Simpósio BVPS | Essa tal classe média (V)

No quinto post do simpósio sobre classes médias no Brasil temos como convidadas/os Angela Figueiredo (UFRB), José Newton Meneses (UFMG), José Ricardo Ramalho (UFRJ) e Sérgio Costa (Freie Universität).

Organizado por Celi Scalon (UFRJ), André Botelho (UFRJ) e João Mello (PPGSA e NEPS/UFRJ), o simpósio ouviu especialistas de diferentes áreas das ciências sociais, humanas e literaturas, bem como de várias especialidades dessas áreas, sobre a relevância e a atualidade do tema. O diálogo multidisciplinar entre especialistas e não especialistas em classes médias tem o objetivo de promover trocas teóricas, históricas e empíricas e também investigar a possível multidimensionalidade e transversalidade do tema que discutimos.

Para ler a apresentação escrita pelos coordenadores do simpósio, basta clicar aqui. Os posts anteriores podem ser acessados aqui, aqui, aqui e aqui. Continue acompanhando o simpósio nas próximas quartas-feiras!

Boa leitura!


Sobre as/os convidadas/os:

Angela Figueiredo é professora no Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. Autora, entre outros, de Beleza Negra: Representações sobre o cabelo, o corpo e a identidade das mulheres negras (2016) e Classe média negra: Trajetórias e Perfis (2012).

José Newton Meneses é professor de História na Universidade Federal de Minas Gerais. Autor, entre outros, de Orbe e Encruzilhada. Minas Gerais 300 anos (2020) e Artes Fabris e Ofícios Banais: O controle dos ofícios mecânicos pelas Câmaras de Lisboa e das Vilas de Minas Gerais (1750-1808) (2013).

José Ricardo Ramalho é professor de Sociologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autor, entre outros, de Diálogos Críticos – o pensamento estrangeiro e a sociologia do trabalho no Brasil (Org. 2023) e Trabalho e Mudança Social: Efeitos da indústria automotiva no Rio de Janeiro (Org. 2022).

Sérgio Costa é professor de Sociologia na Freie Universität, em Berlin. Autor, entre outros, de Global Entangled Inequalities. Conceptual Debates and Evidence from Latin America (2017, org.) e Decolonizing European Sociology. Interdisciplinary Approaches (2012, org.)

1. O que a seu ver identifica/define uma pessoa de classe média? Esses elementos mudaram ou se mantiveram ao longo das últimas décadas?

Angela Figueiredo: É importante destacar que a classe média negra é um grupo racializado, e que mesmo tendo a escolaridade e a renda compatíveis com a classe média branca não desfruta dos benefícios simbólicos associados à classe média. Trata-se de um grupo minoritário que, na maioria das vezes, vivenciou um processo de mobilidade social através da educação com relação aos pais, ou seja, a maioria das pessoas negras de classe média é parte da primeira geração de classe média.

Em minha opinião, o elemento prioritário, mas não exclusivo, que define a classe média é a renda. Na minha tese de doutorado sobre a classe média negra, eu e Carlos Hasenbalg definimos a classe média com base nos quartis de renda da PNAD, isto é, dividimos 100 por 4. Desse modo, os 25% superiores foram identificados como classe alta, e os 25% inferiores como classe baixa. Os 50% intermediários identificamos como classe média média e média baixa. Outro critério importante foram as 13 categorias ocupacionais agrupadas por Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle Silva, a partir dos dados originais da PNAD. De acordo com essa classificação, definimos a classe média a partir do recorte de trabalhadores não manuais e trabalhadores manuais. Contudo, dentro desta definição há diferenças significativas em termos de renda e escolaridade. Assim, este grupo foi dividido em três subgrupos: a) Classe média alta; b) Classe média média; e c) Classe média baixa. A escolaridade é um fator importante, pois indica, de certo modo, uma expectativa com relação à inserção no mercado de trabalho e à renda. A socialização e o estilo de vida de classe média, gostos e valores comuns são fatores importantes que estão associados ao conceito de classe de Weber e de Bourdieu, principalmente a partir do conceito de habitus. Outro fator importante é o local de moradia, pois os bairros identificados como de classe média no Brasil são majoritariamente brancos. Desse modo, a classe média negra que reside ou frequenta as escolas assim identificadas forma uma pequena minoria que continua a ser discriminada.

José Newton Meneses: Minha resposta parte de uma delimitação proposital dada pela minha experiência investigativa, como melhor explicitado na resposta 2. Para elaborá-la, adoto, por um lado, certa anacronia útil e uma evidente observação e preocupação com o meu tempo. Por outro lado, vejo tradição em transmissões de formas de vivências que, a despeito das enormes complexidades e diferenças entre elas e entre os tempos, nos permitem aquilatar fatores e características presentes na avaliação feita de nossa sociedade no contemporâneo. Basicamente, penso a participação dos indivíduos na oikosnomia, sua inserção nas redes de sociabilidade e suas necessidades de atingir a uma qualidade de vida idealizada. Retirando a centralidade do fator renda, embora não o descarte, vejo a pessoa de classe média de nossa sociedade, hoje, como aquela que, envolvida na produção de bens e de serviços e em uma constante e cotidiana luta por conservar sua condição de acesso a esses mesmos bens, vê-se, paradoxalmente, integrado e alijado das condições previamente postas como primordiais para uma “boa vida”. Na maioria dos casos, este esforço por manter certo padrão de existência isola o indivíduo e lhe retira parte da capacidade crítica na avaliação das formas de ter sucesso e nos rumos da sociedade. Assim, a preponderância da luta individual nubla a capacidade de perceber o espaço do coletivo e, além disso, ressalta a sensação de insucesso ou de incapacidade. Conservadorismo político e moralismo costumam amparar essa pessoa de classe média na sua apreensão de esforço inválido para alcançar seus objetivos. Além disso, ela se sente cada vez mais só em seu esforço e um autocentramento é o resultado desta percepção. Creio que, nas últimas décadas, houve aprimoramento da sensação de alijamento e de piora de qualidade de vida dessa pessoa.

José Ricardo Ramalho: Embora a faixa de renda seja um importante indicador para o reconhecimento de uma pessoa de classe média, outros fatores de distinção também operam, tais como formação universitária, localização geográfica dos locais de moradia, recursos para a formação dos filhos e atividades de lazer. Esses elementos permanecem.

Sérgio Costa: A definição de classe média depende naturalmente de quem define e com qual finalidade. Enquanto, por exemplo, as organizações internacionais como o Banco Mundial preferem estabelecer um intervalo com limites mínimos e máximos de renda, grandes empresas de consultoria preferem apoiar-se, por razões óbvias, em determinados padrões de consumo. A sociologia, como se sabe, buscou combinar critérios diversos: renda, habitus, categoria profissional, educação, autopercepção e preferências políticas. Particularmente, prefiro uma definição mais situada de classe média que parte de interações concretas nas quais a condição de classe média é reivindicada ou disputada. Isso não implica obviamente desconsiderar os aspectos estruturais como renda ou posições de poder. Esses aspectos configuram o contexto em que se dão as interações, mas não as determinam a priori. Esta leitura mais situada da condição de classe permite incorporar tanto aspectos interseccionais (intersecções entre classe, gênero, raça etc.) quanto a constituição subjetiva e intersubjetiva da classe. Tomada desta perspectiva situada e relacional, seguramente os sinais que definem a classe média mudaram e mudam permanentemente. A emergência, por exemplo, de grupos que passaram a disputar espaços físicos e sociais, antes privilégios das classe médias tradicionais, rearticula a autopercepção como classe média. De forma similar, a heterogeneização das classes médias – na medida em que negros e moradores de regiões periféricas da cidade também reivindicam a condição de classe média – leva à mudança inclusive da corporeidade associada tradicionalmente à classe média.

2. Como o tema aparece no seu campo de pesquisa e qual a relevância dele para os fenômenos que estuda?

Angela Figueiredo: Como mencionei anteriormente, minha tese de doutorado foi sobre o tema da classe média negra, com destaque para a análise das trajetórias dos empresários negros. O tema reaparece de diferentes formas na tensão ainda existente entre a classe média negra e a classe média branca e, principalmente, no debate sobre a implementação das ações afirmativas no acesso à educação e na conversão da educação no mercado de trabalho. Alguns analistas criticam a implementação de tal política, destacando que o propósito é criar uma classe média negra, agindo pouco no sentido de mudanças efetivas para a massa da população negra, pobre e com baixa escolaridade.

Efetivamente, há poucos estudos sobre a classe média negra no Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, em que o estudo sobre a classe média é bastante amplo, o que nos leva a refletir sobre as diferenças geracionais e as construções de agendas políticas ao longo dos anos. O estudo da classe média negra no Brasil ainda é incipiente e pouco sabemos sobre as agendas e enfrentamentos pautados na cor e na classe.

O emprego público foi e é determinante para a formação da classe média no Brasil, particularmente para a classe média negra. Isso porque a inserção no setor público ocorre por meio de concurso, mecanismo que minimiza os efeitos do racismo para o ingresso no mercado de trabalho. Entretanto, com as privatizações das empresas públicas, há um fechamento das oportunidades no mercado de trabalho. Isso significa dizer que o impacto das privatizações é maior para a população negra escolarizada.

José Newton Meneses: Sou historiador e investigo a sociedade mineira em um marco cronológico entre 1750 e 1850. Por trabalhar na perspectiva da leitura dos elementos materiais da cultura (“cultura material”), atento para a ação de mulheres e de homens em um cotidiano de construção da materialidade útil, na manufatura de artefatos e de alimentos. Esse grupo de indivíduos forma a denominada “camada média” em uma sociedade bastante desigual e de grande complexidade. Esta parcela social compõe-se de indivíduos cujo trabalho era extremamente demandado e valorizado socialmente, embora não assumissem lugares de poder e de representatividade política. Esses indivíduos faziam parte do que Jan de Vries denominou de “revolução industriosa”, uma intensa produção cotidiana de atendimento a um consumo crescente de produtos e de serviços nas sociedades ocidentais, a partir do século XVII. Para a realidade brasileira, estudos como os de Zephyr Frank acerca do Rio de Janeiro oitocentista, bem como os de Douglas Libby sobre São José do Rio das Mortes (Tiradentes) no setecentos e oitocentos, exemplificam com personagens como o barbeiro António José Dutra (no primeiro caso) e a família Moreira da Silva, em diversidade de membros e de labores, nas sete gerações estudadas (no segundo caso). Os Moreira da Silva têm origem em um casal africano escravizado. Por meio de casamentos, formações, atividades e redes de relações, incluídas as de compadrio, a família vai se estabelecendo em uma camada média da sociedade, forjando riquezas no atendimento a consumos variados, fortalecendo e legitimando a escravidão em processos de alforrias e de escravizações. Busca e alcança um branqueamento, em tempos em que a tez da pele denotava, também, condição e posição. Já António Dutra, igualmente de origem escravizada, alforriou-se, construiu patrimônio e, quando morreu, possuía 13 escravizados. “Entre ricos e pobres”, como denomina Frank, o barbeiro compôs essa “camada média” e foi um protótipo de proprietários de escravizados do Rio. Artesãos por mim estudados nas Minas Gerais setecentistas, da mesma forma, estavam instalados nas camadas sociais intermediárias, com acesso e produtora de riqueza mensurável, de condições de vida regulares e de sociabilidades ampliadas. Mulheres e homens dessa camada social lutavam por conservar suas posses, integrando-se e fortalecendo as formas de viver em uma sociedade escravista excludente.

José Ricardo Ramalho: Nos debates sobre os temas do trabalho e do sindicalismo, a questão da participação das classes médias no mercado de trabalho e na política tem muita relevância. Sua especificidade se manifesta na hierarquia salarial dos postos de trabalho, ocupando os estratos superiores, no grau de escolaridade e qualificação e na capacidade de atuar politicamente na sociedade.

Os sindicatos que representam trabalhadores com esse perfil (incluindo os sindicatos dos trabalhadores do setor público) costumam ser muito ativos não só em termos de demandas salariais como também demandas em relação às condições de trabalho e, mais recentemente, no que diz respeito a questões de gênero e raça.

Por essas razões, na minha área de estudos, não seria possível desconsiderar o papel das classes médias em qualquer quadro de análise sobre relações de trabalho no Brasil.

Sérgio Costa: O interesse pelas classes médias surgiu em minha pesquisa no âmbito do esforço de compreender a guinada à direita e à extrema direita no Brasil e também em outras partes do mundo. Essa chamada nova direita constitui, pelo ódio e pela vingança, sujeitos políticos na medida que interpela os perdedores dos privilégios de gênero, raça e etnicidade, mas também de classe. Ou seja, ainda que não seja a única explicação, as perdas materiais e simbólicas acumuladas pela classe média tradicional, juntamente com as expectativas frustradas das chamadas novas classes médias, contribuem muito para explicar por que políticos toscos de extrema direita conseguem o apoio da maioria do eleitorado. A necessidade e curiosidade de entender este fenômeno me levou a estudar classes médias.  

3. Como você vê o protagonismo político desses grupos, especialmente, nas últimas duas décadas?

Angela Figueiredo: É significativo o crescimento do protagonismo negro no Brasil nos últimos anos, independentemente da classe social. A classe média negra não se articula politicamente por meio de um discurso pautado na sua condição de classe. As lideranças negras que se tornaram membros da classe média, na maioria das vezes, não assumem essa condição de classe. Provavelmente isso ocorre porque a maior parte de seus familiares continua na posição de classe baixa. Do ponto vista do discurso político, há a assunção de uma pauta política relacionada ao acesso à educação e à saúde, questões de violência e ações contra o racismo que imperam na sociedade, mazelas que atingem, principalmente, as pessoas negras de classe popular.

José Newton Meneses: Relativizando o protagonismo… A classe média tem tido o protagonismo de ser o alvo do discurso eleitoreiro de políticos em quem depositam anseios de serem protagonistas de benesses de políticas públicas. O problema é que essas camadas médias historicamente confundem o público com o privado (interesse coletivo com benesses próprias). Não creio em heranças políticas que não possam ser rompidas pela construção histórica. E, portanto, as classes ou camadas não herdaram isso das chamadas culturas formadoras. Construímos inúmeras diferenças e a herança cultural, ao contrário do afirmado por certo senso comum enraizado nas narrativas, até mesmo de intelectuais, é uma construção repleta de manutenções e conservações, concomitantes com mudanças e rupturas. Portanto, penso que, historicamente, as camadas médias veem o campo da política – escolha coletiva – como um instrumento da manutenção de um poder médio, de se inserir socialmente com um grau de respeito e de importância estatutária a lhes garantir as benesses de um poder decisório mínimo, mas de acesso a certos bens (inclusive os de consumo) que a mantenha aparentemente protagonista. Nas últimas décadas, a classe média vê esse estatuto conquistado minado por uma série de fatores (que não é o objeto aqui), mas mantém expectativas de mudança. Frustrada, tem visto, ao mesmo tempo, o não cumprimento de suas expectativas (o que lhe causa a sensação de perdas progressivas de poder), e depositado em escolhas políticas excludentes a tentativa conservadora de retomada de certo poder que teve eventualmente na história do país. É uma camada que tem apostado na desigualdade e na exclusão.

José Ricardo Ramalho: As classes médias tiveram participação política e social no país. Destacaria: 1) envolvimento em manifestações com um forte componente antipolítica, como nas manifestações de 2013; 2) movimentos em defesa de pautas identitárias; e 3) envolvimento nas questões ambientais, incluindo a defesa das populações indígenas.

Sérgio Costa: Em uma palestra há alguns anos em Berlim, o sociólogo sueco Göran Therborn provocou a audiência ao dizer que os conflitos entre capital e trabalho ficaram no século XX. O século XXI é marcado pelos conflitos entre as classes médias, o que implica naturalmente as disputas pela própria definição de classe média. Uma aluna mais atinada, contudo, discordou dele dizendo que o século XXI acabara de começar e que, portanto, a constatação de Therborn era prematura. Refiro-me a esta anedota para dizer que os fatos desde então parecem ter dado razão à aluna. Se lançamos uma visada sobre os grandes conflitos distributivos contemporâneos, seja no âmbito do capitalismo de plataforma, seja no âmbito dos conflitos ambientais e climáticos, o que vemos são variações dos conflitos clássicos entre capital e trabalho ou entre capital e vida ou ainda entre milionários e o resto da população mundial. As classes médias não são o motor destes conflitos ainda que, obviamente, estejam implicadas neles. O que quero dizer é que, confirmando a percepção da aluna, o protagonismo político das classes médias, intenso nas primeiras duas décadas do presente século, vem perdendo fôlego para outras linhas de conflito que parecem ser mais determinantes para o que virá. Isto naturalmente não desobriga a sociologia de estudar as classes médias, mas, provavelmente, nos levará a estudar o lugar das classes médias em conflitos estruturados por outros atores e outras variáveis.

4. Como você vê a relação das classes médias com as políticas públicas (educação, saúde, habitação, por exemplo)?

Angela Figueiredo: Uma das políticas públicas que teve maior impacto foram as ações afirmativas para o ingresso nas universidades. Entretanto, essa política não beneficia os estudantes de classe média, pois o modelo de cotas implementado nas universidades articula as dimensões de raça e classe, isto é, além de ser negro (pretos e pardos) é preciso ter frequentado as escolas públicas, que funcionam como indicativo de classe. Desse modo, a classe média não é beneficiada diretamente. Mas, como a classe média negra é majoritariamente formada pela primeira geração de profissionais que ascenderam à classe média através da educação, ela é indiretamente beneficiada, pois os membros de sua família podem ser beneficiados. Como as políticas de cotas para acesso da população negra ao mercado de trabalho ainda são relativamente limitadas, com relação a sua aplicabilidade e eficácia frente à crise do capitalismo global e à precarização das relações de trabalho, não temos mudanças significativas nesse cenário.

Como a população negra é majoritariamente de classe baixa, não há uma demanda política articulada em termos da intersecção de raça e classe. Na maioria das vezes a articulação da classe média ou das lideranças negras que são membros da classe média é articulada em termos da raça e da classe popular ou da classe baixa. O racismo afeta as pessoas negras, independentemente da classe, entretanto, as políticas públicas não estão diversificadas em termos de classe.

José Newton Meneses: Pensando que essa questão está respondida na anterior, acrescento: a ação coletiva da classe média brasileira tem sido de negar a ideia de política pública, especialmente nessas áreas fundamentais das políticas sociais de diminuição das desigualdades. Negam as políticas de acesso das populações silenciadas e negligenciadas à educação, saúde e habitação e se sentem “prejudicadas” por elas. Temem a perda de protagonismos e de benesses; negam a ideia de república e de democracia, tudo na tentativa de manter um poder médio, “entre ricos e pobres”, (para simplificar, com riscos de erros, diante de uma complexidade maior da abordada nesta resposta). Na negativa e na defensiva (de benesses tidas como direitos), optam pela exclusão das camadas consideradas concorrentes. Sobretudo, ignoram o sentido de justiça (distribuição igualitária – jus – de direitos e de deveres) e a tomam pelo seu oposto: a garantia de conquistas. A ideia de conquista em risco de perda guia as atitudes da classe média brasileira.

José Ricardo Ramalho: As classes médias são, em geral, extremamente críticas quanto às políticas públicas: 1) na educação, considerando que a escola pública é deficiente; 2) na saúde, porque os hospitais públicos estão sempre lotados e sem recursos; 3) nos programas sociais, porque atendem somente os pobres; 4) na área de trabalho, pelo excesso de proteção legal (caso do emprego doméstico).

Sérgio Costa: Partindo dos dois países que conheço melhor, o Brasil e a Alemanha, posso dizer que a relação entre classes médias e políticas públicas varia muito de contexto para contexto. Na Alemanha, as classes médias – referidas tanto no debate político quanto acadêmico naquele país como estratos médios (Mittelschichten) – dependem do estado de bem-estar para reproduzirem sua condição de classe. Ou seja, sem escolas e universidades públicas, transporte público de qualidade, planos de saúde subsidiados, a classe média alemã não sobrevive nem transfere sua condição de classe média às gerações futuras. No Brasil, parece ocorrer o oposto, já que a classe média busca se reproduzir como classe através da compra do acesso à educação, saúde, lazer etc. – a exceção seja talvez a universidade pública, ainda essencial para a reprodução das classes médias brasileiras. De certo modo, as classes médias brasileiras parecem perceberem políticas públicas que garantem educação, saúde e lazer público de qualidade como uma ameaça à sua condição de classe média, na medida em que estes serviços permitem que muitos possam ter acesso àquilo que, supostamente, diferenciam as classes médias dos pobres. Governos um pouco mais progressistas precisam desatar este nó ideológico para obter o apoio das classes médias brasileiras. A fórmula para tanto parece, contudo, ainda não ter sido descoberta.       

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