
No Especial BVPS sobre os 60 anos do Golpe de 1964, publicamos texto de Glaucia Villas Bôas (UFRJ) sobre suas lembranças do golpe e dos anos de ditadura. Em seu tocante relato, a socióloga observa que guarda na memória daqueles anos a esperança e a solidariedade dos que se rebelaram contra a ditadura.
Boa leitura!
Esperança e solidariedade. Lembranças do golpe de 1964
Por Glaucia Villas Bôas (UFRJ)
Em memória de Myrian Sepúlveda dos Santos
pela dedicação à pesquisa sobre a memória coletiva.
Tenho saudades dos amigos e amigas que não vi mais. De março de 1964 a dezembro de 1968 o tempo passou muito rápido e quem estava na escola se viu na universidade ou nas fábricas; atrás de balcões de lojas ou trabalhando em repartições públicas. Lembro o quanto tinha que ser rápida para pichar em vermelho abaixo a ditadura nos ônibus que circulavam ali no Castelo. Lembro do papel do olheiro ou da olheira – segundo o dicionário, “aquele que trabalha vigiando uma determinada atividade, trabalho, pessoa etc.” Ser olheiro/olheira exigia coragem e atenção. Olho se movimentando nos arredores sem perder as esquinas em que alguma coisa podia despontar de surpresa. Olho que não se perde mais. Fica incrustado na memória. Com este olho afiado andávamos em pequenos grupos nas passeatas, sabendo sempre para onde correr se fosse preciso. Caminhar longe das beiradas dos prédios era um imperativo. Em caso de tiros ou bombas de gás lacrimogêneo, seguir sem correr logo que possível, como se nada tivesse acontecido, era a regra. Assim saí algumas vezes de lugares tumultuados onde a PM a cavalo atirava para baixo e para cima. Valem muito as belas fotografias da “Marcha dos cem mil” que circulam prestando o seu papel de guardar a memória dos que se rebelaram contra a ditadura. Mas vale também a lembrança dos mil e um encontros para saber como reconhecer um policial provocador que ficava no meio dos manifestantes. Era perigoso. E eles sabiam como se infiltrar e gritar como se fossem um dos nossos. Mas vale mais ainda o que aprendemos com a solidariedade que nos unia e a esperança que tínhamos. A memória daquela esperança que não esmorecia e de uma solidariedade ímpar é o que me preenche quando penso no golpe de 1964.
Sobre a ditadura militar muito se fala, falou e falará este ano ainda: sobre a memória das crueldades, da tortura, da traição e das intrigas, mas, também, sobre a memória dos atos de valentia, dos projetos políticos para fundação de nova sociedade e dos movimentos pela volta da democracia. Aos 60 anos do golpe de 1964, circula entre nós uma rica literatura e preciosa filmografia, que registram fatos históricos e tornam públicos depoimentos pessoais. Mas ainda pouco ou quase nada se fala dos motivos que levavam os jovens estudantes de classe média a integrar o movimento estudantil ou entrar para um partido clandestino. Seriam os jovens movidos pela volta do regime democrático? Ou pela promoção de uma guerra popular que levasse o país ao socialismo? Ou, ainda, pela instituição de reformas lentas sem que se fizesse uso de armas? Ou seria a guerrilha urbana o caminho mais correto? Ou será que a motivação era outra? Uma reação à truculenta desigualdade que permanece até hoje em um país campeão de concentração de renda? Um senso exacerbado de justiça? Ou seriam eles apenas grupos de jovens cooptados por agentes de países socialistas? Mas, se não eram essas as razões para lutar contra a ditadura, seriam os motivos que teriam levado os jovens à rebeldia psicológicos? Será que precisavam de uns cocorotes para se aquietar e entrar na vida adulta? Ouvi isso muitas vezes com indignação.
Imaginar o que é um movimento clandestino não é simples. O assunto tem sido negligenciado. Mas, se há um verdadeiro divisor de águas na atuação política, ontem e hoje, para mim, ele diz respeito à clandestinidade. Durante a ditadura a exposição ao público, o dizer e revelar a identidade podia significar a prisão e a tortura. Lembro como se fossem mundos diferentes o clandestino, o semiclandestino e o que vivia à luz do dia. O codinome e o nome. O ponto e os encontros. Passava-se de uma situação a outra sem muito tropeço, como se transitássemos de uma cultura a outra. Com raras exceções, somente os membros mais velhos ou dirigentes de um partido clandestino viviam inteiramente na clandestinidade. Entre os estudantes havia um claro/escuro difícil de distinguir que até hoje me surpreende. A semiclandestinidade não nos impedia de ir ao Paissandu para ver Canal, Madre Joana do Anjos, a Chinesa, Rocco e seus irmãos, O Encouraçado Potemkin, e outros tantos filmes que levavam a uma conversa sem fim, chope gelado e referências ao Cahiers du Cinéma. Sim. Às vezes aparecia alguém, clandestino de verdade, que inesperadamente discursava sobre Einsentein até de madrugada. No dia seguinte, porém, era possível estar em uma reunião de base de um partido clandestino e ouvir a voz de um operário falando sobre a revolução comunista. Aliás, as reuniões eram tensas. Só de ouvir uma sirene de carro de polícia ou mesmo o trotar de cavalos da PM, o pessoal se calava e esperava passar. Eram aparelhos? Não sei. Mas a saída desses locais era rápida. Ninguém ficava conversando na frente do prédio. De vez em quando “estourava-se” um aparelho. Amigos e amigas meus passaram anos, muitos anos, para saber dessas coisas, exceção feita a um ou outro que contribuía para o movimento, em geral, guardando panfletos ou mimeógrafos em “fundos falsos” de seus apartamentos. Não era pouco. Por vezes, em vez de panfletos e mimeógrafos escondiam alguém que estava sendo perseguido. Havia um cinturão de solidariedade.
Panfletar não era fácil. Ao andar hoje pelas ruas, costumo me deparar com alguém, uma moça jovem, um menino preto pobre ou um velho desempregado a distribuir seus papeizinhos volantes. São folhetos com santinhos anunciando o dia de suas festas, propaganda de cabeleireiros, manicures ou lojas de comida a quilo que foram abertas no bairro. Fico pensando no número de horas que aquelas pessoas ficam em pé e quanto ganham por isso. Nunca perguntei, mas aceito todos os papeizinhos e leio em casa, apreciando a estética e a fonte das letras. Panfleto é diferente, é “texto curto, violento e sensacionalista, geralmente sobre assuntos políticos, impresso em folha avulsa ou folheto, e de distribuição limitada”. Verdade que os panfletos tinham que ser curtos, mas não sei se violentos. De toda forma, escrevê-los exigia capacidade de síntese e uma certa criatividade. Sinto vontade de ver um ou alguns deles, mas acho que ninguém guardou. Como não se guardaram fotografias. Aliás, tinha gente que nem se deixava fotografar por causa da repressão. Mas voltando à panfletagem, havia um tipo especial que nos fazia subir em terraços de prédios muito altos no centro da cidade (hoje chamados rooftops) para deixar os panfletos mimeografados na beirada das muretas e descer com pressa aparentando calma. Quando chegávamos em baixo, os panfletos estavam caindo. Tenho certeza de que sem os mimeógrafos a produção de panfletos não teria sido eficiente. Algumas professoras primárias, colegas de turma (inesquecíveis) emprestavam amiúde o seu mimeógrafo a álcool. Bastava comprar folhas de papel e estêncil na papelaria da esquina.
Nossas vestimentas femininas mudaram drasticamente. Óculos escuros, camisetas e cabelo sem coques e laquê. Namoros, paixões e pequenos casamentos. A pílula anticoncepcional entrava em jogo no debate sobre a virgindade. Os contraceptivos faziam parte do repertório das conversas tanto quanto as leituras de Marx, Lênin, Mao, Frantz Fanon e os poemas de Nazim Hikmet e Paul Éluard. É sempre bom rever as dedicatórias dos livros presenteados, dos poucos que restaram. São cheias de desejo por um mundo melhor. Ao longo das décadas, aquele tempo vai se tornando cada vez mais colorido, iluminado, jovem na minha memória. Até que o Ato Institucional Nº 5 o golpeia. Um golpe dentro do golpe nos primeiros anos da ditadura. Corte profundo e sofrido que gerou medo, desespero, fugas. E colocou muita gente na clandestinidade ou fora do Brasil. Mas as roupas não mudaram nem a visão de um mundo desigual e censurado. Nem a imagem da casa de pau a pique miserável desapareceu do imaginário apesar do milagre econômico alardeado. A música de Janis Joplin continuou tocando baixinho. E o grito de Maria Betânia Carcará pega mata e come, carcará não vai morrer de fome ecoou mais forte ainda. Era impressionante ouvir aquela canção e letra que vinha de João do Vale e José Cândido em meio àquele silêncio devastador que antecedeu o Natal de 1968.
Amigos assassinados. Amigas assassinadas. Cada dia uma notícia tenebrosa. Muitas prisões aconteceram dali para frente. As técnicas da perseguição e o encrudescer da tortura eram percebidas em silêncio. Sobre elas se falava em voz baixa. Parecia que o medo não ia passar nunca mais. É espantoso que o movimento, a luta, as ações de todo e qualquer porte foram adquirindo outra forma em meio à brutalidade. Uma solidariedade calada e uma esperança abafada as impulsionavam. Lembro dos amigos e conhecidos que podiam visitar os presos políticos e deles traziam notícias. Era dramático para muitos não poder receber visitas de um ente querido que estava foragido. Mas o “grupo” dos que “podiam” foi formando verdadeiras redes de informação entre os de dentro e os de fora. Revistados para entrar nas penitenciárias e delas sair, conseguiam ainda assim carregar consigo mensagens codificadas e objetos (alguns de arte) feitos por presos para venda do lado de fora. Denúncias de maus tratos, mortes e doenças vieram desses visitantes. Foram eles, também, que levaram conforto e esperança para muitos familiares, unindo pais e filhos, companheiros e companheiras, maridos e mulheres. O movimento de anistia foi se forjando nesse dentro e fora das prisões com presos políticos. Nem todos os militantes concordavam com a solução encontrada. Assunto espinhoso até os dias de hoje.
A anistia e o retorno ao regime democrático foram comemorados pelos que deixaram de ser perseguidos, pelos que saíram das prisões, da clandestinidade ou voltaram do exílio. Nem sempre a vida foi fácil. Muita conversa, muita intriga, muito ajuste de conta, desemprego, angústia, falta de chão e de horizonte. Muitas festas também, não vamos esquecer. O campo da política sofreu uma mudança radical e a Política com letra maiúscula foi alçada a um outro patamar. A perspectiva da política passou a disputar com outras perspectivas reivindicando para si lugar especial, e ainda hoje, com mais força mira na diversidade e nos direitos humanos. Mas os índices degradantes da desigualdade social diminuem pouco, apesar dos esforços. Municípios, vilarejos e grandes cidades se revestem de cascas de “modernidade” que encobrem bolsões miseráveis de vida.
Ouço dizer que o movimento estudantil foi um fracasso. Que nada do que foi almejado chegou ao seu termo. Claro, não nos tornamos um país socialista. Mas ouço, também, um louvor à resistência e uma denúncia incansável das atrocidades. A disputa pela memória segue seu caminho entre testemunhos e não testemunhos, medidas governamentais acertadas ou equivocadas, criação de acervos, abertura de arquivos e pesquisa. Essa movimentação desde o fim da ditadura tem sido a contrapartida do silêncio, do esquecimento e da negação dos fatos. Acompanho com interesse a construção da memória da ditadura.
Com o tempo, os acontecimentos passados entre o golpe e a abertura democrática vão adquirindo novos contornos em mim. Alguns esmaecem, outros ganham cores fortes. Alguns são lembrados somente em conversa com jovens da nova geração. Outros quando discordo veementemente de alguma interpretação e tenho o desejo de falar. Na falta de cartas, fotografias ou bilhetes, a música da época me traz muitas lembranças. “Imagine all the people living life in peace”. No fim das contas, o que me emociona é a esperança que permanece em mim por dias melhores e mais solidários.
A fotografia que abre o post é de Evandro Teixeira, 1968. A imagem faz parte do ensaio visual de Lilia Moritz Schwarcz que pode ser conferido aqui.