BVPS Autorais | Alcida Rita Ramos

Publicamos hoje o terceiro texto de Alcida Rita Ramos (UnB) na série BVPS Autorais: “A tragédia Yanomami”, originalmente publicado no Informativo da Associação Brasileira de Antropologia em 2022.

Serão 10 textos publicados, um a cada semana, sempre às terças-feiras, abordando temas como Yanomamis, viagens etnográficas de antropólogos e de indígenas, reflexões sobre a antropologia brasileira, etnologia e políticas públicas, cosmopolitismo, perspectivismo e a renascença artística indígena. Todos eles perpassados sempre pelos sonhos, como indicam os curadores André Botelho (UFRJ) e Maurício Hoelz (UFRRJ) na pequena apresentação que abre a série e que pode ser lida aqui.

Para ler o primeiro texto da série clique aqui. O segundo texto pode ser conferido aqui.

Boa leitura!


A tragédia Yanomami

Por Alcida Rita Ramos (UnB)

A máxima que Marx consagrou – a história acontece como tragédia e se repete como farsa – não se aplica ou se inverte no caso Yanomami. Pois, da primeira grande investida contra sua terra e suas vidas na virada da década de 1980 para 1990 à que assistimos agora, atônitos, a intensidade e intencionalidade dos ataques aumentaram de tal modo que não se pode mais atribuí-los à mera ganância financeira. O que no princípio tinha algo de tragicômico (invasores fantasiados de militares num dia de Carnaval, por exemplo), transformou-se num teatro de horrores sem trégua e sem limites. O que antes se atribuía a aventureiros cegos pelo luzir do ouro, agora são ações de um governo que quer matar sem sujar as mãos. Basta que um flagelo humano no posto de presidente abra uma porteira e a boiada passa e o massacre começa.

1973-1975. A primeira grande invasão veio com a construção da rodovia Perimetral Norte que cortou em linha reta de leste a oeste no sul do território Yanomami mais de 200 km em Roraima e no Amazonas. A obra dessa inútil estrada, fadada ao abandono, durou menos de três anos, tempo suficiente para estilhaçar a vida de comunidades inteiras atingidas por ela. Sarampo, gripe e outras pestilências de branco devastaram famílias, desequilibraram subsistências e mataram mais de 22% de seus habitantes, quase inviabilizando o seu tecido social. (Imaginemos a perda de 22% da população brasileira: um número tão alto que nem a pandemia da Covid-19 conseguiu matar).

No levantamento do Projeto Radambrasil em 1975, a terra Yanomami revelou-se rica em minérios (cassiterita, ouro, materiais radioativos …) e pobre em fertilidade de solos. Essa notícia deflagrou um avanço de garimpeiros (modestos 500 pelos padrões atuais) em busca de cassiterita. Profetizando um futuro inimaginável naquela época (1975-76), a Serra de Surucucus assistiu a sérios conflitos armados entre indígenas e garimpeiros provocados por roubos de roças e abusos sexuais contra mulheres indígenas. Ainda com algum escrúpulo para manter uma boa imagem do governo, o então Ministro do Interior, o militar Rangel Reis, ordenou a retirada dos invasores. Ordem inócua, gesto propagandístico, resultado pífio.

1980. Começa outra invasão, agora por ouro, no alto rio Uraricoera. Eram cerca de dois mil garimpeiros que, nove anos depois, haviam se transformado em 50 mil, espalhados por toda a região central das terras Yanomami no Brasil, atravessando a fronteira e causando problemas diplomáticos com a Venezuela.

A situação alcançou um estado crítico a partir de agosto de 1987, com a chegada de milhares de garimpeiros que primeiro usavam os campos de pouso das missões religiosas e da FAB, para logo depois abrirem um número crescente de pistas. Dois anos depois, estimava-se mais de 80 pistas clandestinas, algumas do lado venezuelano da fronteira. O rio Mucajaí ficou poluído por mercúrio e assoreamento em toda a sua extensão. Os rios Uraricoera, Catrimani e Couto de Magalhães, contaminados por mercúrio e óleo, não tinham mais peixes. A ininterrupta decolagem e aterrissagem de aviões e helicópteros afugentou a caça, levando os Yanomami à penúria e à humilhante situação de depender da comida dos garimpeiros.

Mesmo as comunidades que não sofreram diretamente a presença concreta do garimpo poluente acabaram atingidos pelos efeitos das ondas de choque da corrida do ouro. Epidemias que começavam num determinado ponto grassavam como fogo selvagem por dezenas de aldeias, deixando um rastro de devastação social, ecológica e econômica. Tuberculose, malária e outras tantas pestilências alienígenas mutilaram e mataram, umas de maneira fulminante, outras aos poucos, corroendo o equilíbrio demográfico de comunidades inteiras, deixando órfãos ao deus-dará, ameaçando seriamente sua produção de bens materiais e culturais e a própria reprodução social.

Através dessas ondas de choque, a tragédia Yanomami ampliou-se – e continua num crescendo desvairado – a cada nova pista que se abre, a cada novo barranco que se dilapida, a cada novo acampamento garimpeiro que se instala. Como células cancerígenas, os efeitos daninhos da atividade garimpeira espalharam-se – e continuam se espalhando – pelas artérias, veias e capilares da grande cadeia orgânica que é o mundo Yanomami.

Ficou-se sem saber o número de indígenas mortos em conflitos armados e por doenças contagiosas propagadas pelos invasores porque, a partir agosto de 1987, a Funai, os militares do Conselho de Segurança Nacional e o então governador de Roraima, Romero Jucá, proibiram pesquisadores, profissionais de saúde, missionários católicos, jornalistas e outros observadores de entrar em território Yanomami.

1991-1992. A tragédia do garimpo não poupou meu local de trabalho de campo. O vale do rio Auaris, no divisor de águas entre o Brasil e a Venezuela, foi o cenário da minha pesquisa de doutorado (1968-1970), naquela época, um paraíso etnográfico. Sem pressões, sem invasões, sem epidemias, num recôndito rincão da mata amazônica, desempenhei sem pressa meu rito de passagem malinowskiano para me tornar uma antropóloga de verdade. Mal sabia eu que a transformação desse paraíso em inferno seria apenas uma questão de tempo.

Nos meses de março e abril de 1991, a região do alto rio Auaris em Roraima, estando na periferia da atividade garimpeira, parecia longe da infestação de malária. No entanto, tornou-se palco de uma das mais violentas crises de saúde registradas no território Yanomami. Das aldeias mais atingidas, Kadimani, onde passei metade dos 18 meses de pesquisa de campo, destacou-se em quantidade de doentes e em gravidade do estado de saúde de seus habitantes.

Por aquela época, já o Brasil aparecia aos olhos do mundo como omisso em proteger os direitos indígenas, deixando que dezenas de milhares de invasores infestassem uma das terras indígenas mais focalizadas pelos meios de comunicação no país e fora dele. Depois de três anos de proibição para realizar pesquisa antropológica com os Yanomami, a FUNAI, afinal, concedeu-nos autorizações para entrar na área. Em menos de um mês, Bruce Albert e eu retornamos à área. Enquanto Bruce acompanhava uma equipe médica a Toototobi, no estado do Amazonas, eu revisitei Auaris depois de quase 17 anos de ausência. Coube-me o papel de intérprete de uma equipe médica da então Fundação Nacional de Saúde conduzida pela Dra. Ivone Menegola. Era apenas uma viagem exploratória sobre as condições locais de saúde. No entanto, uma semana depois de nos instalarmos na minha antiga casa na aldeia adjacente à missão da MEVA, começaram a chegar mensageiros de Kadimani com notícias sobre o estado desesperador de seus parentes. Por falta de transporte, não conseguimos alcançá-los imediatamente e mandamos os mensageiros de volta com o recado para que os doentes tentassem chegar à missão.

No final de março, chegou a primeira leva numa desoladora fila indiana de gente desnutrida, amparada em bastões ou nas costas dos menos fracos, arrastando-se até a minha casa. A semana que se seguiu foi de trabalho frenético para atender a todos, dia e noite, ao mesmo tempo que nos desdobrávamos para alimentar 133 pessoas famintas e macilentas. Como solução de emergência, mandamos vir gêneros alimentícios de Boa Vista para não sobrecarregar os limitados recursos dos habitantes locais.

Casos de anemia profunda necessitavam transfusão de sangue. Foram feitas nove transfusões com doadores da própria missão. Na minha rede faleceu um menino, aumentando o número de mortos para três, dois dos quais haviam morrido antes desse traslado para Auaris. Outros residentes de Kadimani faleceram em vários outros lugares do território Yanomami, alguns trazidos de volta à missão.

A cada avião que chegava com um cadáver, redobrava o pranto dos parentes alojados precariamente num alpendre da missão. O pranto pungente e sofrido somava-se ao desalento dos desnutridos num lamento sonoro que replicava o desespero visual. O choro das famílias de Kadimani debruçadas sobre seus mortos, devolvidos um após outro, tornou-se um eco recorrente e símbolo fúnebre de uma situação que só não se tornou um morticínio generalizado graças à coincidência da presença da equipe médica naquele momento em Auaris. A malária Falciparum, quase sempre letal sem o devido tratamento, teria levado a comunidade de Kadimani à extinção, deixando desgarrado um punhado de sobreviventes.

Nossa estada em Auaris chegou ao fim, conseguimos evitar um número significativo de óbitos, mas a invasão não parou, a malária continuou a ceifar vidas e assim permaneceu o drama dos Sanumá até que, em 1992, a Terra Indígena Yanomami (TIY), demarcada no ano anterior, foi homologada, os invasores retirados, embora parcialmente, e seguiu-se um interlúdio de relativa tranquilidade na vida Yanomami, até Jair Bolsonaro chegar ao poder em 2018.

Em 1993, o então deputado federal Jair Bolsonaro apresentou à Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias o Projeto de Decreto Legislativo 365 que tornaria “sem efeito o Decreto de 25 de maio de 1992, que homologou a demarcação administrativa da terra indígena Yanomami, nos Estados de Roraima e Amazonas”. O argumento, já surrado pelo uso excessivo e fútil dos militares, apelava para a segurança nacional que estaria ameaçada pela possibilidade de o povo Yanomami criar um Estado próprio às expensas do Brasil e da Venezuela. O projeto teve como relator o deputado Fernando Gabeira. Com firmeza e agilidade, utilizando amplamente dados antropológicos sobre os Yanomami,[1] o relator votou pela rejeição do projeto, justificando: “Examinados os argumentos apresentados para embasar a presente proposta, em face das razões técnicas e legais expendidas, julgo-me no dever de rejeitar o presente Projeto de Decreto Legislativo, de forma a defender nosso patrimônio genético e cultural e como forma de afirmar a nossa cidadania”.

Com essa tentativa frustrada, Bolsonaro, já como presidente do país, desiste dos canais competentes e adota a omissão ativa como meio para chegar ao fim que, há quase 30 anos, lhe foi legitimamente negado: a destruição do território e, por extensão, do povo Yanomami.

2020. O caráter um tanto farsista, embora letal, da corrida do ouro que afligiu os Yanomami no século passado muda de tom e torna-se dantesco ao promover uma escalada de horrores inéditos na história interétnica desse grande povo. Para cúmulo do infortúnio, a não declarada guerra total contra eles veio acompanhada de uma das mais virulentas pandemias em tempos modernos.

A fúria com que a atual corrida do ouro tem atacado a terra e a vida dos Yanomami tem todos os ingredientes de uma orquestrada campanha genocida que visa exaurir os recursos naturais da TIY, ao mesmo tempo que tenta eliminar de uma vez por todas as etnias que a ocupam. Invasões garimpeiras não são novidade para muitos Yanomami e seus vizinhos Ye’kwana. O que é novo são as investidas do governo federal contra eles, medidas flagrantemente inconstitucionais que desafiam o estado de direito, insuflam a propagação de notícias falsas para confundir a opinião pública e aplicam incentivos sem rodeios ao saque e à extrema violência. Esse é o carimbo que o presidente Bolsonaro imprime à sua passagem pela história do país.

Mais uma vez, os Sanumá, Yanomami da região do rio Auaris, foram protagonistas de notícias aterradoras. No dia 24 de junho de 2020, a jornalista Eliane Brum do El País Brasil, escreveu: “Três mulheres vivem um horror para o qual será preciso inventar um nome. Elas são Sanöma… Em maio, essas mulheres e seus bebês foram levados para Boa Vista… com suspeita de pneumonia. No hospital, as crianças teriam sido contaminadas por covid-19. E lá morreram. E então seus pequenos corpos desapareceram, possivelmente enterrados no cemitério da cidade. Duas das mães estão com covid-19, amontoadas na Casa de Saúde Indígena (CASAI), abarrotada de doentes. Lá, corroídas pelo vírus, elas imploram pelos seus bebês”. Em mensagem gravada em sua língua materna, uma das jovens mães diz à jornalista: “Sofri para ter essa criança. E estou sofrendo. Meu povo está sofrendo. Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. Não posso voltar sem o corpo do meu filho”, condição necessária para lhe dar um funeral digno nos moldes Yanomami, que exigem a cremação do cadáver e ritos apropriados.

O roubo e enterro dos corpos foram justificados pelo risco que os corpos, supostamente infectados pelo coronavírus, representariam para a população. Apurou-se mais tarde que os bebês foram exumados e testados. Não havia covid-19! A agressão contida no sepultamento clandestino das crianças Sanumá foi uma sórdida infâmia, disfarçada de ignorância, contra essas mulheres e, por extensão, contra todos os Yanomami. Como explicou Bruce Albert a Eliane Brum, “não há pior afronta e sofrimento para os Yanomami do que fazer ‘desaparecer’ seus mortos”.

A brutalidade continuou em outras frentes. O relatório Yanomami sob ataque, uma realização das duas associações indígenas da TIY – Hutukara Associação Yanomami e Associação Wanasseduume Ye’kwana – foi publicado em abril de 2022 com dados do Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal da TI Yanomami coletados em 2021, com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA). Essa publicação nos dá em texto e imagens a magnitude dos crimes que há quatro anos vêm sendo cometidos contra o meio ambiente e os habitantes da Terra Indígena Yanomami. Cita uma estimativa, conservadora, do aumento do garimpo na TIY de 2016 a 2020 em inimagináveis 3.350%, comparando com dados das corridas de ouro anteriores. Uma das razões apontadas no relatório é a “Fragilização das políticas ambientais e de proteção a direitos dos povos indígenas e, consequentemente, da fiscalização regular e coordenada da atividade ilícita em Terras Indígenas”. Enquanto a linha de frente de hordas de garimpeiros – controlados por poderosos setores empresariais escusos e até do crime organizado – ataca sem rodeios, nos bastidores políticos, o governo limpa o terreno para o avanço, afastando agências e agentes fiscalizadores do caminho da notória boiada celebrizada por um zoilo ministro do meio ambiente. A violência contra os Yanomami tem seguido de perto esses números inconcebíveis.

Sem a aparente astúcia das canetadas presidenciais, as fileiras garimpeiras não medem esforços nem imaginação para despejar os Yanomami de suas legítimas terras. Na região do Palimiu, os Yanomami começaram a ver sinais de mudança no comportamento dos invasores. O relatório revela: “Se antes [de 2019] apenas os barqueiros transitavam encapuzados, agora outros homens também o faziam, vestidos quase sempre de roupas pretas. As armas também haviam mudado. De espingardas de caça, passaram a circular com pistolas e fuzis. E, a abordagem nas comunidades tornou-se mais agressiva e violenta. Há relatos de garimpeiros bêbados invadindo casas e assediando mulheres, e de gritos de ameaça durante encontros furtivos no rio: ‘Vamos acabar com os yanomami’, diziam”. O que se seguiu fez notícia dentro e fora do país.

“Assim, no dia 10 de maio de 2021, sete embarcações com homens armados, vestidos de coletes e balaclavas, se aproximaram da comunidade Yakepraopë e abrigam fogo contra seus moradores, incluindo mulheres e crianças… Na fuga, duas crianças morreram”. Fortes indícios apontavam a presença de membros do PCC, à busca “de vingança pelos homens feridos no revide de arco e flecha que os Palimiutheri conseguiram realizar”.

Inconformados, os assaltantes fizeram outros ataques nos meses que se seguiram, incluindo o disparo de “quatro tiros contra mulheres que procuravam um parente desaparecido no rio…”. Os efeitos dessa saraivada logo apareceram. Os moradores queixaram-se a agentes do Ministério Público Federal que, antes dos ataques, “a pescaria era boa, a caçaria era boa”. Não mais: “O rio está contaminado… e a caça emagreceu…”.

Novamente, 30 anos depois do pandemônio do início dos anos 1990, como se não bastasse a covid-19, a malária volta à cena com força redobrada. Apenas na região do Uraricoera, que inclui Palimiu, eram mais de 1.800 casos. Calcula-se que a média de contaminação por malária era de quase dois casos por pessoa, enquanto na região do rio Auaris, entre 2019 e 2020, os casos de malária subiram para 247%. O mesmo fenômeno se repete em praticamente toda a TIY. A espiral de tragédias não para de crescer.

Essa espiral chega agora a um paroxismo de criminalidade inédita. No fim de abril de 2022, chegou à grande imprensa nacional e internacional a notícia de que uma menina Sanumá da comunidade de Aracaçá, na região do rio Uraricoera, fora estuprada até a morte por garimpeiros. Dada a grande repercussão do caso, agentes da Polícia Federal foram à área examinar a situação. Encontraram a aldeia carbonizada e vazia. Na ausência de vítimas, no estilo habitual da ignorância cultivada sobre os usos e costumes indígenas (repetindo o episódio do massacre de Haximu em 1993),[2] os investigadores começaram por tomar as casas queimadas e desertas como evidência de que nada havia acontecido, apenas mal-entendidos, conflito de narrativas. Aos poucos, surgiram depoimentos de indígenas que corroboraram a existência dos crimes e denunciaram o suborno que os emudeceu.[3] Seu silêncio era pago em ouro e, ironia das ironias, o mesmo ouro extraído de suas próprias terras.

Posteriormente, soube-se que a destroçada aldeia de Aracaçá fora evacuada – como sói acontecer na tradição Yanomami após mortes, especialmente, as violentas – e os habitantes buscaram refúgio em outras áreas da TIY. Aracaçá, cuja história interétnica é uma das mais trágicas do mundo Yanomami,[4] suscitou o seguinte comentário da imprensa: “Os acontecimentos pelos quais passaram daria um filme de terror: assédio moral (com farta distribuição de bebidas alcoólicas) e sexual, estupros coletivos, prostituição, assassinatos, suicídio, cooptação para trabalhos no garimpo. Um verdadeiro genocídio com a conivência deste governo e que se espalha, pelo menos, por metade das terras dos yanomami”. Conclui a matéria: “Bolsonaro está de braços cruzados. Os órgãos de fiscalização também”.[5]

Em suma, a boiada bolsonarista deixa na Terra Indígena Yanomami um rastro sinistro de terra arrasada. O lamento do líder da região do Palimiu assim o confirma: “Que todos vocês voltem seus olhos para nós! Nós estamos sofrendo junto com a floresta! A floresta morreu!… Acabaram com todas as árvores que comíamos os frutos!… E quem foi que fez isso? Foram os garimpeiros que acabaram com elas! A nossa terra está completamente morta!… Aqui onde moramos estamos arrasados! Da mesma forma como a floresta está devastada, nós também estamos!”


Notas

[1] Referiu-se, entre outros documentos, ao meu artigo “Nações dentro da nação. Um desencontro de ideologias”, publicado na coletânea organizada por George Zarur Etnia e nação na América Latina, v. 1, pp. 79-88. Washington, DC: Interamer 44, 1994. Este texto baseia-se nas publicações da CCPY, especialmente: Boletim Urihi, n. 13, datado de junho de 1990 e Sanumá memories.Yanomami ethnography in times of crisis. Madison: University of Wisconsin Press, 1995.

[2] Sobre o massacre do Haximu, ver “Haximu: Foi genocídio!”. Documentos Yanomami . n. 1, 2001. São Paulo: Comissão Pró-Yanomami (CCPY).

[3] Disponivel em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/yanomamis-encontrados-foram-cooptados-pelo-garimpo-diz- lideranca-indigena. Acesso: 13 de maio de 2022.

[4] A história recente da comunidade de Aracaçá é narrada na nota do Instituto Socioambiental (ISA), “Comunidade Aracaçá vive tragédia humanitária, alerta organização Yanomami”, de 6/5/2022. Disponível em: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/comunidade-aracaca-vive-tragedia- humanitaria-alerta-organizacao-yanomami. Acesso: 13 de maio de 2022.

[5]Disponivel em: https://conexaoplaneta.com.br/blog/tragedia-humanitaria-vivida-pela-comunidade-aracaca-e-retrato-da- terra-indigena-yanomami- ja/. Acesso: 13 de maio de 2022.

A imagem que abre o post é de autoria de Joana Lavôr

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