BVPS | Simpósio Internacional | Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer? (V)

A BVPS publica hoje a quinta rodada de posts do simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?, que convidou especialistas brasileiras/os e do exterior, a partir de três grandes áreas das ciências sociais – a teoria social, a sociologia do trabalho e o pensamento social e político brasileiro –, a responder quatro perguntas em torno das intrincadas relações entre autoritarismo e capitalismo no mundo contemporâneo. As respostas serão publicadas em blocos sempre às quartas-feiras. Para acessar as demais publicações do simpósio, clique aqui.

Hoje teremos como convidadas/os:

Klaus Dörre é professor emérito de Sociologia do Trabalho, da Indústria e da Economia na Universität Jena, e atualmente é professor visitante no Kassel Institute for Sustainability, da Universität Kassel. Dedica-se à sociologia do trabalho, com pesquisas sobre precarização, capitalismo flexível, sindicalismo e sociedades pós-crescimento. Publicou, no Brasil, Teoria da expropriação capitalista (2022) e A utopia do socialismo (2026).

Patricia Mattos é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), onde coordena o Núcleo de Estudos de Gênero (Nege). Graduada em Ciência Política e mestre e doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), dedica-se à sociologia política do reconhecimento, com ênfase em teoria crítica, gênero, violência simbólica e dominação masculina. É autora, entre outros, de A Sociologia Política do Reconhecimento: As contribuições de Charles Taylor, Axel Honneth e Nancy Fraser e de As Visões de Weber e Habermas sobre Direito e Política.

Edson Farias é professor adjunto do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília (PPGSOL/UnB), pesquisador do CNPq e coordenador do Grupo de Pesquisa Cultura, Memória e Desenvolvimento (CMD). Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, dedica-se à sociologia da cultura e à teoria sociológica, com pesquisas sobre cultura popular, memória, consumo cultural e sociologia do audiovisual. É autor, entre outros, de Ócio e Negócio: festas populares e entretenimento-turismo no Brasil e de O Desfile e a Cidade: o carnaval-espetáculo carioca.

O simpósio internacional Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer? é organizado por Fabrício Maciel (UFF) e Maurício Hoelz (UFRRJ e editor responsável do blog da BVPS), e conta com a assessoria editorial de Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ).

Boa leitura!


Capitalismo e Autoritarismo: o que fazer?

1. Qual é o seu diagnóstico sobre a relação entre capitalismo e autoritarismo na atualidade?

Klaus Dörre: Minha tese é que a revolta de uma direita radical, tal como a vemos atualmente em todo o mundo, manifesta uma tendência à democracia bonapartista. Incapazes de fazer valer suas preocupações sob a forma de uma luta de classes democrática e organizada, parcelas das classes subalternas – em especial os trabalhadores do sexo masculino – delegam a representação de seus interesses à direita radical. Em sua forma atual, as formações populistas de direita ou de extrema direita apresentam-se como uma força política em sintonia com a gente comum, prometendo aos trabalhadores proteção efetiva, reconhecimento social e a preservação de sua identidade cultural. “Vamos retomar o nosso país” (ou: “Retomar o controle!”) é o lema de uma revolta contra o establishment. Essa revolta, porém, permanece necessariamente imaginária, pois pretende restaurar condições que não há como restaurar. É isso que torna a revolta atual particularmente perigosa.

Comecemos – primeiro – pela questão do comportamento eleitoral. A direita radical recebe apoio de todas as classes e camadas da sociedade. Donald Trump e Elon Musk, por exemplo, são verdadeiros símbolos das elites capitalistas. Sua utopia projeta um mundo em que o capital esteja, em grande medida, livre de regulação social. No entanto, o bloco de extrema direita também desfruta de amplo apoio de uma classe na qual a esquerda depositou suas esperanças durante a maior parte do século XX – e que, de fato, considerava o sujeito revolucionário. Para os eleitores brancos do sexo masculino nos Estados Unidos, Donald Trump é uma espécie de vade-mécum, pois identificou e capitalizou de modo engenhoso a vergonha social de todo um grupo, como explica Arlie Hochschild em seu livro Stolen Pride. E aqui ela acerta em cheio: a Nova Direita recebe amplo apoio da classe trabalhadora. É desse apoio que ela depende para alcançar apelo majoritário. E, tal como nos Estados Unidos, as forças de extrema direita têm bastante êxito também na Alemanha e em toda a Europa.

Podemos constatar: na Alemanha, a influência da direita radical estende-se hoje até bem dentro do núcleo ativo da força de trabalho sindicalizada. Isso significa que os partidos de extrema direita estão a caminho de se tornar os verdadeiros partidos dos trabalhadores? A resposta inequívoca é: não! A AfD (Alternativa para a Alemanha [Alternative für Deutschland]), por exemplo, tem essencialmente uma agenda de livre mercado. E, ainda assim, os ideólogos da Nova Direita e seu braço político revelam-se “mestres da ambivalência”: conciliam aquilo que parece politicamente incompatível.

Ao fazê-lo, aproveitam-se de um vácuo político deixado pelos partidos democráticos e, em particular, pela esquerda política. Como a revolta contra a desonra da classe trabalhadora não encontra eco à esquerda, ela busca outra válvula de escape para sua fúria. Os ideólogos da Nova Direita e seus seguidores políticos conseguiram, evidentemente, ressignificar com sucesso os conflitos específicos de classe entre o topo e a base como conflitos étnicos entre o de dentro e o de fora. As ideologias de extrema direita usam a “matéria-prima problemática” – que as sociedades contemporâneas produzem em grande abundância – apresentando-se como um projeto de democratização pé no chão e rebelde. Isso vale para muitos países da União Europeia. A campanha do Brexit, conduzida pelo partido populista de direita UKIP, também obteve aprovação acima da média entre a classe trabalhadora. Na França, desde os anos 1990, o Front National alcançou resultados eleitorais dramáticos em antigos redutos do Partido Comunista (PCF); a organização sucessora, o Rassemblement National (RN), também recruta eleitores da classe trabalhadora com êxito acima da média. Ainda mais espetacular foi o resultado da eleição presidencial federal austríaca de 2016, em que nada menos que 86% dos trabalhadores votaram no candidato da FPÖ, Hofer, derrotado por margem estreita. Embora a FPÖ tenha sofrido perdas substanciais nas eleições gerais de 2019, ela continua sendo, de longe, o partido mais forte entre a classe trabalhadora. Do mesmo modo, também a Lega italiana e, mais recentemente, o Fratelli d’Italia, com seus líderes abertamente racistas Salvini e Meloni, gozam de altos níveis de apoio entre a classe trabalhadora.

Para dar sentido a isso, é preciso especificar quem exatamente são os trabalhadores. E aqui deparamos com um segundo paralelo: tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, os trabalhadores são em geral vistos como uma minoria em vias de desaparecer. E, de fato, os trabalhadores da produção representam uma minoria entre os assalariados, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Mas, se abordarmos a questão pela perspectiva da análise de classe – ou seja, se incluirmos na classe trabalhadora também os enfermeiros, os operadores de caixa de supermercado, o trabalhador de depósito da Amazon ou a assistente médica qualificada de um consultório –, o quadro é outro. As classes que dependem do trabalho assalariado, direta ou indiretamente, ainda constituem a maioria das “sociedades centradas no trabalho” (Claus Offe).

Figura 1. Categorias da força de trabalho (n = 19.381). Força de trabalho de 15 a 64 anos (Fonte: elaboração própria com base em dados do BIBB e da BAuA).

Independentemente de seu autoposicionamento social, contudo, a classe trabalhadora não representa, de modo algum, o “centro socioeconômico” da sociedade. Nosso modelo de classes, que distingue três classes de trabalho assalariado, ilustra isso para a República Federal da Alemanha (Figura 1). Os trabalhadores da produção dos países de industrialização precoce, em particular, estão entre os grandes perdedores da globalização. Segundo o FMI, entre as razões disso estão: a mudança tecnológica (digitalização), a consequente substituibilidade dos trabalhadores, o poder de mercado das grandes corporações e a força coesiva em erosão dos sindicatos. O privilégio de que dispõem as corporações de atuação internacional de selecionar seu pessoal entre mais de três bilhões de trabalhadores – a maioria deles submetida a vínculos e condições de trabalho precários – acarreta efeitos negativos de retorno (blowback) para os trabalhadores dos antigos centros capitalistas: estes sofrem as consequências de uma concorrência feroz por sítios de produção e das estratégias de deslocalização (offshoring) e terceirização (outsourcing) correlatas, bem como da pressão correspondente sobre salários e condições de trabalho.

A esses fatores que provocam o medo de mobilidade social descendente somam-se as atuais altas de preços e as perdas reais de salário. Em razão da elevação dos aluguéis e dos preços de energia e alimentos, a renda líquida real na Alemanha – ou seja, o dinheiro que resta depois de pagas todas as contas (impostos, contribuições à seguridade social, custos fixos de aluguel, aquecimento etc.) – deixou continuamente de acompanhar a alta dos preços, apesar dos elevados reajustes obtidos em acordos coletivos. Apesar da queda no número de desempregados e do baixo número de desempregados de longa duração, as taxas de risco de pobreza na Alemanha atingiram um novo recorde, de 16%, em 2021. Além disso, a parcela da população com menos de 65 anos afetada por privação material e social grave subiu de 4% para 7% em apenas alguns anos. Em 2023, cerca de seis milhões de pessoas na Alemanha não tinham condições de arcar com aluguel, prestações de financiamento, uma semana de férias ou uma refeição em família num restaurante. Eis o tipo de “matéria-prima problemática” que a extrema direita é capaz de explorar mesmo na Alemanha.

As formas subjetivas de elaboração da desigualdade revelam um terceiro paralelo entre a Europa e os Estados Unidos. Arlie Hochschild reconstrói uma narrativa profunda (deep story) dos seguidores do movimento Tea Party, que também encontramos, ao menos de forma semelhante, na Alemanha e em vários outros países europeus. Em grande parte, nossas entrevistas revelam uma narrativa profunda que os trabalhadores entrevistados percebem como sendo a verdade. Sejam de esquerda ou de direita, eles têm a sensação de estar pacientemente esperando na fila, ao pé de uma montanha de justiça. No pano de fundo da globalização, da unificação alemã e do desemprego em massa, essa narrativa profunda foi constantemente alimentada por novos problemas, que exigiram novos sacrifícios daqueles que precisam ficar na fila. Isso vale em especial para os empregados dos novos Länder (ou seja, os estados que outrora formavam a Alemanha Oriental), que testemunharam o colapso da economia da RDA e uma transformação estrutural radical, aguardando pacientemente o prometido alinhamento aos padrões de vida da Alemanha Ocidental. As crises financeira e dita migratória europeias acrescentaram novas reviravoltas a essa narrativa profunda. Acostumada havia décadas à imposição factual de cofres públicos vazios, a gestão de crise do governo gerou, agora, evidentemente, recursos em abundância – primeiro para socorrer bancos em dificuldade e finanças públicas combalidas na periferia do sul da Europa, depois para mais de um milhão de refugiados que chegaram à Alemanha em 2015. Desde então, ficar na fila tornou-se inútil aos olhos de muitos entrevistados. Esse sentimento é reforçado pelo fato de a situação econômica geral parecer ter melhorado significativamente. Isso pôs fim a um período de frugalidade, sobretudo entre os empregados mais jovens, em especial na parte oriental do país.

No entanto, pouco do boom econômico chega aos muitos que esperaram por tanto tempo. Isso se reflete nas visões de mundo subjetivas com que nos deparamos. O sentimento subjetivo expresso no comportamento eleitoral dos trabalhadores que votam em partidos de extrema direita foi descrito com bastante precisão pelos sociólogos franceses Beaud e Pialoux, no final dos anos 1980, como um sentimento de “desonra”. Trata-se do “anseio por respeitabilidade de pessoas que trabalharam duro a vida inteira para se tornar proprietárias de sua casa, dar uma boa educação aos filhos, conquistar uma boa reputação etc. E esse desejo de respeitabilidade, que pode parecer ridículo a quem deixou para trás os meios populares, não está, no momento, sendo nem de longe contemplado. Pelo contrário: os trabalhadores percebem que sua dignidade está seriamente ameaçada: […] pelo declínio social de seu bairro […]; mas também pela deslegitimação nebulosa de seu sistema de valores; pela erosão das estruturas locais; ou em decorrência da depreciação do ‘antigo, há muito estabelecido’ como princípio de legitimação, sacrificado em nome do cosmopolitismo do ‘multiculturalismo’; ou ainda pelo descrédito da tradicional divisão sexual do trabalho.” Em grande medida, os achados empíricos desses dois colegas franceses aplicam-se também à força de trabalho industrial da Alemanha e de outros países europeus hoje. Os trabalhadores são assombrados pela sensação de que seu trabalho já não é adequadamente reconhecido pela sociedade. Sentem-se como se tivessem sido tornados invisíveis e desonrados. Na esfera pública dos discursos midiáticos e políticos, eles quase nunca aparecem – tampouco suas atividades profissionais ou seu modo de vida. Ninguém lhes dá atenção, a não ser, talvez, como uma espécie em extinção; ou, por parte dos pobres e dos trabalhadores precarizados, como uma privilegiada aristocracia operária.

Isso nos leva à quarta semelhança entre os Estados Unidos e a Europa. A difundida sensação de não ser notado ou reconhecido é outra “matéria-prima problemática” que a extrema direita explora. Evidentemente, os mentores da Nova Direita e seus porta-vozes conseguiram estabelecer, na consciência cotidiana dos trabalhadores, uma metanarrativa que serve para etnicizar os conflitos sociais (de classe). Essa metanarrativa permite conciliar motivos de protesto socioeconômicos e culturais com uma atitude geral conformista. De fato, observamos isso particularmente entre as forças de trabalho de regiões industriais rurais. O líder da AfD no estado da Turíngia, Björn Höcke, sustenta que a “nova questão social na Alemanha do século XXI” é aquela em que a dinâmica do conflito já não polariza o antagonismo entre o “topo” e a “base”, mas sim aquele entre a população “indígena” (no sentido de “nativa” ou “autóctone”) e os imigrantes ilegais, ou migrantes supostamente incapazes ou sem disposição de se integrar. O principal problema, para a extrema direita, é a suposta imigração “para dentro do sistema de bem-estar social”. Esse argumento tem bastante êxito, sobretudo entre os trabalhadores. Esse etnopluralismo considera fortes e capazes de sobreviver apenas as culturas nacionais “puras” (no sentido de “não mescladas”). Ele ganha apelo de massa porque aborda motivos de protesto reais. O que Beaud e Pialoux escreveram sobre os trabalhadores de uma fábrica da Peugeot ainda é verdadeiro para boa parte daqueles que hoje simpatizam com a AfD ou com forças ainda mais à direita: “Os estrangeiros tornam-se o ponto focal de um cenário de ameaça de múltiplas camadas, cujo lado subjetivo consiste no medo. É um medo do futuro e da marginalização social e do não reconhecimento.”

A difundida insatisfação com relações distributivas injustas reflete-se numa forma típica de pensamento que pode ser interpretada como um interesse de classe distorcido. Uma consciência dicotômica, ideias nacionalistas sobre relações de causa e efeito e uma ressignificação do problema da segurança são constitutivas dessa forma de pensamento. O que é significativo, porém, é que tanto os padrões de pensamento orientados à distribuição quanto os centrados na comunidade estão profundamente enraizados na consciência cotidiana dos trabalhadores e empregados pesquisados, ainda que com pesos diferentes. Não faz sentido, portanto, do ponto de vista analítico, opor explicações culturais a explicações socioeconômicas do populismo/radicalismo de direita. Ambas as dimensões estão sempre presentes na consciência das pessoas; as noções subjetivas de conflitos relativos à distribuição e ao reconhecimento formam, por assim dizer, uma dupla estrutura cognitiva. Só por isso a Nova Direita organizada consegue reformular com êxito a questão social como questão de antagonismo cultural. A façanha ideológica dos estrategistas de direita é, afinal, traduzir disparidades socioeconômicas numa semântica de divisões étnicas, culturais ou nacionais. O que caracteriza as formas de pensamento acima esboçadas é que a imagem do adversário permanece bastante vaga. Ela se dirige amplamente à esfera política, ao mesmo tempo que mira políticos individuais. As demandas positivas costumam ser endereçadas ao Estado e/ou ao governo. Aqueles que votaram na AfD como eleitores de protesto também enfatizam que seu principal objetivo é dar um toque de alerta aos “grandes partidos”, de modo a levá-los a responder às preocupações dos cidadãos “normais” e de suas famílias. Essa demanda por proteção estatal contra a desigualdade, a injustiça e a perda de comunidade sugere que estamos diante de movimentos do tipo polanyiano.

Isso marca o quinto paralelo. A mudança climática e a necessária descarbonização exigem uma transformação radical da indústria e da economia como um todo. A escala dessa transformação evoca a primeira Revolução Industrial. Os partidos de centro-esquerda e de centro-direita orientaram-se por um capitalismo de crescimento verde que – segundo a promessa – combinaria transformação socioecológica e maior prosperidade para todos. Essa promessa, porém, não se concretizou. Em vez disso, os países de industrialização precoce mergulharam ainda mais fundo na crise de pinça econômico-ecológica. Qualquer crescimento econômico que ocorra nas condições atualmente existentes agravará grandes perigos ecológicos, acima de tudo o do aquecimento global. Ademais, os trabalhadores em geral se beneficiam muito pouco do crescimento econômico. Na ausência de crescimento, contudo, a privação social aumenta. Nesse sentido, as sociedades do Norte Global encontram-se numa espécie de situação entre Cila e Caríbdis.

O antigo conflito de classe industrial vai se convertendo, cada vez mais, num “conflito de transformação” socioecológico. Ao contrário do que supôs o sociólogo Ulrich Beck em Sociedade de risco, porém, esse conflito não se alimenta de duas lógicas separadas, nas quais os “problemas das barrigas cheias” (a lógica da distribuição da riqueza) seriam cada vez mais recobertos e deslocados pelos perigos ecológicos globais (a lógica da distribuição dos riscos). O conflito social distributivo e o conflito ecológico-social não podem ser reduzidos um ao outro; estão altamente entrelaçados e podem, por isso, ser descritos como um conflito de transformação socioecológico. Independentemente de os conflitos se situarem no eixo social ou no eixo ecológico do conflito, ambas as perspectivas devem ser sempre consideradas. Os conflitos correlatos devem ser inclusivos, no sentido de buscarem combinar a luta pela sustentabilidade social e ecológica, evitando qualquer falsa oposição. Uma dedicação exclusiva ao eixo ecológico do conflito tende a ignorar metas de sustentabilidade social; inversamente, concentrar-se exclusivamente no eixo social do conflito leva à negligência dos objetivos ecológicos. Em ambos os casos, os conflitos tornam-se independentes um do outro de tal modo que os atores de uma ou de outra linha de conflito tendem, no fundo, a agir uns contra os outros.

Por exemplo, estamos presenciando atualmente, na indústria automobilística, como o eixo social do conflito se desenvolve cada vez mais de forma isolada (ou, na verdade, em oposição) ao eixo ecológico. Pode-se ficar perplexo, ou até indignado, com trabalhadores que veem os partidos verdes como seu principal inimigo. Ao mesmo tempo, essa indignação não é muito convincente enquanto se ignora o problema do poder de decisão específico de classe sobre o quê, o como, o para quê e o com quê/a partir de quê da produção. As decisões relativas a modelos de negócio, produtos e processos produtivos foram monopolizadas por minorias ínfimas no seio das classes dominantes. Segundo nossa heurística, elas constituem menos de 1% de toda a população trabalhadora. Mesmo os conselhos de fábrica (Betriebsräte) e as organizações sindicais mais poderosos estão, em grande parte, excluídos dessas decisões. E, no entanto, essa exclusão é inteiramente tabu nos debates políticos da esquerda, que se concentram exclusivamente nos padrões de consumo. Na realidade, a principal causa das emissões nocivas ao clima não é o consumo individual. São os investimentos associados à propriedade privada dos meios de produção e ao correspondente direito exclusivo de disposição. Por conseguinte, o que de fato se faz necessário é uma democratização radical das decisões relativas à produção – atualmente privilégio de ínfimos grupos de elite. É o único modo de os produtores poderem assumir responsabilidade pelos produtos que fabricam.

Infelizmente, a maior parte da esquerda política é indiferente a esse problema fundamental, visto que as questões da produção, do trabalho industrial e dos sindicatos há muito deixaram de ser os temas centrais dos debates/estratégias da esquerda. É por isso que importa tornar visíveis aqueles que foram invisibilizados e dar voz aos que foram esquecidos. O que importa aos trabalhadores é a profissionalidade e a competência (expertise). Estão cansados de um jargão político de adoçamento e frases vazias. Preferem a conversa franca. Os trabalhadores estão abertos a medidas de ação climática, desde que sejam consultados e incluídos. Conselhos de fábrica e sindicatos fortes não bastam para isso. Mas são indispensáveis para o êxito dos conflitos no local de trabalho no futuro, inclusive para salvar empregos durante a transição e implementar uma reorientação rumo a empregos ecologicamente sustentáveis.

A introdução de reuniões de “tempo para a democracia” (“Demokratiezeit”) – ao menos uma hora por semana durante a jornada de trabalho – dedicadas a discutir questões ligadas à transformação pode parecer um passo pequeno. Ainda assim, seria uma medida importante – e que dificilmente será conquistada sem intensos conflitos no local de trabalho; ademais, ela teria de ser seguida de muitos outros passos semelhantes, a fim de criar condições em que os conflitos ligados à transição (ou “conflitos de transformação”) possam ser resolvidos de modo produtivo. Poderia ser um caminho para escapar daquela espiral descendente em que os trabalhadores da produção, em particular, se sentem aprisionados. Isso poderia ser acompanhado de aportes educativos emancipatórios que ofereçam um quadro interpretativo para a crítica cotidiana dos trabalhadores à sociedade e ao capitalismo. Dos entrevistados em nossas pesquisas na Opel, em Eisenach, e na Volkswagen, em Kassel, 77% concordam totalmente ou tendem a concordar com a afirmação de que “a mudança climática representa o maior desafio do nosso tempo”; apenas 12% discordam. A afirmação “fico feliz em gastar mais dinheiro em troca de um estilo de vida sustentável” é apoiada por cerca de 58% dos entrevistados, com um quinto “concordando totalmente”. Um indicador da visão de mundo crítica que encontramos é que 64% dos entrevistados em ambas as fábricas tendem a concordar ou concordam totalmente com a afirmação de que “o atual sistema econômico não sobreviverá a longo prazo”; ao passo que apenas 2% discordam.

Proteger esse sentimento anticapitalista de ser instrumentalizado como arma pela extrema direita só é possível se aquela separação entre produção e consciência – que o filósofo Günther Anders considera responsável pelo conformismo e pela “cegueira ao apocalipse” – for posta em questão. Por ora, estamos a anos-luz de uma consciência operária que reivindique ativamente a responsabilidade pelo que é produzido. Poderia ser tarefa de uma política de classe emancipatória ao menos propor um entendimento tão sofisticado e positivo de liberdade. Tal abordagem poderia contribuir para dar aos trabalhadores o que mais lhes falta – sua honra e dignidade, tanto no local de trabalho quanto na sociedade como um todo.

Na ausência desses desenvolvimentos transformadores, os sistemas de governo, não apenas na América do Norte e na Europa, evoluirão cada vez mais em direção a democracias bonapartistas. As teorias do bonapartismo tornam-se interessantes quando a tensão entre capitalismo e democracia emerge abertamente, sem que haja uma resolução dessa tensão à vista. Contudo, nem toda forma autoritária ou ditatorial de dominação pode ser classificada como bonapartismo. Além disso, não é possível uma simples transposição da análise de Marx para o presente. Não obstante, as teorias do bonapartismo sempre encerram um grande potencial para estimular a análise do Estado quando aplicadas a configurações históricas em que a democracia está sendo, por assim dizer, desdemocratizada por dentro – quando as classes subalternas estão bloqueadas em suas vias progressistas de fazer valer seus interesses. Entendidas desse modo, as teorias bonapartistas podem ser usadas para explicar o populismo e o radicalismo de direita contemporâneos. Se a “forma excepcional do bonapartismo” deve ser examinada em sua especificidade, é preciso considerar ao menos três elementos constitutivos de tal teoria: a revolução ausente, o interregno político – inclusive a correlação de forças e as relações de poder subjacentes – e um “transformismo” de partidos (de direita) da lei e da ordem que, em última instância, se volta para o passado. Sua ascensão não serve nem ao propósito de impedir a revolução, nem é uma resposta a um reformismo socialista em avanço. O bonapartismo de direita contemporâneo é uma reação à incapacidade do bloco social dominante de compensar de modo significativo os efeitos de retorno (blowbacks) da globalização movida pelo mercado ou – em termos mais amplos – ao fracasso em ajudar a levar a cabo uma há muito necessária revolução de sustentabilidade ecossocial. O “transformismo” do bloco oposicionista de direita ataca um interregno político causado pelo fato de que as elites velhas e novas em concorrência – as outrora hegemônicas, as em ascensão ou as diversas facções outsider das classes dominantes – fracassaram, até agora, em oferecer saídas para a crise. É claro que esse ataque da extrema direita não visa acelerar a implementação de uma revolução de sustentabilidade ecológico-social. O contrário é o caso. O novo populismo de direita e o radicalismo de direita representam uma versão política autoritária e retrógrada da crise de pinça ecológico-econômica. A direita radical responde aos efeitos de retorno da globalização com nacionalismo; ao aumento da desigualdade, com uma etnicização da questão social; à crise ecológica e à mudança climática, negando ou minimizando as ameaças; aos refugiados e migrantes, com fantasias de isolamento e deportação; e à disseminação de valores liberal-libertários, com antifeminismo e um retorno a um ethos de desempenho darwinista-social, bem como a uma cultura nacional exclusiva (e excludente).

A direita radical ocupou todas essas linhas de conflito. Deixadas de lado todas as disputas internas, ela consegue atuar como uma “direita em mosaico”, na qual cada agrupamento tem um papel específico. Seu autoritarismo rebelde reforça sua capacidade de imposição – se necessário, por meios violentos. Tudo isso a torna atraente para trabalhadores que já não confiam na esquerda. De fato, o fato de eles delegarem a representação de seus interesses a uma extrema direita que, em última instância, visa à eliminação de todas as formas de poder dos trabalhadores é a grande tragédia do nosso tempo.

Patricia Mattos: Vários intelectuais têm demonstrado as relações entre o neoliberalismo e a ascensão da extrema direita, com discursos nacionalistas, xenófobos e reacionários em vários países do Norte e do Sul Global. Com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, as discussões sobre as crises e o futuro do capitalismo foram arrefecidas, retornando à baila do debate na teoria crítica com a crise financeira de 2008. É notável que o capitalismo, como bem definiu Wolfgang Streeck, sempre foi uma formação social cheia de conflitos distributivos e contradições que, em momentos de crise, levaram as elites a fazer pactuações sociais. Com o neoliberalismo e seus efeitos nefastos – precarização do trabalho; perda de direitos sociais e trabalhistas; Estado atuando em prol do mercado e incapaz de resolver conflitos sociais; privatização de serviços públicos, dentre outros – são acirrados os conflitos distributivos e as desigualdades sociais. Além disso, como aponta Nancy Fraser, o capitalismo desestabiliza os domínios extraeconômicos da política, da reprodução social e da natureza, gerando inúmeras “crises de fronteira”.  É nesse contexto que o capitalismo democrático parece estar em risco pela impossibilidade de estabelecimento de um pacto social que concilie os anseios pela acumulação ilimitada e a ideia de progresso social, para usar os termos de Streeck. A não existência de consenso entre intelectuais sobre as potencialidades e obstáculos para superação do neoliberalismo e a falta de clareza de boa parte da população de que as causas de vários de seus problemas estão relacionadas à lógica neoliberal, como apontou Rahel Jaeggi em conversa com Fraser, complexifica o debate sobre as relações entre capitalismo e autoritarismo e as possibilidades de resistência. Mesmo que haja uma multiplicidade de fatores que expliquem o advento do autoritarismo em várias partes do mundo, é perceptível que o discurso autoritário no Norte Global prospera, especialmente, em face do medo de os indivíduos perderem seu padrão de vida com a culpabilização dos estrangeiros, enquanto no Sul Global esse discurso se intensifica pelas limitações dos avanços sociais. Se, de um lado, temos propostas como a de um feminismo para 99%, que propõe uma luta anticapitalista, antirracista, ecossocialista e internacionalista, por outro, temos não só a dificuldade de manter o contexto de conflitos sociais para além de seu caráter esporádico, como também é problemática a falta de consenso entre as pessoas sobre as causas sociais de seus problemas.

Edson Farias: Somos contemporâneos do mais dramático ponto de inflexão na dinâmica de reprodução do capital, em décadas, já que experimentamos os piores resultados da socialização dos prejuízos provocados pelo sistema financeiro, com a crise deflagrada em 2008. A estagnação econômica, provocada pelo excesso de liquidez decorrente da intervenção dos bancos centrais para socorrer bancos, favoreceu o investimento no mercado acionário em detrimento daqueles no plano da produção. Isso deixou por legado o liame dos rendimentos achatados com o desemprego acentuado, alargando a níveis impensados a precariedade não só entre frações das classes trabalhadoras, mas também alcançado parcelas dos segmentos médios. Esse cenário contracena com o relevo obtido por soluções irruptivas que, de dentro do próprio sistema político, propõem aniquilá-lo. São postulações autoritárias que atribuem à construção argumentativa do consenso – pela qual se expõe contradições para, assim, buscar meios para equacioná-las – as razões de uma presumida paralisia dos poderes públicos no enfrentamento dos grandes desafios do presente. A premissa é enfática: o comando estatal, as assembleias legislativas e as cortes jurídicas devem estar a cargo dos que portam a moral dos vitoriosos, no caso, os membros de uma oligarquia plutocrática composta dos líderes corporativos capitalistas encerrados no clube dos bilionários globais.

2. Como você considera que a sua área de conhecimento poderia interagir com outras áreas na construção deste diagnóstico?

Klaus Dörre: Precisamos de uma sociologia e de uma ciência social públicas que dialoguem com outras disciplinas saindo da torre de marfim do saber acadêmico e comunicando-se com o público. Originalmente, a ideia de sociologia pública foi desenvolvida por Michael Burawoy, sociólogo do trabalho e, à época, presidente da Associação Internacional de Sociologia (ISA). Tenho de admitir que, por muito tempo, não acompanhei o debate iniciado pelas ideias de Burawoy. No entanto, durante uma visita a Joanesburgo, entrei em contato direto com a aplicação de sua teoria. No início de setembro de 2012, participei de um colóquio internacional intitulado “The Politics of Precarious Society: A comparative perspective on the Global South” [“As políticas da sociedade precária: uma perspectiva comparada sobre o Sul Global”], na Universidade de Witwatersrand/Joanesburgo. O colóquio, organizado pelo Society, Work and Development Institute (SWOP), representado por seu diretor Karl von Holdt, concentrava-se especificamente no conceito de “sociedade precária”. Enquanto o colóquio acontecia, os acontecimentos na mina de platina de Marikana chegavam a seu clímax trágico, e Karl von Holdt tomou esse desenvolvimento paralelo como exemplo para explicar uma “sociedade precária”. Naquele momento, cerca de 5 mil trabalhadores da mina de Marikana haviam entrado em greve. No último dia do colóquio, o jornal sul-africano The Times estampou na primeira página a manchete: “Miners declare war” [“Mineiros declaram guerra”]. Os grevistas, alguns armados, haviam apresentado à direção um ultimato com suas reivindicações. Dias antes, a polícia havia aberto fogo contra os mineiros com armas automáticas, matando 34 pessoas – mas os mortos naquele massacre não foram os únicos. Nas semanas anteriores, dez pessoas já haviam perdido a vida, entre elas dois seguranças e dois policiais. Evidentemente, os grevistas também recorriam à violência, não só contra seguranças e policiais, mas também visando fura-greves e mineiros que queriam continuar trabalhando. William Stone, porta-voz dos grevistas, não deixou dúvidas de que, se necessário, os trabalhadores também estavam prontos a usar a violência para fazer valer suas reivindicações. Stone respondeu ao apelo para assinar um acordo de paz com as palavras: “Dá para comer a paz? Dá para comprar comida e roupa com a paz? Que coisa é essa de paz? Não queremos paz e não aceitaremos a paz. Precisamos do nosso dinheiro antes de fazer as pazes… continuaremos a lutar e a morrer pelo nosso dinheiro. Não temos medo de morrer nem de fazer o que for preciso pelo nosso dinheiro.”

Enquanto a versão oficial atribuía inicialmente as greves a um conflito entre dois sindicatos concorrentes e classificava o uso de armas de fogo pela polícia como “legítima defesa”, os cientistas sociais do SWOP – entre eles alguns que pesquisavam o cinturão de platina e ouro havia anos – apresentaram um quadro diferente. No contexto da queda dos preços da platina, eles apontaram como as estratégias de corte de custos da direção intensificavam ainda mais uma fragmentação da força de trabalho. Além disso, prosseguiram, muitos dos mineiros eram migrantes que não falavam inglês e também estavam segregados em termos de espaço social. Em contraste, os ativistas do National Union of Mineworkers (NUM), o sindicato dominante, negociavam em inglês. Os acordos coletivos de trabalho eram descentralizados, celebrados com e dentro de cada empresa. Por conseguinte, relataram os cientistas sociais, algumas minas pagavam um salário mensal bruto de 4.500 rands (pouco mais de 450 euros), enquanto outras pagavam 9 mil rands por mês – situação que estimulava os mineiros a empreender “renegociações” descentralizadas. Dado que, para garantir empregos, o NUM havia vinculado elementos de seus acordos salariais a concessões da direção, ele era menos flexível diante de greves espontâneas; isso, por sua vez, abria uma oportunidade para sindicatos menores e mais radicais. Ademais, observaram, o aumento da desigualdade social sob o governo liderado pelo ANC fizera com que os grupos precarizados deixassem de ser representados política e socialmente, e era precisamente isso que fomentava os conflitos violentos. No entender de Karl von Holdt, a disposição de usar a violência produz dois tipos diferentes de direito no mundo cotidiano de quem vive na precariedade. Ele argumenta que, durante os processos de transformação, novas regras sociais precisam ser criadas e ancoradas na sociedade civil. Tal ancoragem, porém, não se realiza em sociedades que experimentam desigualdade social extrema, nas quais os grupos precarizados já não se veem representados. Em vez disso, isso leva à produção de espaços sociais em que determinados grupos se consideram justificados a suspender a legislação em vigor e recorrer à violência. Segundo Holdt, isso, por sua vez, conduz a um “habitus de desafio” (habitus of defiance), gerador de práticas violentas que se mantêm apesar da existência de instituições democráticas.

A meu ver, independentemente das várias interpretações e avaliações dos acontecimentos na mina de Marikana, esse debate ilustra de modo contundente a força da sociologia pública. Na Alemanha, a sociologia pública é com frequência reduzida à questão de como a sociologia pode reconquistar com êxito um perfil e um público. Mas, para Michael Burawoy – que desenvolveu a ideia de sociologia pública e foi o patrono e a alma do colóquio –, ela significa muito mais. Ele a considera capaz de criar uma nova relação entre a sociologia e as práticas indutoras de mudança social. Os pesquisadores sul-africanos, com sua expertise sobre a situação de trabalho e de vida dos mineiros, deram um excelente exemplo de como isso poderia funcionar, contrapondo ao quadro oficial dos acontecimentos na mina de Marikana sua pesquisa sociológica diferenciada e, assim, tornando visível o que antes era invisível. Seu conhecimento exclusivo é fruto de uma cooperação estreita, em espírito de confiança, construída ao longo de muitos anos com os sindicatos, bem como com os próprios mineiros. E, claro, os pesquisadores do SWOP estavam dispostos, ali e então, a aportar seu conhecimento a um debate crítico ao governo. Já durante o colóquio, acadêmicos e ativistas discutiam uma declaração conjunta que não deixava dúvidas de que aqueles acontecimentos representavam um ponto de inflexão histórico, com consequências dramáticas para a estabilidade das instituições democráticas na África do Sul. Com tamanho comprometimento à mostra, não surpreendeu ver Michael Burawoy referir-se ao SWOP, durante uma sessão de avaliação, como o “tipo ideal” de instituto que sabe aplicar a sociologia pública com êxito.

Contudo, apesar de funcionar tão bem nesse exemplo, parece ser bastante difícil pôr a sociologia pública em prática – como ficou evidente num encontro informal do grupo South Africa Public Sociology, realizado às margens do colóquio. Inúmeros grupos, sobretudo os atuantes no Sul Global, organizam hoje seminários que podem ser acompanhados em todo o mundo, por mídias digitais, por estudantes e outros interessados. Após três dias intensos de conferência, os participantes discutiram noite adentro questões como: o que significa envolver ativistas sem se tornar, ele próprio, um ator político? Em que medida o viés prejudica a atividade acadêmica? Os seminários deveriam tratar mais de temas locais ou abordar exclusivamente fenômenos de potencial alcance global? E como a ideia de sociologia pública pode se tornar uma ferramenta valiosa para diferentes contextos locais?[1]

Em essência, tais questões não são propriamente novas. Na Alemanha e na Europa, elas se situam em campos discursivos que vão da teoria crítica e da sociologia à pesquisa-ação, e foram discutidas muitas vezes sob diferentes condições econômicas e com diferentes ênfases. Mas o que há de particular na sociologia pública? O próprio Michael Burawoy ofereceu uma resposta a essa pergunta em sua discussão de uma distinção quádrupla na produção do conhecimento sociológico. A seu ver, a sociologia tradicional (que ele denomina sociologia profissional) ressalta a neutralidade e o caráter livre de valores do conhecimento sociológico. Esta, sugere ele, adota em grande parte uma abordagem empírica e positivista, tentando, mais ou menos, desenvolver tipos de teoria e conhecimento moldados pelas ciências naturais. A força dessa abordagem reside em sua estrita adesão à ideia que está no cerne do empreendimento científico: a busca da verdade – uma aspiração que exclui juízos de valor superficiais. Os achados de pesquisa baseados em evidências empíricas são estabelecidos e apresentados independentemente de qualquer contexto de aplicação e de interesses partidários. A pesquisa sociológica – e das ciências sociais – jamais deveria deixar de atender a esse postulado da investigação científica livre de valores.

No entanto, o problema de uma sociologia puramente descritiva é que, então, “tudo o que a sociologia pode observar são relações de poder” (Boltanski, 2010: 1). Por outro lado, o poder e a exploração estão velados nas relações societais; com os meios disponíveis na sociologia-padrão, é impossível desvendar tais mecanismos. As ciências sociais descritivas podem observar seu objeto, a “sociedade”, e analisar as mais variadas formas de poder sem precisar relacioná-las entre si. Em outras palavras, a sociologia tradicional ou padrão adota uma simples “exterioridade”, situada na torre de marfim da ciência pura. A partir dessa “exterioridade simples”, a sociologia tradicional pretende manter distância em relação a seu objeto. Ela reduz a complexidade de seu objeto a um ponto em que ele possa ser investigado empiricamente. Em última análise, porém, a sociologia tradicional sempre fracassará em seu desejo de emular as teorias das ciências naturais, pois lida com atores sociais inseridos em relações de poder ocultas, que permanecem inacessíveis a uma sociologia puramente descritiva.

Por isso, a sociologia tradicional enfrenta o desafio de buscar ignorar a tensão necessariamente inerente a qualquer sociologia que pretenda criticar as relações sociais, em vez de apenas descrevê-las. No entanto, como observa com razão Luc Boltanski (2010: 15-16), essa tensão está “sempre presente” e se revela na “louvável” tentativa – “necessariamente fadada ao fracasso” – de se juntar às “chamadas ciências positivas”. No entender de Boltanski (2010: 16), os sinais externos desse fracasso em emular as ciências naturais incluem não só um estilo de escrita impessoal, citações reduzidas ao nome de um autor e a “mania de quantificação, expressa num acúmulo ostentatório de números e tabelas”, mas também as “controvérsias ‘acirradas’, polarizadas em torno do argumento mais recente tido como capaz de fazer a diferença – algo que evita examinar premissas compartilhadas, muitas vezes deixadas na sombra”.

Uma sociologia prática – nos termos de Burawoy, “sociologia de políticas” (policy sociology) – resolve de outro modo a tensão entre a produção acadêmica de conhecimento, a crítica social e a prática dos atores sociais. Esse tipo de sociologia volta-se à produção de conhecimento aplicado e é moldado pelas necessidades do mercado e de seus clientes. Nesse marco, a sociologia prática aspira a aprimorar a prática daqueles que utilizam esse conhecimento, ou ao menos a assentar essa prática sobre uma base mais profissional. Sua força reside em sua proximidade com os atores sociais. A sociologia prática deixa deliberadamente para trás a torre de marfim, buscando produzir uma expertise de consultoria que, em essência, se justifica pelo contexto de sua aplicação. Nessa medida, em certo sentido, a sociologia prática é o oposto daquilo que a sociologia tradicional ou padrão afirma ser. Apenas para evitar mal-entendidos: a sociologia prática, na medida em que se apoia em meios e métodos científicos, também encarna um tipo plenamente legítimo de produção de conhecimento nas ciências sociais. Por exemplo, se olharmos para os departamentos de pesquisa de grandes empresas e agências de consultoria, não há dúvida de que produzem bases de dados de considerável valor cognitivo.

As forças da sociologia prática residem, sem dúvida, na transferência altamente eficaz e aplicável de conhecimento por meio de atores sociais mais ou menos poderosos; ao mesmo tempo, porém, é justamente aí que está a fraqueza desse tipo de conhecimento. Na sociologia prática, o objeto de pesquisa torna-se uma atividade de negócio, e isso torna o conhecimento dependente do patrocinador ou dos clientes. Como esse tipo de produção de conhecimento sociológico não está interessado numa crítica social nem em criticar as relações de poder vigentes, ele não precisa de uma visão holística da sociedade. Em vez disso, ocupa-se de resolver problemas, ou ao menos de aprimorar a base para decisões tomadas por solucionadores de problemas sociais. Dado esse foco, ele em geral perde de vista as relações de poder vigentes, de modo que a boa prática social parece nada mais ser do que a mera aplicação das receitas “certas”. Por conseguinte, a crítica social – ou uma crítica das práticas dos atores sociais que são os clientes – parece disruptiva e inadequada, e assim a sociologia prática corre constantemente o risco de servir como conhecimento instrumental e instrumentalizado para clientes bem financiados e capazes de aplicar soluções práticas.

A sociologia crítica não tem esse problema. Ela se distingue da sociologia tradicional ou padrão por buscar fornecer um quadro analítico que permita identificar contradições societais e distingui-las de meras disparidades. Como teoria do poder, a sociologia crítica contém sempre uma metateoria da sociedade. Contudo, uma vez que a sociologia crítica, por sua própria conta, faz pronunciamentos sobre a ordem social, ela abre mão de qualquer pretensão de neutralidade. Para integrar o descontentamento e a frustração dos atores sociais, porém, ela também depende de um arranjo (trade-off) com a crítica da vida cotidiana feita pelos grupos dominados, pois a “… ideia de uma teoria crítica que não se respalda na experiência de um coletivo e que, em certo sentido, existe por si mesma – ou seja, para ninguém – é incoerente” (Boltanski, 2010: 5). Por conseguinte, a sociologia crítica também precisa da sociologia-padrão. Uma teoria crítica das relações de poder tem de se apoiar na análise descritiva e empírica fornecida por uma hermenêutica do saber cotidiano, passando de uma “exterioridade simples” a uma “exterioridade complexa” (Boltanski, 2010: 6). A exterioridade “simples” corresponde ao ponto de vista extraterritorial necessariamente exigido pela sociologia descritiva para garantir a distância analítica em relação a seu objeto. Em contraste, a “exterioridade complexa” caracteriza-se pelo fato de que uma sociologia que critica as relações de poder sempre tem de atuar em dois níveis: por um lado, depende de dados que lhe forneçam conhecimento sobre o estado da ordem social; por outro, “para ser crítica, tal teoria também precisa munir-se… dos meios para emitir um juízo sobre o valor da ordem social que está sendo descrita” (Boltanski, 2010: 8). Em essência, a tensão entre essas exigências não pode ser resolvida. Como resultado, o potencial de uma ciência social se estabelece continuamente num processo de “forjar” compromissos (Boltanski, 2010: 10). As grandes teorias sociológicas diferem em seu modo particular de articular descrição e crítica. A sociologia crítica enfrenta amiúde o problema básico de absolutizar a “exterioridade complexa” que adota; com frequência, então, dá aos grupos dominados e atores sociais – de cuja crítica da vida cotidiana ela permanece dependente – a impressão de que sua crítica se baseia em algum padrão abstrato, irrealizável na prática. Desse modo, os críticos sociológicos podem ser facilmente caracterizados como eternos sabe-tudo, e sua crítica, então, descartada como irrelevante para as práticas dos atores sociais. A sociologia pública, o quarto tipo de produção de conhecimento nas ciências sociais, adota uma abordagem particular para tentar remediar esse mal-entendido entre produção de conhecimento, crítica social e práticas promotoras de mudança social.

Em essência, a sociologia pública nada mais é do que uma nova tentativa de estabelecer uma base para a interação entre a teoria acadêmica crítica e as práticas dos atores sociais críticos das relações de poder vigentes. O que há de novo, porém, é que ela parte das mudanças no campo acadêmico. A Landnahme [apropriação] movida pela concorrência de faculdades e universidades (Dörre & Neis, 2010) – ou, nas palavras de Michael Burawoy, “uma terceira onda de mercantilização” – destruiu de forma irreversível a torre de marfim da ciência pura: “Ainda mais fundo, a mercantilização de terceira onda invade a morada oculta da produção de conhecimento, a universidade. A torre de marfim – liberdade acadêmica e autonomia universitária – pode ter sido uma defesa contra a mercantilização de segunda onda, mas hoje suas muralhas estão caindo diante da corporativização, da privatização e das considerações de lucro. De bem público, ela se torna um bem econômico. Já não podemos erguer um fosso em torno da universidade; em vez disso, temos de nos aventurar para fora da torre de marfim e unir forças com outros públicos que enfrentam o tsunâmi” (Burawoy, 2008: 359). O estudioso da cultura Terry Eagleton (2014: 12) expressou ideia semelhante: “Como centro de crítica, indagação, reflexão e questões gerais e fundamentais, a universidade está quase morta […] Essas instituições estão se tornando cada vez mais um instrumento do capitalismo avançado. Não estou brincando nem exagerando ao dizer que, daqui a vinte anos, as humanidades talvez já não existam nas universidades britânicas […]”.

A situação das ciências sociais e das humanidades talvez seja um pouco menos precária na Alemanha, mas a tendência rumo à “universidade empreendedora” também é aqui flagrantemente óbvia – e é essa tendência que inspirou a ideia de uma sociologia pública. Contudo, embora se fale em “sociologia pública”, não se deve esquecer que se trata de um rótulo que abrange um conjunto de variadas abordagens de pesquisa e formas de produção e transferência de conhecimento. Ainda assim, apesar dessa heterogeneidade, é possível formular seis princípios orientadores da sociologia pública. A ideia de sociologia pública, inerentemente, (a) questiona a “universidade empreendedora” como base da produção de conhecimento nas ciências sociais e no campo da sociologia. Isso leva (b) ao interesse de sociólogos e cientistas sociais em formar alianças com grupos e atores sociais que resistem a esse “processo de concorrência”. Da perspectiva acadêmica, essas alianças baseiam-se (c) no objetivo de usar instrumentos sociológicos para tornar visível o que é invisível ou socialmente reprimido. Isso melhor se realiza (d) por meio da geração de saber cotidiano – na verdade, de saber transformador –, ao qual os pesquisadores só têm acesso se estiverem em condições de estabelecer relações de confiança com grupos e atores sociais dominados. Assim, a pesquisa (e) tem de ser conduzida em estreito intercâmbio com ativistas de movimentos sociais e organizações sociais; os achados são então devolvidos aos praticantes de forma condensada. São preparados pelos acadêmicos para os atores da sociedade civil, sem que os próprios acadêmicos tomem partido. Como resultado, a sociologia pública implica (f) criar, para os pesquisadores, acesso privilegiado a corpos ocultos de saber e integrar a crítica cotidiana das relações de poder vigentes neles contida, a fim de elaborá-la e disponibilizá-la a um público apropriado. Isso tem um efeito duplo: a pesquisa sociológica se torna melhor e mais interessante e, ao mesmo tempo, por meio da análise acadêmica, a crítica cotidiana ganha uma voz pública, cuja eficácia aumenta com a qualidade da pesquisa subjacente.

Patricia Mattos: Creio que seja possível estabelecer ricos diálogos entre a teoria social, a teoria sociológica e a teoria política, para estabelecermos reflexões sobre a dominação política e as potencialidades e limitações para uma luta contra o neoliberalismo. Os debates com a Psicologia também poderiam fomentar análises interessantes sobre as causas psicossociais do autoritarismo.

Edson Farias: Pesquisador de temas relativos aos fenômenos sociocomunicativos, não posso deixar de observar que a ampla difusão e retroalimentação das ideias subjacentes às atuais soluções autoritárias encontra um formidável respaldo em um modo contemporâneo de simbolização caracterizado pela triangulação dos potenciais humanos de expressão com as tecnologias de informação e a comodificação. O que atualmente é notabilizado sob a denominação “economia da atenção”, para se referir às estratégias empregadas pelas Big Techs com a finalidade de fidelizar clientes, intensifica o incremento da “psicologia do consumismo” que, pelo menos desde a década de 1920, atravessou um conjunto amplo de sociedades reguladas por mercados, resistindo ao declínio da economia de escala fordista para se atualizar nas cadeias globais de produção, circulação e valor, tendo desdobramentos extraordinários na modulação de padrões de subjetividades e na instauração de costumes e rituais cotidianos planeta afora. Psicologia cujo alcance não pode ser dissociado da dinâmica sociocultural definida pela implicação das formas simbólicas visuais e audiovisuais com suportes midiáticos próprios à industrialização. Falo em particular da popularização das telas que gradualmente, desde o último século, deslocam-se dos cenários coletivos das salas de cinema, passando pelo advento da televisão, até imergir na intimidade das pessoas com os usos dos celulares, respaldando importantes interpenetrações entre vida privada e pública, mas também do simbólico e da comodificação. Em especial, a partir da última virada de século, avançou a hegemonia gozada pelo audiovisual nas esferas pública e privada, abrangência que contracena com cruzamentos dos corpos humanos com as ecologias sociotécnicas informacionais que, mediante a ascendência da cibernética sobre as experiências e padrões comportamentais das pessoas, promovem a execução de protocolos de expressão e relato de si a um patamar inédito na história da espécie humana. Por meio de conexão à internet, calcadas na disseminação das telas digitais, articula suportes como telefones móveis, computadores pessoais, televisores e notebooks, permitindo a troca de vídeos, fotos, áudios e textos, em mensagens instantâneas, compondo um acervo formidável. Em tal ecologia, graças à subjetivação que funde cidadão, consumidor e ativista, acentua-se o relevo do que Byung-Chul Han chama de “sujeito psicopolítico”, possível com a passagem do “espectador” para o estatuto do “usuário”, com agência expressiva, em razão da montagem das redes sociais e do advento de plataformas de vídeos e aplicativos para telefonia móvel.

   

3. Em sua opinião, quais possibilidades de ação efetiva poderiam ser orientadas por esta discussão, no sentido de enfrentar os efeitos sociais negativos produzidos pelo aprofundamento do autoritarismo na atualidade?

Klaus Dörre: Para fazer frente à direita radical no âmbito dos debates acadêmicos, primeiro, devemos corrigir aquilo que Didier Eribon denunciou com razão como a negligência da classe pelas ciências sociais e pela política de esquerda. Se simplesmente removemos “a ‘classe’ e as relações de classe das categorias de pensamento e compreensão – e, portanto, do discurso político”, isso “de modo algum impede que todos aqueles objetivamente afetados pelas condições por trás dessas palavras se sintam coletivamente abandonados” (Eribon, 2016: 122). Quando convicções são enfraquecidas ou destruídas – convicções cujo enraizamento na consciência cotidiana ajudou a traduzir experiências de desigualdade e insegurança social em atos de solidariedade –, as relações de classe operam de outras maneiras. Então se torna aparente um mecanismo causal que controla os comportamentos sobretudo por meio do inconsciente de classe – pela distinção e pela autoexaltação que se obtêm ao desvalorizar os outros.

Para contrapor-se a isso, é, em segundo lugar, necessário usar métodos científicos para responder à pergunta sobre quais forças sociais, no século XXI, poderiam sustentar um “transformismo” progressista (Gramsci, 1991: 101) capaz de resistir à cooptação nacionalista. Para tanto, devemos despedir-nos do mito da classe trabalhadora única que – embora submetida à constante dialética de unificação e divisão – ainda é vista como um sujeito coletivo caracterizado por uma “solidariedade potencial” (potential solidarity) movida por interesses (Lockwood, 2010: 83). Essa noção de unidade de classe é antiquada. A capacidade de ação dos movimentos operários socialistas do século XX repousava no fato de que esses movimentos podiam ver-se como representantes de interesses gerais de classe. Isso, porém, nunca se deu “no sentido tolo de se declararem representantes de todos ou – pior ainda – de uma ‘maioria’” (Ingrao & Rossanda, 1996: 10). O fator decisivo era a concepção de que, no curso da “produção necessária à existência”, surgem entre as pessoas relações das quais depende sua “liberdade”. Segundo nosso modelo (ver Figura 1), a classe trabalhadora convencional ainda constitui a maioria relativa dos assalariados. Atualmente, porém, é bastante improvável que, em sua busca por manter ou melhorar seu status, ela venha a se tornar um sujeito político-social dotado de “um profundo interesse próprio numa sociedade de cidadãos livres”, “na qual homens e mulheres estejam enfim libertos do controle externo do soberano, da Igreja ou da propriedade” (Ingrao & Rossanda, 1996: 10).

Em terceiro lugar, habilidades profissionais acima da média tornam os membros da Nova Classe Trabalhadora relativamente invulneráveis, sobretudo diante da escassez de trabalhadores qualificados. Por conseguinte, a combinação de um senso de injustiça moral com uma consciência climática ecologicamente ambiciosa é comparativamente estável nessa classe. No entanto, os valores médios nos padrões de atitude não devem obscurecer o fato de que a Nova Classe Trabalhadora, como todas as demais classes, não é apenas politicamente heterogênea, mas também internamente quase dividida. No polo de esquerda, predominam as integrantes do sexo feminino, numa lógica de trabalho interpessoal que pressiona por uma reestruturação radical do modelo econômico e social. No polo oposto situam-se os segmentos da classe cuja mentalidade conservadora corresponde a lógicas de trabalho predominantemente técnicas. No que diz respeito à dinâmica dos conflitos de transformação, é significativo saber para onde a Nova Classe Trabalhadora se orienta social e politicamente. O forte enraizamento, nessa classe, de atores políticos abertos à transformação representa uma dupla oportunidade. A longo prazo, poderia emergir uma autoconsciência emancipatória hegemônica que estimule os membros da Nova Classe Trabalhadora a olhar para baixo – em direção à Classe Trabalhadora Convencional e ao setor dos socialmente excluídos –, em vez de se submeterem às definições de normalidade impostas pela classe dominante e pelas classes médias.

Nesse sentido, em quarto lugar, uma educação emancipatória ajudaria ao fornecer um quadro interpretativo democrático para a crítica cotidiana da sociedade e do capitalismo. O trabalho educativo precisaria questionar a separação entre produção e consciência que o filósofo Günther Anders responsabiliza pelo conformismo e pela indiferença em relação ao que produzimos – e, portanto, pela “cegueira apocalíptica” (Anders, 2018[1956]: 317). Para de fato superar a relativa indiferença em relação aos produtos e processos produtivos, seriam necessárias estratégias de conflito – aquilo que Anders certa vez chamou de “greve de produtos” (Produktstreik). Tal greve já não visaria apenas melhorar as condições de trabalho, mas envolveria a recusa dos produtores a continuar fabricando produtos que acarretem consequências irresponsáveis. Reunir novamente produção e consciência, democratizando radicalmente o poder de decisão baseado na propriedade sobre a dimensão material dos produtos e dos processos produtivos, significa, assim, um genuíno ganho de liberdade. Pois, segundo Anders (2018: 369), os produtores só são verdadeiramente livres quando também assumem responsabilidade “por aquilo que produzimos”.

A classe trabalhadora tal como existe hoje está muito distante de uma consciência de classe que reivindique ativamente tal assunção de responsabilidade. Poderia ser tarefa de uma educação emancipatória para o século XXI ao menos pôr em discussão um entendimento de liberdade tão exigente – porque positivo. Isso requereria aquilo de que mais carecem os atuais movimentos sindicais de trabalhadores – a capacidade de utopia, isto é: uma visão positiva que vincule a transformação socioecológica da sociedade à perspectiva de uma vida melhor para todos. “Melhor em vez de mais, para todos em vez de só para alguns!” poderia ser o princípio orientador de um movimento que conecte, de modo progressista, o eixo social de classe ao conflito social ecológico.

Antonia e seus colegas de mesma orientação já estão atarefados em fazer desse princípio orientador algo seu. De modo bastante prático, eles se esforçam para não deixar a questão do sistema à direita radical. No século XXI, a questão da propriedade – o poder de decidir sobre investimentos e modelos de negócio – assume o centro do palco, de novas maneiras, na educação emancipatória, pois o desafio está naquilo que uma jovem integrante de conselho de fábrica entrevistada exprime nas seguintes palavras: “Acredito que precisamos de democratização na sociedade […] Acho que há pouca cogestão (Mitbestimmung) nos locais de trabalho. Em que produtos estamos investindo? Como o trabalho é feito? Quantas pessoas estão envolvidas? Em que condições o trabalho é realizado? Temos uma enorme defasagem a recuperar” (integrante de conselho de fábrica, Opel Eisenach). A representante citada acerta em cheio, pois aborda a exclusão de decisões que afetam a sobrevivência de todos. A tarefa de uma pesquisa crítica sobre a transformação seria dar a essas pessoas indispensáveis uma voz na esfera pública.

Patricia Mattos: Penso que a esquerda precisa colocar no centro de sua luta, de forma enfática, a questão da justiça social. Concordo com o diagnóstico feito por Nancy Fraser de que o senso comum hegemônico, baseado em movimentos identitários e no feminismo liberal, oferece poucos recursos para a emancipação. Por isso, é necessário que a esquerda coloque, em primeiro plano, a crítica ao capitalismo contemporâneo. Acho muito pertinente a proposta de Fraser de que a esquerda ressignifique o ideal de sujeito livre e autônomo, mostrando as limitações da autonomia ligada às conotações empreendedoras.

Edson Farias: Mark Fisher concebe a ideia de “realismo capitalista” para se referir a uma ideologia em que a distopia como realidade impõe uma sentença incontornável: não há alternativas para o capital e suas vicissitudes. Suspeito estar esse realismo em grande medida respaldado no conluio estabelecido entre equacionamentos autoritários dos desafios do presente e a hegemonia gozada pelo audiovisual nas ecologias sociotécnicas informacionais. Ainda que pareça contraditório, em primeiro lugar, recuso o diagnóstico acerca do encapsulamento generalizado das nossas existências em uma espiral histórica de abstrações/simulacros, que ora se concluiria no domínio completo dos sentidos corpóreos e da imaginação pela tela iluminada. O realismo de que fala Fisher diz respeito à inevitabilidade de um presente eterno, ao qual estaríamos condenados como indivíduos isolados em nossas escolhas. O problema político em pauta, portanto, incide em reinserir o devir coletivo na experiência e na imaginação. Não o devir como confirmação de uma teleologia mundana e, sim, como promessa de um tempo ainda inexistente, a ser feito com a potencialização das oportunidades do agora. Como pesquisador das Ciências Sociais, entendo estarmos ante um problema que reivindica uma agenda de investigação interdisciplinar, aliada a estudos e reflexões; agenda esta que, bem além de examinar como se atualiza o hábito mental de requisitar o ver na confirmação do ser, deverá enfrentar esse traço do social contemporâneo indissociável da cumplicidade estabelecida entre audiovisual e experiência.

4. Quais autores e/ou obras em sua área de conhecimento seriam relevantes para este debate? Mencione três ou quatro.

Klaus Dörre: Amlinger, Carolin & Nachtwey, Oliver (2025). Zerstörungslust. Elemente des demokratischen Faschismus. Berlin: Suhrkamp.

Becker, Karina & Ketterer, Hanna (Hg.) (2019). Was stimmt nicht mit der Demokratie? Eine Debatte mit Klaus Dörre, Nancy Fraser, Stephan Lessenich und Hartmut Rosa. Berlin: Suhrkamp.

Dörre, Klaus (2023). In der Warteschlange. Arbeiter*innen und die radikale Rechte (2. Auflage). Münster: Westfälisches Dampfboot.

Eribon, Didier (2016). Rückkehr nach Reims. Berlin: Suhrkamp.

Frankenberg, Günter & Heitmeyer, Wilhelm (2024). Authoritarian developments as a threat to democracy and pluralism, in: dies. (Hrsg.), Drivers of Authoritarianism. Paths and Developments at the Beginning of the 21st Century. Glos/Northampton, S. 2-58.

Griffin, Roger (2020). Faschismus. Eine Einführung in die vergleichende Faschismusforschung. Stuttgart: ibidem.

Heller, Hermann (1992) [1933]. Autoritärer Liberalismus? In: ders., Gesammelte Schriften II, Tübingen: J.C.B. Mohr, S. 643-653.

Hochschild, Arlie Russell (2024). Geraubter Stolz. Verlust, Scham und der Aufstieg der Rechten. Hamburg: Hamburger Edition.

Mason, Paul (2022). Faschismus. Und wie man ihn stoppt. Berlin: edition suhrkamp.

Neupert-Doppler, Alexander & Meisterhans, Nadja (2025). Themenschwerpunkt: Strategien gegen den Rechtsruck, in: Berliner Debatte Initial, Band 36, Heft 3.

Paxton, Robert O. (2004). Anatomie des Faschismus. München: DVA.

Quent, Matthias & Virchow, Fabian (2024). Rechtsextrem, das neue Normal? Die AfD zwischen Verbot und Machtübernahme. München: Piper.

Sternhell, Zeev (2019). Faschistische Ideologie. Eine Einführung. Berlin: Verbrecher Verlag.

Patricia Mattos: ADORNO, Theodor. (2019). Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Editora da Unesp.

FRASER, Nancy. (2024). Capitalismo canibal. São Paulo: Autonomia Literária.

FRASER, Nancy & JAEGGI, Rahel. (2020). Capitalismo em debate. Uma conversa na teoria crítica. São Paulo: Boitempo.

STREECK, Wolfgang. (2018). Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático. São Paulo: Boitempo.

Edson Farias: Penso que a agenda a que me referi acima não se encerra em uma área específica, porque está atravessada por um arco de questões que requer o cruzamento de perspectivas disciplinares. Tão somente para sugerir caminhos de leitura voltados a cartografar o contemporâneo do ponto de vista da convergência de modos de simbolização, tecnologias digitais e tendências autoritárias, cito as quatro seguintes obras: Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo, do economista grego Yanis Varoufakis; Política dos algoritmos: instituições e as transformações da vida social, dos cientistas políticos Ricardo F. Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgílio Almeida; Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, do filósofo Byung-Chul Han; e The black box society – the secret algorithms that control money and information, do pesquisador da área de Direito Frank Pasquale.


Nota

[1] Um relato do colóquio foi publicado na Kölner Zeitschrift für Soziologie (Dörre/Ludwig/Sparsam 2012).

Referências de Klaus Dörre

ANDERS, Günther. Die Antiquiertheit des Menschen. Band 1: Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution. (1956). München: C. H. Beck.

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