriqueira, contudo, essa percepção parece tomar conta até mesmo dos protagonistas do jogo, isto é, dos próprios jogadores.
Ao fim, Paquetá foi inocentado pela justiça inglesa[5] e foi um dos 26 comandados pelo técnico Carlo Ancelotti na Copa do Mundo. O fato é que Paquetá parece mais uma vítima dessa naturalização das apostas esportivas no mundo do futebol, que junto à permissão para o jogo de apostas, seus investimentos, publicidades e toda a “brincadeira” em torno disso, não trouxe consigo a educação e o entendimento dos limites entre o esporte, o jogo e a brincadeira. Quem é profissional do esporte não pode e não deve apostar nem favorecer direta ou indiretamente a uma aposta, pois é profissional de um jogo e não pode interpretar as apostas como mero ato de brincadeira. A partir do momento que ultrapassa essa linha tênue, torna-se algoz e parte para um promíscuo jogo, o chamado “jogo do dinheiro”.
Notas
[1]Para mais, ver https://ge.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2025/08/23/acordo-do-flamengo-com-nova-patrocinadora-preve-pagamento-imediato-veja-valor.ghtml, acesso em 19/05/26.
[2]Para mais, ver https://www.meioemensagem.com.br/marketing/as-20-maiores-marcas-de-bets-em-operacao-no-brasil, acesso em 19/05/26.
[3]Para mais, ver https://oglobo.globo.com/blogs/miriam-leitao/post/2026/04/apostas-em-bets-tiraram-r-1438-bilhoes-do-comercio-em-dois-anos-mostra-estudo-inedito-da-cnc.ghtml, acesso em 19/05/26.
[4] Trechos extraídos da Lei nº 14.790 de 29 de dezembro de 2023. Disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14790.htm, acesso em 19/05/26.
[5]Para mais, ver https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/urgente-lucas-paqueta-e-inocentado-em-caso-de-apostas-esportivas/, acesso em 21/05/26.
Sobre o autor
Gustavo Reis de Araujo é graduado em Ciências Sociais (Unicamp), graduado em História (Uninter), mestre em Sociologia (Unicamp) e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IFCH/Unicamp com pesquisa sobre o fenômeno social das apostas esportivas no Brasil contemporâneo. Professor da rede municipal de educação de Campinas, atuando na modalidade de ensino de Educação de Jovens e Adultos. Coautor da obra literária Becos & Bicos que discute a precarização do trabalho e ascensão de profissões plataformizadas na atualidade. Apresentador e produtor do podcast “O Jogo é Hoje” que discute futebol, política e sociedade. Pesquisador vinculado ao Laboratório das Práticas Esportivas e de Lazer (LAPEL-IFCH/UNICAMP). Escritor vinculado ao projeto “Crônicas da Copa” que publica crônicas esportivas sobre os eventos ocorridos na Copa do Mundo de futebol.
