Série Nordeste + Coluna Primeiros Escritos | As dinâmicas do campo à luz de Torto Arado, por Liège Nonvieri, Maria Fernanda Argileu, Max Reis e Rosiane Braga

A Série Nordeste, em colaboração com a Coluna Primeiros Escritos do Blog da BVPS, publica edição especial com trabalhos dos estudantes da disciplina Sociologia Política do Nordeste. No post de hoje, trazemos o artigo “As dinâmicas do campo à luz de Torto Arado”, de Liège Nonvieri, Maria Fernanda Argileu, Max Reis e Rosiane Braga, que discute aspectos sociológicos e antropológicos no romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.

A Série Nordeste BVPS foi uma iniciativa que buscou unir a vocação do Blog da BVPS – formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes – aos propósitos pedagógicos da disciplina Sociologia Política do Nordeste, que foi ministrada na Graduação em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ no primeiro semestre de 2023.

Boa leitura!


As dinâmicas do campo à luz de Torto Arado

Por Liège Nonvieri & Maria Fernanda Argileu & Max Reis & Rosiane Braga*

“[…] embora filha do mundo, a obra é um mundo” (Antonio Candido).

Introdução

Torto Arado, publicado em 2019 no Brasil, é o romance premiado do escritor e geógrafo Itamar Vieira Junior. Sua história acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia que, filhas de trabalhadores rurais, amadurecem no ambiente de servidão da fazenda Água Negra e, aos poucos, tomam consciência da situação e do passado de seu povo. O presente trabalho procura se utilizar do livro para recuperar questões sociológicas e antropológicas que podem ser encontradas no cotidiano do núcleo familiar das protagonistas e na realidade brasileira do século XXI.

Árido com o tempo

O tempo corre solto pela terra. Para cada qual nela, corre à sua maneira. Na fazenda Água Negra, o tempo é agente demarcante da família, do trabalho, da seca, da plantação. Ele é demarcante da existência social do povo que trabalha e vive na terra. Do povo vivido pela terra e através dela. A terra de Água Negra pertence à família Peixoto, que nem mora ali como os seus trabalhadores, quando estes recebem um pedacinho de chão onde podem erguer de barro e palha um canto de um cômodo para dormir fora do sereno da noite, uma vez que produzem a plantação de Peixoto pelo tempo em que o sol estiver queimando suas peles escuras. Elide Rugai Bastos (1984: 10) menciona como um dos marcos do desenvolvimento do capitalismo do campo a “destituição do ‘morador’ das condições que lhe permitem a produção de seus meios de vida”, quer dizer, do próprio trabalhador e sua vivência no campo. E aqui ocorre uma interpretação de “morador” não pela condição de se ter uma moradia, pela imposição da subsistência, por necessitar viver sob um teto; antes, porém, se é morador da terra por ser trabalhador, porque a exigência imperativa no cenário agrário interiorano nordestino, herdada de uma experimentação aquém, é trabalhar para viver. Primeiro são trabalhadores, depois moradores.

E mesmo quando a morada é recebida através da troca, quando finalmente há chance de criar raízes na terra, de sossegar e construir família e já não ser mais um sobre-humano, ocorre a disposição para que as casas sejam construídas de barro, essa matéria vergável, morredoura, desistente do tempo; nada de tijolos, nada resistente, como nos contou Bibiana: “nada que demarcasse o tempo de presença das famílias na terra” (Vieira Junior, 2019: 41). O barro se desfaz com as intempéries, esturrica. A vivência, portanto, desses trabalhadores possui validade. O fazendeiro foi caridoso, visto que as moradas estão sendo construídas no terreno dele. Esse tempo menor, encurtado, delimita e determina até quando podem estar na terra; até que profundidade suas raízes podem chegar. Talvez o máximo que Peixoto permita são raízes de mandioca: fácil de arrancar. Então o capanga as leva embora, quando bem ordenado, do mesmo modo que Sutério – o capanga de Peixoto – fez quando expropriou os poucos e melhores rendimentos permitidos à família de Zeca Chapéu Grande cultivar no terreiro ao lado da morada. Apesar disso tudo, ou quem sabe, por isso tudo, o que mais as famílias trabalhadoras de Água Negra sentem sobre a terra é pertencimento. Pois a vivem todos os dias. Escutam-na. Percebem e compreendem seus espíritos vorazes e quietos: a época melhor de plantio, quando devem resguardar. Observam-na atentamente, suas minúcias e, acima de tudo, respeitam o seu tempo de fazer-se viver e fazê-los viver.

Por vários momentos, Torto Arado traz na voz dos próprios trabalhadores e trabalhadoras a consciência que possuem do quanto a terra é casa de todo mundo. Que assim como as plantas, as rochas, as minhocas, o alimento, eles também são filhos da terra, paridos por ela, foi o que Severo elucidou a Bibiana. Essa autoconsciência não se dá à toa. A terra não é arada por Peixoto nem por ninguém de sua família que herdarão a fazenda com tudo dentro. Eles não trabalham nela. Trabalho é dedicação de tempo. Identificar quem exerce essa força ou essas forças será repetitivo, contudo, necessário: Zeca Chapéu Grande e Salustiana Nicolau. Saturtino, Hermelina e Servó. Quer dizer, estes nomes, que são vizinhos de tantos outros, é que fazem o arado, que dedicam tempo para a plantação de Peixoto, como também para as suas roças, as quais Sutério averigua de tempos em tempos.

Mais uma vez, o povo de Água Negra se reconhece através dos tempos. Do tempo que dedicam ao trabalho na terra. A terra, ela mesma, que é casa, que é família, que é meio de subsistência, que é ambiente para descansar a alma. Como nas brincadeiras de jarê, tão intimamente presente e influente no curso de suas vidas. E a própria religiosidade é íntima da terra: os encantados têm seus nomes que designam alguma atividade – Santa Rita Pescadeira –, o conhecimento minucioso de ervas e plantas medicinais para rezas, banhos e encantos – remédios utilizados para a saúde do corpo e da alma, cada qual a sua finalidade, firmando os alicerces que estruturam a “sabedoria que não havia nos médicos ausentes daquela região” (Vieira Junior, 2019: 33), nas palavras afirmadas por Bibiana. O que se observa, com efeito, são conhecimentos tradicionais passados por gerações e que nesta os filhos e filhas de Zeca Chapéu Grande aprendem com ele e com sua mãe parideira Salustiana.

Um último tempo aqui dito possui seu próprio advérbio: o mal, dito pelo próprio povo, do tempo: o tempo cruel, o tempo da seca, do longo período de estiagem que provoca uma verdadeira provação na presença, na existência do povo, enquanto à escassez de água e de alimentos que antes já eram regrados pela condição imposta de sobrevida, agora na seca feroz, ainda precisam lidar com capanga de Peixoto, levando embora o pouco pão conquistado com tanto esforço. A seca é mortal. Completamente cruel. Extenuante da própria vida. O povo, neste momento, trabalha pela esperança, pelo mínimo de umidade apreciada no chão da roça que fará seus olhos brilharem até a próxima chuva. Pela ventura de onde quer que venha, porque o que quer que traga, é melhor do que a fome, o abandono, o desprezo, a falta de pulso. O mal do tempo adoece o corpo, a alma e a mente. E a maior crueldade contra esse povo, e ela existe, vem dos fazendeiros absenteístas que não vivem ali, que não vivem a seca, e ainda possuem a coragem e a perversidade descarada de despojar dos alimentos de seus trabalhadores e trabalhadoras.

O tempo marca o povo que trabalha na terra. Marca na pele, no rosto. Demarca o quanto podem viver. O tempo disposto, de sol a sol, deixa seus rastros e cicatrizes pelo tempo da vida.

As filhas do arado

Belonísia, a irmã que foi a criança que, de fato, teve a língua decepada durante o primeiro capítulo do livro, já estava acostumada a conseguir se expressar apenas em companhia da irmã Bibiana. Determinada a retomar a fala, Belonísia decide iniciar um treinamento para repetir a palavra “arado”, uma palavra que amava profundamente. Essa palavra carregava um significado especial na vida daquela família, enraizada na vida no campo em que cresceram. No entanto, havia um desafio fonético: a pronúncia incorreta do som “r”, que exigia o uso da língua e não da garganta. Essa peculiaridade linguística, que resultava em erros de pronúncia, contribui para a compreensão do título do livro, “Torto Arado”.

Enquanto Bibiana decide partir, seguindo seu caminho ao se casar com o primo Severo, podemos refletir sobre as diferentes perspectivas culturais e a diversidade de costumes, inclusive quanto aos relacionamentos entre primos. Em certos ambientes, especialmente no campo ou em comunidades urbanas com raízes no interior ou no Nordeste, esses casamentos são costumeiros, embora nem sempre bem-vistos. Na antropologia existem muitas discussões em torno desse tema, porém é importante notar que tais debates costumam ser realizados sob uma perspectiva ocidental, urbana e com conceitos universalizantes e totalizadores, como o “tabu do incesto”. Essa discussão se distancia do tema central deste trabalho, mas vale a pena mencionar que a diversidade cultural nos convida a compreender diferentes formas de relacionamento e suas peculiaridades em cada contexto específico.

Bibiana, por sua vez, casa-se com Tobias, um homem que não apenas a submete à violência verbal, mas também enfrenta problemas relacionados ao consumo de álcool. Apesar dessas circunstâncias adversas, Belonísia, atenta à realidade das outras mulheres ao seu redor, começa a perceber a existência de uma enorme servidão. Embora todas enfrentem opressão, seja ela física ou emocional, Belonísia, em algum momento, passa a acreditar que seu contexto é privilegiado. Tal crença emerge da comparação com as experiências das outras mulheres, que sofrem agressões físicas recorrentes. Esse complexo cenário ressalta a triste realidade da violência de gênero que estas mulheres enfrentam.

Sem a língua e sem a presença vocal de Bibiana para se expressar, Belonísia se torna uma poderosa metáfora dentro do livro, representando a falta de voz que uma mulher experimenta quando está sozinha, desprovida do apoio de outras mulheres. Essa ausência de voz é um tema recorrente nas narrativas femininas, que revelam as complexidades e os desafios enfrentados pelas mulheres em sociedades patriarcais. Um bom exemplo desta realidade é o ensaio Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

É importante destacar que o contexto narrativo de Torto Arado também aborda questões educacionais e a relação entre a escola e o meio rural. O pai das irmãs, Zeca, um curandeiro de renome no sertão, negocia com o prefeito a construção de uma escola em troca de seus serviços. A inauguração da escola revela um modelo educacional ainda predominantemente urbano, o que gera um sentimento de deslocamento epistemológico em Belonísia. Embora situada no campo, a escola reflete mais os padrões e conhecimentos urbanos do que os saberes ancestrais e práticas ligadas à vida rural. A experiência educacional de Belonísia é agravada por sua deficiência na fala, o que a torna ainda mais isolada e desafiada pela estrutura e dinâmica escolar.

Esse impasse enfrentado por Belonísia é apenas um exemplo de desafios contemporâneos que educadores enfrentam em diversas regiões, como a dificuldade de lecionar nas periferias urbanas, onde o currículo escolar muitas vezes está baseado em conhecimentos orientados pelas visões de mundo dos grandes centros urbanos.

No entanto, Belonísia encontra outras formas de aprendizado e conhecimento. Mesmo afastada do ambiente escolar, ela mantém seu interesse pela educação, passando a ouvir com mais atenção os relatos dos adultos ao seu redor. Ela busca integrar as coisas que aprendeu na escola à sua vivência particular e à sua ancestralidade, em um processo de reconexão com os saberes transmitidos por seu pai, como curandeiro, e por sua avó Donana, cujos conhecimentos são enraizados na experiência rural, valorizando a produção agrícola, a culinária tradicional e outros aspectos essenciais da vida no campo.

Bibiana retorna à cidade como professora, agora casada com Severo, seu primo. Sua presença traz consigo um novo tipo de instrução para a fazenda, reconhecendo-a como um território quilombola, um lugar de herança e luta de trabalhadores explorados social e economicamente ao longo da história, mesmo sendo seus ancestrais ocupantes de terras por gerações, mas ainda sem a posse legal. A voz de Bibiana e de outras mulheres que compartilham suas vivências se faz presente novamente, fortalecendo o protagonismo feminino no contexto da fazenda e trazendo à tona a importância das vozes silenciadas e o poder da união e solidariedade entre as mulheres. Ademais, Bibiana e Severo passam a resgatar a história ancestral que une os moradores da Fazenda Água Negra às lutas quilombolas.

O legado escravista e o germinar da luta

Através das manifestações culturais apresentadas nas vivências dos personagens e pelos rios que compõem o cenário do território da fazenda Água Negra, infere-se que a narrativa de Torto Arado é ambientada na Chapada Diamantina, no estado da Bahia. Além disso, há um resgate da encantada Santa Rita Pesqueira, a qual é trazida como testemunha da história desenrolada na região, fundamentada, em seu princípio, na ocupação territorial colonial que visava à extração de riquezas naturais. Nesse período, em meio à dor e violência do garimpo, soma-se o peso de ter sua liberdade retirada pelo sistema de exploração escravista, vitimando vidas negras e indígenas pela acumulação de diamantes. Porém, de acordo com o historiador Clóvis Moura (2014: 87), “o quilombo aparecia onde quer que a escravidão surgisse”. Posto isso, a constituição de quilombos foi uma das formas de resistências adotadas pelas pessoas negras e indígenas que se viam sem perspectiva no mundo que estava sendo imposto desde a invasão do Brasil, em 1500. A fuga e o estabelecimento de comunidades como o caminho para a construção de possibilidades outras, disruptivas com o sistema vigente até então.

Em 2006, Itamar Vieira Junior, geógrafo e autor do romance Torto Arado, torna-se servidor público do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), passando a possuir, a partir daí, uma relação direta com comunidades camponesas, quilombolas e trabalhadores rurais, de modo geral.[1] Com todo o aprendizado adquirido com as populações tradicionais, conhecendo de perto o cotidiano abalado pelos conflitos de terra, escreve o livro, de uma realidade pulsante, e não deixa de dar espaço para a valorização dos sabores, das alegrias, celebrações e cosmovisões dos moradores da fazenda Água Negra, que tanto possuem das comunidades com quem se relacionou. Entre a ficção e a realidade social dos grupos rurais, centra sua narrativa nas duas protagonistas, Belonísia e Bibiana, parte de uma comunidade descendente dos que resistiram à escravidão, mas que receberam um legado que permanece em suas vidas sob a forma das numerosas desigualdades ainda enfrentadas.

A história é diretamente conectada ao período colonial, a começar pela família Peixoto, proprietária da fazenda Água Negra, ter sido beneficiada com as terras de sesmarias. A encantada Santa Rita Pesqueira, como uma das narradoras, remonta à promulgação da Lei Áurea, a qual, apesar do intenso movimento abolicionista de pessoas negras, surge como um instrumento legal, mas não como uma reparação histórica. Em verdade, não se criaram indenizações de qualquer tipo ou políticas públicas para atender minimamente à população recém-saída da escravidão, violentada por séculos. Diante disso, há a reiteração por parte do Estado da desigualdade em toda a dimensão social dessas pessoas, como na questão do acesso à terra, o qual não é garantido ou subsidiado. A encantada, então, narra a saga desse trabalhador, agora livre, em busca de uma oportunidade de emprego, desembocando, mais tarde, na comunidade de Belonísia e Bibiana, e descobre-se como as estruturas racistas se perpetuam nas novas relações de trabalho desenvolvidas.

Na falta de terra, os trabalhadores pobres chegavam nas propriedades rurais pedindo morada, o que significava se ligar à fazenda. Nesse contexto, ainda que esteja à procura de uma casa para se abrigar e uma porção de terra para tirar seu sustento, morar sempre significa estar associado à fazenda, na qual obrigatoriamente devem trabalhar para o referido estabelecimento (Palmeira, 2009). De acordo com Afrânio Garcia Jr. (1988), a situação do morador não é homogênea, podendo apresentar variáveis nas condições de cada relação estabelecida. Na fazenda Água Negra, a contrapartida para receber uma parcela de terra que permitisse a criação de animais e o cultivo no roçado, numa configuração de agricultura familiar e de subsistência, era o trabalho seis dias na semana na colheita, sem qualquer remuneração em troca – e, no domingo, dia de descanso, ainda era necessário cuidar dos animais. Somado a isso, deveria ser dado ao patrão a terça parte da colheita advinda do quintal do próprio morador. Outra exigência era de que a casa deveria ser construída com barro, escolhendo deliberadamente um material precário, para que o tempo tomasse conta de se desfazer dela, uma vez que o morador em questão estabelece uma relação de dependência pessoal em relação ao patrão, e sua morada só é garantida enquanto cumpre com sua parte, trabalhando. Era o acordado entre o gerente da fazenda e o trabalhador, isto porque os moradores

(…) podem trabalhar, mas a terra é dessa família por direito. Os donos da terra eram conhecidos desde a lei de terras do Império, não havia o que contestar. Quem chegasse era forasteiro, poderia ocupar, plantar e fazer da terra sua morada. Poderia cercar seu quintal e fazer roça na várzea nas horas vagas. Poderia comer e viver da terra, mas deveria obediência e gratidão aos senhores (Vieira Junior, 2018: 162).

À vista disso, a relação senhor-morador era desigual, sem a menor garantia de direitos trabalhistas, seja durante o emprego ou depois, na velhice, caso apresentasse falta de força para dar continuidade à colheita. “Além da dívida de trabalho para com os senhores da fazenda, não havia nada para deixar para os filhos e netos” (Vieira Junior, 2018: 165). A esfera do direito não fazia parte dessa realidade social, uma vez que o acordo se coloca como uma dominação do morador, mas sem a necessidade do uso de força coercitiva para mantê-la. Isto porque, no lugar do direito, a relação era mediada sobretudo pelo favor. A partir da ideia de “generosidade” do patrão, o morador se via em uma dívida eterna, devendo pagá-la em vida com seu trabalho (Garcia Junior, 1988). Era apenas na feira, vendendo azeite de dendê, massa de buriti ou o excedente da colheita no roçado, que os moradores conseguiam algum dinheiro.

Entrou em nossa cozinha e perguntou onde havíamos colhido as batatas-doces. Meu pai respondeu que havíamos comprado na feira da cidade. Com que dinheiro, ele quis saber. Vendemos o resto de azeite de dendê que tínhamos fabricado, disse. Sutério pegou a maior parte da batata-doce com as duas mãos grandes que tinha e levou para a Rural que havia deixado em nossa porta. Pilhou também duas garrafas de dendê que guardávamos para fazer os peixes miúdos que pescávamos no rio. Lembrou a meu pai da terça parte que tinha que dar da produção do quintal. Mas as batatas não eram produção do quintal. Da terra seca não brotava nem pasto, muito menos batata. Vi a vergonha de meu pai crescer diante de nós, sem poder fazer nada. Zeca Chapéu Grande era um curador respeitado e conhecido além das cercas de Água Negra. Mas ali, nos limites da fazenda, sob o domínio da família Peixoto — que quase não colocava os pés por lá a não ser para dar ordens, pagar ao gerente e dizer que não poderíamos fazer casa de tijolo – e de Sutério, sua lealdade pela morada que havia recebido no passado, quando vagava por terra e trabalho, falava mais alto (Vieira Junior, 2018: 74-75).

Após a venda da fazenda para um novo proprietário, Salomão, há um reforço dessa imagem benfeitora do patrão. Enquanto a família Peixoto não se fazia presente na comunidade, sendo completamente distante dali, mantendo a administração nas mãos do gerente Sutério, Salomão apresenta uma solidariedade inicial e desloca os moradores até o centro para idas ao médico. Até mesmo promete salário para quem trabalhasse no barracão, local de vendas de mantimentos – muito mais caros que na feira da cidade –, o que não se cumpriu.

Na fazenda Água Negra, crescia uma percepção mais crítica por parte da juventude camponesa, que passava a denunciar o caráter exploratório da relação. No entanto, em pouco tempo o proprietário tornou “a paisagem estranha aos moradores”. Os proprietários não possuíam a relação íntima com a terra, como os moradores que dali tiravam não apenas seu sustento, mas também sua espiritualidade, suas curas, seus afetos. Viviam a terra e foram “paridos” por ela, portanto, detinham um conhecimento riquíssimo passado de geração a geração através da oralidade. Por outro lado, Salomão, sem pertencimento àquele território, desmatava a fazenda Água Negra e fazia planos que não incluíam os moradores, priorizando o lucro, com os interesses capitalistas se sobrepondo ao tradicionalismo anteriormente firmado. A partir disso, há toda uma trajetória até o despontamento de uma ação coletiva por reivindicações de direitos, impulsionada principalmente pela figura de Severo, com a comunidade se entendendo enquanto quilombola. O livro aborda as percepções dos mais novos e dos mais velhos sobre o conflito de terra, estes últimos ainda muito ligados à sensação de dívida ao patrão, dada a longevidade da sua permanência no local, rememorando quando chegaram despossuídos de terra e de emprego. No entanto, é preciso destacar que não houve falta de agência por parte dos trabalhadores antigos, os quais se apropriam do espaço de diversas maneiras, gerando uma relação única com o território.

Os pés que cresceram da terra

Como definir um mundo? Talvez o caminho mais simples nos leve a pensar em espaço. Mas pensar no onde sem um quem, ou ainda, um onde em que um quem não esteja sempre a manifestar-se, conjura uma visão mutilada, como um auditório vazio à espera de seu público ou o corpo morrediço ainda assombrado pelo fantasma da vida. Itamar Vieira Junior compreende essa dimensão e brinca com a ideia de mundo, mais precisamente a de terra, em seu romance Torto Arado. Cada personagem possui um tipo de relação diferente com o espaço e este inspira profundamente as identidades exploradas ao longo do livro.

Zeca Chapéu Grande, pai das duas protagonistas da narrativa, é também o pai espiritual de Água Negra e um dos primeiros trabalhadores a chegar na fazenda, características que acreditamos serem fundamentais no desnudar de sua dinâmica com a terra. O jarê é uma prática religiosa de matriz africana encontrada exclusivamente na Chapada Diamantina. Sua crença se expressa através dos encantados, entidades que pairam pela terra e cavalgam, eventualmente, os corpos de seus seguidores, assentando, assim, um contato sólido com a terra, seja pela capacidade de agora investirem diretamente sobre esta ou pelo vínculo que criam com seu sangue. Além disso, o jarê tem uma intensa relação com a cura, não à toa Zeca Chapéu Grande é chamado de curador. Seus métodos consistiam, em grande parte, na instrumentalização de ervas e raízes, isto é, recursos da terra, como um canal de intercessão para os encantados. “Na cosmologia do jarê, a cura é um estado de constante negociação com o meio-ambiente” (Carmo, 2021) e é na figura do curador que a interação entre espírito e natureza reside de forma mais latente.

Outra condição a destacar no patriarca da família é a de trabalhador exemplar. Zeca Chapéu Grande chegou à Água Negra de mãos vazias pedindo por terra e trabalho, enxergando se a partir daí, como uma espécie de hóspede na propriedade da família Peixoto, a quem foi concedido o direito de ficar, exigindo em troca apenas a sua saúde, arrancada do corpo pelo labor que corrói. O homem cresceu, então, como se devesse eternamente um favor aos proprietários da terra, humilhando-se para demonstrar sua gratidão e lealdade e zelando ainda pela manutenção da ordem de um sistema que tinha por intuito os espremer até o fim.

Itamar Vieira Junior construiu, no entanto, a personagem de tal modo que a passividade que Zeca Chapéu Grande aparenta diante dos patrões é combinada com as brincadeiras de jarê, a fim de despertar luta onde em um primeiro olhar não parece haver nenhuma. Após sua morte, religiões protestantes foram adentrando a fazenda incentivadas, inclusive, pela família Peixoto como outra forma de dominação, através do sacrifício da tradição. Quando Estela, esposa do proprietário de Água Negra, vai até à casa de Salu, viúva de Zeca Chapéu Grande, com um pastor para que a mulher deixasse de bater tambor e ouvisse a palavra de Deus, Salu fica transtornada e, ao tecer seus argumentos, ela fala da terra e de como esta mora dentro dela, demonstrando não só a relação do jarê com o solo, bem como as raízes profundas que Zeca Chapéu Grande plantou na fazenda. Desse modo, manter vivo o jarê é resistir passivamente, segundo os termos de Lélia Gonzalez (2020), à perversidade do colonialismo. Zeca Chapéu Grande, mesmo não enfrentando a autoridade dos latifundiários, protege e preserva um torrão da autonomia de Água Negra.

Enquanto em Zeca Chapéu Grande a resistência tem contornos serenos, em Severo ela irrompe em violência. Sobrinho do curador e marido de uma de suas filhas, Severo está ligado pelo sangue e pelo matrimônio à família de Zeca Chapéu Grande. Desde novo sonhava em sair da fazenda, estudar e ter sua própria fazenda, e quando Bibiana engravida os dois decidem fugir de Água Negra para a cidade. Em seu retorno, Severo está mudado. Envolveu-se com sindicatos e agora fala como um líder, escancarando a exploração da qual sofrem as famílias da fazenda. Sendo assim, a cidade e sua dinâmica de exclusão com o campo é peça central na atuação política de Severo. Segundo o antropólogo Moacir Palmeira (2009), a característica da cidade como poder externo relega ao camponês o anonimato político, uma vez que se entende que é na cidade que mora a vida política. A organização política do campesinato, portanto, criaria em certo sentido a identidade desse grupo, removendo-o do obscurantismo político (Carvalho, 2023). Severo, então, incorpora os dois mundos e em sua figura se concentra o germinar da luta pela terra e a identificação dos trabalhadores da fazenda como agentes.

Outra importante dimensão da personagem de Severo está atrelada à sua percepção da terra como direito e, portanto, da legitimidade da luta por seus documentos. Dois aspectos se destacam em tal discurso: a identificação da comunidade de Água Negra como quilombolas e a percepção do direito à terra como fruto do trabalho. Sobre este último ponto, já discutido por Elide Rugai Bastos (1984), fica evidente como a luta por terras possui a singular característica de estar diretamente associada ao trabalho do camponês. Por ser dali que tira a sua subsistência e, como tentamos demonstrar, até parte de sua identidade, a terra possui um significado profundo, visto que é o esforço do trabalhador em fazê-la prosperar que cria essa identificação e, por isso, o motivo para luta. A liberdade é então abordada no livro a partir da confluência entre ancestralidade e o iluminar da condição de exploração sobre a qual viviam os trabalhadores de Água Negra.

[…] foi experimentar de novo a sensação de infortúnio que nos devastou no dia em que retiramos a faca da mala e, querendo experimentar a beleza de um brilho misterioso e proibido, a colocamos na boca, completamente libertas, como se fosse possível, sem experimentar os interditos das crenças de nossos pais e vizinhos, ou sem, ainda, compreender a dominação que nos fazia trabalhadores cativos da fazenda (Vieira Junior, 2019: 34).

Por fim, gostaríamos de trazer à luz de maneira indevidamente breve a personagem que confunde em sua identidade o espaço e o ser. Belonísia, quando tem sua língua amputada, fica sem a fala, mas é somente nas ausências de Bibiana, aquela que durante anos se dedicou a traduzir o coração da irmã, que seu silêncio toma forma de solidão. Ao invés de frequentar a escola, Belonísia passa os dias com o pai, aprendendo os segredos da terra e encontrando nela mais que o seu meio de comunicação; parte de quem ela se tornou. Belonísia e a terra, pois, compartilham de uma relação extremamente íntima, como nenhuma outra personagem da obra chega a atingir. Essa interação diferenciada, inclusive, transparece já no título do livro, que faz referência à primeira vez que Belonísia arrisca falar depois de ter perdido a língua. Dentre as diversas ferramentas que poderiam ter sido escolhidas pela personagem, “arado” foi a selecionada, aquela que possui como única função preparar a terra, diferentemente de uma pá ou de uma foice que ainda podem ser imaginadas servindo a outros propósitos.

A partir de uma curta viagem pela trajetória de algumas personagens da narrativa é ressaltado, senão tornado evidente, o grau de importância que é atribuído à terra nas vivências de Água Negra, não sendo possível deixar de notá-lo mesmo em uma obra tão repleta de significados.


Nota

* Estudantes de Graduação em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ. Texto apresentado como trabalho final da disciplina Sociologia Política do Nordeste, ministrada no primeiro semestre de 2023.

[1] Informações retiradas da entrevista de Itamar Vieira Junior, concedida à Agência Pública. Conferir em: https://apublica.org/2021/02/itamar-vieira-junior-e-seu-torto-arado-uma-declaracao-de-amor-a-terra/

Bibliografia

ANJOS, Ana Beatriz. (2021). Itamar Vieira Junior e seu “Torto Arado”, uma declaração de amor à terra. Agência Pública. Disponível em: <https://apublica.org/2021/02/itamar-vieira-junior-e-seu-torto-arado-uma-declaracao-de-amor-a-terra/&gt;. Acesso em: 14 Julho 2023.

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CARMO, Wendal. (2021). “Jarê, o ‘candomblé de caboclos’ típico da Chapada Diamantina”. Carta Capital. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/jare-o-candomble de-caboclos-tipico-da-chapada-diamantina/. Acesso em: 16 de jul. De 2023.

CARVALHO, Lucas. (2023). O aprendizado social do conflito pela terra. Blog da BVPS. Série Nordeste, jul. 2023. Acesso em: 16 de jul. de 2023

GARCIA JR., Afrânio. (1988). Libertos e sujeitos: sobre a transição para trabalhadores livres do Nordeste. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 3, n. 7, pp. 6-42.

GONZALEZ, Lélia. (2020). A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem. In: Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, pp. 49-64.

VIEIRA JÚNIOR, Itamar. (2018). Torto Arado. Alfragide: Grupo Leya.

VIEIRA JUNIOR, Itamar. (2019). Torto Arado. São Paulo: Todavia.

MOURA, Clóvis. (2014). Quilombos e Guerrilhas. In: Rebeliões da Senzala:quilombos, insurreições, guerrilhas. São Paulo: Anita Garibald / Fundação Maurício Grabois, pp. 87-127.

PALMEIRA, Moacir. (2009). Casa e trabalho: nota sobre as relações sociais na plantation tradicional. In: WELCH, Clifford (et al.) (org.). Camponeses Brasileiros: leituras e interpretações clássicas. V.1. São Paulo: Editora UNESP, Brasília: NEAD, pp. 203-215.

A Ilustração que abre o post é de Joana Lavôr. Para a Série Nordeste BVPS.

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