
Para encerrar a Série Nordeste BVPS, trazemos um trabalho inédito da ilustradora Joana Lavôr concebido para este momento da série. Joana é ainda a autora da ilustração Dei Normani que tem aberto os posts da série. Na nova ilustração, a artista apresenta uma espécie de diário de viagens ao Nordeste, próprias e alheias. Um presente para leitoras e leitores do Blog. O post traz ainda o texto “Um turista aprendiz”, palavras de agradecimento do coordenador da Série, André Botelho (UFRJ).
A Série Nordeste BVPS foi uma iniciativa que buscou unir a vocação do Blog da BVPS – formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes – aos propósitos pedagógicos da disciplina Sociologia Política do Nordeste, que foi ministrada na Graduação em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ no primeiro semestre de 2023. Foram 23 posts com conteúdos pedagógicos e adicionais que criaram um experimento multidisciplinar, multidimensional e reflexivo original em seus termos. Desejamos que possa inspirar novas iniciativas de ensino, pesquisa e comunicação pública.
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Boa leitura!
Por Joana Lavôr

Um pouco mais cedo este ano, participei de uma oficina com um ilustrador espanhol que admiro muito, Jesús Cisneiros. O que mais me chamou a atenção na sua prática foi o convite ao desenho sem referências, ou seja, sem imagens que servissem de apoio. Me interessei por essa dedicação mais direta aos materiais de desenho, como os lápis, o giz, o carvão, a tinta, e menos a um plano. Como eu sempre desenhei por observação, diante de cenas ou recorrendo a fotografias, senti vontade de caminhar dessa maneira, como se agora fosse possível entrar um pouco mais no papel e construir uma musculatura para as formas. Juntei esse desejo a uma prática de trabalho que me acompanha desde 2018, o desenho de sonhos. Já tem um tempo que eu exploro as imagens que vejo dormindo: o sonho oferece uma composição e, ao acordar e anotar, faço listas e esboços para começar a desenhar. De certa forma, a ideia de buscar imagens na memória já estava por aqui, mas sempre que anotava algo, até mesmo as cores de uma cena, eu desenhava observando algumas fotografias.
Para um desenho que ilustrasse o fechamento da série de textos sobre o Nordeste do Blog da BVPS, fui convidada a trazer uma espécie de diário de viagem levando um pouco do que vi em uma viagem longa recente pela Bahia, onde tenho família e passei muitas férias da vida. Pensei em começar com essa prática da oficina de Jesús e produzir um desenho de cabeça. E aí, é bonito como não fiz exatamente um caminho direto pelas memórias recentes da viagem. Entraram figuras como uma máscara Gélédéé iorubá e um manto vinho de carnaval que vi há pouco no Largo do Terreiro de Jesus, em Salvador, mas também gramáticas de outros tempos e lugares, de visitas ao Pernambuco, Alagoas, Bahia e Ceará, minhas e de imagens de outras pessoas que passaram pelos meus olhos. Uma das figuras interessantes nesse procedimento foi a Casa Museu de Graciliano Ramos, que vi em foto de uma viagem de um amigo, branca e azul-marinho, que, quando lembrei de cabeça, desenhei azul-claro com cinza. Na ilustração, é como se o fundo escuro fosse a base, a memória coletando cenas com os olhos cerrados ao acordar, e vem a cor levantando os elementos para formar a composição.
Um turista aprendiz
Por André Botelho (UFRJ)
Caras e caros leitoras e leitores, em especial estudantes de Sociologia III do Bacharelado em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ: ao finalizar esta primeira rodada do experimento Nordeste BVPS, que uniu ensino, comunicação pública das ciências sociais e pesquisa, quero agradecer-lhes pela participação e estímulos. Tanto na disciplina quanto na série neste Blog, ao longo do primeiro semestre de 2023, percorremos um arco histórico, temático e teórico iniciado com Os sertões (1902), de Euclides da Cunha, e que teve como ponto de chegada a discussão sobre as experiências de participação social no orçamento participativo no Nordeste; passando, antes, principalmente, pelos conflitos por terra e reforma agrária, de que as Ligas camponesas permanecem paradigmáticas.
No percurso aprendemos que a relação entre cultura e instituições compreende múltiplas dimensões para além de um entendimento causal entre normas e atitudes culturais, ou estruturas sociais e padrões de comportamento que configurariam uma “comunidade cívica”. Voltamo-nos para os “homens comuns” e não necessariamente para “cidadãos virtuosos” como forma de compreender efeitos de longa e média durações previstos e impremeditados nas interações dinâmicas entre estrutura agrária, participação social e mudanças sociais e políticas. Lendo e relendo diferentes interpretações do Nordeste, forjamos coletivamente um percurso compartilhado (não linear e inacabado) que liga a emergência da questão social (face à estrutura agrária vigente) à participação social que pode acabar por alterar politicamente a sociedade.
Noutras palavras, foi nosso objetivo entender se e como, na longa duração e visto em termos macrossociológicos, se forjou um processo social de aprendizado social da democracia que envolveu três momentos decisivos: no primeiro, pudemos perceber como se opera uma construção social de inteligibilidade da “injustiça” diante de situações como a seca, a fome, as migrações e a violência, que receberão progressivamente novas interpretações; num segundo momento, os significados dessas situações se ampliam: tornam-se faces da questão social, que passam a ser objeto de conflitos entre diferentes setores da sociedade e do Estado. E é com base, em grande medida, nessa experiência – que também pode ser caracterizada como um aprendizado social do conflito pela terra –, que num terceiro momento, no presente, a participação social não apenas se adensa, mas ganha condições tangíveis de alterar o cotidiano da política no Nordeste. Esse não é um processo evolutivo. Todos e cada um desses “momentos lógicos” estão empírica e historicamente embaraçados e ativos ao mesmo tempo. O processo social é dinâmico.
Nossa escolha pela discussão da reforma agrária, partindo do projeto de dissertação de Rennan Pimentel em curso no PPGSA/IFCS/UFRJ, um dos membros da equipe Nordeste, para exemplificar o experimento não foi aleatória, mas quis expressar, antes, a sua importância para a compreensão do processo de mobilização e a ação coletiva, a participação social e o aprendizado que se desenvolvem em diferentes momentos de luta pela terra no Brasil da segunda metade do século XX. O movimento social, ao fim e ao cabo, permite que grupos insatisfeitos com as regras de distribuição de bens e recursos e das formas de representação política, antes silenciosos ou inaudíveis, possam vocalizar suas demandas mesmo fora das instituições políticas estabelecidas.
A ideia de “repertório contencioso” de Charles Tilly é inspiradora em nosso trabalho para pensar a questão do aprendizado social: um conjunto de formas de ação políticas surgidas em meio a conflitos em momentos passados e que fica à disposição dos movimentos sociais a partir de então, incluindo desde a manifestação pública de reivindicações através da formação de associações temáticas e clubes, a organização de comícios e passeatas, até as greves. As lutas pela reforma agrária e seu reconhecimento institucional são cruciais na história do Nordeste, na discussão nacional sobre estrutura agrária, na participação social e nas mudanças sociais e políticas. Nesse processo, em meio às contendas dos atores e grupos sociais, formas de ação, mas também de narrativas, perdem e ganham eficácia, assim como se alteram os modos de sensibilização e reconhecimento diante dos problemas sociais. E apesar do aprendizado social envolvido, nem sempre resultam em mudanças na sociedade, pois dependem sempre de portadores sociais e das relações estabelecidas entre eles para se efetivarem ou não como forças sociais reflexivas. Justamente por isso, e porque também da contingência é feita a matéria da vida social, essa história não tem como terminar aqui.
No percurso do experimento Nordeste e aprendizado social da democracia, aprendemos muito, muito mais do que imaginávamos no ponto de partida. Tal como nas ações coletivas em geral, também o experimento acadêmico encetado nos últimos meses permitiu um aprendizado que é também e simultaneamente um aprendizado do indivíduo sobre como tornar-se ator social e político nos e dos confrontos e reivindicações. O movimento social, afinal, mobiliza pessoas e grupos sociais para uma mudança na sociedade, mas dá a oportunidade também de uma mudança interna, entre aqueles que dele participam e passam a ver e a discutir sua realidade social noutras perspectivas. Muitas questões foram identificadas coletivamente, e um mapa mais sistemático sobre elas está a se construir. Com base nele, as hipóteses discutidas no experimento poderão, enfim, ganhar sentido, ou não.
Agradeço às/aos autores – companheiros e companheiras de viagem – que abrilhantaram o experimento com seus textos que, ainda, se somaram ao, afetaram, ampliaram e adensaram o conteúdo pedagógico propriamente dito da Sociologia Política do Nordeste. Foram 24 posts (incluindo este encerramento), envolvendo 21 pesquisadores e pesquisadoras de diferentes gerações e instituições. Muito obrigado Antonio Brasil Jr., Antonio Nóbrega, Caroline Tresoldi, Elide Rugai Bastos, Felipe Fortuna, Heloisa Buarque de Hollanda, Irlys Alencar F. Barreira, Isabel Lustosa, Karim Abdalla Helayel, Lilia Schwarcz, Lucas Carvalho, Lucas van Hombeeck, Mariana Chaguri, Nísia Trindade Lima, Onildo Correa, Pedro Meira Monteiro, Rennan Pimentel, Roberto Véras de Oliveira, Rodrigo Jorge Ribeiro Neves e Silviano Santiago. Foi uma experiência muito agradável e intensa, além de produtiva, sobre a qual pudemos refletir coletivamente ao longo dos meses de sua realização. Inclusive, na semana passada, em Belém, no Comitê de Pesquisa do Pensamento Social Brasileiro da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). Agradeço ao Blog da BVPS pela oportunidade e dedicação: Maurício Hoelz (UFRRJ), Rodrigo Jorge Ribeiro Neves (UFRJ) e Maria Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ). Agradeço à amiga Joana Lavôr pelas ilustrações belíssimas e tão ricas de significados que traduziram e ampliaram o experimento em termos visuais.
Como a leitora e o leitor devem ter percebido, semana a semana, o experimento é inspirado em grande medida na trajetória de pesquisa da Professora Elide Rugai Bastos, da Unicamp, minha orientadora. Elide foi pioneira tanto nos estudos sobre ação coletiva camponesa, com dissertação sobre as Ligas camponesas, quanto nos estudos sobre Gilberto Freyre, com tese de doutoramento sobre a interpretação do Nordeste de Freyre e como ela se tornou elemento-chave do pacto político dos anos de 1930 e ganha sentido nacional.
Agradeço especialmente ainda aos parceiros Karim Helayel (PPGSA/UFRJ/FAPERJ) e Rennan Pimentel (PPGSA/UFRJ) pelo dia a dia do experimento. Ele foi pensando para e acabou ganhando vida com um e outro. Muito obrigado e, quem sabe, até uma próxima rodada da Nordeste BVPS! Por enquanto, ficamos com João Cabral:
A Educação pela Pedra
Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.
Imagem que abre o post: Joana Lavôr, colagem da série Dei Normani, Sicília. Para a disciplina/série Blog da BVPS Nordeste Autopoiesis.