
Olhares, Axé. Leia hoje a entrevista completa de André Sampaio com Iran Silva na comemoração do Blog da BVPS do 7 de setembro de 2023. Num blog vocacionado a discutir interpretações do Brasil, Olhares, Axé é uma oportunidade de afirmar que o aprendizado social que nos mobiliza não está apenas no conjunto de ideias, mas nos modos de produção dessas ideias e na problematização do papel de intérprete que elas trazem.
A entrevista é precedida pela apresentação “‘A gente não anda só’: nossa conversa com Iran Silva e André Sampaio”, assinada por André Botelho (UFRJ) e Lucas van Hombeeck (PPGSA/UFRJ), organizadores da Ocupação Olhares, Axé do ano passado, que retomam questões da proposta de 2022 e seus sentidos de continuidades em 2023.
Boa leitura!
Apresentação: “A gente não anda só”: nossa conversa com Iran Silva e André Sampaio
Por André Botelho (UFRJ) e Lucas van Hombeeck (PPGSA/UFRJ)
“é doce ouvir os amigos, ainda quando não falam, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos”. Carlos Drummond de Andrade, “Flor, telefone, moça”, Contos de aprendiz, 1951
Olhares, Axé está de volta. Ano passado, em meio ao clima tenso e às ameaças de golpe que perverteram o sentido do 7 de setembro tal como ele vinha sendo comemorado desde a abertura democrática, o Blog da BVPS reuniu um conjunto significativo e representativo de jovens artistas e pensadores brasileiros ligados às religiões de matrizes africanas para discutirem por meio de imagens, sonoridades e palavras suas práticas como interpretações do Brasil. Um ano depois, felizmente, os horizontes institucionais mudaram, ainda que tenhamos aprendido que a democracia não esteja ou possa estar simplesmente garantida. Ela é uma prática e uma conquista do dia a dia. E mais forte ela será quanto mais representativa, quanto mais vozes plurais e mesmo dissonantes concordarem em se ouvir. É preciso ampliar a capacidade e a qualidade de escuta na sociedade brasileira. Olhares, Axé 2023 aprofunda essa perspectiva e a conversa com um dos artistas envolvidos na sua primeira floração, de 2022. Voltamos a ouvir – e a aprender – com Iran Silva como forma de comemorar e atualizar os significados e o sentido do dia da Independência.
Na apresentação do ano passado, escrevemos que, qualquer que fosse nosso futuro, seria importante conhecer e praticar formas mais consistentes de solidariedade e ação coletiva. Na entrevista que você lê a seguir, conduzida pelo músico carioca André Sampaio, o Ogan e Juremeiro fala sobre conflito e composição em um terreiro de candomblé, movimento e vitalidade entre natureza e cultura, economias e ordens de valor alternativas na Jurema com os mestres-guias José Pelintra de Aguiar e Bom na Faca. O que oferecemos hoje à escuta da leitura – essa escuta de uma voz que, sendo própria de quem lê, é sempre outra – é a oportunidade de ouvir o Ogan e luthier como ele ouve seus tambores: com o interesse de quem desmonta e monta, para ver como é feito, aquilo que nos liga. A conversa aparece, então, como uma forma de alimentar a cabeça. E de refletir, assim, sobre as práticas e papéis sociais que desempenhamos ao interpretar interpretações do Brasil. O aprendizado potencial não estará aí apenas no conjunto de ideias ou apresentações do que chamamos de social, mas nos modos de produção dessas ideias e na problematização do papel de intérprete que elas trazem. Segundo Iran, “Ser Ogan não é a gente só tocar, não é só a gente ter o canto. Ser Ogan é a gente saber desde o princípio do portão na chegada até o varrer da casa no final da festa.”
No seu trabalho artístico, no seu trabalho de educador popular, no seu trabalho de luthieria, o entrevistado de Olhares, Axé este ano é um homem talentoso e de fé que sabe que “não anda só”! Viva o Brasil, viva a democracia!
Entrevista com Iran Silva
Por André Sampaio
1. Apresentação
Meu nome é Iranildo Gomes da Silva, conhecido como Iran Silva. Sou músico, arte-educador, luthier, Ogan e Juremeiro.
Venho aqui mais uma vez dar continuidade à ocupação Olhares, Axé. Então venho trazer mais alguns assuntos pra fortalecer e seguir dando continuidade nesse pensamento e dessa militância. Então, vamos nós!
2. Fale um pouco sobre a sua herança familiar e a ancestralidade que herdou
Eu tive a honra de cair dentro de uma família de matriz africana, dentro de um terreiro de candomblé, em tradição nagô e culto à Jurema. E aí eu fui privilegiado de cair dentro desse conservatório natural, desse aprendizado natural que se chama terreiro. Fui criado pela minha avó, uma Iyalorixá, Maria do Carmo de Oliveira, conhecida como dona Carminha, Carminha de Oyá. E pelo meu avô, Manoel Catanha da Silva, conhecido como seu Neto, mas também muito conhecido como Pai Neco, como dizia muita gente aqui de Olinda, Pernambuco, e meu avô de Xangô Aganju. E dizem que Xangô e Oyá sempre tão guerreando, sempre tão nessa guerra. Independente disso, os dois passaram cinquenta anos juntos, e eu tive o privilégio de beber dessa fonte e ter a sabedoria desses dois.
Então eu cresci dentro desse olhar, dentro dessa ligação com a natureza, com a energia do Orixá e com a energia das entidades da Jurema Sagrada. É onde eu tenho o primeiro contato com os tambores, onde eu tenho o primeiro contato com a música, o primeiro contato com a dança. E é uma coisa fantástica, porque o olhar de dentro do terreiro é um olhar totalmente diferente do que se tem de fora do terreiro, né?
A gente que vem de terreiro tem um olhar mais sutil em relação à natureza, em relação ao cuidado com a natureza, em relação ao cuidado com toda ancestralidade. Por quê? Porque a gente cultua a hierarquia. Então, dentro dessa hierarquia, a gente sabe que a natureza é primeiro. Dentro do candomblé, a gente tem primeiro a água, depois o néctar das folhas, pra depois ter o sangue. Mas isso tudo é força vital, é o elemento da natureza, onde somos movimento de tudo isso. Então a gente tem esse olhar dentro da natureza de que a gente não pode poluir os nossos rios, poluir os nossos mares, matar animal, sabe? A gente não mata animal, a gente pergunta ao animal se ele se doa pra ter um sacrifício. E essa carne toda é partilhada, toda dividida, sabe? Não tem uma coisa de violência.
É esse olhar que a gente tem da nossa riqueza do dia a dia. A nossa riqueza não é uma questão financeira, mas a nossa riqueza é uma riqueza de saúde, uma riqueza de estar com o Ori (cabeça espiritual) bem fortificado, sabe? Sem problemas. É a gente ter o que se alimentar, a gente ter o que beber, sabe? E estar rico em espírito.
Eu venho dentro dessa casa desde os meus dois anos de idade até hoje. E aí eu passo a me tornar Ogan e Juremeiro por conta de uma herança deixada pelos meus avós, quando fazem a passagem e vão pra essa questão do reencontro. Por quê? Porque dentro da nossa tradição não existe a morte, existe a passagem. A passagem para um recomeço. Então existe a vinda, existe esse passeio e existe a ida, mas a ida para um plano ancestral, onde vai ser toda cultuada essa árvore ancestral. Então eu, Iran Silva, trago esse pensamento dentro dessa militância com olhar de terreiro, com o olhar entre a ligação dos tambores com a natureza, que é onde o Orixá vê o tambor, o som mais velho que o próprio Orixá na Terra.
Quando o orixá vem do Orum (céu) pro Ayê (Terra), primeiro ele vai aos tambores reverenciar o som, pra depois ao babalorixá, à iyalorixá e assim aos demais. Então os tambores é que fazem parte da minha vida, acalentando e embalando o meu dia a dia até no tempo de hoje.
3. Você vem de uma família que faz parte da Nação Nagô no candomblé, muito presente em Pernambuco. Fale um pouco sobre as características específicas da sua nação?
Dentro do culto ao nagô – eu digo culto, ou falo tradição, porque eu aprendi que a gente não deve chamar “nação”, porque nossa nação é uma nação brasileira, né? A gente faz um culto à tradição nagô, essa tradição foi deixada pra gente –, a tradição nagô acontece quando Tia Inês, Ifá Tinuké, uma nigeriana traz esse conhecimento pra Pernambuco, e é onde esse axé está até hoje, no sítio de Pai Adão, o primeiro terreiro de culto nagô no Brasil.
Então, têm várias e várias formas, várias definições que a gente pode dizer assim, né? O Nagô é tocado com as mãos nos tambores (diferente do Ketu e Jeje, que utilizam baquetas, os agdavi). Já é uma diferença gigante. A gente canta muito em iorubá, mas também traz um pouco do bantu e fon.
As cantigas são bem mais lentas, bem mais compassadas, mas os toques também são lentos e, dependendo do canto, com o passar do toque, ele também pode ser mais rápido, também é um costume em tradição Nagô. Então a gente traz também o canto muito pra quê? Tipo [canta]: “Chuachô Amancanho Odará”, aí já se traz pra aqui pra cima, né?
Também é uma característica nossa a questão das vestimentas, também é muito diferente por essa questão das roupas, a dança também. E no momento, a gente está constantemente comungando, partilhando a dança, a festa com o orixá. Então, no nosso salão, só tem nas cadeiras os mais velhos, os que estão acima dentro dessa hierarquia, e sempre em gira, sempre na roda. E o orixá está dançando junto ali com a gente, a gente dançando com o Orixá. Independente se tiver um Orixá, dois Orixás, três Orixás dançando, a gente está sempre ali dançando, festejando junto com eles. Certo? E vejo essa diferença, eu acho lindo as outras tradições em que uma ou duas pessoas ali saem meio que guiando o orixá, né? Fazendo a dança do orixá junto com ele. Tá todo mundo ali observando, né? Vendo a dança do Orixá.
Já a gente não. Todo mundo dança com ele, ele festeja com todo mundo, abraça todo mundo. Quem são os filhos, vão lá e fazem o foribalé, deita a cabeça pra aquele orixá, sabe? O orixá também reconhece você como dentro de um cargo, um Ogan, uma Ekedji, ou um mais velho. Ele também faz essa reverência. Então a gente deita o ori junto com esse orixá também, fazendo essa troca.
Eu chego a arrepiar, porque, em todo o momento, o orixá é presente em nossas vidas. Enquanto a gente for vida e for também energia, estamos também vivenciando a questão do orixá, porque o orixá é um fragmento divino, é um fragmento da natureza. É uma das nossas diferenças, de estarmos sempre festejando isso.
4. Iran, você falou que você vem de uma família que cultuava a Jurema, que você herdou isso. Fale um pouco pra gente sobre o culto à Jurema?
O culto à Jurema foi muito mais presente na minha vida porque, mesmo a minha casa sendo um terreiro, de tradição Nagô, também tinha o culto à Jurema, onde era mais presente. A minha avó era uma juremeira e meu avô também era um juremeiro famoso, de ser, como a gente diz lá, um “juremeiro da raiz do pé do alho”.
Então eu tive o privilégio de ver as entidades, de conversar com essas entidades. O culto à Jurema são espíritos evoluídos, foram pessoas de carne e osso que partiram e evoluíram. Eles vêm e voltam pra fazer caridade, pra poder atingir um grau dentro dessa evolução, pra cumprir a sua missão.
A experiência dentro do culto à Jurema eu tenho desde pequeno. Eu já era o cambono dessas entidades, né? Minha avó tinha um mestre-guia, que era José Pelintra de Aguiar, conhecido como o famoso Zé Pelintra, e esse mestre dava as consultas, reuniões e, no final, as pessoas iam-se embora e ficavam com toco de charuto e o restante da cachaça. E ele ficava conversando comigo como a gente está conversando aqui agora. Ele me contou toda uma história de vida dele, me contou a história da passagem, de como foi a ida dele no Rio, de como ele se tornou a pessoa que foi e como se tornou o mestre que é.
Já meu avô tinha um mestre-guia boiadeiro, um boiadeiro conhecido como mestre Bom na Faca, que se vestia de gibão de couro, sabe? Aqueles boiadeiros da caatinga mesmo. E eu cresci vendo o culto à Jurema, o tão quanto a Jurema é bonita, o tão quanto a Jurema é rica, o tão quanto a Jurema é poderosa.
A gente tem que ter um olhar em relação à Jurema com todo respeito. O mesmo amor que a gente tem à parte do orixá, a gente tem que ter à parte da Jurema. Por quê? Porque a resposta é muito mais rápida. Eu digo a você que vi pessoas chegarem amassadas lá em casa, como uma bola de papel, por maldade dos outros e sair lá de casa sorrindo, andando, sabe? De chegar uma pessoa toda troncha, em cima de uma cadeira de balanço, e quando chegava no portão da minha casa, o mestre da minha avó e o mestre do meu avô chegar sem nem o pessoal ser anunciado. Então eles já estavam esperando, sabe? E trabalharam em cima daquilo ali. A pessoa saiu boa, andando, sorrindo, tanto é que a cadeira de balanço ficou na minha casa, não quiseram nem levar. Não tinha aquela coisa de “quanto é?”, não tinha preço, tinha uma caridade.
“Ah! Quer deixar alguma coisa? Deixa”. Como também muitas vezes eu vi pessoas chegarem necessitadas numa consulta e aquela pessoa dizer que não tinha nada em casa, que os filhos estavam com fome e eu ver o Zé Pereira da minha avó chegar no chapéu, tirava uma quantidade lá, tinha nota de dez, de cinquenta, de cem. Ele dizia: “Isso aqui dá pra os curumim comer?”. Então não tinha um valor. O que que a Jurema nos traz? Que que o culto à Jurema tem a nos mostrar? A nossa riqueza não é o dinheiro.
O dinheiro é um papel onde o homem colocou o número. E têm pessoas que têm a compulsão de juntar número. A Jurema não. Jurema lhe dá o necessário pra você viver, dá o necessário pra você ser feliz e lhe dá o necessário de ciência e sabedoria pra você fazer a caridade a quem merece.
Não é todo mundo que chega de coitadinho na sua vida que é merecedor não, sabe? Têm pessoas que estão apanhando ali na vida porque erraram bastante. Então a vida se encarrega de dar o fardo. O fardo é daquela pessoa, não é da gente. Agora, quando chega nas mãos da gente pra realmente fazer essa caridade e levantar um irmão, né?, espiritualmente a Jurema nos mostra. Porque a gente tem que ter essa compreensão que a Jurema é uma faca de dois gumes, com a pontinha afiada no meio.
“A Jurema é boa, ela é do pé do alho. Aqui mesmo eu bebo, aqui mesmo eu caio”. “Quem nunca bebeu Jurema, não sabe que gosto tem, tanto é doce como amarga, mas nunca fez mal a ninguém”.
Saravá a Jurema Sagrada!
5. Como é sua relação com o trabalho de luthieria? Como essa sua relação com o sagrado também se dá na construção de tambores e outros instrumentos?
Dentro da minha casa, eu tive o contato com com os ilus (tambores) e eles estavam sempre presentes. Foi o meu primeiro instrumento. Na minha casa ainda tem um duque (dupla de tambores), de onde meu pai e meus tios aprenderam a tocar. Meu pai tinha quatro anos de idade quando esse ilu foi feito pelo padrinho dele. Meu pai já é falecido, né? Mas tanto ele quanto os meus tios aprenderam a tocar nesses dois ilus.
Eu aprendi a tocar nesses ilus. Aos meus cinco anos de idade, eu já tocava. Mas, aos sete anos de idade, foi quando eu sentei no banco de ogan pra tocar numa festa de ibeji (orixá representado por duas crianças gêmeas) com meu avô. Foi uma mistura de sentimentos ali pela questão da felicidade e a questão do medo também de errar e tal.
Dentro disso eu via meu avô fazendo a manutenção nesses ilus. E uma coisa que me chamava bastante atenção era o momento do couro, quando meu avô pegava uma bacia de alumínio, pegava dois couros, botava lá na água e eu ficava olhando. O couro, ele seco, ou o pelo seco, e quando ele molhava, aí já dava outro brilho, já dava outra coisa assim. E aí meu avô deixava lá, limpava os ilus e depois ia fazer o procedimento de encourar. Aí fazia procedimento ainda na raspagem com a gilete ou com o vidro. E eu ficava observando e ficava encantado com aquilo ali.
Com o passar do tempo, já dentro da minha jornada como músico, eu percebo que eu tenho que ter o meu instrumento. E aí eu tento fazer vários corres quando adolescente pra pegar uma grana e comprar um tambor. Só que é aquela coisa, quanto mais a cultura popular aparecia, mais o tambor aumentava nas lojas, sabe? O capitalismo botava lá pra cima. Então eu lembro que eu cheguei na loja com o valor quatro vezes do que era dito e sempre nunca era mais aquele valor. Eu não comprei mais um tambor, fui comprar uma bicicleta e segui. Até o dia que eu ganhei um tambor trabalhando em colégio, trabalhando com criança, ensinando a confecção de abês (chocalho feito de cabaça e miçangas) e eu ganho uma alfaia.
O meu primeiro pensamento foi desmontar aquele tambor e ver como era feito. E daí eu comecei esse procedimento. O primeiro tambor eu consegui fazer um “ovo”. O ovo mais perfeito do universo foi esse tambor, depois eu fui me aperfeiçoando. E aí eu vi que eu tinha essa necessidade de fazer os tambores pra serem tocados. Ali eu também imaginei uma coisa: se eu tinha essa dificuldade, vários e vários músicos também tinham. Dentro disso eu começo a fazer um giro e eu percebo que eu fazia tambor igual a todo mundo, né? Super bruto, pesado. E tinha uma galera no Recife que ia pra um encontro que era chamado “traga a vasilha”, e as meninas queriam tocar.
Era um movimento de músicos, de pessoas dentro do maracatu que se juntavam pra ensinar às outras pessoas. E as meninas tinham essa vontade de tocar o tambor, mas eram muito pesados. E aí percebi que eu tinha que fazer um tambor mais leve. Foi quando eu passei a fazer uma pesquisa de madeira, de cola, de prensagem, de como fazer um tambor mais leve.
Eu consegui fazer esse tambor. Pintei com duas cores que eu tinha, que eram verde e rosa. Fiz um talabarte e levei ao “traga a vasilha”. E as meninas começaram a ver esse tambor. O resultado: esse tambor rodou de mão em mão, só em mão de mulheres. Nesse dia eu vendi esse tambor e na época a plataforma não eram essas plataformas que são hoje, né? Era a plataforma mais antiga. E aí surgiu o boca a boca: um tambor mais leve e eu passei a confeccionar os tambores pra mais mulheres. E essa minha relação eu sigo até hoje.
Hoje o meu carro chefe dentro da minha luthieria é o Ilu. Primeiro instrumento onde eu toquei, onde eu me encantei, embalou a minha vida e embala até hoje. Sonhos e luz. “A força do nosso tambor nos leva para outras dimensões”. Isso é uma frase minha que é uma ligação em relação ao primeiro som. O primeiro som que é criado é o coração do ser humano.
A ligação do feto com a mãe é o som do coração. Então, é o som da batida desses tambores. A nossa ligação com o orixá também é essa batida desses tambores. É a nossa fé, é o nosso amor, é a nossa energia vital que bate o nosso coração ali como tambor. Onde a gente passa, eu como Ogan, como o Juremeiro, passo pro tambor e o orixá vem dançar, vem comungar, uma entidade vem dançar, vem comungar através dos nossos tambores, que é o nosso coração, e o tambor é que faz esse som.
Esse é o meu dia a dia dentro da minha oficina de luthieria, onde tem a verdade, onde tem o carinho, tem o respeito, sabe? Eu não preciso estar na panela de ninguém, eu não preciso estar abaixando cabeça pra ninguém, a não ser pro meu santo, pra minha mãe de santo, meu babalorixá e meus mais velhos. E baixo cabeça assim, ó, pro som, pro tambor. É o que me dá resistência, é o que está dentro da minha militância. E onde eu fortaleço mesmo.
Não tem essa questão de cor, não tem a questão de gênero, não tem a questão que é homem, que é mulher, opção sexual, quase nada. Não é uma pessoa que quer o tambor, é o tambor que quer a pessoa. E quando a pessoa chega pra mim me escolhendo pra fazer aquele tambor, eu sei que não foi aquela pessoa que me escolheu, mas, sim, a energia daquela pessoa que apontou pra mim.
Só tenho que agradecer. Adupé (obrigado), adupé, adupé!!
6. Pra concluir, fazendo um link com a ocupação “Olhares, Axé”, realizada ano passado, e pensar hoje nesse Brasil que tá se reconstruindo e em que a cultura tem sido colocada, e como um dos pontos-chave dessa reconstrução. Você, como Ogan, como um homem que vê o tempo de forma circular, não linear, como vê essa reconstrução e qual o papel de um zelador dessas ancestralidades nessas construções de futuros possíveis?
Nessa minha dança eu encontrei vários irmãos que vêm batalhando, lutando dentro dessa militância, dentro dessa resistência. E são irmãos Ogans. Eu passei agora há pouco por um espaço chamado “A Arte do Ogã”, em São Paulo. A gente trocou uma ideia com meu amigo, meu irmão Leandro, e a gente meio que comparou a logomarca um do outro, sabe? Uma questão de círculo, tal, meio tribal. E o nome, “A Arte do Ogã”. Pra gente que tem esse cargo, que somos responsáveis pelo segredo, nós somos o segredo, detentores de um segredo. Porque a gente passa tudo acordado, nós somos escolhidos pelo orixá pra gente tomar conta disso, dar continuidade. E a gente realmente tem a arte de Ogan. Ser Ogan não é a gente só tocar, não é só a gente ter o canto. Ser Ogan é a gente saber desde o princípio do portão na chegada até o varrer da casa no final da festa.
Ser ogan é a gente ter o poder da palavra, ter o conhecimento pra ensinar, ter a humildade de aprender, de reconhecer que isso que é importante e a gente ter a sabedoria do amanhã.
Então do mesmo jeito que a gente chega às quatro horas da manhã, cinco horas da manhã, pra ir colher a folha, colher Èwé, a gente tem que ter a compreensão de que tem que pedir a licença, permissão. A gente tem que ter um conhecimento também que uma árvore não vai ao chão se não deixar uma outra no lugar. Ela só cai quando ela tem a certeza de que aquela outra vai dar continuidade à raiz dela.
A árvore tomba porque é procedimento da natureza. Então, os nossos mais velhos são árvore. Nem todo fruto que cai da árvore germina pra se tornar árvore, mas a escolhida se torna árvore. Nós, zeladores, temos que ter essa visão, sabe? De ver se nós vamos dar continuidade ou se alguém foi escolhido pra dar continuidade, e a gente dá esse suporte.
A gente está constantemente nessa militância. A gente tem a nossa política dentro do terreiro, onde queremos tornar o nosso mundo melhor. É esse olhar que a gente tem, é essa a nossa missão aqui na Terra. Temos que ter essa humildade, essa percepção e discernimento, porque não adianta: o ego não vai levar a nada, “amostração” não vai levar a nada, a raiva não leva a nada, nada. A gente chega aqui com o quê? Só o sopro da vida.
Por quê? Vou lhe dar um exemplo. Têm tantos que recebem o sopro da vida. O ser humano não quer que aquela vida venha ao mundo, faz de tudo pra tirar, faz de tudo pra aquela vida não vir, mas Olorum (Deus) e Orixá têm um propósito na vida daquele ser. E aquele que chega doente? Obaluayê vem e cura, Nanã vem e cuida, Xangô dá força, Ogum guerreia, Oyá sopra e levanta aquele filho. Você vai olhar lá na frente, tem um propósito na vida dele. Ele pode ser um grande sacerdote, ele pode herdar uma herança, e isso é a nossa missão aqui na Terra.
A gente está ligado constantemente com todo esse movimento que acontece no mundo. Temos de estar ligados nas políticas públicas, a gente tem que estar ligado nessa panela que acontece em relação a governo, nos editais de música, nas leis que nos favorecem e as que também não nos favorecem, a gente tem que estar ligado nisso.
Desde sempre existe um movimento que a gente vai dizer assim: preconceito. Não, eu não aceito a questão do preconceito. A galera já tem um conceito em cima da gente, certo? A galera já tem esse conceito em cima da gente.
Agora, a gente é que tem que ser o que a gente sabe fazer de melhor. É resistir. Desde lá detrás, de um navio negreiro, a gente vem resistindo. No dia que Iran Silva cair, cem vão voltar. No dia que abrir o portão pra Iran Silva passar, cem irmãos voltam de lá. São cem nascimentos que vêm do lado de cá pra resistir. Então, quando a gente cai, o portão se abre, e aí, né? A gente não anda só.
Ilustração: Joana Lavôr