COMENTÁRIO AO LIVRO EXPLOSÃO FEMINISTA: ARTE, CULTURA, POLÍTICA E UNIVERSIDADE DE HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA (ORG.), POR APARECIDA F. MORAES (DEPT. SOCIOLOGIA/UFRJ)

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No segundo post dedicado ao lançamento do livro Explosão feminista: Arte, Cultura, Política e Universidade (Edit. Companhia das Lestras, 2018) de Heloísa Buarque de Hollanda (UFRJ), o Blog da BVPS tem a alegria de publicar o comentário inédito da professora Aparecida F. Moraes (Profa. Associada do Departamento de Sociologia da UFRJ). O lançamenteo ocorrerá no dia 29 de novembro, às 19 horas, na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 572/Rio de Janeiro).

 

Comentário ao livro EXPLOSÃO FEMINISTA: Arte, cultura, política e universidade de Heloisa Buarque de Hollanda (Org.) (Editora Companhia das Letras, 2018)

Por Aparecida F. Moraes (Profa. Associada do Departamento de Sociologia da UFRJ)

 

    Explosão Feminista, título que tem força metafórica, nos transpõe de muitas maneiras ao panorama explosivo do feminismo brasileiro contemporâneo. O feminismo que está nas ruas, na cultura, na política, em diferentes formas de expressão artística, universitária e nas redes sociais, tem mostrado o seu poder de expansão e difusão. Nas marchas de protesto das ruas e nas redes, criativas palavras de ordem, ideias e imagens propagam-se e geram convicções, emoções e disposição para agir, o que tem resultado em tipos diversos de ativismos que se retroalimentam entre espaços on-line e off-line.

    A leitura do livro também nos provoca pequenas explosões internas. Esta gera pensamentos inquietantes, principalmente quando miramos o atual horizonte político brasileiro e quando permitimos que a diversidade de conteúdos expostos em mais de quinhentas páginas evoquem, imaginativamente, perguntas ainda a serem respondidas, ou mesmo melhor formuladas, nos estudos de gênero. Este é um livro que sugere questões, que convida à problematização, e que mostra movimentos e fluxos múltiplos de transformação em diferentes lugares de celebração e renovação das ideias feministas. Sublinha, desta forma, a circulação de visões emancipatórias e de conflitos que estão atingindo subjetividades de mulheres e pessoas LGBTQI feministas, percebam-se elas, ou não, com o rótulo de ativistas. Ao mesmo tempo em que mudam, são subjetividades que estão também em constante construção e tornar-se, que prefiguram possibilidades de um devir feminista.

    O propósito de oferecer “um panorama da quarta onda feminista, examinando o contexto dos novos ativismos nas ruas e na rede, dos vários feminismos das diferenças, do feminismo na poesia, nas artes, na música, no cinema, no teatro e na academia”, não expõe a obra ao risco da superficialização ou homogeneização. A visão panorâmica é articulada com conteúdos temáticos que percorrem o livro e que recebem tratamento delicado e cuidadoso. Os temas escritos em coautoria são expostos de forma clara, elucidativa e, ao mesmo tempo, são abordados com verniz criativo e inspirador. Ainda há um pequeno espaço no início do livro onde Heloisa Buarque de Hollanda apresenta como a “onda teórica” feminista a alcançou na trajetória acadêmica. Ali somos presenteados com um esmerado roteiro de questões trazidas por autoras célebres que trataram de temas como diferenças, identidades e desigualdades de gênero. Gayle Rubin, Gloria Anzaldúa e Cherríe Moraga, Gayatri Spivak, Donna Haraway, Teresa de Lauretis e Judith Butler são lembradas pela apresentadora da obra por suas grandes contribuições para o desenvolvimento deste campo de estudos.

    Compartilhar pesquisa e escrita, verbo usado pela organizadora, foi o formato escolhido para a produção do livro. A dedicação ao processo resultou em capítulos que foram costurados via uma desafiadora produção autoral compartilhada. O produto exitoso junta a reconhecida e aclamada trajetória de Heloisa Buarque de Hollanda com a de outras prestigiadas feministas e autoras. Heloisa escreve “com” jovens ativistas e intelectuais feministas que se mostram já muito experientes naquilo que fazem e pensam.

    O livro pode fornecer também algumas chaves para compreendermos processos de médio ou longo alcance, no que diz respeito ao feminismo brasileiro. A organizadora da obra procura preencher lacunas dando a palavra a mulheres que tiveram papel importante no momento identificado como “terceira onda” do feminismo. Apensados ao livro como “quase anexo”, conforme sugere a organizadora, os capítulos dessas reconhecidas “veteranas” oferecem aos leitores as suas memórias. Claro que não vamos encontrar neste empreendimento uma explicação sobre as relações entre “feminismo do presente” e “do passado”. Não se trata de fortalecer divisões periódicas, tampouco a ideia de que o feminismo se move em uma direção definida nestas prováveis conexões. O que a leitura nos permite identificar são os contornos de diferentes percursos militantes e ativistas, com as suas curvas salientes, torneados côncavos ou convexos, mas também com intervalos mais retos e contínuos. Neste sentido, a oportunidade de ler as “veteranas” é mais uma acertada escolha do projeto do livro. Isso pode nos ajudar a entender melhor os cenários da atual explosão, além de alertar, como reconhece a organizadora, para a urgência de trabalhos mais aprofundados sobre as trajetórias do feminismo brasileiro.

    Por fim, destaco que a participação de diferentes autoras e colaboradoras no Explosão Feminista representa também o reavivado “feminismo da diferença” sobre o qual a própria obra se propõe a refletir. Neste mosaico autoral, estão presentes textos e depoimentos de pessoas que se identificam como feministas cisgênero, protestante, radical, transfeminista, lesbofeminista. Elas tem condição etária, geracional, étnica, racial muito diferentes, além de experiências e formações distintas na política, na vida profissional ou acadêmica. O que se observa é um transbordamento de encontros multilocalizados que enriqueceram a produção desta obra criativa e de fôlego. Este é mais um mérito deste livro que, certamente, cumprirá papel de destaque no desenvolvimento de estudos situados na área de gênero e feminismos.

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