
O Blog da BVPS publica hoje o texto “Uma ferroada no peito do pé”, de Marcelo Diego (UFRJ), que se hospeda no ensaio de mesmo título de Silviano Santiago.
O post dá continuidade à Hospedagem Vale quanto pesa, um experimento intelectual e estético inspirado na categoria de “hospedagem” de Silviano Santiago, voltado para as comemorações do seu segundo livro de ensaios, Vale quanto pesa, de 1982. Propomos um exercício de comentário, repetição, suplementação, hospedagem dos 18 textos nele reunidos. Autores e autoras de 40 anos ou menos comentam Vale quanto pesa em seus 40 anos ou mais.
É uma alegria proporcionar esse encontro, ainda mais porque, como espaço de formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes, o Blog da BVPS aposta sempre na conversa entre diferentes gerações.
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Boa leitura!
Uma ferroada no peito do pé
Por Marcelo Diego (UFRJ)
O ensaio “Uma ferroada no peito do pé” traz como subtítulo – discretamente, entre parênteses – a indicação: “dupla leitura de Triste fim de Policarpo Quaresma”. Nele, “dupla” (adjetivo) parece mais apontar para a não univocidade da leitura que Silviano Santiago faz do romance de Lima Barreto, do que restringi-la a uma “dupla” (substantivo) de argumentos ou de dimensões, uma vez que os sulcos abertos no texto são múltiplos – ou melhor: porque férteis, infinitos. Assim, ao olhar para esse subtítulo com quarenta anos de distanciamento, é possível entendê-lo como “leitura em dupla hélice de Triste fim de Policarpo Quaresma”, já que ela enlaça, todo o tempo, a análise das estratégias retóricas do romance, da inscrição de procedimentos próprios de leitura e de escrita no seu interior; e a síntese dos discursos nacionalistas que o precedem e informam, radicados em uma hipermetaforização. Sigamos o percurso crítico desse ensaio seminal, buscando onde mais ele possa ter germinado em novas e imprevistas iluminações.
O primeiro ponto examinado por Silviano é o da forma em certa medida circular do romance publicado por Lima como folhetim, no Jornal do Commercio, ao longo de 1911, composto por um núcleo narrativo que se repete. Resumida e esquematicamente, esse núcleo consistiria em uma tentativa falhada de Policarpo Quaresma afirmar seu patriotismo e contribuir para o engrandecimento da pátria: na primeira parte, a proposição desastrada da adoção do tupi como língua nacional, que tem como consequência a sua ridicularização pública e o seu afastamento do emprego de toda a vida; na segunda, a aposta cega no front agrícola como esperança para o desenvolvimento do país, que é vencida pelas saúvas; na terceira, o depósito ingênuo de confiança nos princípios e meios militares, que resulta na sua morte. Uma e outra e mais outra vez, em arcos narrativos que parecem seguir o mesmo curso, o leitor vê o balão de esperanças do sonhador Policarpo se inflar, para em seguida estourar, frustrando-o. Silviano associa essa estrutura ao dispositivo do “gancho”, na literatura produzida para a circulação serializada: à repetição cumpriria a função de realizar uma “microleitura interna” da intriga, uma primeira releitura do texto, em um contexto em que “O artista da forma seriada e popular, […] necessita diminuir o hermetismo do enigma narrativo […] recorrendo a pequenos núcleos narrativos […]” (Santiago, 1982: 164, grifos no original).
A essa altura, Silviano propõe uma distinção entre um regime de leitura popular e outro erudito, que requereriam leitores com aptidões distintas. No primeiro, “Abole-se a participação individual do leitor no processo de compreensão, já que a própria obra traz em si as configurações gerais e coletivas da sua leitura” (Santiago, 1982: 164); já no segundo, “o universo da literatura erudita se organiza em diferença” (Santiago, 1982: 165), em uma “ficção erudita” de “consumo ‘difícil’”. Trazendo essa distinção – rigorosamente, essa oposição – teórica para o texto específico sob escrutínio crítico, conclui que:
É por aí que se deve falar, em primeiro lugar, da qualidade popular que o texto de Lima Barreto oferece, quando num confronto com Machado de Assis, ou com seus sucessores modernista. A posição isolada e intrigante de Lima Barreto explica-se pelo fato de ter ele assumido uma estética popular numa literatura como a brasileira, em que os critérios de legitimação do produto ficcional foram sempre os dados pela leitura erudita (Santiago, 1982: 166).
A despeito da origem, quer popular, quer erudita, desses distintos regimes e seus respectivos expedientes, historicamente demonstrável, é preciso temperar com um grão de sal a percepção da sua vigência em obras específicas – a começar, devido à fronteira muitas vezes borrada entre eles, e em seguida, por causa da frequente apropriação de traços de um por parte do outro. Assim, aquilo que parece ser a repetição de um núcleo narrativo, com o objetivo de explicitar os termos da progressão do enredo, de diminuir o hermetismo, pode ser a modalização de um núcleo narrativo, que sutilmente agrega novos termos à progressão do enredo, que instila a diferença em meio à repetição. Deste modo, a macroestrutura de Triste fim de Policarpo Quaresma, com as suas três partes, com arcos narrativos semelhantes, em vez de apresentar um desenho circular, descreveria um movimento em espiral (retornando, aqui, à imagem da hélice), em que, a cada volta, a tensão entre o protagonista e seu meio aumenta, até finalmente impedir todo e qualquer movimento seu.
O confronto entre Lima e Machado, nesse sentido, é menos revelador da adoção de uma estética popular pelo primeiro e de uma estética erudita pelo segundo, do que das estratégias de apropriação, de negociação, de mediação e finalmente de esfumação dos limites entre o popular e o erudito adotadas por um e por outro. Se a macroestrutura circular-espiralada de Triste fim e a composição pouco flexível e quase estereotipada de Policarpo Quaresma remetem ao popular, a ironia fina do narrador, o caráter contraditório, quase inefável de diversos coadjuvantes (como apreender os olhares últimos da irmã Adelaide, do amigo Ricardo, da afilhada Olga?) e a imensa biblioteca de referências convocada pelo narrador e pela personagem não deixam de assinalar a presença do erudito. Inversamente, se a absoluta economia da prosa machadiana, onde não há lugar para a repetição, e a suspeição em que o narrador coloca o narrado, ou o narrado coloca o narrador são marcas evidentes do erudito na ficção de Machado, o uso desabrido que o autor faz da sátira e do fantástico e a sua frequente revisitação de temas já desenvolvidos em temas anteriores[1] têm ancoragem no popular – seja lá o que “popular” e “erudito”, ao fim e ao cabo, queiram dizer.
Ainda sobre o dispositivo dos núcleos narrativos que se repetem circularmente, Silviano os entende, original e generosamente, como uma “forma-limite que [ata] os fios dispersos de uma intriga original” (Santiago, 1982: 166). Trata-se de uma espécie de pesca de arrasto, que traz para o seu seio organizativo um sem-número de personagens e episódios que de outro modo ficariam perdidos pelo caminho, dispensando o “anzol da surpresa” que em outros regimes de leitura é usado para fisgar o leitor. Entendendo esse dispositivo como não apenas circular, mas espiralado (a repetição que carrega consigo a diferença e gera uma progressão), é possível expandir mais ainda a noção de “forma-limite”, para uma que, além de atar os fios dispersos da narrativa, posiciona-os em direção ao infinito e ao absurdo – ad infinitum e ad absurdum. O caráter trágico do romance, portanto, o seu “triste fim”, adviria da experiência-limite, dentro da narrativa, a que a forma-limite submete a personagem, por trás do aparente pequeno drama suburbano.
Após este primeiro tempo do ensaio, centrado nas estratégias retóricas do romance, Silviano desloca-se para um segundo tempo, focado na “noção idealizante de pátria que Policarpo tenta pôr em prática” (Santiago, 1982: 177), derivada eminentemente de sua biblioteca. O crítico nota, agudamente, que a razão da reiterada repressão de Policarpo não é o patriotismo, de forma abstrata – até mesmo porque todas as instâncias que o reprimem agem, a seu modo, ou acreditam agir pelo bem da pátria –, mas a forma concreta de patriotismo praticada por ele, altamente idealizada. Sem embargo, ato contínuo, observa que “O romance de Lima Barreto se encontra aqui devidamente delimitado por toda uma postura idealista e idealizante do intelectual, de que é exemplo no século XIX o poema ‘L‘Albatros’, de Charles Baudelaire” (Santiago, 1982: 171).
A aproximação do poeta de Les Fleurs du mal, embora contribua para a argumentação em marcha (tanto a ave quanto o major, ao descer das alturas, chapinhariam desajeitados, seriam motivo de chacota), não deixa de causar certo estranhamento: em que medida Policarpo poderia ser considerado um intelectual, logo ele, tão preocupado com a operacionalização das suas convicções, convicções estas que parecem ter nascido cristalizadas, quase como doutrina, infensas ao questionamento e ao crivo crítico? E em que firmamento planaria soberano, qual seria o espaço oposto ao do seu rés-do-chão, onde teria seu momento de glória e realização? Para além da ficção, no plano autoral, caberia ainda refletir se, apesar de os modelos do intelectual e do artista, no Brasil de então, serem claramente decalcados dos europeus, a experiência concreta deles teria esse nível de afinidade. Em outras palavras, há de se convir que o sentido dessas idealizações, em parte dado pelas suas possibilidades de concretização, é um no contexto metropolitano, e outro no contexto colonial.
A partir do momento em que compreende que “O questionamento radical do texto é o da noção de ‘pátria’” (Santiago, 1982: 172), Silviano precisa momentaneamente se afastar do romance de Lima, para investigar os fundamentos de tal noção, a fim de posteriormente retornar a ele. Afasta-se do romance, entretanto, enveredando, borgeanamente, por um caminho apontado pelo próprio romance: a investigação dos discursos sobre o Brasil com os quais ele dialoga – afinal, assim como o cavaleiro da triste figura, o major de triste fim também perde a razão por ler demais; no caso, por ler demais da sua biblioteca brasiliana. Nas palavras do ensaísta, “todo discurso sobre o Brasil foi irremediavelmente idealista, comprometido que estava com um discurso religioso e paralelo e que, finalmente, foi dominador” e “[daí] advém que toda e qualquer discussão sobre o Brasil […] se encontre de início marcada por uma alta taxa de metaforização da linguagem” (Santiago, 1982: 175).
A fonte privilegiada nessa investigação, por sua primazia e tipicidade, é a Carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, na qual o “processo de idealização do discurso ufanista se encontra na contaminação do discurso leigo pelo discurso ufanista religioso […]. Sua descrição da terra desconhecida tem como mediador óbvio o texto bíblico” (Santiago, 1982: 176, grifo no original). Nela, o trabalho social e o trabalho de evangelização são figurados por meio de palavras e locuções ligadas ao campo semântico do plantio. Porém, atenta o ensaísta, enquanto no primeiro ele é utilizado em sentido próprio (a agricultura), no segundo, o é em sentido figurado (a evangelização). Resumindo a argumentação de Silviano, sem em hipótese alguma fazer jus à sua sofisticação e complexidade, em uma “terra ubérrima”, em que “plantando, tudo dá”, a semeadura das almas ganha precedência sobre a semeadura da terra, criando um vinco ideológico pelo qual “o próprio será sempre o metafórico” (Santiago, 1982: 179, grifos no original). Curiosamente, a Carta de Caminha não é mencionada na brasiliana de Quaresma,[2] o que, evidentemente, não a invalida como fonte para a investigação do discurso sobre Brasil que se materializa no romance e que se epitomiza nela; porém, serve de convite para a verificação dos modos e das nuances pelas quais ele se materializa nos títulos citados – e da funcionalidade desses diálogos intertextuais específicos no interior da obra.
De volta a Triste fim de Policarpo Quaresma, Silviano conclui que a sua importância radical “seria dada pela des-metaforização da palavra ‘semente’. Ou seja: a principal semente de que a terra brasileira precisa é a que é escrita no seu sentido próprio” (Santiago, 1982: 180, grifo no original). O confronto com essa necessária des-metaforização, no romance, é acompanhado por um baixo contínuo de frustração e pessimismo; e, em última instância, custa a própria vida do protagonista. Tal confronto é ilustrado, de forma quase didática, na cena em que Policarpo, enquanto tem a cabeça perdida em devaneios sobre as “riquezas e opulências do Brasil” (Barreto, 1997: 100), recebe na pele magra do peito do pé a ferroada furiosa de uma enorme saúva, desgarrada da multidão de formigas que levavam embora suas reservas de milho e feijão – cena de que o crítico extrai o título de seu ensaio.
Para concluir estas breves notas de leitura, que se detiveram principalmente sobre as tarefas que o ensaio de Silviano delega a seus leitores – sua suplementação –, vale olhar mais uma vez para essa cena. A imagem da ferroada no peito do pé, ao mesmo tempo em que ilustra o apelo inescapável do real, sobrepondo-se crua e cruelmente sobre o ideal, faz ainda duas citações. A primeira, dentro da série literária, é ao Οιδίπους, ou Édipo, “o de pés inchados” (Brandão, 1991: 303), e ensejaria uma análise do traço edípico de Policarpo, em seu movimento constante de busca por um retorno ao útero da terra-mãe, em um momento anterior à entrada em cena do inoportuno nome do pai. Já a segunda, fora da série literária, transbordando para o plano autoral, é ao sentido todo particular que a associação entre “ferro” (em “ferroada”) e “pé” ganha, quando feita pela pena de um escritor negro, nascido ainda em plena vigência do escravismo racializado brasileiro. Atente-se que toda a cena se passa à noite, tendo contornos de sonho ruim, em que o grande recalcado do processo histórico de instauração da República no Brasil – o imenso contingente de ex-escravizados – retorna: “O chão estava negro, e carregadas com os grãos, elas [as formigas], em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca de sua cidade subterrânea” (Barreto, 1997: 100). Pelas lentes oferecidas por Silviano Santiago, é possível entrever, na ficção de Lima Barreto, não apenas os embates entre o sentido próprio e o sentido metafórico, nos discursos sobre o Brasil, mas também os sentidos fantasmáticos.
Notas
[1] O retorno às “estruturas primárias e primeiras”, que “se desarticulam e rearticulam sob forma de estruturas diferentes, mais complexas e mais sofisticadas”, de que trata o ensaísta em passo anterior de sua obra (Santiago, 1978: 27).
[2] Eis o “catalogo de los libros” do cavaleiro andante de São Januário: “Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopeia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major. // De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gandavo; e Rocha Pita, Frei Vicente de Salvador, Armitage, Aires Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo Morais, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o príncipe de Neuwiend, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto Magalhães e se se encontravam também com Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos estes últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente” (Barreto, 1997: 19).
Referências
BARRETO, Lima. (1997). Triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: O Globo.
BRANDÃO, Junito de Souza. (1991). Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. v. 1. Petrópolis: Vozes.
SANTIAGO, Silviano. (1978). Retórica da verossimilhança. In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco.
SANTIAGO, Silviano. (1982). Uma ferroada no peito do pé (dupla leitura de Triste fim de Policarpo Quaresma). In: Vale quanto pesa: ensaios sobre questões político-culturais. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
A imagem que abre o post é de autoria de Lena Bergstein, Série Galáxias, 2018. Fotografia e superposições