Coluna Primeiros Escritos | Dossiê Futebol e Sociedade (I)

O Blog da BVPS publica hoje o primeiro texto do dossiê Futebol e Sociedade, organizado por Rennan Pimentel (PPGSA/UFRJ) e João Mello (PPGSA/UFRJ). Ao longo dessa última semana da Copa do Mundo, publicaremos outros trabalhos que discutem as relações entre futebol e sociedade brasileira e/ou tratam da Copa do Mundo. Esse primeiro texto, sobre a globalização do futebol e a Copa do Mundo de 2022 vista em perspectiva, é assinado por João Túbero Gomes da Silva, mestrando em Ciências Sociais pela Unesp de Araraquara.

O dossiê Futebol e Sociedade faz parte da nova coluna do Blog, Primeiros Escritos. Para saber mais sobre a iniciativa, basta clicar aqui. Acompanhe as atualizações do Blog e siga nossa página no Instagram.

Boa leitura!


A globalização do futebol e a Copa do Mundo de 2022 em perspectiva

por João Túbero Gomes da Silva

As mudanças sociais das estruturas da modernidade, a partir da globalização econômica e política, provocaram também transformações na indústria do futebol que são fundamentais para compreender o panorama competitivo da atual edição da Copa do Mundo. Segundo Giulianotti (2010), as mudanças na economia política mundial que impactam a indústria do futebol são caracterizadas por alguns fatores, como, por exemplo, o estímulo constante à produção de mercadorias e as novas demandas criadas pelos veículos de comunicação de massa; a queda do público nos estádios e um aumento no interesse em partidas transmitidas pelas redes televisão, com clubes com receitas maiores para investimentos se convertendo em monopólios de talento; por países tradicionais no futebol envolvidos em um novo modelo de negócio, em que jogadores de clube locais são negociados com equipes nouveau riches de outras nações; e pela resistência cada vez menor contra a “privatização” dos clubes em mercado aberto.

Inicialmente, com a mercantilização da cultura popular produzida pelos veículos de comunicação de massa, há uma modernização na economia política do futebol, estimulando que, a partir do final da década de 80, clubes do Reino Unido buscassem maximizar seus recursos para além das receitas de bilheteria pagas pelo torcedor médio:

A experiência do futebol tornou-se cada vez mais sinônimo de placas de publicidade, patrocínio de camisas, comerciais de televisão, patrocínio de ligas e copas e a comercialização da parafernália do clube. […] Para melhorar os ganhos fora de campo, os diretores do clube introduziram uma série extra de administração dos negócios, criando “departamentos de publicidade” e indicando executivos para chefiá-los (GIULIANOTTI, 2010: 118- 119).

Nesse processo, os clubes abriram a possibilidade dos patrocinadores anunciarem suas marcas nos uniformes, como um meio para a ampliação de seus recursos. Houve também a comercialização de produtos diferenciados, que eram consumidos em função do impacto e da popularidade das equipes nas ligas que disputavam. Foram criados, por exemplo, “kits” para torcedores, com a venda de modelos especiais, o que contribuiu para que os clubes negociassem contratos milionários com empresas fornecedoras de materiais esportivos. A produção de novos uniformes, para serem usados em cada temporada, segue a mesma lógica, com a intenção de estimular o consumo de torcedores que se tornaram cada vez mais leais à “marca” das entidades esportivas: “clubes como o Real Madrid e o Manchester United são símbolos de mercadorias globais, reconhecidas e consumidas universalmente” (GIULIANOTTI 2010: 119-120). Esse processo vale, principalmente, para os grandes clubes de futebol, fortalecendo a desigualdade econômica entre as equipes. Nas palavras de Ferran Soriano, que foi vice-presidente de economia do Barcelona entre 2003 e 2008 e atualmente é CEO do Grupo City, detentor do Manchester City e de outras equipes de futebol pelo mundo:

Um negócio no qual, a partir de um conteúdo ­– basicamente as partidas de futebol – e alguns personagens – jogadores, treinadores etc. –, se realizam espetáculos de massa que podem ser assistidos ao vivo, se produzem e comercializam conteúdos audiovisuais e geram atividades de marketing. É nesse ponto que um grande clube de futebol já não se parece com um circo local, mas com uma empresa global de entretenimento, como, por exemplo, a Walt Disney. De fato, a Disney utiliza seus personagens (Mickey Mouse, por exemplo) para produzir conteúdos audiovisuais, vender camisetas ou parques temáticos. O Manchester United não tem o Mickey Mouse, mas tinha David Beckham, com qual vendeu muitos programas de televisão (partidas), camisas e bonés, e transformou o estádio de Old Trafford em um lucrativo parque temático (SORIANO, 2010: 22).

Com a globalização, portanto, os clubes de futebol começaram a atuar como agentes econômicos globais no mercado de bens e consumo, com o objetivo de potencializar ainda mais seus meios para aumentar seus rendimentos. Um fato inédito na indústria do futebol, que potencializou ainda mais o processo de mercantilização da cultura popular. De acordo com Cavalcante e Nicolau Netto,

No caso dos clubes de futebol, desde o começo de 1980, eles perderam o pudor com seus mantos – para alguns, sagrados – e os colocaram à disposição de empresas interessadas em expor ali, com muito mais destaque do que o dado ao próprio distintivo do clube, suas marcas. Isso acrescente à competição esportiva entre os times uma segunda e mais ferrenha disputa: a dos clubes por dinheiro (CAVANCANTE & NICOLAU NETTO, 2020: 240).

Em relação aos veículos de comunicação de massa, houve um crescimento nos valores negociados para a aquisição dos direitos de transmissão dos jogos de futebol, com o avanço tecnológico possibilitando ampliar sua audiência ao explorar novos mercados consumidores de dimensões nacionais e transnacionais. Segundo Giulianotti (2010), as ligas mais lucrativas para as emissoras de televisão eram as inglesas, italianas, alemãs, francesas e espanholas. Em países europeus como Holanda, Escócia, Portugal, Bélgica e Suécia, que não conseguiam arrecadar a mesma renda com direitos de transmissão, pela desigualdade competitiva em âmbito nacional, havia equipes com pretensões esportivas ambiciosas em competições europeias. Consecutivamente, nasce uma Liga Europeia mais desenvolvida. Nesse contexto, as associações domésticas de clubes continuavam operando com o objetivo de garantir uma receita televisa ainda maior para seus associados, enquanto, por outro lado, a UEFA começava a ser pressionada para seguir a mesma lógica e maximizar os ganhos dos times com os direitos de transmissão de seus torneios, o que poderia implicar, por exemplo, na reestruturação do formato de suas competições, com a ampliação do número de jogos a serem negociados com as emissoras de televisão. Essas mudanças produziram novos conflitos: os jogadores da elite esportiva consideraram que esse novo cenário provocou uma demanda excessiva de trabalho, ao amplificar, por interesses econômicos, o número de partidas no calendário competitivo; os clubes e as seleções nacionais passaram a conviver com um conflito de interesses, já que os times, que arcam os vencimentos e outros custos dos atletas, ficavam desfalcados de seus principais talentos durante os jogos internacionais[i]:

Ao mesmo tempo que o futebol continua nessa fase de transição entre o nacional e o global, os jogadores líderes acham que há demandas exageradas para seu trabalho. A introdução de uma liga mundial de clubes e de inúmeros novos torneios (como a Copa das Confederações) pode aumentar a renda de televisão da FIFA e das associações nacionais, mas os jogadores lutam para ter umas férias para recuperação. Enquanto isso, os conflitos do clube versus país emergem, uma vez que essas estrelas altamente remuneradas recebem ordens para perder os jogos das ligas domésticas para dar crédito a essas charadas internacionais (GIULIANOTTI, 2010: 124-125).

Segundo Damo (2014), os circuitos do clubismo, que fomentam a rivalidade entre torcedores e o interesse popular nas partidas, possuem uma história dependente da reorganização dos campeonatos. Com isso, as entidades do futebol operam em função da capitalização de circuitos do clubismo mais relevantes, o que enseja, inclusive, em uma disputa política entre as entidades que administram o futebol. Atualmente, existe uma proposta para a criação de uma “Superliga Europeia”, que selecionaria um conjunto limitado de clubes europeus, com vistas a ampliar a frequência de jogos entre equipes relevantes do continente e potencializar a arrecadação de recursos com a comercialização dos jogos[ii]. O mesmo vale para a intenção da FIFA de realizar a Copa do Mundo a cada dois anos. Hoje, o torneio acontece de quatro em quatro anos[iii]. Nesse sentido, pode-se dizer que, com o interesse em arrecadar ainda mais com a negociação de direitos de transmissão, o que gera uma expansão no número de jogos no calendário esportivo das equipes, forma-se um novo parâmetro de alta performance, considerando as novas exigências físicas da modalidade com o aumento no número de partidas disputadas pelos jogadores.

Além do mais, para Giulianotti (2010), o “caso Bosman”, que permitiu a livre-circulação profissional de jogadores de futebol nascidos em países da União Europeia em outras nações signatárias, também provocou mudanças profundas na economia política da indústria do futebol. Em primeiro lugar, promoveu um novo padrão migratório de trabalho para os atletas profissionais. Além disso, desequilibrou ainda mais a correlação de forças entre equipes de futebol, em favor dos times mais ricos, que puderam explorar a contratação de jogadores melhores em um mercado de transferências com limites redesenhados. Desse modo, os clubes inseridos na dinâmica global da mercantilização do futebol, que proporcionou uma maximização na arrecadação de recursos, também começaram a atuar como agentes globais na contratação de futebolistas para a formação de seus elencos. Por fim, com a ampliação da competição no mercado de transferência de atletas, o salário dos jogadores cresceu exponencialmente – mesmo que desigualdades sociais severas continuassem (e continuem) persistindo em comparação com os rendimentos dos atletas que atuavam (e atuam) em divisões inferiores das ligas nacionais. Como consequência, surgiram propostas para tentar regulamentar a nova bolha inflacionária do futebol, como a reintrodução do teto salarial ou a divisão mais igualitária da renda de bilheteria entre os clubes envolvidos em uma partida – o que favoreceria economicamente as equipes menores quando enfrentassem as potências globais que estavam se formando. Contudo, nenhuma dessas medidas foi adotada, tendo em vista que a evolução das equipes mais ricas sempre esteve pautada em perpetuar a desigualdade econômica entre clubes, o que se acentuou na nova economia política globalizada da indústria do futebol.

Em decorrência da nova dinâmica competitiva do mercado de transferências de jogadores de futebol, os clubes começaram a firmar contratos de longo prazo com os atletas para conter a volatilidade do mercado. Do mesmo modo, os principais clubes do futebol europeu provocaram o fenômeno do “acúmulo flexível”, ao contratar jogadores para sanarem demandas imediatas das equipes, com contratos de curta duração. Além disso, já que a arrecadação de recursos financeiros foi maximizada e as oportunidades de mercado para a contratação de futebolistas foi alargada, equipes relevantes do futebol europeu deixaram de investir em suas categorias de base e na formação de jovens jogadores. Clubes menores, que tradicionalmente formavam atletas para serem negociados com as principais equipes de seu país, foram impactados negativamente em decorrência da concorrência de times de outras nações europeias e de outros continentes, que aproveitaram a nova regulamentação para estrangeiros no futebol europeu para potencializar seus ganhos econômicos com a venda de jogadores.

Assim, a criação de monopólios de talento impactou decisivamente a competitividade dos campeonatos nacionais. Em relação ao que pode ser considerado o formato “moderno” do Campeonato Alemão (a Bundesliga), o Bayern de Munique se tornou decacampeão da competição na temporada 2020/2021, tendo em vista que, até a temporada 2012/2013, a sua maior sequência de títulos teria sido três tricampeonatos em períodos diferentes. Desde o início dos anos 2000, são 17 títulos para o clube da Baviera, enquanto o Borussia Dortmund levantou a taça três vezes – um bicampeonato –, e Werder Bremen (em 2020/2021, disputou a segunda divisão), Sttutgart (em 2020/2021, lutou contra o rebaixamento na primeira divisão) e Wolfsburg venceram uma única vez.

No Campeonato Italiano (a Serie A), mesmo que tenha ocorrido uma alternância maior entre os campeões, pode-se concluir que o fenômeno se repete. Entre as temporadas 2005/2006 e 2009/2010, a Inter de Milão conquistou todas as edições da competição, somando cinco títulos em sequência. Após um título vencido pelo Milan em 2010/2011, entre 2011/2012 e 2019/2020, a Juventus se tornou eneacampeã italiana. Se os cinco títulos em sequência da Inter de Milão foram um feito que já havia sido realizado pela própria Juventus entre 1930/1931 e 1934/1935 e pelo Torino entre 1942/1943 e 1948/1949, os nove títulos da Velha Senhora compõem um fenômeno histórico único.

Em que se pese as particularidades dos contextos do futebol alemão e italiano, é possível argumentar que a sequência absolutamente extemporânea de títulos de uma única agremiação em cada um desses países sugere que a competitividade dos campeonatos diminuiu a partir da formação de monopólios de talento. Até mesmo no Campeonato Inglês, costumeiramente retratado pelo senso comum como o campeonato europeu mais competitivo entre as principais ligas do continente, podemos verificar, a partir do surgimento de sua versão “moderna” (a Premier League), uma hegemonia estabelecida pelo Manchester United no início dos anos 90, em que, entre as temporadas 1992/1993 e 2003/2004, excetuando o título vencido pelo Blackburn Rovers em 1994/1995, as conquistas da competição ficaram divididas entre Manchester United (que venceu oito vezes, com dois bicampeonatos e um tricampeonato) e Arsenal (com três títulos somados). A partir de 2003/2004 até a sua última edição, em 2021/2022, o Manchester City venceu seis títulos, Chelsea e Manchester United conquistaram outros cinco, enquanto o Liverpool e o improvável Leicester foram campeões em uma única oportunidade. Nessa linha, é importante destacar que as ascensões de Manchester City e Chelsea decorrem do fato de que ambos foram adquiridos, em 2008 e 2003, respectivamente, pelo xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, da família real do Emirados Árabes Unidos, e pelo bilionário russo Roman Abramovich, naquilo que se convencionou nomear como prática de sportwashing[iv], mas que permitiu que essas equipes se tornassem potências esportivas que nunca haviam sido até então. Desse modo, a competitividade restrita da Premier League também indica um grupo seleto de clubes que puderam se transformam em monopólios de talento. Nesse sentido, o título conquistado pelo Leicester, em 2015/2016, mesmo que o clube tenha se aproveitado do crescimento econômico da Premier League como um todo, sugere que, no jogo jogado, os monopólios de talento ainda podem ser derrotados.

Por outro lado, como consequência do processo de formação de monopólios de talento nas principais ligas europeias – fazendo com que os clubes se tornem conglomerados transnacionais de atletas de alta performance -, os estilos de jogo nacionais, que eram fomentados nas ligas domésticas com seus jogadores e treinadores, acabaram se fundindo em um jeito globalizado de praticar o futebol, o que Wisnik (2008) percebeu nas partidas da Copa do Mundo de 2006, realizada na Alemanha:

Ao mesmo tempo, como diz bem o próprio Grumbrecht, esses estilos nacionais, “essenciais” ou não, se adaptaram, todos, nos últimos tempos, a um “estilo globalizado” que é uma combinação aproximativa, e adaptada ao uso genérico, da defesa atacante italiana com o ataque defensivo holandês. Ou seja: dentro de campo assistimos, também, ao encontro das “duas vertentes da montanha”, onde os estilos nacionais se confundem em um estilo transnacional. Os jogadores ocupam cerradamente o espaço desdobrando-se nas duas funções, despendendo um preparo físico antes impensável. Ao mesmo tempo, fazem “rodar a bola” para o lado e para trás, evitando ao máximo colocá-la em risco de perda, como se quisessem neutralizar, justamente, aquela margem de contingência que distingue o futebol, e aquela sucessiva, imprevisível e contínua alternância de posse de bola, que caracteriza a textura do jogo. Sem desmerecer a vitória da Itália, que soube se defender quase sem erros e fazer, sempre in extremis, os gols de que precisava, numa completa funcionalidade congenial com a ordem das coisas, muito daquilo que se estampou na Copa é o retrato dessa considerável uniformização (WISNIK, 2008: 27).

Nota-se que a intercambialidade cultural das diferentes maneiras de jogar é um aspecto presente em toda a história do ludopédio, impactando no desenvolvimento de diferentes escolas nacionais. Todavia, o que descreve Wisnik (2008) é um processo de globalização de uma determinada forma de jogar, que estaria se reproduzindo em uma generalização e uma uniformização da prática do futebol.

Contudo, como consequência de um estilo de jogo globalizado, em que os principais atletas das periferias do futebol estão submetidos ao mesmo contexto competitivo nas maiores ligas europeias e inseridos em uma cultura transnacional com o mesmo conteúdo tático, seleções sem tradição no futebol e com ligas locais pouco relevantes foram capazes de competir contra nações campeãs mundiais nas últimas edições da Copa do Mundo.

No mundial desse ano, a sensação foi Marrocos, que conta com o goleiro Bono e o atacante En-Nesiry, campeões da Liga Europa com o Sevilla em 2020; com o meia-atacante Zyech, destaque do Ajax por anos e campeão da Liga dos Campeões da Europa com o Chelsea em 2020; com o lateral-direito Hakimi, revelado pelo Real Madrid, com passagem por Internazionale e Borussia Dortmund, atualmente no Paris Saint-Germain e um dos melhores do mundo na sua posição; entre outros, como o defensor Mazraoui, do Bayern de Munique. Dos 26 convocados, apenas seis não jogam no Velho Continente. Outro exemplo é o Japão, que derrotou a Espanha e a Alemanha na fase de grupos, caindo nas penalidades para a Croácia nas oitavas de final. Da lista de 26 nomes de jogadores japoneses, apenas sete não jogam na Europa. Entre aqueles que jogam na liga local, estão os veteranos Yuto Nagatomo e Hiroki Sakai, que jogaram por praticamente 10 anos no futebol europeu – Nagatomo esteve por oito temporadas na Internazionale e Sakai ficou cinco temporadas no Olympique de Marseille. O artilheiro da seleção no mundial foi Ritsu Doan, do Freiburg da Alemanha, com dois gols.

Aqui, o objetivo não é postular que as surpresas esportivas em Copa do Mundo começaram a acontecer em decorrência da globalização do futebol, em sua dimensão econômica e como expressão cultural dentro de campo. O que se propõe é que, diferentemente do passado, em que essas surpresas poderiam representar o surgimento de uma nova escola nacional, a ascensão de um clube local ou a formação de uma geração talentosa (como aconteceu com o futebol total do carrossel holandês em 1974 e 1978, que uniu esses três elementos para ser vice-campeão do mundo duas vezes consecutivas, após 20 anos sem disputar uma Copa do Mundo), há uma outra qualidade nessas surpresas, que representam, sobretudo, uma assimilação ao jogo globalizado.

Com isso, se as ligas nacionais e até mesmo os campeonatos continentais são cada vez mais previsíveis, é possível que a Copa do Mundo se torne um reduto para a imprevisibilidade do resultado em competições de alta performance. Afinal, é impensável que Real Madrid, Liverpool, Manchester City ou Bayern de Munique sejam eliminados na primeira fase da Liga dos Campeões da Europa, como aconteceu com a Alemanha nesse mundial, ou sequer disputem a competição, o que aconteceu com a Itália, campeã da Eurocopa de 2020, que não jogou as Copas de 2018 e 2022. 


Notas

[i] Em 2002 foram criadas as “Datas Fifa”, que obrigam os clubes a cederem seus jogadores quando convocados por suas seleções nacionais para jogarem partidas que estão integradas ao calendário da FIFA. Não necessariamente são jogos de competições internacionais. As “Datas Fifa” também incluem amistosos entre seleções

[ii] Disponível em: <https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/superliga-europeia-o-que-se-sabe-sobre-a-competicao.ghtml&gt;. Acesso em: 20 de abr. de 2021

[iii] Disponível em: <https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/fifa-e-associacoes-nacionais-de-futebol-voltam-a-discutir-copa-do-mundo-a-cada-dois-anos.ghtml&gt;. Acesso em: 3 de jan. de 2022. 

[iv] Disponível em: <https://www.poder360.com.br/internacional/sportswashing-entenda-o-conceito-por-tras-da-compra-do-newcastle/&gt;. Acesso em: 19 de jul. de 2022.

Referências

CAVALCANTE, Sávio & NICOLAU NETTO, Michel. (2020). Futebol e capitalismo global: mercadorização do esporte e a formação de uma cultura neoliberal. In: GIGLIO, Sérgio Settani & PRONI, Marcelo Weishaupt (Org.). O futebol nas ciências humanas no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, p. 232-254.

DAMO, Arlei Sander. (2014). O espetáculo das identidades e alteridades ­– As lutas pelo reconhecimento no espectro do clubismo brasileiro. In: CAMPOS, Flavio de & ALFONSI, Daniela (Org.). Futebol Objeto das Ciências Humanas. São Paulo: Leya, p. 23-54.

GIULIANOTTI, Richard. (2010). Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria.

SORIANO, Ferran. (2010). A bola não entra por acaso. São Paulo: Larousse do Brasil.

WISNIK, José Miguel.  (2008). Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras.

A imagem que abre o post é de autoria de Meghdad Madadi/ Tasnim News Agency.

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