Série Nordestes | O Turista Aprendiz: Natal (17 de janeiro, 20 horas)   


Mário de Andrade
está às vésperas de percorrer o Rio Grande do Norte de automóvel. Da zona açucareira, seguirá para as regiões do sal e do algodão. Aproveita o ensejo para examinar limites e promessas da cotonicultura nordestina. Nessa crônica, o escritor registra um momento em que o Nordeste começava a imaginar para si um novo lugar na economia mundial, movido, como ele próprio diz, pela “ânsia de crescer deveras”.

Com postagens sempre às terças-feiras, todas as crônicas da viagem de Mário de Andrade ao Nordeste foram integralmente transcritas do jornal Diário Nacional, a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Para saber mais sobre o retorno da Série Nordestes, clique aqui.

Boa leitura!


O Turista Aprendiz

Natal (17 de janeiro, 20 horas)

Estou preparando as malas pra seguir amanhã numa viagem de automovel fazendo quasi que toda a volta do Rio Grande do Norte. Essa viagem me interessa bem. Já conheço a região do assucar. Vou visitar agora a do sal e a do algodão. 

O algodão é mesmo a grande fonte de riqueza que o Estado possui. Em parte em reserva ainda pela terras não aproveitadas, pela falta de seleção e pelo regime latifundiario que infelizmente inda impera por êste imenso Brasil. 

Só ultimamente se tem trabalhado na seleção de sementes e aperfeiçoamento de tipos nobres, duns cinco anos pra cá. São mantidas pra isso duas fazendas-modelo em Macahyba e Sant’Anna. Tambem instalaram um laboratorio em Jundiahy (Macahyba) pra estudo das pragas do algodoeiro. 

Tudo isso é pouco porêm pra corresponder ás necessidades do Estado e urgencia da grandeza dele, o laboratorio é precario como informa o proprio jornal oficial e a procura de sementes selecinadas pelos agricultores é maior que a produção das fazendas de sementes. 

Apesar dessa precariedade e infancia de trabalhos de aperfeiçoamento que inda perseveram pelo Nordeste, já possuimos um tipo de primeira ordem, o algodão “Mocó”, de fibra longa, que alcança nos mercados Liverpool, S. Paulo, classificação nobilissima, tipos 1 a 4. É dos milhores que ha pela uniformidade e resistencia da fibra, resiste bem á fome nem sei como chame! da lagarta rosada e a produção de pluma pra cada árvore é de porcentagem excelente.  

Inda por cima é quasi que só plantar e colher quando a gente sabe o trabalhão que dá o cultivo do algodoeiro no Egito, nos Estados Unidos e na India. 

O Nordeste se tornará facilmente um dos maiores, sinão o maior produtor de algodão do mundo. E a gente percebe aliás que o nordestino já está se convencendo disso; o que é milhor do que achar o Brazil uma boniteza e discutir a intensidade de calor entre o Nordeste, Manaus, Rio e Buenos Aires. A gente percebe que o calor já principia sendo outro: ânsia de crescer deveras. 

MÁRIO DE ANDRADE