
A Série Nordeste BVPS publica hoje texto de Isabel Lustosa que reúne suas memórias pessoais e trechos de alguns artigos publicados na imprensa sobre sua terra natal, o Ceará. Isabel foi, por mais de trinta anos, pesquisadora titular do Centro de Pesquisas da Fundação Casa de Rui Barbosa. Seus trabalhos são referências obrigatórias em imprensa e história política brasileira. Ela ocupou várias cátedras no exterior e atualmente está vinculada à Universidade Nova de Lisboa.
A Série Nordeste BVPS é uma iniciativa que une a vocação do Blog da BVPS – formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes – aos propósitos pedagógicos da disciplina Sociologia Política do Nordeste, que está sendo ministrada na Graduação em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ neste primeiro semestre de 2023.
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Boa leitura!
Meus nordestes: Fortaleza, o mar e o sertão
Por Isabel Lustosa (Universidade Nova de Lisboa)*
Uma das canções do Pessoal do Ceará que mais gosto é a que diz assim:
Você conhece o Nordeste, / palmilhou seu chão sagrado, viu cascavel em Coluna, / sol quente pra todo lado/ você conhece o Nordeste, Morro Branco e Quixadá, / palmilhou seu chão sagrado, por isso pode falar…
Cantada por Teti, parceira do compositor cearense Rodger Rogério, cujo tom agudo, sincero e dramático da voz remete ao das cantorias das novenas do interior do Ceará, parecia mesmo que a gente estava sentindo sol quente prá todo lado. Rodger compôs esses versos, depois musicados por Belchior, em homenagem a um amigo que fez quando esteve na USP: Paulo Vanzolini. Talvez tenham se aproximado por conta do fascínio que a boemia de Fortaleza tinha e ainda tem por Ronda, canção mais conhecida desse grande artista e zoólogo. Talvez também por conta da identidade dupla que os irmanava: cientistas e compositores, pois Rodger é físico e professor da UFC. O fato é que, se a amizade começou por conta de Ronda, ela se estreitou depois em uma mesa de bar, como não podia deixar de ser. Numa dessas ocasiões, Rodger duvidou que Vanzolini conhecesse bem o Ceará. Vanzolini venceu o desafio dando demonstrações de um conhecimento muito superior ao de Rodger, chegando mesmo a ostentar: Em Quixadá, conheço até os bodegueiros. Rodger não conhecia nada, pois, tal como eu, cresceu e passou a vida toda em Fortaleza, frequentando a praia de Iracema e as tertúlias do Clube Maguary.
O Pessoal do Ceará era de Fortaleza
Aliás, o Pessoal do Ceará, como ficou conhecida aquela geração de artistas da MPB que surgiu nos anos 1970, era muito mais de Fortaleza do que do Ceará. Dois dos mais famosos, Ednardo e Fagner, por sinal, pertenciam à mesma paróquia em que passei a infância e a adolescência: a da Piedade. A Piedade reúne o bairro Joaquim Távora e a parte do bairro José Bonifácio, – onde a família de Ednardo vivia e mantinha um colégio – e fica entre o Centro, o bairro de Fátima e a Aldeota. A Piedade era uma região de classe média e sua vida se fazia em torno da igreja governada pelos padres salesianos que ali também mantinham um colégio para meninos.
Grande parte das músicas de Ednardo têm Fortaleza, sua paisagem e sua gente, como tema. São tão boas que estão na moda entre os jovens de hoje que criaram até um bloco de carnaval inspirado em uma delas: Luxo da Aldeia. O nome se deve ao trecho da letra de “Terral”, que começa dizendo “Eu venho das dunas brancas” para terminar com a formidável sequência: “eu tenho a mão que aperreia/ eu tenho o sol e areia/ eu sou da América/ sou da América/ Shouth América/ eu sou a nata do lixo/ eu sou do luxo da aldeia/ eu sou do Ceará”. Ednardo era também o artista cearense preferido de meus colegas de Ciências Sociais da UFRJ, entre o final dos anos 70 e começo dos 80, que adoravam a sonoridade de sua música e a grande beleza que há nos versos de suas composições.
Outra canção que é um hino de amor a Fortaleza é “Longarinas”, que diz: “Faz muito tempo/ Que eu não vejo/ O verde daquele mar quebrar/ Nas longarinas da ponte velha/ Que ainda não caiu”. Essa canção também tem construções preciosas do tipo: “Uma a uma, as coisas vão sumindo/ Uma a uma, se desmilinguindo”, referindo-se à destruição de tantas casas e prédios antigos da cidade para dar lugar aos edifícios que hoje caracterizam aquela paisagem urbana. Mais adiante aparece a Fortaleza dos modernos chocando-se com o bucolismo das noites de luar: “E a lua viu desconfiada/ A noiva do Sol com mais/ Um supermercado…”.
Outra referência à Fortaleza onde vivi até o começo da juventude é “Beira-mar”, cujo primeiro verso diz: “Na Beira-Mar, entre luzes que lhe escondem/ Só sorrisos me respondem/ E eu me perco de você…”. Imagem que remete ao famoso Bar do Anísio, à agitação boêmia que havia nos anos 70, naquele trecho da avenida. Era nessa beira-mar boêmia que se desenrolavam alguns dramas sentimentais, encontros e desencontros como os que sugerem a música.
Olha o tombo da jangada nas ondas do mar: os pescadores e a arte de Raimundo Cela
Essa vida boêmia com noites que se estendiam até o amanhecer era vizinha da comunidade de pescadores que até hoje ocupa o final daquela praia. Os verdes mares bravios de Alencar comparecem ali, no burburinho dos homens do mar chegando com seus barcos e jangadas, trazendo o produto fresco de sua jornada que se iniciara ainda na madrugada. E Fortaleza tem ainda essa imagem dos barcos ancorados; das redes de pesca estendidas ao vento e de sua minúscula igrejinha bem em frente a essa paisagem, em que o pescador vai agradecer a seu padroeiro S. Pedro pela boa colheita e por ter sobrevivido mais uma vez.
Essas imagens da beira-mar urbana remetem à obra de nosso maior pintor: Raimundo Cela. Nascido em 1890, em Sobral, no interior do Ceará, Cela criou-se em uma cidade litorânea próxima dali: Camocim. E foi lá que pintou os pescadores, suas jangadas e seus costumes. Sua arte não procura simplesmente imitar as coisas representadas, é de uma beleza solene, meio melancólica, mas luminosa e colorida. Ela nos revela, de maneira muito sutil, sem grandiloquência ou pieguice, a poesia que inspira a visão dos pescadores e de suas jangadas nas praias do Ceará.
Artista nordestino, porém internacional, Cela era filho de um espanhol, funcionário de uma empresa ferroviária e de uma professora cearense. Ele veio para o Rio de Janeiro, em 1910, cursar engenharia, como desejava o pai, e a pintura, como ele mesmo desejava. Aqui, estudou sob a orientação dos maiores mestres do começo do século, ficando pessoalmente ligado a Eliseu Visconti. Formando-se em engenharia, Cela trabalharia com o Marechal Rondon e, mais tarde, no escritório do então famoso arquiteto Arquimedes Memória (autor do projeto da Câmara dos Vereadores, a famosa “gaiola de ouro”). Em 1917, Cela ganhou o prêmio de viagem do Salão Nacional de Belas Artes. Por causa da Primeira Guerra e da necessidade de concluir o curso de engenharia, só viajou mesmo em 1920. Permaneceu na França por dois anos, onde se dedicou ao aprendizado da gravura em metal.
De volta ao Brasil, foi viver no Camocim, trabalhando durante dez anos como engenheiro de uma pequena usina elétrica. Em 1938, a pintura de um painel para o governo do Estado, representando a libertação dos escravos do Ceará, o trouxe de volta à vida artística. Pouco depois, em 1940, estabeleceu-se em Fortaleza, onde constituiu ateliê nos autos do teatro José de Alencar. Cela faz parte daquela geração de brasileiros que se criara sob a influência da cultura francesa. O pintor retornou ao Rio de Janeiro em 1945. Aqui se tornou professor de gravura em metal da então ENBA, cargo que ocuparia até a sua morte, em 1954. Nesta última fase da carreira, Raimundo Cela foi duas vezes premiado com a medalha de ouro do Salão Nacional de Belas Artes.
Beneficio-me da crítica de Cláudio Valério Teixeira, que identifica na obra de Cela uma simbiose entre a pintura e a aquarela: uma seleção de pigmentos de quem já havia olhado a pintura impressionista e por ela se deixado envolver, uma paleta aberta cujas cores luminosas tomam o lugar das terrosas. Segundo aquele crítico, o artista teria sabido se apropriar dos temas de sua terra, dando-lhes um tratamento natural, mas valendo-se de distorções quase caricaturais, recurso que, na opinião de Cláudio Valério, subtrai de seus desenhos o caráter naturalista, fazendo-os ganhar em expressividade. O importante, diz ainda o mesmo crítico, é verificar como o artista vai transformando a forma clássica – poses típicas de estudos de academia – em traços pessoais, desenhos menos laboriosos, realizados ao natural, agregando características formais inteiramente próprias.
Raimundo Cela, sendo um moderno, nunca foi um modernista. Ele apareceu justamente naquele momento de nossa história cultural em que as artes seriam atingidas pelo radicalismo de 1922. Criou-se então o mito, que hoje vem sendo revisto pelos estudos sobre o pré-modernismo, de que havido um hiato entre os mestres do século XIX e a Semana de Arte Moderna. Neste período nada teria sido produzido de interessante e criativo. Os que surgiram naquela fase foram mantidos assim numa espécie de limbo cultural. Mas a arte de Raimundo Cela é prova do contrário, e seu valor deve muito ao fato de ter sido concebida à margem das escolas, de não ter sido contaminada pelos modismos passageiros. Além das imagens de surpreendente beleza, o que a obra de Cela proporciona é uma janela para o Ceará. Um Ceará de praias oceânicas, de jangadas e de jangadeiros. “Olha o tombo das jangadas nas ondas do mar”, verso do baião “Imbalança”, descreve bem o movimento que sua pintura conseguia simular. Um Ceará da gente do mar, com muita luz, vento, areia e água salgada. Certamente está em seus quadros a melhor tradução pictórica dessa paisagem nordestina.
Meus sertões: Luís Gonzaga, Canindé, Camará, papai e Dalva
Se a geração musical dos anos 1970 teve pouco de inspiração sertaneja, a exceção talvez do arquiteto e compositor nascido em Quixeramobim, Fausto Nilo, e do quase padre sobralense, Belchior, o sertão não faltou nunca na memória afetiva de todos nós. Desde a infância nos acostumamos a ouvir Luís Gonzaga cantando no rádio seus baiões com as inspiradas letras do cearense Humberto Teixeira. Nelas, o sertão e a seca se faziam presentes em obras de qualidade poética ímpar, das quais a mais conhecida é “Asa Branca”: Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João/ Eu perguntei a Deus do Céu / Porque tamanha desolação/ Que braseiro, que fornalha/ Nem um pé plantação… No entanto, essa canção também remete a um fenômeno que é familiar a todo nordestino que se afasta um pouco da costa: a forma como a mata gretada, seca e de cor amarronzada e a se confundir com a terra avermelhada se transforma com a primeira chuva. Já em “Asa Branca”, o artista em seu verso mais bonito promete à Rosinha que voltará: quando o verde dos seus olhos se espalhar na plantação. Beleza que também marca o primeiro verso de outra canção triste, “Assum Preto”, nome de outro pássaro da caatinga: Tudo em volta é só beleza, céu de abril e a mata em flor…
É difícil enumerar as tantas canções que remetem ao sertão e à seca, mas elas ocuparam um lugar definitivo em nossa memória afetiva, fazendo com que a representação desse nordeste sertanejo se incorporasse à nossa própria natureza. Suas imagens ficaram tão impregnadas na representação do Nordeste que até quem nunca viveu no sertão as sente como suas. Também porque, desde a escola primária, éramos educados a pensar o mapa do Brasil como dividido em regiões. E as estampas dos livros escolares traziam como representação maior do Nordeste o vaqueiro com seus gibão e chapéu de couro característicos, em meio à paisagem árida da caatinga. Havia também um repertório poético que frequentava as seletas com versos que diziam: O rio Jaguaribe é uma artéria aberta por onde escorre o sangue do Ceará… Ou outro do qual só me lembro do final, que culminava com a sentença: Chove na minha terra, chove no Ceará. Porque no Ceará, quando o tempo está carregado de nuvens escuras, o sujeito olha para o céu e diz: tá bonito prá chover.
Meu pai passou a infância no sertão do Ceará, na cidade de Canindé. Embora tenha vivido em Fortaleza, onde sua família chegara por volta de 1915, fugidos da seca feroz daquele ano, Seu Costa, até morrer, trazia nas retinas octogenárias a imagem que descrevia com gosto das grandes pedras que calçavam a rua em torno da estação de trem, a primeira revelação que guardou da capital. Por causa dele e dos vínculos afetivos que o ligavam àquela cidade, visitamos várias vezes o Canindé. Íamos sempre pagar alguma promessa a São Francisco de Assis, padroeiro daquela cidade, na missa das sete da manhã, o que nos obrigava a viajar de madrugada. A devoção a São Francisco era tão forte na família que têm Franciscos em todas as gerações. No norte do Ceará não há tanto apego ao Padre Cícero. Acho até que papai tinha certa antipatia pelo santo milagreiro do Cariri por conta da invasão de Fortaleza por seus jagunços, em 1914. Lembro que tudo me parecia muito peculiar no Canindé: o fato de o chão das ruas principais ainda ser de terra, os ex-votos expostos na igreja, a loja do Marreiro, primo de papai, que tinha tudo que o povo do sertão consome no dia a dia, o sítio de Ricardo, seu tio, criador de bodes etc.
Como muita gente do sertão, papai deve ter sido um leitor da bíblia dos sertanejos do século XIX, o Lunário Perpétuo. Outro dia aprendi que uma espécie de forquilha feita com galho de árvore que ele usava para identificar se havia possibilidade de abrir um poço em determinado lugar era método ali ensinado. Se tivesse água lá embaixo, a forquilha se inclinava para baixo. Também usar as folhas do mastruz macerada para curar braço torcido ou até quebrado era uma das receitas que se aprendia no Lunário.
No Camará, sítio que comprou no começo dos anos 60, na região do Euzébio, lá para as bandas do Aquiraz, papai pretendeu recriar a vida sertaneja da qual tinha saudades. Comprou-o, depois de vender com desgosto o sítio da Messejana, onde moraram seus pais, com sua casinha singela da qual só restaram as fotografias. Deve ter custado muito para o papai se desfazer daquele pedaço de terra. Lugar lindo, fresco, cheio de mangueiras, onde a gente estendia as redes e se balançava. Juntinho de uma igrejinha muito da bonitinha que ainda está lá. Mas a paisagem agreste e seca do Camará lembrava mais o sertão e papai gostava desse desafio sertanejo, adorava todos os afazeres que diziam respeito a ter uma terra, por mais seca e pequena que fosse. Ele ficava por lá, sozinho com os roceiros, erguendo cerca, cultivando macaxeira, cuidando das poucas vacas, fazendo a manutenção do cata-vento, limpando o entorno da lagoa, que é tão triste quando esvaziada pelo estio e muito bonita quando sangra de tão cheia no inverno bom. Ele mandou fazer até uma casa de farinha com todos os apetrechos. Vinha gente de todo lado para a farinhada. Era bonito ver o pessoal trabalhando nas várias etapas do processo.
E a gente do lugar mais próxima de nós era a família Santana, nossos vizinhos. Deles, a que resiste até hoje é a Dalva, sertaneja valente e trabalhadora. Parece estranho que o principal trabalhador daquela roça tenha sido sempre uma mulher. Que a pessoa em que seu Costa mais confiava, a que era pau para toda obra, sem nenhum traço de feminilidade, além dos vestidos estampados, todos do mesmo modelo, que sempre usou. Parecia grande e forte, mandava e desmandava nos outros, enfrentava quem viesse lhe desafiar. Ninguém se metia com ela. Mas não era valentona, não. Era só, e ainda é, pessoa de muita personalidade. Foi bem mais tarde, fazendo foto dela ao lado do Chico, menino ainda, com seus dez ou doze anos, que percebi como Dalva é pequena. Na foto, é quase um palmo mais baixa que o menino.
Lembrança que me é cara é de Dalva assando castanha de caju sobre a folha de flandres aberta de uma lata velha sobre alguns tijolos. Atividade que gostávamos de ver e de participar. Quando a castanha estava no ponto, a folha era virada e a gente ia catando as castanhas no meio das brasas. A ponta dos dedos ficava preta por muito tempo por causa do óleo da casca que tinha que ser partida com uma pedra. No inverno, lá no Camará, dava tudo que é fruta sertaneja: murici, fruta amarelinha e farinhenta, pitomba, ciriguela, ata, graviola, cajá, cajarana, sapoti, macaúba, jenipapo e, naturalmente, o caju, que dá em toda parte. Bem que papai tentou plantar abacaxi, mas nasceram tão mirrados que um dos filhos, o mais moleque, sugeriu que ele mandasse amostras para uma seção da Secretaria de Agricultura chamada “aberrações da natureza”.
Sobral, cangaceiros em Cajazeiras e o jeito de falar do cearense
Eu nasci em Sobral, mas tinha três meses quando meus pais se mudaram para Fortaleza. Mesmo assim, Sobral fez parte de toda a minha vida, pois tinha sido um lugar tão importante na vida de meu pai, que foi nomeado diretor do recém-criado IAPC na década de 1940, e lá fez amizades que levou para o resto da vida. Só fui conhecer Sobral na adolescência, quando papai foi eleito membro da Academia Sobralense de Letras e fomos todos lá na nossa Rural Willys. A maior parte dos quatorze filhos de seu Costa e d. Dolores nasceu ali, e mesmo que a gente nunca tivesse ido a Sobral, a cidade chegava a nós por meio dos amigos que vinham visitá-los e das histórias que meu pai contava. Mas Sobral era então uma metrópole sertaneja e as histórias de lá envolviam padres, políticos e o bispo local, além da proverbial mania de grandeza do sobralense. Aliás o nome do bispo de Sobral, muito justamente apelidado de bispo-conde, era bem apropriado para as pretensões de nobreza da elite do lugar: D. José Tupinambá da Frota. Foi a partir de todas essas histórias que ouvira de papai e de outras tantas que pesquisou que meu irmão mais velho, o jornalista Lustosa da Costa, construiu uma obra única e notável, reconhecida ainda em vida por aquela municipalidade que deu à biblioteca da cidade o seu nome.
Bem antes de se estabelecer em Sobral, papai rodou muito pelo interior do Ceará como caixeiro-viajante das Casas Pernambucanas. Pode ser que tenha sido em uma dessas viagens que ele conheceu mamãe, filha de um comerciante bem estabelecido, dono de armarinho, na cidade de Cajazeiras, na fronteira da Paraíba. Aliás, também fomos uma vez de Rural Willys visitar esse avô materno, Crispiniano de Figueiredo Lustosa. A terra onde mamãe passou a infância e a mocidade era uma fantasia ainda mais remota que Sobral, pois convivemos com poucos parentes de mamãe. Meu avô era descrito como um homem alto, muito claro, e assim ele aparece na foto tradicional do casal, ao lado de vovô Chaguinha, cujos traços e cabelos evidenciavam a ancestralidade indígena herdada por muitos dos filhos e netos. Nas boas fotos que nos chegaram, reunindo a família Lustosa, todos pareciam muito elegantes, bem-vestidos e calçados, por isso foi bem decepcionante conhecer o Vovô Piano, naquele velhinho mirrado, surdo e mal-humorado, vivendo com duas filhas solteironas em casa, que me pareceu pobre e desprovida de qualquer encanto. Da longa viagem guardei a memória de nossa passagem pelo Quixadá e do recorte da serra que forma a imagem da galinha-choca. Papai quis nos mostrar o açude.
Mamãe era mais silenciosa e, por isso, só quando eu já era adulta que ela me contou a história da invasão de Cajazeiras pelo bando de Lampião. Não que o próprio Lampião lá tenha estado, quem teria comandado esse ataque teria sido Sabino Gomes, um de seus cabras. Quando não tinha em vista alguma ação, Virgulino usava dividir o bando entre os homens que mais confiava, e Sabino era de sua inteira confiança. Na entrevista que deu em Juazeiro, Lampião declarou que Sabino e seu irmão Antônio Ferreira eram seus substitutos naturais. Ambos, aliás, se tornaram tenentes pelo mesmo ato de pantomina com que o Padre Cícero fez de Virgulino Capitão.
Foi em 1926, e quase tudo que mamãe contou está também contado no livro de Ivan Bichara: Carcará. Conheci o ex-governador da Paraíba na casa de meu saudoso amigo Plínio Doyle, numa daquelas reuniões tão simpáticas que passaram à história com o nome de Sabadoyle. Segundo o relato de d. Dolores, apesar de ter corrido o boato de que os cangaceiros iam atacar a cidade, ninguém acreditava, porque Cajazeiras era grande, depois de Campina Grande, era a maior cidade da Paraíba. E Lampião não atacava cidade que tivesse duas ou mais torres de igreja: se fosse cidade grande, o sucesso da empreitada seria duvidoso.
Quando a invasão de Cajazeiras começou, todo o mundo ficou apavorado e foi se trancar em casa, a bandidagem roubando anéis, alianças e cordões de ouro dos grupos que, distraídos, aproveitavam a brisa do Aracati em suas cadeiras de balanço, nas calçadas como era então comum. Mas os que sabiam que a invasão ia acontecer estavam esperando e reagiram de arma na mão, pondo em fuga os cangaceiros. Estes deixaram a cidade atirando e, no caminho, mataram um alfaiate que, por curiosidade, metera a cabeça na janela para olhar. Ao contrário dos tantos relatos em que, a um simples bilhete de Lampião ou de um de seus asseclas, as cidades imediatamente se submetiam, Cajazeiras se organizou para a reação armada. Prefeito, juiz, bispo, padre, delegado, comerciantes e a gente simples do povo se prepararam para reagir e reagiram, honrando a tradição de valentia da Paraíba.
Muitas outras histórias de Cajazeiras me são contadas por minha prima Ceci Germano Lustosa, que veio morar com mamãe depois que papai morreu. Ela trouxe a Paraíba para dentro de casa, tardiamente, eu diria. E sabe segredos familiares que mamãe não gostava que ela contasse. O mais interessante é que o convívio com os parentes, seja da Paraíba, seja de Pernambuco, revela uma imensa, para nós pelo menos, diferença no jeito de falar. O sotaque deles nos soa bastante exagerado, com suas vogais muito abertas. É como se fosse havendo uma gradação do Ceará para cima, sendo que as vogais são ainda menos abertas no Piauí e no Maranhão. No Pará, não há mais semelhança alguma. E os paraenses, como os gaúchos, gostam de usar a segunda pessoa do singular.
E por falar em falares, não dá para não fazer referência aqui à maneira como o povo cearense transforma algumas consoantes em “r”: gelado, relado; velho, réi; mesmo, mermo etc. Dalva, por exemplo, gosta de dizer: “marrr, minino”, no sentido admirado e crítico de “imagine, que coisa”, “que folga”. Também tem a troca do inho por im: pertinho, pertim; bonitinho, bonitim; bonzinho, bonzim etc. Sinto saudade do tempo em que a gente dizia merendar, em vez de lanchar; mangar em vez de zombar; cruzeta em vez de cabide e gigolete, que é como a gente chamava, não sei por quê, o arquinho de prender cabelo. Expressão que eu gosto é “nem escuto a zoada da mutuca”. A gente usava para afetar indiferença diante de provocações. Outra expressão engraçada é “vou rebolar no mato”, usada para dizer que se vai jogar (rebolar) algo no lixo (no mato). Mais manjado, mas que gosto de contar aos amigos do Rio, é “não morreu galego não”, usada para dispersar ajuntamentos de curiosos. É interessante, eu acho, porque tem a ver com a antiga configuração da sociedade cearense. Uma sociedade onde os galegos (estrangeiros brancos) eram poucos. Daí que fosse natural que muita gente acorresse quando se soubesse que morreu um “galego”.
Viagem ao Sertão: Madalena, Leonardo Mota e Clélia
No final da adolescência estive em Madalena, pequena vila de Quixeramobim, lugar seco que só, mas que no entardecer tinha uma beleza singela e melancólica. Dessa viagem só restaram umas poucas fotos e boas lembranças em que se misturam as canções de Sergio Ricardo, da trilha sonora de Deus e o diabo na terra do sol, e as imagens do interior do Ceará. Em Madalena tomei contato com aquela paisagem árida do sertão cearense. Terra de barro vermelho, sem nada em volta e que, na sombra das poucas árvores, se experimenta um frescor incomparável. Era tudo muito seco no entorno da vilinha de poucas casas, umas de frente para as outras e umas poucas mais afastadas, esparsas. No quintal da família dos amigos que nos receberam, Vieira Costa, tinha um pássaro selvagem que atacava quem se aproximasse. Era o jacu que soltava um grasnado meio rouco. Na casa dessa família amiga tomei o melhor café, coado com canela e adoçado com rapadura, e comi doce feito de sangue de porco. Uma iguaria especialíssima, tão forte e tão gordurosa que hoje me seria impossível encarar.
O sertão cearense que eu conheço é mais o das narrativas literárias do que o da experiência vivida. Sertão do Nordeste que nosso folclorista maior, Leonardo Mota, percorreu anotando, registrando, observando os modos de falar, de pensar e de cantar do homem do interior. Leota, como o chamavam os amigos, tanto viveu pelo mundo que dizia, a exemplo de um dos seus entrevistados, que morava “debaixo de meu chapéu e em cima de minhas alpercatas”.
Em quatro livros Cantadores, Violeiros do Norte, Sertão Alegre e No tempo de Lampião, em edições posteriormente ilustradas por outro artista cearense, Aldemir Martins, Leonardo Mota apresentou ao Brasil o Brasil que o Brasil não conhecia. Cantadores, lançado no Rio em 1921, numa edição de 10.000 exemplares, obteve grande receptividade por parte da crítica e do público. Mesmo sucesso que acolheu Violeiros do Norte, publicado pela Cia. Editora Monteiro Lobato, em 1924, e premiado pela Academia Brasileira de Letras. O material que apresenta é dos mais representativos da literatura oral, flagrantes da mentalidade de um povo, onde os preconceitos mascarados das elites se revelavam de forma cristalina. Expressões da cultura local, pequenas sínteses de um pensamento e de uma poesia que não alcançava a “pancada do mar”, ou seja, que não chegava às cidades do litoral.
Marcante em Leonardo Mota é a percepção do tipo de humor peculiar do homem do sertão. Além dos tantos versos da literatura de cordel ou dos desafios entre cantadores, ele registrou a graça de histórias como a do matuto que, para vender um burro a um coronel, louvou as qualidades que, de fato, o animal tinha, mas não lhe disse que o bicho tinha o beiço comido por uma bicheira, o que lhe tornava horrível o aspecto. Diante da reclamação do cliente, a resposta irônica do matuto: – Eu não disse coronel, porque eu tava na mente que o sr. queria era um burro para carga. Agora é que eu tou vendo que o sr. quer é um burro para assobiar.
E as metáforas? Deliciosas, como a do jovem recém-casado que caiu doente. Ouvindo as recomendações do doutor, o rapaz lança um olhar para a mulherzinha e pergunta: – Doutor, fazerá mal quatro chinela debaixo da minha rede? Ou a história do flagelado da seca de 15 que, na sua peregrinação rumo a algum lugar onde “não seja mais Ceará”, alcança uma fazenda. Indagado sobre como estão as coisas pelo sertão, responde: – Este ano, de nação de quatro pé só quem escapa é tamborete!
Minha irmã e melhor amiga, Maria Clelia, teve vida igual à minha, totalmente fortalezense. No entanto, por profissão e por vocação, se fez a maior conhecedora do sertão do Ceará e de seus limites, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Geógrafa, ela leva todos os anos seus alunos da UFC para excursões Ceará adentro, visitando as cidades históricas, mostrando as paisagens sertanejas e litorâneas. E, por ir todos os anos palmilhando aquele chão sagrado, tal como Paulo Vanzolini, não digo em Quixadá, mas talvez em Sobral, Clelia talvez conheça até os bodegueiros. Um dia ela me leva numa dessas viagens para que eu finalmente conheça de fato o sertão.
Uma breve nota explicativa
Reuni neste texto muito de minhas memórias pessoais e trechos de alguns artigos que publiquei na imprensa. Não sendo, ao contrário de minha irmã, uma especialista na história e na geografia do Nordeste e tendo produzido apenas um pequeno livro que me ajudou a entender o cangaço e seu lugar no sertão nordestinos (De olho em Lampião: violência e esperteza – São Paulo: Claro Enigma, 2011), fiz este exercício atendendo ao convite de André Botelho. Espero que seja útil a seus alunos e colegas que têm contribuído para a excelente Biblioteca Virtual do Pensamento Social Brasileiro, à qual fico muito honrada de dar esta contribuição.
Nota
*Pesquisadora do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (CHAM/FCSH) da Universidade Nova de Lisboa
Imagem que abre o post: Joana Lavôr, colagem da série Dei Normani, Sicília. Para a disciplina/série Blog da BVPS Nordeste Autopoiesis.