Desassossegos | Coluna de Alcida Rita Ramos

BVPS apresenta sua nova coluna: Desassossegos, de Alcida Rita Ramos. A Professora Emérita do DAN/UnB, protagonista da institucionalização da antropologia e da etnologia no Brasil, internacionalmente reconhecida por sua obra, trajetória e solidariedade aos povos originários, especialmente Yanomami, volta às “páginas” do Blog da BVPS após uma temporada exitosa na inauguração da coluna Autorais, ano passado.

“Desassossegos”, em que pese a referência tácita ao seu conterrâneo notável, e incontornável da língua portuguesa, propõe destacar uma face especial da Alcida já conhecida dos seus leitores habituais: a qualidade narrativa dos seus escritos. Poderíamos – e até achamos que faremos isso adiante – discutir como esse trato com a língua, com a linguagem e com a comunicação é inseparável, nos melhores casos, da perspectiva teórica inovadora e da empatia desses mestres do relato, que também o são – ou deveriam ser – os etnólogos. Alcida privilegiará aqui as formas breves da crônica, deliciosamente brasileiras também, para acessar, não, para provocar suas memórias e suas indagações presentes. Somente alguém que viveu e vive a vida com tanto rigor e gosto – “desassossegadamente”? – pode rememorar e interpelar experiências em narrativas tão especiais. Lembremos dos dois tipos de narradores na conhecida genealogia de Walter Benjamin, o agricultor e o marinheiro, eles se cruzam na prosa da Alcida, como teremos a chance de apreciar.

Preparem-se leitores e leitoras da BVPS. Estamos materializando numa nova frente, e com a inspiração da colunista e amiga, nossa missão de comunicação pública.


Fogo!

Por Alcida Rita Ramos (UnB)

Todos os fogos o fogo

Júlio Cortázar

Num dia excepcionalmente ventoso, os residentes de Kadimani, aldeia Sanumá (Yanomami) beirando a fronteira com a Venezuela, decidiram tocar fogo nas roças novas coalhadas de troncos caídos e já secos, prontos para a coivara. Kadimani ficava então no topo de uma colina. A derrubada, em declive, cercava por quase todos os lados a clareira com as habitações. A decisão afoita de fazer a queimada em duas roças naquele dia de atmosfera turbulenta gerou uma saraivada de fagulhas que resultou no incêndio da maioria das casas e no desespero dos habitantes. Imediatamente, os xamãs puseram-se a trabalhar num paroxismo de aflição, tentando freneticamente conter o fogo com apelos aos hekula, seus espíritos auxiliares. Eu e meu companheiro de campo, Ken Taylor, atarantados, tentávamos proteger o que havia da nossa pesquisa etnográfica. Nossos planos imediatos de viajar a outra aldeia ficaram em suspenso por algumas horas.

Passada a comoção, sobrara pouco da maioria das casas de palha. Se ainda me lembro, a nossa escapou mais ou menos ilesa, poupados nossos pertences e cadernos de campo. Ken e eu continuamos nossos planos para viajar a outra aldeia à beira do rio Auaris que abrigava missionários da MEVA (Missão Evangélica da Amazônia). Nos dias seguintes, consultamos os vizinhos sobre quem poderia nos guiar até lá pela trilha costumeira. Ninguém quis, o que era perfeitamente compreensível naquele momento de reconstrução da aldeia. Decidimos ir sozinhos com nossos dois vira-latas.

Partimos cedo, cestos carregados às costas, sob o olhar descrente e não muito amistoso dos vizinhos. O cheiro de matéria vegetal queimada foi ficando para trás. A trilha bem demarcada num eterno sobe-desce-morro (quantas vezes praguejei contra a inclinação dos Sanumá pela vida nas alturas!) continuava mata adentro por um bom tempo, até se dissolver no emaranhado da vegetação rasteira. Perdidos, continuamos a esmo, talvez em torno de uma hora ou mais, cada um engolindo o seu medo para evitar o pânico e, quem sabe, confiando nos sentidos apurados dos cachorros, na verdade, tão perdidos quanto nós. Já no limite da coragem, depois de um tempo transfigurado em eternidade, ouvimos golpes de machado ao longe.

Salvos! Gritos de cá, gritos de lá, instruções à distância, acabamos achando de novo a trilha. Cruzamos com uns homens da aldeia intermediária que nos dispensaram risinhos irônicos de congelar o sangue, fazendo-nos suspeitar de estar indo na direção errada. Ao anoitecer, chegamos à pista de pouso de Auaris. Uma viagem normalmente de cinco horas nos levou mais de nove! Sem forças para mais um passo, desabei na pista. O resto foi apoteose.

“Como é? Setenabi (brancos) andando sozinhos pela mata??!!” Ganhamos muitos pontos e nos destacamos dos outros setenabi com sua proverbial incompetência mateira. Incrédulos, nossos vizinhos de Auaris alimentaram muitas conversas com o nosso feito inédito.

E até hoje falam nisso. Mais de meio século depois, amigos, companheiros da Rede Pró Yanomami, quiseram saber de mim a veracidade de uma história que um homem Sanumá, conhecido como Marinaldo, lhes contara, mais ou menos assim: Ken e eu fôramos à mata (colher cogumelos?) e, ao voltar, topamos com um incêndio na aldeia que nos levou tudo, especialmente as gravações da pesquisa. “Queimou tudo, amigo, eles choravam muito”. No conto de Marinaldo, decidimos, aos prantos, ir embora para sempre. O que chamou a atenção do meu amigo “foi o destaque para a queima de seus registros de pesquisa”. (Sou muito grata a José Ignacio Gomeza por seu relato, para mim tão nostálgico e precioso).

Reagi a essa versão com um misto de surpresa, fascinação e divertimento. A surpresa foi saber que aquele episódio já tão remoto passou a integrar o folclore dos Sanumá sobre seus etnógrafos. Nós dois, como outros forasteiros antes e depois de nós, compomos um anedotário que cultivam e muito os diverte. Tendo passado 18 meses ininterruptos, principalmente entre Auaris e Kadimani, tivemos inúmeras oportunidades de lhes expor incompetência, determinação, admiração, impaciência, bom humor, mau humor, hábitos inusitados e tudo mais que os equipa a ser tão etnógrafos quanto nós. (Ver a importância que Marinaldo atribuiu à perda, não dos objetos pessoais, mas dos dados de pesquisa). Pois é vivendo a alteridade própria que se compreende a alteridade alheia. Durante boa parte da primeira e longa etapa da pesquisa de campo, de março de 1968 a setembro de 1970, ficamos sob a meticulosa mira com reiterados comentários dos nossos anfitriões e seus visitantes. Na época, vivíamos isso com grande dose de irritação, ocupando o desconfortável lugar de avis rara em constante exposição pública. Hoje, reconheço ali mais uma manifestação da saudável curiosidade pela diversidade humana, que era, precisamente, o que estávamos fazendo lá.

Fascinou-me saber que continuo inserida na história dos meus vizinhos sanumá. Casos como este são contados, ampliados e adornados de geração a geração, mantendo a memória de nossa passagem por suas vidas mesmo por exíguos dois anos. Marinaldo, de uns 40 anos de idade, obviamente, não foi testemunha ocular do incêndio de Kadimani, mas afirma que nos conheceu lá. O conto foi propagado e dramatizado ao sabor das décadas, de memória em memória, sempre enriquecida com detalhes fulgurantes.

Diverti-me com a dramatização de algo que ocorreu há mais de 50 anos, acrescentando ao incidente original lágrimas e gravações que não houve; sempre escrevemos tudo à mão, em notação fonética na língua sanumá. Naquele tempo, gravadores à prova de floresta tropical ainda não existiam, ao menos compráveis com verba de pesquisa. Além disso, era preciso entender o que se dizia no momento em que era dito. Transcrições posteriores poderiam se perder na incompreensão da língua, já longe do campo.

A história contada a José Ignacio corrobora a minha percepção de que os Sanumá cultivam o gosto pelo drama, como registrei em formato de peça de teatro num capítulo do livro Memórias Sanumá (1990, originalmente publicado em 1979), a propósito de um boato transformado em melodrama nos idos de 1974. O simples incêndio de uma aldeia inteira não seria tão espetacular sem um par de antropólogos residentes debulhados em lágrimas com a perda de seus preciosos dados de pesquisa.

Ao contrário da interpretação post factum de Marinaldo, voltei à região de rio Auaris por períodos curtos em 1973 e 1974, já tendo perdido o encanto do estranho em terra estranha. Até ali, a região continuava a ser o campo etnográfico paradisíaco dos primeiros anos. Menos de vinte anos depois, tornou-se um inferno na terra com a primeira grande corrida do ouro no início dos anos 1990, deixando um rastro de morte e caos ao matar centenas de Sanumá e de outros Yanomami e destruir um modo de vida singular, intenso e admirável. Dessa vez, regressei como intérprete para equipes médicas num programa governamental de emergência para sustar não apenas o morticínio indígena, mas a reputação abalada do Brasil por deixá-lo acontecer. Por meses a fio, vimos Kadimani à beira da extinção, seus habitantes consumidos pela malária e outras pestes espalhadas por bandos de garimpeiros que pernoitavam em suas aldeias a caminho do ouro em solo venezuelano. Mas isto é outra história, já contada e ressuscitada.

Retomando o tema do incêndio, tento encontrar no relato de Marinaldo a conexão de fogo com choro e deserção. Para isso, relembro outro episódio ainda na primeira fase da pesquisa de campo. Foi o acidente que sofri em nossa casa, também de palha, em Auaris. Já não sei precisar o momento, se foi antes ou depois do incêndio de Kadimani, mas não vem ao caso.

Noites frias, cobertores na rede, fogueira ao lado mantida acesa a noite inteira com abanos de hora em hora. Numa daquelas madrugadas geladas, a ponta do meu cobertor caiu na fogueira e acordei com o fogo já me chegando ao rosto. Joguei o cobertor ardendo para fora da rede, mas a mão esquerda que fez o gesto perdeu alguns centímetros de pele. Meus gritos atraíram os vizinhos que, consternados, acorreram à cena em que Ken me fazia curativos enquanto eu chorava de dor. Vincular fogo e choro talvez resulte da junção desses dois incidentes, cada um numa aldeia, dramáticos o bastante para compor uma tragédia única. Juntando os dois, houve, realmente, fogo, choro e abandono da aldeia de Kadimani. Apenas o ápice da história é o floreado necessário na prática de quem conta um conto, ganha um ponto. Não perdemos dados de pesquisa, nem foi Ken que chorou, fui eu, não de frustração, mas de dor, e nem fomos embora para sempre. Mas esses detalhes “realistas” tirariam o brilho do drama.

Por essa época, Neil Armstrong pisava na Lua, quicando no vazio.

Brasília, 19 de janeiro de 2024

A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere