BVPS Edições | Copa do Mundo na BVPS | “O futebol de mulheres no Brasil: desafios e conquistas”, por Leda Costa

Dando continuidade à série Copa do Mundo na BVPS, publicamos hoje texto de Leda Costa (UERJ), em que lança um olhar sobre a trajetória do futebol de mulheres no Brasil: uma história marcada tanto por obstáculos estruturais quanto por conquistas graduais.

Com a eliminação do Brasil na Copa, é importante voltarmos os olhos para um evento que acontecerá no país ano que vem: a Copa do Mundo de Futebol Feminino. No entanto, ainda mais premente é um olhar para a realidade do futebol feminino praticado no Brasil. Como mostra Costa, décadas de proibição legal e ausência de regulamentação deixaram heranças que se refletem hoje na precariedade de investimentos e na falta de reconhecimento institucional dedicado à modalidade. Mas a autora também recupera o outro lado dessa história: o reconhecimento oficial do futebol feminino e suas conquistas, nos convidando a pensar o futebol feminino como espaço legítimo de trabalho, atravessado por questões de gênero, classe e raça.

Para acompanhar os posts anteriores da série, clique aqui. Novos textos serão publicados às sextas-feiras, até o fim desta edição da Copa do Mundo.

Boa leitura!


O futebol de mulheres no Brasil: desafios e conquistas

Por Leda Maria da Costa (UERJ)

Enquanto a Copa do Mundo masculina acontece e monopoliza a atenção midiática, a tabela das oitavas de final da Copa do Brasil Feminina foi divulgada pela Confederação Brasileira de Futebol provocando insatisfação em algumas jogadoras. O principal motivo das reclamações é devido ao horário dos jogos como é o caso de Ferroviária X Corinthians agendado para acontecer numa quinta-feira às 15h. A jogadora Gabi Zanotti chegou a comentar de modo irônico: “Horário bem atrativo para o público ir ao estádio e para acompanhar na TV. Parabéns aos envolvidos”[1]. Enquanto mais uma Copa do Mundo acontece, o futebol de mulheres, no Brasil, segue dando mostras de muitos problemas em sua organização. Porém, isso não é uma novidade.

Em 13 de março de 2026, a partida entre Flamengo e Botafogo, válida pelo Campeonato Brasileiro Feminino, teve seu início adiado em trinta minutos devido ao atraso da equipe de arbitragem, que ainda não havia chegado ao Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro. Durante entrevistas concedidas às emissoras responsáveis pela transmissão do jogo, as capitãs das equipes manifestaram indignação, classificando o ocorrido como mais uma demonstração da falta de respeito destinada ao futebol de mulheres. É difícil imaginar que um clássico entre Flamengo e Botafogo, disputado pelas equipes masculinas, enfrentasse situação semelhante. Em abril do mesmo ano, a partida entre Mixto e Fluminense, válida pelo Campeonato Brasileiro, foi interrompida por causa de uma bolha de ar que se formou no gramado, provocada por um cano estourado.[2]

Alguns problemas não se limitam ao futebol brasileiro. A Copa América Feminina 2025 e a Libertadores Feminina foram alvos de críticas por parte das jogadoras, que expuseram a estrutura precária e problemas graves nos campeonatos. A camisa 10 Marta declarou: “Cobram desempenho das jogadoras, mas também temos o direito de cobrar um alto nível de organização”.[3] A jogadora se referia a problemas ocorridos na Copa América como ao fato de a seleção brasileira ter precisado realizar o aquecimento no vestiário, já que não havia outro espaço disponível.

Embora o futebol brasileiro masculino já tenha convivido, em décadas anteriores, com problemas de organização em competições nacionais e estaduais — como campeonatos com número excessivo de participantes ou decisões esportivas alteradas por interesses políticos de dirigentes e federações —, atualmente a principal competição masculina apresenta um padrão organizacional muito mais estável e profissional. No futebol feminino, entretanto, episódios como os mencionados acima ainda permanecem frequentes, mesmo quando envolvem a principal competição nacional da modalidade.

A trajetória das mulheres no futebol brasileiro foi marcada por obstáculos que deixaram heranças. Embora o decreto-lei de 1941, que proibia a prática do futebol feminino, tenha sido revogado em 1979, a modalidade ainda carecia de regulamentação oficial. Naquele momento, as mulheres podiam formar equipes e disputar partidas, porém inexistiam normas específicas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Desporto (CND), assim como uma entidade responsável por organizar oficialmente a modalidade. Somente em 1983 a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) reconheceu oficialmente o futebol feminino. Naquele mesmo ano foram realizados os primeiros campeonatos oficiais, entre eles o Campeonato Carioca, cuja edição inaugural foi conquistada pelo tradicional Clube Radar, equipe que se tornaria uma das principais referências do futebol de mulheres brasileiro na década de 1980.

Infelizmente a instabilidade foi uma constante da história das competições femininas de futebol. O Campeonato Carioca, por exemplo, sofreu interrupções em diferentes períodos, evidenciando a ausência de um calendário consolidado.[4] Em âmbito internacional, a desigualdade também era evidente: enquanto a Copa do Mundo masculina era realizada desde 1930, a Fifa demorou 61 anos para organizar uma edição oficial desse evento para as mulheres.[5]

No cenário nacional, o Campeonato Brasileiro Feminino, em seu formato atual, foi criado apenas em 2013. Posteriormente, a competição ganhou uma segunda divisão em 2017 e uma terceira divisão em 2022, ampliando gradualmente sua estrutura competitiva. Esse histórico demonstra que as competições profissionais do futebol feminino foram incorporadas tardiamente ao calendário esportivo brasileiro e continuam marcadas pela irregularidade e pela insuficiência de investimentos de clubes e federações. Discutir o Campeonato Brasileiro Feminino A1 significa, portanto, abordar uma competição essencial para a consolidação da carreira profissional das mulheres no esporte de maior popularidade do país. Além da dimensão esportiva, trata-se de compreender o futebol como um espaço de trabalho atravessado por questões relacionadas a gênero, classe social e raça.

Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025: dados do Relatório do Observatório Social do Futebol

Para aprofundarmos a discussão a respeito do futebol de mulheres, no Brasil, é pertinente recorrer a dados do relatório Brasileiro Feminino A1 2025, elaborado pelo Observatório Social do Futebol e pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte – UERJ. O documento reúne, de forma sistematizada, informações relacionadas à presença de público, aos estádios utilizados, à transmissão televisiva das partidas e à divulgação de dados referentes à comercialização de ingressos. Quanto aos procedimentos metodológicos, o relatório teve como principal fonte os documentos disponibilizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), incluindo boletins financeiros das partidas, relatórios de jogo e súmulas oficiais. Além disso, foram consultadas as redes sociais oficiais dos clubes participantes da competição e diferentes portais especializados na cobertura esportiva. Neste texto, a análise concentra-se na primeira fase do Campeonato, etapa mais abrangente por envolver todas as 16 equipes competidoras.

Entre os aspectos evidenciados pelo Relatório, destaca-se a elevada frequência de alterações na programação da competição. Mudanças de local, data e horário das partidas foram solicitadas por diferentes atores, entre eles os próprios clubes, as emissoras responsáveis pela transmissão dos jogos (SporTV e TV Brasil) e a CBF. Das 120 partidas disputadas na primeira fase, 62 sofreram ao menos uma modificação em sua programação seja em relação à data, ao horário ou ao estádio. A tabela apresentada a seguir reúne o número de solicitações de alteração realizadas ou aceitas pelos clubes, tanto na condição de mandantes quanto na de visitantes

As alterações na tabela oficial da competição foram comunicadas, em média, com 12,9 dias de antecedência em relação às datas inicialmente previstas para a realização das partidas. Houve, contudo, diferenças expressivas nesse intervalo. O confronto entre Sport e América (MG), por exemplo, teve sua modificação anunciada 39 dias antes da data programada, enquanto a partida entre Sport e Fluminense sofreu alterações apenas quatro dias antes de sua realização. Das 80 solicitações registradas durante a primeira fase do campeonato, 18 foram efetuadas com antecedência igual ou inferior a uma semana.

Embora todas as mudanças tenham respeitado as normas estabelecidas pelo regulamento da competição, a elevada frequência dessas alterações aponta para fragilidades no planejamento do campeonato. Esse cenário pode comprometer tanto a organização da preparação das equipes quanto a presença de torcedores nos estádios, uma vez que a constante mudança de datas, horários e locais reduz a previsibilidade da competição e dificulta o planejamento daqueles que desejam acompanhar as partidas presencialmente.

Em relação à presença de público, outro aspecto observado diz respeito à utilização de diferentes estádios pelos clubes mandantes ao longo da primeira fase. Em diversos casos, uma mesma equipe disputou seus jogos em mais de dois ou até três estádios distintos, alguns localizados em cidades diferentes ou afastados das regiões tradicionalmente frequentadas por seus torcedores. Também houve partidas realizadas em estádios situados em centros de treinamento, espaços normalmente destinados a competições de categorias de base ou amadoras.

Distância entre estádio alternativo e o principal.  Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025 – Observatório Social do Futebol

No Relatório, os estádios foram classificados em duas categorias: principais e alternativos. Foram considerados principais aqueles tradicionalmente utilizados pelos clubes em competições oficiais de futebol profissional, enquanto os alternativos correspondem àqueles que não costumam ser usados pelos clubes em partidas profissionais. Durante a primeira fase do Campeonato Brasileiro Feminino A1 de 2025, oito equipes não atuaram em nenhuma ocasião em seus estádios principais: Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras e São Paulo. Os dados ainda indicam que, em alguns casos, os clubes registraram médias de público mais elevadas quando mandaram seus jogos em seus estádios principais.

Chama atenção o caso do Bahia que teve seu maior público no Campeonato na única vez em que jogou na Arena Fonte Nova. Esse jogo possibilitou que o referido clube figurasse dentre os três com maior público na primeira e maior fase da competição.

Média de público dos clubes em partidas como mandantes
* Com exceção do jogo em que o Bahia teve 2.333 espectadores, a média seria de apenas 150 pessoas por jogo, colocando-o na quinta pior posição dentre os clubes que apresentam venda de ingressos;
** Palmeiras jogou a 12ª e a 14ª rodada com portões fechados;
*** Red Bull Bragantino jogou as rodadas de número 6 e 9 com os portões fechados;
**** Flamengo e Fluminense jogaram com portões abertos, porém sem a contabilização de entradas.
Fonte: Campeonato Brasileiro Feminino A1 – Relatório

Os dados apresentados na tabela evidenciam um aspecto relevante da média de público do Corinthians. Embora a equipe não tenha utilizado a Neo Química Arena durante a primeira fase da competição, realizou a maior parte de suas partidas como mandante no Parque São Jorge. Inaugurado em 1928 e pertencente ao clube, o estádio é localizado em sua sede social e possui forte valor histórico e simbólico para a torcida corinthiana. Esse vínculo construído ao longo do tempo entre o clube, o estádio e seus torcedores constitui um dos fatores que podem contribuir para explicar a liderança do Corinthians na média de público do campeonato.

A situação de Flamengo e Fluminense foi distinta. Além de não mandarem seus jogos em estádios tradicionalmente associados à identidade de seus clubes, algumas partidas foram disputadas com portões abertos e sem a contabilização da entrada de público. No Campeonato Brasileiro Feminino de 2025, o confronto entre as duas equipes, conhecido como “clássico das multidões”, ocorreu longe do Maracanã, em uma sexta-feira, às 21h. Como não houve comercialização de ingressos nem controle oficial de acesso ao estádio, não foi possível determinar o número de espectadores presentes. O registro da presença de público representa uma informação estratégica para a análise das competições esportivas, pois permite compreender o comportamento dos torcedores e identificar padrões de participação ao longo do campeonato. No contexto do futebol feminino, esses dados podem subsidiar a formulação de políticas e iniciativas voltadas ao fortalecimento da presença de público nos estádios.

Situação semelhante foi observada em outro importante clássico do futebol brasileiro. O confronto entre Grêmio e Internacional foi realizado fora de Porto Alegre, distante dos estádios habitualmente utilizados pelas equipes, além de ter ocorrido em dia útil e em horário pouco favorável à participação dos torcedores. Essas condições tendem a dificultar o comparecimento do público e a reduzir o potencial de mobilização que jogos dessa magnitude normalmente apresentam.

Fla-Flu e Grenal, com seus locais de realização. Fonte: https://observatoriosocialfutebol.org/relatorio-brasileiro-feminino-a1-2025/

Essa questão pode ser agravada se somada a problemas com a disponibilização da venda de ingressos assim como da sua divulgação. Abaixo, os clubes são listados conforme sua média de antecedência na venda ou disponibilização de entradas:

Por fim, cabe destacar questões relativas às transmissões dos jogos. No gráfico abaixo se evidencia a desigual distribuição de jogos transmitidos.

O Bahia, um dos mais populares clubes do país teve apenas duas partidas transmitidas, sendo que nenhuma em TV aberta.  A concentração das transmissões em Flamengo e Corinthians gera dificuldade para que torcidas de outros clubes ou qualquer pessoa interessada em futebol acompanhem o campeonato em sua variedade.

Falamos de desafios, onde estão as conquistas?

Ainda que o futebol feminino brasileiro tenha evoluído significativamente em comparação com períodos anteriores, sua consolidação depende da continuidade dos investimentos e do compromisso das instituições com o desenvolvimento da modalidade. Reconhecer os progressos já alcançados é importante para fortalecer a confiança em seu futuro, sem desconsiderar os desafios que permanecem. A trajetória das mulheres no futebol é marcada pela persistência diante de obstáculos históricos, razão pela qual permanece indispensável ampliar o compromisso social e esportivo com a modalidade, compreendendo-a como um espaço legítimo de atuação profissional e de garantia de direitos para as mulheres que, ao longo de décadas, têm lutado por reconhecimento e igualdade.

Nesse contexto, a produção de pesquisas e o levantamento sistemático de dados tornam-se instrumentos fundamentais para subsidiar políticas e estratégias voltadas à melhoria das condições de trabalho das mulheres no futebol brasileiro. Competições nacionais bem estruturadas desempenham papel essencial na consolidação do esporte como espaço de atuação profissional, não apenas para as atletas, mas também para diversos outros profissionais envolvidos na modalidade.

A história do futebol brasileiro é indissociável da presença das mulheres e sua luta para participar do esporte mais popular do país. Essa presença foi frequentemente invisibilizada e subestimada. Porém, se em 2027 o Brasil vai ser o primeiro país na América Latina a sediar uma Copa do Mundo Feminina, essa conquista memorável é derivada do esforço de mulheres que atuaram em gramados do país afora, apesar do preconceito, das chacotas e das ameaças de punição policial e esportiva. E esse esforço continua porque ainda há muito a ser construído e tudo que lhes foi tomado precisa ser resgatado.


Notas

[1] Fonte: https://campodelas.ig.com.br/2026/copa-do-brasil-feminina-2/horarios-copa-do-brasil-feminina-criticas/

[2] Fonte: https://ge.globo.com/mt/futebol/futebol-feminino/noticia/2026/04/27/bolha-no-gramado-marca-jogo-do-mixto-e-fluminense-no-brasileiro-feminino-a1-veja-video.ghtml

[3] Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2025/07/em-contraste-com-sucesso-da-euro-jogadoras-denunciam-abandono-na-copa-america.shtml

[4] O campeonato carioca feminino começou em 1983 e teve sua continuidade interrompida em 1986, sendo retomado em 1988. Em 2001 a competição foi novamente descontinuada, voltando somente em 2005.

[5] É importante mencionar que em 1970 e 1971 foram realizadas duas Copas do Mundo de futebol feminino, a primeira na Itália e a segunda, no México. Ambas as edições não contaram com o apoio da Fifa.

Sobre a autora

Leda Maria da Costa é professora adjunta da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Possui Pós-doutorado em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Possui Doutorado em Literatura Comparada, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2008), É pesquisadora do LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Espore – UERJ. É professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autora do livro Os vilões do futebol. Jornalismo esportivo e imaginação melodramática (2020).