BVPS Edições | Copa do Mundo na BVPS | “A Copa para além do futebol”, por Arlei Sander Damo

Dando continuidade à série Copa do Mundo na BVPS, publicamos hoje texto de Arlei Sander Damo, professor do Departamento de Antropologia da UFRGS, que lança um olhar sobre um dos fenômenos mais marcantes da Copa de 2026: a expressiva presença de atletas nascidos fora dos países que representam dentro de campo.

Como nos mostra Damo, o futebol de seleções vive de um nacionalismo laico, capaz de transformar um time organizado por uma entidade privada na própria nação encarnada, com direito a hinos, bandeiras e identidades supostamente reveladas em campo. É justamente essa crença que a Copa deste ano coloca em xeque. Quase um terço dos jogadores nascidos na França que hoje defendem outras seleções são filhos e netos da diáspora pós-colonial, e que agora representam países como Argélia e Marrocos. O fenômeno inverte uma lógica antiga: se por décadas imigrantes e seus descendentes engrossaram as fileiras da própria seleção francesa, agora são os filhos da diáspora que retornam, em campo, à pátria de seus antepassados, evidenciando o caráter fundamentalmente construído e contingente das identidades nacionais mobilizadas pelo futebol.

Para acompanhar os demais posts da série, clique aqui. Novos textos serão publicados todas as sextas-feiras, até o fim desta edição da Copa do Mundo.

Boa leitura!


A Copa para além do futebol

Por Arlei Sander Damo (UFRGS)

A 23ª edição da Copa do Mundo de Futebol Masculino confirma o status de megaevento planetário desta competição entre equipes nacionais, organizada em parceria entre a FIFA e os países-sede. Como estratégia comercial, as mídias apresentam extenso repertório de curiosidades – ineditismos, recordes, etc. – de pouca relevância para quem não segue o futebol de perto e de dentro. Três aspectos desta edição, no entanto, são dignos de comentários, seja pelo que representam para o campo específico do futebol ou para além dele: o aumento do número de países participantes, a realização dos jogos em três países distintos e, ao meu ver, o principal destaque, a expressiva participação de atletas nascidos em países outros que não aqueles que representam em campo, com destaque para atletas franceses.

A participação de 48 equipes, 33% a mais do que nas últimas 7 edições, é inédita, mas não impressiona se considerarmos que tivemos um aumento progressivo do número de seleções ao longo de quase um século de Copas – a última alteração foi em 1998, de 24 para 32; a penúltima em 1982, de 16 para 24. A popularização do futebol explica, em parte, o aumento de participantes, mas as facilidades de deslocamentos globais em termos de infraestruturas – até 1950 viajava-se de navio; agora vai-se de voo fretado–, e as estratégias políticas e comerciais explicam mais e melhor.

João Havelange, eleito presidente da FIFA em 1974, ampliou a participação de selecionados não europeus para cumprir promessas de campanha e amealhar simpatias em outros continentes, desbancando a hegemonia europeia no comando da entidade. Havelange também tinha planos ambiciosos do ponto de vista comercial e foi favorecido pelos avanços tecnológicos que permitiram vender as transmissões dos jogos em tempo real para os 5 continentes. Comparativamente ao salto comercial no período das gestões Havelange (1974-1998) e Blatter (1998-2015), o aumento do número de participantes em Copas foi irrisório, embora não se imaginasse possível um torneio com mais de 32 seleções. Com 48 equipes, os críticos diziam que aumentaria o tempo da competição – desagradando os clubes, que se mantém inativos no período –, a demanda por infraestrutura – sedes, deslocamentos, etc. – e ameaçaria tornar muitas disputas desinteressantes, sobretudo na fase inicial.

Gianni Infantino, que exerce a presidência da FIFA desde 2016, apostou no que parecia arriscado e se deu bem. Com três países-sede, a demanda por infraestrutura foi dissipada – voltarei ao tema – e, embora haja mais dispêndio de tempo com os deslocamentos das equipes, ganha-se com as viagens e hospedagem de turistas endinheirados, perfil do público que frequenta os jogos nos estádios. E como provam alguns jogos, como a façanha de Cabo Verde contra a Espanha, até um zero a zero pode ter emoção em Copas. A TV Globo, que usualmente transmitia todos os jogos de Copas pelo canal de assinantes, restringiu a oferta e quem fez a festa foi a CazéTV, que amealhou milhões de espectadores transmitindo os 104 jogos por streaming, mesmo veiculando-os com delay.

Nesse cenário, Infantino cumpre sua principal plataforma de campanha à reeleição, em 2023: “criar eventos e arrecadar dinheiro”. Não há grande novidade nisso, exceto pelo fato de ser admitido abertamente, diferente da praxe das gestões Havelange-Blatter, que encobriam os negócios – lícitos ou não – com discursos políticos que tentavam fazer a FIFA se parecer com a ONU, embaralhando as crenças de muita gente que se imagina esperta. Definitivamente, Infantino parece ter assumido que a FIFA é uma agência de negócios privados, uma espécie de holding global. Ela é responsável pela compliance do futebol profissional – cuidando das regras, da aplicabilidade delas, dos conflitos entre entidades afiliadas, das transações de atletas, da atuação de agentes, etc. – e promotora de alguns eventos futebolísticos, incluindo as Copas do Mundo de seleções nacionais, masculina e feminina, e a recém-criada Copa do Mundo de Clubes, cuja primeira edição foi realizada nos Estados Unidos em 2025.

Em termos de mercadoria, a unidade básica comercializada no espectro do futebol é um jogo, um bem simbólico com duração aproximada de 90 minutos, mais ou menos o mesmo tempo de um filme, uma peça de teatro ou um espetáculo musical. Só que um jogo, isolado, não desperta tanto interesse, razão pela qual a tendência é agrupá-los em formatos diversos – chamados de campeonatos, copas, torneios, etc. – pelo que passam a ter um valor relacional e agregado. Uma copa é um agregado de jogos, basicamente, envernizados por um nacionalismo laico que gera engajamento em nível global.

Nunca é demais lembrar que o futebol profissional se articula, em linhas gerais, a partir de dois grandes circuitos de competições, a que correspondem dois sistemas simbólicos que orientam os engajamentos e as emoções. Os circuitos clubísticos mobilizam disputas entre clubes, em nível local/regional, nacional, continental e internacional. Esses circuitos ocupam a maior parte do calendário anual, formam e remuneram os atletas profissionais, edificam infraestruturas para treinamentos e jogos e mobilizam milhares de coletivos organizados não só para torcer, mas fazendo-o de forma espetacularizada, dotando o futebol de uma participação engajada que poucos esportes além dele possuem. Sobre esses circuitos, bastante diversificados, a FIFA possui ingerência parcial, exercendo função regulatória, mas não administrativa. A FIFA mantém, desde a incorporação da Internacional Board, o controle sobre as regras do jogo, e desde que houve a globalização do mercado de “pés-de-obra”, consolidado ao longo da década de 1990, tem exercido crescente vigilância sobre ele, determinando o pagamento de cotas aos clubes formadores a cada transação de direitos federativos de atletas, punindo os maus pagadores, credenciando agentes, entre outras.

De outra parte, em parceria com as confederações continentais, a FIFA organiza competições com viés nacionalista, mobilizando equipes para representar nações-Estado, como que fazendo deslizar para o terreno futebolístico uma gama de representações constituídas alhures – identidades, rivalidades, estereótipos e assim por diante. O que a FIFA faz com o futebol é suscitar o engajamento através de um nacionalismo festivo, com forte apelo publicitário, ainda assim capaz de mobilizar as massas para uma celebração coletiva com prazo de validade, tal qual a lógica do entretenimento ou dos rituais em geral.  

O fato de ter havido um incremento de equipes e, por óbvio, de jogos, contribuiu para aumentar o número de sedes, embora esta seja a justificativa conveniente. Os Estados Unidos teriam condições plenas de suportar a demanda de 104 jogos, sem a necessidade de incluir México e Canadá como parceiros – mesmo porque, juntos, sediarão em torno de 30% dos jogos. A estratégia de diluir as sedes implica uma mudança mais sútil e a Copa de 2014, realizada no Brasil, tem tudo a ver com isso.

As Jornadas de Junho, de 2013, cujo legado principal à política nacional foi a ascensão dos movimentos de direita e extrema direita, contribuiu, em escala internacional, para direcionar os holofotes às práticas pouco ortodoxas das gestões Havelange-Blatter, corroendo, inclusive, o status pessoal desses dirigentes. Em que pese a diversidade de pautas levadas às ruas durante os protestos que antecederam à Copa da Confederações, soaram verossímeis as críticas contra as edificações de estádios, à ingerência da FIFA em assuntos nacionais e, sobretudo, a ideia de que a corrupção grassava por toda a parte. O “ciclo dos BRICS” (2010-2022) implicou altos gastos em infraestruturas de parte dos governos nacionais para sediar os jogos, gerando controvérsias públicas que excederam o campo esportivo – a rigor, este ciclo começa com a Copa de 2002, sediada conjuntamente por Coréia do Sul e Japão, dois países de economia pujante e com crescimento expressivo do futebol de espetáculo. Protestos equivalentes às Jornadas de Junho não teriam chances de serem realizados na Rússia (2018) ou no Catar (2022), pelo que a FIFA não precisou alterar a programação. Considerando-se que a Copa de 2030 será realizada conjuntamente por Espanha, Portugal e Marrocos – com alguns jogos no Uruguai, Argentina e Paraguai, para lembrar os 100 anos da realização da primeira edição deste certame – nota-se que a estratégia mudou radicalmente, evitando onerar os países-sede com gastos públicos que colocam seus governantes e a própria FIFA na mira de protestos – não custa lembrar que muitos cartazes em 2013 eram explícitos: “FIFA go home!”.

A estratégia de Infantino distancia-se, portanto, daquela de Havelange-Blatter, menos por questões éticas e mais porque as noções de “legado” e “soft power”, amplamente empregadas como marketing para mobilizar recursos públicos em países emergentes, desgastaram-se com a realização da Copa de 2014 no Brasil. É verdade que os professores em greve, no México, com o apoio de outros movimentos sociais, ensaiaram um “Não vai ter Copa!”, como no Brasil em 2014. Mas tanto aqui quanto lá, as mobilizações acabaram contidas – em ambos os casos, por governos de centro-esquerda – e os eventos futebolísticos foram realizados sem percalços. Ademais, em tempo de Copa, a população em geral quer assistir aos jogos em casa, na companhia de familiares e amigos, e têm pouca disposição para apoiar manifestações que geram transtornos na rotina. A diferença entre o sucesso dos apelos de 2013 – “Copa para quem?” –, antes e durante a Copa da Confederações, uma competição menor extinta pela FIFA, e o fracasso dos protestos de 2014 – “Não vai ter Copa!” –, deixou isso cristalino.

Além da possibilidade de assistir à performance das principais vedetes futebolísticas internacionais, o que mobiliza o público para assistir aos jogos da Copa, em particular os da equipe que representa a sua nação, são sentimentos que borram as fronteiras identitárias. Muito já se disse sobre esse nacionalismo laico instituído por função metonímica, sobre o poder simbólico que faz um time de futebol organizado por uma entidade privada – a CBF, por exemplo – tornar-se não apenas o símbolo de uma nação, senão a própria nação encarnada. Estamos bem distantes da Copa de 1938, realizada na França, um ano antes da eclosão da II Guerra Mundial, ocasião em que os sentimentos nacionalistas estavam à flor da pele, especialmente na Europa. O fato da delegação brasileira ter visitado o túmulo do Soldado Desconhecido – alusivo aos milhares de franceses mortos na I Guerra Mundial – assim que desembarcada em Paris, revela que os protocolos de Estado iam bem além da execução dos hinos e da ostentação das bandeiras antes do início dos jogos.

Em 1938 os jornais franceses viam traços nacionalistas em tudo, incluindo-se disciplina e método na seleção italiana comandada por Vittorio Pozzo – escolhido por Mussolini! – e displicência nos brasileiros, tidos como afeitos a técnicas que encantavam o público, mas nem sempre ganhavam os jogos. Alguns cronistas franceses foram mais longe, atribuindo aos malabarismos com a bola uma vocação circense, desconforme à racionalidade que caracterizaria populações supostamente mais evoluídas. A convicção de que o time de futebol espelhava a identidade nacional – o caráter, a índole, a alma… – era recorrente, embora eivada por essencialismos que não suportariam as críticas contemporâneas, seja pela certeza de que as identidades coletivas são objeto de construções ficcionais, não raro controversas, ou porque o perfil populacional e identitário nacional assemelha-se mais a um mosaico do que a um arranjo condensado como é um time de futebol. Ou ainda, porque o critério de seleção dos atletas que entram em campo segue padrões esportivos, e não de coerência com tais construtos nacionalistas, sejam eles quais forem.

De certa forma, falar de estilos de jogo nacionais sempre foi prosa avessa a qualquer comprovação; retórica de intelectuais e cronistas esportivos hábeis na construção de narrativas eloquentes, que embora se apresentem como extensão dos fatos – dos lances de campo, no caso – na maior parte das vezes primam mais pela poética e pela verossimilhança do que por argumentos probatórios. Quanto já se disse sobre a bicicleta de Leônidas, os dribles de Garrincha, a cavadinha de Romário e as pedaladas de uma profusão de craques, com destaque aos dois Ronaldos, o Gaúcho e o Nazário? Ou no sentido inverso, sobre o incômodo nacional com a sisudez de Dunga, o anti estilo de Felipão, a subserviência tática de Lazaroni? Achar traços de identidade coletiva seguirá sendo tão divertido quanto torcer, mas é notável que tais conjecturas se tornaram menos verossímeis com a globalização do mercado de atletas e, sobretudo, com a circulação internacional das imagens dos jogos e das técnicas de preparação. Com boa vontade, poder-se-ia consentir que até a década de 1970 havia traços do futebol nacional na maneira de jogar das respectivas seleções, dado que a circulação de atletas era restrita a tais fronteiras, assim como era menos abundante a circulação de imagens e de tecnologias de treinamento. Mas tirar disso conclusões sobre o caráter nacional é para gênios da ficção, como Nelson Rodrigues, ou então para cronistas de botequim, o que qualquer cidadão brasileiro pode vir a ser em matéria de seleção.

Definitivamente, a questão dos estilos parece ter sido passada para o segundo ou terceiro plano, mas isto não significa que a temática das identidades nacionais esteja ausente desta Copa. Dos 1.248 atletas que dela participam, 23% nasceram em países diferentes daqueles que representam em campo. Trata-se de algo inédito, efetivamente.

Para dar um sentido de competição entre nações, a FIFA tem adotado os critérios de cidadania outorgados pelas respectivas nações-Estado, o que vai além do nascimento. Para impedir que a cidadania fosse concedida com o propósito estratégico de recrutar atletas, a FIFA endureceu os critérios há aproximadamente duas décadas, quando os Emirados Árabes encaminharam uma demanda visando montar um time de mercenários. Todavia, em 2022 foram aprovadas mudanças no sentido de flexibilização das regras, que até então vetavam a mudança de seleção para atletas que tivessem representado um dado país em competições oficiais. Com as novas regras, as categorias de base deixaram de ser contabilizadas e muitos atletas que não teriam espaço na seleção principal do país de nascimento e no qual se formaram profissionalmente, puderam optar por representar os países de origem de seus antepassados quando os critérios de Estado permitem a dupla cidadania – quase metade dos atletas inscritos para a disputa desta Copa possuem dupla cidadania, como prova da globalização do mercado para pés-de-obra. Houve uma verdadeira corrida de parte de algumas federações – Curaçao, Haiti, Cabo Verde, entre outras – para recrutar atletas de famílias em diáspora e, graças a essa estratégia, galgaram vaga à Copa, também beneficiados pelo aumento do número de participantes. Se já havia se tornado comum, sobretudo em seleções europeias, a presença de imigrantes e descendentes das ex-colônias em suas representações, a Copa de 2026 ficará marcada pelo fenômeno inverso: os filhos da diáspora performando pela pátria originária dos seus antepassados.

A nova configuração representacional – pensemos no caso de Lucca Zidane, nascido na França, formado na Espanha e atuando pela Argélia – poderia ser pensada como corolária de um período que incorpora os efeitos da globalização acelerada nas últimas décadas do século XX, cujo fluxo de pessoas acompanhou o de mercadorias, tecnologias e informações. Todavia, é paradoxal que tal cenário se configure justo numa Copa cujo principal país-sede implementa políticas migratórias restritivas, incluindo-se persecuções, deportações e violações de direitos – no caso da Copa, inclusive, tem havido notáveis constrangimentos até mesmo em relação às delegações profissionais, reduzindo expressivamente a quantidade de turistas cujas origens e/ou perfis são tidos como indesejáveis por questões raciais, religiosas e/ou econômicas.

O fato de a França contribuir com quase 32% dos atletas que representam a nação da família em diáspora, tem relação com as políticas migratórias do período pós-colonial, quando recebeu forte fluxo de imigrantes das antigas colônias – pais e sobretudo avós dos atuais jogadores – e desenvolveu políticas de Estado visando integrá-los à nação. Embora esta integração seja permeada por tensões, a composição do selecionado nacional – e agora a presença ostensiva de franceses natos em outras seleções – dão uma dimensão do impacto desse processo.

Em 2004 estive em Clairefontaine-en-Yvelines, na periferia de Paris, onde está sediado o centro de operações das seleções francesas, masculinas e femininas, de todas as categorias. À diferença da Granja Comary, centro de treinamento das seleções brasileiras, o Centre Technique National du Football e o Institut National du Football, hospedados em Clairefontaine, são responsáveis pela verdadeira revolução futebolística francesa. Na origem, ainda na década de 1980, foram concebidos como centros de inteligência, cuja finalidade era alavancar a formação de jogadores profissionais e fazer frente às péssimas performances do selecionado francês em competições europeias e mundiais nas décadas de 1960 e 70. Não se tratava propriamente de uma política esportiva, mas de uma política de Estado, que em última instância almejava a integração dos imigrantes ao ideário nacionalista francês a partir do gosto e do interesse desses imigrantes e não do que estava consolidado pelas tradições republicanas.

Até então a política esportiva de Estado, praticada nas escolas – quase todas públicas – e nos clubes de bairro, pressupunha a inculcação de um habitus esportivo visando a profilaxia e a convivialidade. Cada indivíduo deveria ser engajado em uma prática esportiva e, portanto, em um grupo qualquer de praticantes. A tarefa das escolas era proporcionar uma diversidade tal de experiências que seria quase impossível alguém desdenhar de todas; depois da escola, supostamente, esses indivíduos seguiriam praticando o esporte da sua predileção para o resto da vida em clubes de rugby, natação, alpinismo, bicicleta e assim por diante. O futebol era só mais um esporte, em boa medida estigmatizado, pois associado à imigração de mineiros poloneses, ao Norte, ou de magrebinos e sub-saarianos vindos das ex-colônias, concentrados no Sul e na periferia de Paris. Os resultados dessa política mudaram a performance em Copas; alteraram, inclusive, a cor da pele dos atletas, e as conquistas frequentes têm levado multidões de franceses a Champs-Élysées, incluindo-se imigrantes e descendentes, a cada conquista do selecionado. Isso a despeito do ignóbil líder da extrema direita Jean-Marie Le Pen ter dito que o time de futebol da França não o representava.

Boa parte dos atletas franceses que agora representam as nações da diáspora familiar passaram por Clairefontaine, competindo pela França nas categorias de base. Outros foram formados nos clubes, que são obrigados pela legislação a formar atletas – se não fossem obrigados provavelmente recrutariam no mercado internacional, com consequências deletérias para a representação nacional, como parece ser o caso da Itália. Dada a disputa acirrada para compor o elenco francês – o mais qualificado da Copa de 2026, se considerado o status dos clubes onde atuam e o valor de mercado de seus direitos federativos –, uma legião de atletas encontrou na nova regra da FIFA uma alternativa para jogar a Copa. O impacto disso entre a população que eles vão representar pode gerar controvérsias, afinal eles ocuparão vagas que seriam dos nativos – a Arábia Saudita, por exemplo, interditou a convocação de quem não jogasse no próprio país. De outra parte, é provável que, na maioria dos casos, essas nações não estariam sequer disputando a Copa não fosse pela performance desses filhos da diáspora.

Seja como for, jamais a crença do Brasil como “celeiro de craques” esteve tão ameaçada. Ao que parece, perdemos este posto para a França, e quiçá tenha um lado bom nisso. Em certa ocasião, quando da realização de trabalho de campo sobre a formação de jogadores profissionais, ouvi de um treinador da base do Olympique de Marseille queixas sobre a pouca importância que o clube dava à formação – o Olympique é um clube “comprador”, não “formador”. Estendendo-se no tema, observou que muitos dos atletas que estavam nos centros de formação franceses eram de famílias de imigrantes, algumas delas levadas à França por empresários ávidos por lucrar com o comércio de jogadores. Com acurada sensibilidade para um profissional do meio futebolístico, lamentou o fato da pobreza ser a razão dessas apostas arriscadas, pois o futebol profissional é um campo altamente excludente, que viabiliza a carreira de poucos afortunados às expensas de um largo contingente abandonado pelo caminho, frustrado e invisibilizado. Meu interlocutor insinuou que o Brasil não era tão diferente da África, sob este ponto de vista: uma legião de crianças e adolescentes dedicando-se à bola ao invés dos estudos na tentativa de redimir a miséria familiar, mas fadados a reproduzi-la, salvo exceções. Ser “celeiro de craques” de futebol poderia não ser uma boa coisa, finalizou.

Caso a seleção brasileira não seja campeã da Copa do Mundo deste ano, sobrarão explicações e não faltarão culpados. Nesse emaranhado, talvez seja conveniente lembrar desse detalhe singular: de que já não somos os maiores produtores de pés-de-obra de destaque – as condecorações da FIFA e do France Football são um bom indicativo. Por outro lado, já não somos o mesmo país de duas décadas atrás, pelo que espelha o IDHM brasileiro recentemente divulgado pela ONU – com todas as ressalvas que se possa fazer a esses índices genéricos. Parafraseando um slogan dos protestos de 2013, diria que se Vini Jr. e companhia voltarem com a taça será ótimo, mas dela já podemos abrir mão; do que não podemos é de saúde, renda e educação.


Sobre o autor


Arlei Sander Damo é professor titular do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS. Possui mestrado e doutorado em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor dos livros Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França (prêmio Capes e Anpocs de melhor tese de 2005), Futebol e identidade social e coautor com Ruben Oliven de Fútbol y cultura (Buenos Aires, Argentina).