Coluna Primeiros Escritos | Pensando com Manuel Querino, por Rodolfo Teixeira Alves

O Blog da BVPS publica hoje na Coluna Primeiros Escritos texto de Rodolfo Teixeira Alves sobre Manuel Querino.

Fazendo um doutorado no PPGSA/UFRJ sobre o circuito de restaurantes afros no Rio de Janeiro, e discutindo a produção artística e cultural negra contemporânea, o autor se volta para a obra e trajetória de Querino para colocá-lo em diálogo com outras ideias sobre o negro na sociedade brasileira. Para Alves, as considerações de Querino sobre o “colono preto” podem contribuir para pensar a produção de uma tradição afrodiaspórica no Brasil.

Aproveitamos para lembrar que a Coluna Primeiros Escritos se volta para a publicação de textos de estudantes de pós-graduação. Para conhecer mais sobre a iniciativa, que tem curadoria de Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ) e Rennan Pimentel (PPGSA/UFRJ), clique aqui.

Boa leitura!


Pensando com Manuel Querino (1851-1923)

Por Rodolfo Teixeira Alves

O nome de Manuel Querino (1851-1923) ganhou projeção nacional em 2022 após a homenagem que o autor recebeu do jornalista Tiago Rogero com o Projeto Querino. Segundo o jornalista, a intenção era aproveitar o bicentenário da Independência do Brasil “para rever a história do país sob uma ótica afrocentrada”.[1] O projeto tem um site, 8 episódios de podcast e a indicação de publicação de um livro.[2] Com a homenagem, o nome de Querino extrapolou os circuitos acadêmicos, e o público mais amplo do podcast pode conhecer, no episódio 4 – “O colono negro” –, um pouco da trajetória e das ideias desse autor baiano.

Recebi com surpresa (e alegria) a notícia de que Manuel Querino seria homenageado e que seu nome circularia entre um público mais amplo, entendendo que o alcance de um podcast como esse, muito bem-produzido e divulgado, teria mais circulação do que uma publicação acadêmica.[3] Mas eu esperava que essa homenagem fosse além, que Manuel Querino tivesse mais espaço no podcast e que suas contribuições fossem tratadas mais a fundo e cotejadas, quem sabe, com as questões raciais que enfrentamos no contemporâneo. A intenção deste ensaio é fazer isso.

Minha relação com os textos de Querino é anterior ao projeto de Rogero. A primeira vez que me relacionei com as ideias de Manuel Querino foi, provavelmente, por volta de 2015. Talvez tenha sido através do livro Tenda dos Milagres (1969), de Jorge Amado, em que Manuel Querino, segundo o autor, é uma das referências para construção do personagem Pedro Archanjo. Quero dizer, me interessava saber mais sobre aquele intelectual preto do começo do século XX. Foi aí que começou meu interesse em conhecer esse “estudioso das questões do Negro no Brasil”, como definiu Arthur Ramos no prefácio que escreveu para A raça africana e seus costumes na Bahia (2014 [1954]). Então, comecei a procurar seus livros e percebi a dificuldade de encontrá-los em edições recentes. As editoras brasileiras, em especial aquelas que tem mais capilaridade no Brasil, ainda têm pouco interesse nas obras de Querino. Talvez mude agora com a repercussão do podcast. A ver.

Comecei pelos textos sobre Querino. Esses textos relacionam a obra à vida do autor, analisam seu contexto e mostram como suas ideias eram inovadoras para o período. Analisam também as dificuldades – especialmente o racismo – que Querino enfrentou no meio profissional; suas aspirações não realizadas. Enfim, a vida de um intelectual negro “humilde” na Salvador (BA) do começo do século XX. Mas esses textos falam, também, das articulações políticas de Querino, seu ativismo pelas ideias abolicionistas e republicanas, sua defesa do operariado, e como ele usava o espaço da imprensa para propagandear essas ideias (Vasconcellos, 2009; Gledhill, 2010; Leal, 2015; Sepúlveda, 2019).

De fundo, essas pesquisas que analisam a vida e obra de Manuel Querino buscam divulgar o autor no meio acadêmico para que ele se torne mais conhecido nesse meio e fora dele. Ainda assim, mesmo com as iniciativas dos últimos anos, Querino continua sendo um autor secundarizado na sociologia brasileira (Santos, 2022). Isso se observa também entre aquelas e aqueles que tratam, na contemporaneidade, das relações raciais no Brasil. Como um desses pesquisadores, acho a obra de Querino indispensável para falar desse tema.

Essas pesquisas dedicadas à vida e obra de Querino fazem, por essa razão, um duplo esforço analítico: ressaltam a importância teórica e metodológica dos trabalhos de Querino e, assim, discutem como o autor caiu no ostracismo após sua morte em 1923, gozando de um breve lapso de homenagens póstumas que recebeu, que rendeu a publicação de algumas de suas obras.

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O pioneirismo de Manuel Querino está, entre outras iniciativas, na forma como ele tratou das questões sociais e culturais dos africanos (e de seus descendentes) no Brasil, em especial na região do Recôncavo Baiano, colhendo informações, como ele diz, diretamente desse grupo Querino (2014). Através de um exercício de escuta, entre a etnografia e a história oral, o argumento que Querino apresenta trata o africano como colono e principal responsável pelo desenvolvimento social e econômico do Brasil. Outro ponto importante de sua obra é colocar a colonização-escravidão no centro da discussão, considerada como uma instituição de degradação humana.

Seu entendimento do africano como “colono negro” do Brasil é, sem dúvida, uma ideia potente e é sobre ela que busco tratar neste ensaio. Ela coloca em perspectiva, a um só tempo, duas questões. É por ela que Querino fala das “habilitações” dos africanos trazidos para o Brasil, argumentando sobre as sabedorias diversas que esse grupo – na ordem de milhões de pessoas escravizadas – trouxe do “continente negro” (Querino, 1918). São esses conhecimentos técnicos e o domínio de práticas produtivas, da agricultura à mineração – difundidos pela presença árabe em África –, que leva Querino a considerar o africano como fator essencial para a produção de riqueza no projeto colonial brasileiro. Ele defende, por exemplo, que os filhos das elites coloniais se formaram nas faculdades europeias graças ao trabalho escravo. Se no Brasil havia eminentes políticos, notáveis cientistas e literatos, ricos senhores, isso era consequência direta da exploração dessa população escravizada.[4]

As habilidades do colono preto é o que prepondera na interpretação de Querino, reforçando que “foi o trabalho do negro que aqui sustentou por séculos e sem desfalecimento, a nobreza e a prosperidade do Brasil”. É a esse colono preto que devemos “as instituições científicas, letras, artes, comércio, indústria, […] competindo-lhe, portanto, um lugar de destaque, como fator da civilização brasileira” (Querino, 2018: 35).

O “colono preto” de Manuel Querino é o sujeito afeito ao trabalho – atividade vista como a base do progresso do país. Esse entendimento certamente vem de seu envolvimento com os movimentos operários de Salvador do início do século XX, de sua defesa do republicanismo e abolicionismo. Sendo o trabalho a atividade de produção de riqueza, em suas análises, Querino se ampara em referências bibliográficas para escrever o colonizador (“colono branco”) como preguiço, ganancioso, aproveitador da riqueza produzida pelo trabalho alheio. E era esse colonizador que, vendo o trabalho como atividade degradante, entendia que só ao corpo negro era dado essa atividade. Se já não bastasse isso, era também esse corpo que ele usava para gozar sua crueldade.

Há aqui, como vejo, uma produção de discurso, um esforço de colocar o colonizador também como um sujeito racial. Essa escrita inversiva de Querino opera na chave da diferença, coloca o “colono branco” como objeto de análise, tira daí um entendimento e apresenta esse sujeito racial como abusivo, contrário à ideia de civilização, um sujeito moralmente desqualificado. Se o projeto moderno-colonial produziu uma “consciência ocidental do negro” a partir de um conjunto de discursos e práticas de escrita desse sujeito racial negro-selvagem-nativo (Mbembe, 2018: 61), vejo nos textos de Querino uma tentativa de inversão nesse sentido. Algo como uma consciência negra diaspórica do branco como um sujeito racial violentador. Em A raça africana e seus costumes na Bahia, Querino relata cenas de violência e pondera, em tom sarcástico: “e praticavam essas atrocidades os que se diziam pioneiros da civilização e da cultura” (Querino, 2014: 34).

O discurso que Querino mobiliza sobre o “colono branco” coloca em perspectiva o que podemos chamar, sem esconder a ironia, de o problema do branco. Para falar da importância do “colono preto”, ele primeiro caracteriza o “colono branco” pelos seus fatores morais, pelo seu ímpeto de exploração e violência. Querino faz isso com auxílio de fontes bibliográficas que abordam aspectos psicológicos e sociais do colonizador. Preguiçoso, violento e ganancioso, “os piores elementos da metrópole” (Querino, 1918).

A representação que Manuel Querino faz do “colono branco” é diferente daquela promovida pela sociologia lusotropicalista dos anos 1930. Em especial em Gilberto Freyre, que pintou o colonizador português com altivez para, se não justificar sua “ação colonizadora”, ao menos criar em torno dela uma ambiguidade conveniente. Casa Grande & Senzala (1933), seu livro sobre o Brasil colônia, entrou para a história da sociologia brasileira como a principal obra responsável pela positivação da miscigenação e por ressaltar a importância africana e indígena para a formação social e cultural do Brasil. A construção desse livro, com inúmeras páginas de violência contra a população escravizada e com narcisismo desavergonhado[5], esconde-se atrás da ambiguidade para justificar a colonização e pintar de pacíficas as relações que ela impôs aos povos que foram atravessados.

As ideias sobre miscigenação mobilizadas por Freyre tensionavam com as teorias raciais que vigoravam nos anos 1920, no pós-abolição. Daí sua importância para sociologia brasileira, embora já se perceba, em Querino, essas ideias inovadoras 20 anos antes de Casa Grande & Senzala vir a lume. A diferença, como vejo, é que Querino não passa pano para a “ação colonizadora” que Freyre ora ou outra tenta positivar. Também não tem em Querino esse português plástico de Freyre, esse sujeito cuja miscibilidade e aclimatabilidade é responsável pela pretensa socialidade maleável, permissiva, que facilitou as influências culturais de africanos e povos indígenas na formação social do país. A ideia de “zonas de confraternização” em seu pensamento acaba anulando o conflito subjacente nessas relações mediada pela violência, e com isso assume uma postura garantista do patriarcalismo português como instituição primária no Brasil. É um pensamento que vem a calhar diante dos movimentos de modernização dos anos 1930, que sinalizava a conciliação como forma política de articulação de velhas e novas imaginações de país.

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Vale considerar outros aspectos nos textos de Manuel Querino, principalmente naqueles de 1916 em diante. Esse período representa o momento no projeto intelectual de Querino de maior atenção aos fatores sociais e culturais dos africanos no Brasil (Gledhill, 2010). É no ensaio O colono preto como fator da civilização brasileira (1918) que ele trata do “colono preto” que falei acima. Outro tema trabalhado nesse ensaio é a conquista da liberdade por parte da população escravizada. Para ele, o único pensamento que mobilizava a pessoa escravizada era a liberdade.

“Escravizado”, aliás, é a categoria que ele usa para falar desse contingente condicionado à escravidão. Se ainda hoje muitos autores têm a dificuldade de abandonar a categoria “escravo” – ou a usam sem explicar os motivos –, Querino fez isso, com certa tranquilidade, no início do século. Para ele, “escravo” era algo circunstancial, condicionado pelo jogo colonial, e era necessário compreender, por isso, o que esse condicionamento implicava nas pessoas escravizadas. Quando ele considera os efeitos da escravidão, ele coloca em questão a própria colonização. A escravidão era uma tirania, e essa instituição fez do africano e sua descendência a máquina de trabalho, um instrumento de produção que o português usou sem retribuição do esforço, “antes torturando-o com toda sorte de vexames” (Querino, 2014: 19).

Querino fala de quatro atos de resistência nesse ensaio, de iniciativas individuais e coletivas. O primeiro ato de que ele trata é o suicídio motivado pela esperança de retorno à terra perdida e como promessa de vingança no plano espiritual, uma vez que o escravizado que usava desse recurso prometia voltar também para atormentar seus algozes. O segundo ato constituía em violência direta contra o senhoril. Prática de assassinato, via envenenamento e outras técnicas eram a saída que alguns escravizados tomavam para conquistar sua liberdade. Era um ato de vingança que se realizava com o assassinato do senhor e de sua família. O terceiro ato de liberdade são as juntas, prática que alguns grupos tinham de reunir recursos financeiros para comprar sua alforria e de pessoas próximas. Por fim, o último ato de conquista de liberdade de que Querino trata são as fugas e formação de quilombos. Aqui, como nas juntas, a luta por liberdade é um ato coletivo. E nesse ato, ressalta Querino, o único sentido vislumbrado era a liberdade. A formação dos quilombos não tinha como pressuposto, segundo ele, a vingança.

Essa perspectiva do escravizado como sujeito ativo na conquista de sua liberdade diverge da imagem do escravo dócil e subserviente. Imagem essa, aliás, algumas vezes reforçada pelo próprio Querino ao longo do seu ensaio, que fala do africano como um sujeito trabalhador, um “herói do trabalho” disciplinado, sempre na chave do trabalho como atividade edificante do ser e do coletivo que, nesse caso, trata-se do país.

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Manuel Querino é um dos autores que mobilizo para pensar minhas questões de pesquisa. Embora o tema central do meu trabalho seja o que chamo de circuito de restaurantes afros no Rio de Janeiro, também é do meu interesse discutir a produção artística e cultural negra contemporânea, ver que tipo de imaginação negra tem emergido nos últimos anos.

Meu interesse em Querino, porém, não se limita a entender sua vida e obra e como isso se relaciona com seu contexto social e político. Tenho feito o esforço de trazê-lo para a contemporaneidade e colocá-lo em diálogo com outros pensamentos. Suas ideias sobre o “colono preto”, embora tenha alguns pontos de deslize, colaboram com a produção de uma tradição afrodiaspórica no Brasil. Elas oferecem uma teoria crítica sobre a inserção do negro na sociedade brasileira, destacando as contribuições históricas e contínuas na constituição da sociedade. Ao contrário da “contribuição” do negro e indígena mumificados no lusotropicalismo de Freyre, Querino – e a geração de autoras e autores negros que se seguiu no século XX – mostra que, aquilo que se considera como cooperação cultural, é fator de dinamização da própria vivência negra. Substitui, assim, a imagem do sujeito negro inerte por um sujeito negro agente.

Escrever a história por mãos negras, como propõe Beatriz Nascimento (2021), é o projeto que nos movimenta ainda hoje, é o que nos conecta com essas autoras e autores do passado, assim como as resistências e tecnologias de construção de liberdade que seguimos desejando.


Notas

[1] Mudando a cor da história. Revista Piauí, 15/07/2022. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/vez-dos-negros/. Acesso em: 14 de jul. 2023.

[2] Ver: https://projetoquerino.com.br/

[3] Em 2021, Zeza Barral, Júlia Earp e Ryanddre Sampaio organizaram, no âmbito do encontro discente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (UFRJ), o 1º Caderno Manuel Querino de Imagens Etnográficas. Também era uma homenagem contra a inviabilização do autor na história do pensamento social brasileiro e um reconhecimento de suas contribuições para a antropologia através de seu trabalho etnográfico, artístico e político.

[4] “[…] o produto do seu labor que os ricos senhores puderam manter os filhos nas universidades europeias, e depois nas faculdades de ensino do País, instruindo-os, educando-os, donde saíram veneráveis sacerdotes, consumados políticos, notáveis cientistas, eméritos literatos, valorosos militares, e todos quantos ao depois fizeram do Brasil colônia o Brasil independente, nação culta, poderosa entre os povos civilizados” (Querino, 1918).

[5] “Da [mulata] que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama de vento, a primeira sensação completa de homem” (Freyre, 2006: 367).

Referências

FREYRE, Gilberto. (2006). Casa-grande & senzala. São Paulo: Global.

GLEDHILL, Sabrina. (2010). “Velhos respeitáveis”: notas sobre a pesquisa de Manuel Querino e as origens dos africanos na Bahia. História Unisinos, v. 14, n. 3, p. 339-343.

LEAL, Maria das Graças de Andrade. (2015). Um estudo biográfico através da obra de Manuel Querino: o eu narrado na sua escritura. Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História da ANPUH, Florianópolis.

MBEMBE, Achille. (2018). Crítica da razão negra. São Paulo: Editora N-1.

NASCIMENTO, Beatriz. (2021). Uma história feita por mãos negras: relações raciais, quilombos e movimentos. Rio de Janeiro: Zahar.

QUERINO, Manuel. (1918). O colono preto como fator da civilização brasileira. Salvador: Imprensa Oficial do Estado.

QUERINO, Manuel. (2014). A raça africana e os seus costumes na Bahia. Coleção Autoconhecimento. Salvador: Editora P55.

SANTOS, Ynaê Lopes dos. (2022). Entre o braço ativo e a muralha babilônica: o lugar da escravidão nas obras de Manuel Querino e Lino Dou y Ayllon em 1916. Estudos Históricos, v. 35, p. 528-547.

SEPÚLVEDA, Cecilia & ALVES, Paulo Cesar. (2019). Espaços literários e trajetórias intelectuais na Bahia (1880-1920). Todas as Artes, v. 1, n. 2.

VASCONCELLOS, Christianne Silva. (2009). O uso de fotografias de africanos no estudo etnográfico de Manuel Querino. Sankofa, v. 2, n. 4, p. 88-111.

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