Coluna Primeiros Escritos | Dossiê Futebol e Sociedade (II)

O Blog da BVPS continua hoje a publicação do dossiê Futebol e Sociedade, organizado por Rennan Pimentel (PPGSA/UFRJ) e João Mello (PPGSA/UFRJ). No segundo texto do dossiê, escrito por Miguel Cunha, mestrando em Ciências Sociais na UFRRJ, o futebol é discutido como um microcosmo da sociedade brasileira em sua ambiguidade de veneno/remédio. 

dossiê Futebol e Sociedade faz parte da nova coluna do Blog, Primeiros Escritos. Para saber mais sobre a iniciativa, basta clicar aqui. O primeiro texto do dossiê pode ser acessado clicando aqui.

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Boa leitura!


Um gigante microcosmo: o Brasil e o futebol

por Miguel Cunha

O futebol brasileiro, durante muitos anos, principalmente entre as décadas de 1930 e 1940, serviu de plataforma modernista para identificar características que marcassem uma identidade genuinamente brasileira perante o mundo. Apesar do desdém que o futebol era recebido por alguns intelectuais no início da década de 1920, a exemplo de Lima Barreto e sua “Liga Contra o Futebol” – visto pelo escritor carioca como mais um modismo aristocrático europeu que acentuaria a violência na sociedade e as desigualdades entre negros e brancos[i] -, um dos líderes do movimento modernista, Mário de Andrade, já viria a perceber, através de poemas e crônicas, que o futebol no período de 1920 já se fazia marcadamente presente na vida social brasileira. No entanto, o futebol ainda seria encarado como mais um dos sintomas do processo de urbanização e industrialização pelo qual passava o país, isto é, o futebol representava, nos anos 20, uma das várias influências europeias que embarcavam no Brasil diante da forte imigração estrangeira.

Todavia, se o futebol se fazia presente de maneira discreta e crítica como no poema “Domingo”, do livro Paulicéia desvairada (1922), durante as décadas de 1930 e 1940 há uma mudança na abordagem do futebol como não apenas mais um fato cotidiano do cosmopolitismo da vida paulistana, mas a adoção de uma perspectiva atenta ao fenômeno cultural e esportivo enquanto símbolo de uma brasilidade, aspecto tão caro ao movimento modernista. Vejamos o poema de Mário de Andrade, em que percebemos que o autor retrata o futebol a partir da ótica de mais um evento comum da sociabilidade de uma metrópole em constante crescimento, reforçando o caráter elitista e até mesmo fútil do futebol a partir do uso de termos de língua inglesa:

“Hoje quem joga?… O Paulistano

Para o Jardim América das rosas e dos pontapés!

Friedenreich[ii] fez goal! Corner! Que juiz!

Gostar de Bianco? Adoro. Qual Bartô…

E o meu xará maravilhoso!…

– Futilidade, civilização…”

A mudança como o futebol é visto pela intelectualidade se explica pelas competições internacionais que começaram a ser organizadas nos anos 1930, gerando um intercâmbio entre nações onde o futebol se tornava elemento central para a diferenciação das sociedades. No entanto, o futebol passa de fato a representar culturalmente o Brasil após a Copa do Mundo de 1938, realizada na França. O bom desempenho no torneio do selecionado brasileiro, cuja composição refletia a diversidade étnica do país, atrelado ao sucesso de audiência da primeira Copa do Mundo transmitida via rádio, e juntamente com a instrumentalização da seleção de futebol pelo Estado Novo a fim de propagandear e reforçar um espírito de pertencimento nacional, resultou na abordagem dada ao futebol como símbolo da originalidade da nação brasileira.

O próprio Mário de Andrade, por exemplo, em crônica escrita no ano de 1939 n’ O Estado de S. Paulo, nomeada Brasil-Argentina, traria os elementos paradigmáticos que compõem a mudança na maneira como o futebol é abordado pela intelectualidade modernista. Ao demonstrar nítida diferença na maneira como entende o futebol, desta vez atrelando-o à música popular – elemento este já consolidado como símbolo da brasilidade –, em relação ao poema de Paulicéia desvairada, Mário de Andrade já antecipa forte tendência que viria a se concretizar com os escritos de Mário Filho e Gilberto Freyre acerca das características singulares do futebol brasileiro à luz de imagens musicais (HOLLANDA, 2004). Em peleja contra os argentinos, Mário de Andrade afirma que, naquele momento, o futebol era “(…) coisa lindíssima, um bailado mirífico” e, observando a maneira como os brasileiros atuavam, o líder modernista gostaria que “continuassem sempre assim como estavam em campo, desorganisados e brilhantes, para que pudessem eternamente repetir, para goso de nossos olhos, aquelles esplendidos contrastes.”[iii]

O sucesso do futebol brasileiro, como nos mostra José Miguel Wisnik em Veneno remédio (2008), fez o país atravessar o seu avesso ao nos colocar na primeira prateleira mundial e se tornar o mais bem sucedido país em Copas do Mundo. Após o resultado de Brasil 4 x 1 Itália, na final da Copa do Mundo de 1970, no Estádio Azteca, no México, o ensaísta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, por meio de uma interpretação literária, cunhou os termos “futebol-poesia” para caracterizar futebol brasileiro em detrimento ao “futebol-prosa” europeu; este mais preocupado, segundo Pasolini, às regras e normas que um jogo coletivo lança mão para alcançar a vitória em uma partida de futebol. Os brasileiros, por seu turno, dentro de campo, estariam mais atrelados a maneira desinibida de jogar futebol, com maior respeito à individualidade, ou melhor, com menos apego às práticas coletivas, como uma forma anárquica de disputar uma partida, cuja imprevisibilidade criadora é um de seus traços mais marcantes. A originalidade brasileira da prática do futebol, vinculada à música e à dança através de um “bailado mirífico”, como observado por Mário de Andrade em crônica de 1939 citada anteriormente, seria enfatizada e tornada senso comum em famoso prefácio de Gilberto Freyre no paradigmático livro de Mário Filho sobre a histórica do futebol brasileiro, O negro no futebol brasileiro (1947). Para Freyre, o desenvolvimento do futebol no Brasil tornou realizável a sublimação de elementos irracionais inerentes à própria formação étnico-racial brasileira – como a capoeiragem e o samba. A socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz, em artigo escrito em 1948 sobre o livro de Mário Filho, também enfatizará a originalidade do futebol brasileiro a partir da diversidade que compõe a sociedade. Para ela,

Cai este football cheio de técnicas no cadinho do Rio de Janeiro, onde se misturavam o português jogador de pau, o mulato e o negro mestres de capoeira, e aos poucos vai se operando a transformação. À medida que os nacionais tomam conta do jogo, é o gosto do povo pelo destaque individual, pelos floreios, pela exuberância, pelo exagero, pela emoção livremente expressa, que imprime direção nova não só aos teams, aos jogadores, como à torcida, às comemorações da vitória (QUEIROZ, 1948: 5).

O futebol, portanto, é entendido como uma manifestação cultural de caráter quase antropofágico[iv] de um esporte de origem inglesa, no qual há um processo de transformação e adaptação, imputando-o um ar menos rígido, com dribles e jogadas que remetem aos gingados da capoeira e do bailado do samba[v].

Assim, podemos explicar o sucesso inato de craques históricos brasileiros e o merecido reconhecimento histórico que o futebol brasileiro alcançou dentro de campo a partir de uma análise sociológica de sua posição periférica no capitalismo global, resultante de uma nação moldada a partir de uma experiência colonial violenta, cuja resultante no processo de inserção na modernidade seria o individualismo anárquico sérgiobuarquiano e seu desapego por regras impessoais. Moldou-se, com essas características, um jeito original e bem-sucedido de se jogar futebol, que permite-nos enxergar uma determinada “vantagem do atraso”, o alcance da glória retirada do déficit civilizacional que possuímos, cujas instituições oficiais não conseguiram concretizar a cidadania plena a todos. Como sintetiza Wisnik (2006: 407),

O futebol brasileiro é, por sua vez, o saldo ambivalente desse déficit, seu veneno e seu remédio prodigioso. Seria mais um mecanismo de fuga entre outros se não fosse, ao mesmo tempo, o campo em que a experiência brasileira encontrou uma das vias privilegiadas para atravessar o seu avesso e tocar as fraturas traumáticas que nos constituem e permanecem em nós como um atoleiro.

Se, no plano da cultura política, Sérgio Buarque traz uma visão negativa em relação ao iberismo para a inserção do país na modernidade devido ao seu inerente culto à personalidade que acaba por inibir qualquer possibilidade de acordo coletivo durável (HOLANDA, 2014), podemos adotar no âmbito dos valores culturais a visão que Antonio Candido apresenta em Dialética da malandragem (1970) e concluir que o entrelaçamento entre público e privado – ou no presente texto compreendido como moderno e arcaico –, enquanto parte constitutiva da formação da nação brasileira, fecundou uma escola de jogar futebol bem-sucedida atrelada ao “futebol-poesia”, dotada de gingados e dribles desconcertantes que abrem defesas e frustra planos das coletividades de rivais europeus, cujas nações alcançaram – ou ao menos de maneira mais próxima que o Brasil – o estágio de nações modernas no que tange à economia, ao sistema política e à expansão da cidadania.

A dimensão do futebol no país enquanto símbolo cultural da nação brasileira é incontestável, assim como seu sucesso no concerto das nações enquanto único país pentacampeão mundial. Se nos países europeus – pioneiros no processo de industrialização e de modernização das instituições – o futebol servia como uma espécie de catarse emocional às atividades laborais do mundo capitalista (ELIAS & DUNNING, 1992), no Brasil, por sua posição desvantajosa em se equiparar às nações europeias no processo de modernização, o futebol toma a forma, utilizando o conceito de Marcel Mauss (2003), de fato social total na sociedade brasileira.

A modernização conservadora do futebol brasileiro

A política do futebol brasileiro, isto é, o mundo do futebol fora das quatro linhas, apresenta de maneira peremptória um dilema que permeia a vida social brasileira. A contradição entre modernidade e arcaísmo se faz presente de maneira clara e manifesta, simbolizando um observatório da política brasileira em esfera micro, porém de um fenômeno cultural cuja proporção na sociedade brasileira nos permite afirmar sua onipresença e onipotência no país. Se, por um lado, o futebol brasileiro é merecidamente exaltado pelo talento de seus jogadores; os dirigentes esportivos, ou comumente conhecidos como “cartolas” na mídia esportiva, possuem um modus operandi que, ao combinar princípios antitéticos de orientação da conduta, inibem mudanças modernizantes na estrutura política interna do futebol nacional. Em tempos de Copa do Mundo, entender o funcionamento das instituições políticas do futebol no Brasil e as forças objetivas que freiam mudanças profundas na legislação esportiva e nos estatutos de federações e clubes, assim como na forma de gerir um esporte que movimenta vultosas cifras de dinheiro em país tão desigual, é, ao mesmo tempo, compreender por que o outrora “país do futebol” não consegue reter seus melhores jogadores, vendendo-os aos mercados mais ricos.

Se na esfera do campo de futebol e na prática de jogar de seus atletas a manutenção de um tradicionalismo é o que alça o Brasil à grande potência do futebol mundial, na esfera da política parece gerar entraves que possam potencializar ainda mais o mercado interno de clubes no futebol brasileiro, traduzidos em uma desorganização administrativa nos clubes que colocam no mesmo terreno jogadores profissionais e dirigentes amadores[vi]. A contradição entre o profissionalismo e o amadorismo está no cerne da discussão sobre a incapacidade da estrutura política do futebol brasileiro se alterar. Interesses privados de dirigentes de federações estaduais, juntamente com a CBF, acabam por prevalecer em detrimento de quaisquer outros interesses em jogo – principalmente dos grandes clubes e seus milhões de torcedores, portanto detentores de identidades coletivas.

A introdução do futebol no Brasil nos fins do século XIX manteve seu caráter aristocrático perante a sociedade brasileira. Praticada em clubes de elite, o início da institucionalização do futebol teve como premissa a sua prática enquanto esporte amador, sem vínculo com o estado brasileiro. Devido à dimensão territorial do país, diversas associações esportivas locais foram criadas a fim de regulamentar o esporte e organizar as competições que se davam entre clubes aristocráticos locais. Com a aproximação do campeonato sul-americano de 1916 e a fragmentação das federações de futebol no Brasil, o então ministro das Relações Exteriores, Lauro Muller, diante da importância que a competição tinha por comemorar o centenário de independência da Argentina, realizou a primeira interferência do estado sobre o futebol (SARMENTO, 2006). Foi criado, em 1916, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) a fim de unificar as federações que disputavam o controle sobre o selecionado brasileiro que disputaria a competição internacional. A CBD, entretanto, apesar da intermediação de um ministro de estado, permaneceria tendo seu controle como alvo de disputas de oligarquias locais.

A ascensão de Getúlio Vargas e a política do Estado Novo são paradigmáticas para compreender a nova relação que se estabelece entre futebol e estado. A característica do governo varguista de realizar intervenções estatais em diversas esferas da vida social não deixou o futebol infenso à política tutelar do Estado Novo. Após o sucesso popular da Copa do Mundo de 1938, Vargas utiliza o futebol como mais um de seus instrumentos de intermediação entre estado e sociedade. Há, em 1941, a criação do CND (Conselho Nacional de Desportos), onde ocorre de fato um processo de institucionalização do futebol à nível nacional, por meio da racionalização de seus meios administrativos com a criação de uma legislação esportiva que determinava uma nova configuração no futebol nacional.

O decreto-lei 3.199 que criara o CND delegava a este órgão a prerrogativa de “orientar, fiscalizar e incentivar a prática dos desportos em todo o país”[vii]. Uma outra exigência que o órgão impunha era a organização do futebol nacional a partir de apenas uma confederação nacional, além da existência de apenas uma federação de futebol por unidade federativa. Era o fim, portanto, da fragmentação institucional do futebol e o início de uma organização política que perdura até os dias atuais. Ainda que a criação do CND signifique a consolidação da CBD como órgão responsável pelo selecionado brasileiro em suas competições internacionais, o CND manteve o poder das oligarquias regionais do futebol, uma vez que com o decreto-lei “(…) são criadas federações de desportos em todas as unidades federais” (DRUMOND, 2020: 57). Ou seja, apesar da intervenção do governo federal na organização do futebol no país, uma característica fundamental do início da institucionalização do futebol no país permaneceu: o poder político das federações estaduais. A despeito da prerrogativa do CND de interferir em clubes e federações quando lhe fosse conveniente, a organização dos campeonatos permaneceu nas mãos de iniciativas regionais, uma vez que a CBD se responsabilizava apenas pela seleção brasileira. Além disso, os clubes eram proibidos de mudarem seu formato de associações esportivas sem fins lucrativos, uma vez que, na perspectiva do Estado Novo, o futebol possuía o elemento patriótico como razão máxima de sua existência na sociedade (DRUMOND, 2020: 57).

As principais interferências do estado na legislação esportiva, mais especificamente do futebol, tiveram caráter conservador, sendo realizadas em períodos de governos autoritários. Ou seja, as mudanças eram uma imposição do governo central e não algo debatido pelos representantes da sociedade civil no congresso nacional. O decreto 3.199, criado na ditadura varguista, manteve-se intocável até o ano de 1975 quando, no governo militar, foi revisado pela lei 6.251, porém mantendo sua estrutura básica inalterada. No entanto, a imposição do voto unitário nas federações estaduais fortaleceu ainda mais as práticas políticas clientelísticas existentes na estrutura política do futebol brasileiro. Ao equiparar os votos da gama de pequenos clubes e ligas aos dos clubes grandes, engessou-se ainda mais qualquer tentativa de ação coletiva por mudanças advindas de reivindicações dos grandes clubes.

A cadeia de poder coercitiva presente na política do futebol brasileiro tem suas origens nas intervenções estatais realizadas primeiramente no período da ditadura varguista (1937-1945) e, posteriormente, na ditadura militar (1964-1985), momento em que se outorgou maior capital político às federações estaduais enquanto principais parceiras políticas da entidade máxima do futebol nacional (CBF) em detrimento dos grandes clubes no Brasil. O período que designa o final da década de 1980 e início de 1990 é paradigmático para compreender as mudanças propostas e a resistência dos dirigentes de federações e da CBF em relação a essas mudanças. O Clube dos 13, criado em 1987, e o Projeto Zico, elaborado em 1990, tinham propostas que, se aprovadas, atingiriam diretamente os alicerces da estrutura de poder do futebol brasileiro. O Clube dos 13, reivindicavam, por exemplo, o controle sobre o campeonato nacional, a redução no número de jogos no calendário anual e adoção do voto proporcional nas federações. O Projeto Zico, por sua vez, obrigava os clubes a se tornarem empresas, na tentativa de tornar a gestão administrativa estritamente profissional e alinhada com a modernidade, o fim do CND – ou seja, o fim da interferência estatal – e propunha uma alteração no sistema eleitoral da CBF, incluindo os clubes da série B. Com isso,

(…) sua aprovação na íntegra mudaria a estrutura básica da administração do futebol, alterando profundamente o sistema de poder que governava as relações entre clubes, federações e CBF. A modificação do sistema eleitoral da CBF e a redução do poder das federações daria aos grandes clubes uma maior autonomia para organizar os campeonatos e gerenciar seus negócios (HELAL, 1997: 108).

O Projeto Zico, portanto, tinha como pretensão atacar o amadorismo, alicerce que mantinha a estrutura de poder coronelística do futebol brasileiro, pautada por fortes relações de troca de favores e conchavos políticos, a fim de manter os privilégios dos “cartolas” de federações e CBF.

Os dirigentes de federações e a CBF trabalharam para alterar o projeto de lei utilizando suas influências no poder legislativo. Assim, a aprovação da lei 8.672, denominada Lei Zico, sofreu alterações que não permitiram que o tipo de dominação autoritária na política do futebol fosse alterada. A mudança do sistema eleitoral, por exemplo, foi decidida na assembleia geral da CBF, na qual as federações já compunham maioria. Ocorreu, no entanto, uma modernização administrativa com a introdução do marketing esportivo e a comercialização dos jogos, sem, todavia, vir acompanhada de uma modernização significativa na estrutura de poder dos que comandam o futebol nacionalmente.

A estrutura política do futebol brasileiro tensiona em seu interior dois princípios distintos de organização social, como que em uma “unidade contraditória”[viii]: o arcaico e o moderno. Se, por um lado, o futebol brasileiro se mostra afeito a mudanças no que se refere à administração visando captar os recursos gerados pelo futebol enquanto esporte mais visto e praticado no mundo, no que tange à dominação política, os “cartolas” agem como um estamento, voltados para dentro e controlando as mudanças que ocorrem a fim de que mantenham o monopólio decisório sobre a organização do futebol no país e, assim, que seus interesses privados permaneçam sendo atendidos. Se pensarmos de maneira mais ampla acerca do processo histórico não disruptivo de formação do estado moderno nacional brasileiro e de suas instituições com o caráter autoritário e conservador, podemos vincular o que ocorre na política do futebol a essa esfera mais ampla de análise. A tensão entre arcaico e moderno na estrutura política do futebol brasileiro tem sua explicação, portanto, no próprio caráter autoritário em que foi forjada essa estrutura, mediante intervenção direta do Estado na institucionalização do futebol no Brasil.

***

Demonstramos aqui como o futebol, por sua grande relevância nacional, é capaz de se apresentar como um microcosmo da sociedade brasileira. Se no aspecto cultural o estilo original brasileiro de jogar futebol, cujos dribles remetem ao samba e à capoeira, reflete a própria formação social rica etnicamente como nos mostra os autores modernistas; na esfera da política, por sua vez, podemos perceber como a organização do futebol brasileiro e seu sistema de dominação permeado pelo autoritarismo e relações pessoalizadas de troca de favores, que remetem ao sistema de reciprocidade coronelística (LEAL, 2012), são também um microcosmo da política nacional, muitas vezes incapaz de se desprender de aspectos de seu passado colonial, persistindo, em setores da sociabilidade brasileira, práticas vinculadas ao arcaico, a exemplo do que ocorre entre aqueles que comandam o futebol nacional. Como exemplo da similitude da processo de modernização da política nacional e a do futebol, é possível pensar na modernização conservadora do futebol brasileiro a partir do conceito de autocracia burguesa de Florestan Fernandes (2020). Afinal, a “cartolagem” brasileira e seus comportamentos estamentais, tal como Florestan via na burguesia nacional, controla e molda as mudanças a fim de não perderem seus privilégios.

A Copa do Mundo nos oferece um virtuoso observatório do futebol enquanto microcosmo do Brasil étnico e do Brasil político. Se a democracia no Brasil é restritiva e a capilaridade da cidadania não alcança a todos devido aos problemas estruturais do país, o sucesso internacional do futebol brasileiro, ao fim ao cabo, é como um gigante sempre capaz de impressionar o mundo e, para nós, brasileiros, parafraseando José Miguel Wisnik, se apresenta tanto como veneno, como remédio.


Notas

[i] Contemporâneo a Lima Barreto, o intelectual Olavo Bilac, de origem distinta a de Lima, era favorável ao futebol como elemento civilizatório de uma sociedade que se pretendia moderna. A disciplina, o regramento e o bom uso do corpo eram características que faziam do futebol uma prática condizente com a modernidade (DAMATTA, 1994).

[ii] Artur Friedenreich, também conhecido como “El Tigre”, pode ser considerado o primeiro ídolo nacional do futebol. Mestiço de pai alemão e mãe negra, o atleta se destacou por seu desempenho excepcional em competições sul-americanas, já no fim da década de 1910.

[iii] Crônica disponível em: https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19390122-21261-nac-0005-999-5-not

[iv] Para saber mais sobre a antropofagia enquanto metáfora cultural, ver Botelho & Hoelz (2022).

[v] Em recente manchete na página de esporte, o jornal Folha de S. Paulo dá o seguinte título sobre a vitória do Brasil diante da Coréia do Sul, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2022: “Brasil samba em campo, goleia a Coreia e avança às quartas da Copa”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2022/12/brasil-samba-em-campo-goleia-a-coreia-e-avanca-as-quartas-da-copa.shtml

[vi] Sobre a questão da existência de uma ética dual que abarca amadorismo e profissionalismo no futebol brasileiro, ver Helal (1997).

[vii] Brasil, 1941.

[viii] Empresta-se o conceito criado por Maria Sylvia de Carvalho Franco em Homens livres na ordem escravocrata (1969) para explicar como dois princípios opostos de ordenamento das relações econômicas e sociais – produção para subsistência e para o mercado – foram partes constitutivas uma da outra no contexto do latifúndio colonial. Segunda ela, esses dois princípios formaram uma unidade contraditória que “(…) sustentou, com suas ambiguidades e tensões, a maior parte da história brasileira” (FRANCO, 1997: 11).

Referências

ANDRADE, Mário. (1987). Poesias completas. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada.

BOTELHO, André & HOELZ, Maurício. (2022) O modernismo como movimento cultural. Petrópolis: Editora Vozes.

CANDIDO, Antonio. (1970). Dialética da Malandragem. Revista Do Instituto De Estudos Brasileiros, v. 8, p. 67-89.

DAMATTA, Roberto. (1994). Antropologia do óbvio – notas em torno do significado social do futebol brasileiro. Revista USP. São Paulo, v.22, p. 10-17.

ELIAS, Norbert e DUNNING, Eric. (1992) A busca da excitação. Lisboa: Difel.

FERNANDES, Florestan. (2020). A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica. São Paulo: Editora Contracorrente.

FILHO, Mário. (2010). O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Mauad X.

FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. (1997). Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Unesp.

FREYRE, Gilberto. Interpretação do Brasil (2016). São Paulo: Global Editora.

HELAL, Ronaldo. (1997). Passes e impasses: Futebol e cultura de massa no Brasil. Petrópolis: Editora Vozes.

HOLANDA, Sérgio Buarque. (2014). Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras.

HOLLANDA, Bernardo Buarque. (2004). O descobrimento do futebol: Modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional.

LEAL, Victor Nunes. (2012). Coronelismo, Enxada e Voto. São Paulo: Companhia das Letras.

MAUSS, Marcel. (2003). Ensaio sobre dádiva. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify.

QUEIROZ, MARIA Isaura Pereira de. (1948). O football e o caráter dionisíaco do brasileiro. Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, 24 de julho de 1948, p.5.

SARMENTO, Carlos. (2006). A regra do jogo: Uma história institucional da CBF. Rio de Janeiro: CPDOC.

WISNIK, José Miguel. (2006). Veneno Remédio: O futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras.

A imagem que abre o post é de autoria de Fernando Frazão/Agência Brasil

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