
Publicamos hoje o quarto texto de Alcida Rita Ramos (UnB) na coluna Desassossegos. Nascida em 1937 em Lisboa, a autora narra sua infância marcada pela mudança para o Brasil, seu sentimento de desterro e seu encontro com a antropologia e com os povos indígenas. Seu relato pessoal é ponto de partida para uma reflexão sobre como as alteridades são criadas.
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Boa leitura!
Descompasso
Por Alcida Rita Ramos (UnB)
Nasci antropóloga, mas ainda não sabia. Foi em 1937, onde hoje está o aeroporto de Lisboa. Ano nada ilustre com um registro histórico desolador: o ataque franquista a Guernica, a invasão da China pelo Japão, o acidente fatal do dirigível Hindenburg, o Estado Novo de Getúlio Vargas. O ovo da serpente chocando na Europa nasceu dois anos depois com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Se me servir de consolo, vim ao mundo antes da víbora do nazismo quebrar a sua casca.
Este relato pessoal é um pretexto para desenvolver algumas ideias que há muito me desassossegam. Giram em torno da pergunta: como se criam alteridades? Não me refiro à diversidade cultural globalmente conhecida e muitas vezes estudada. Tenho em mente singularidades pessoais. Como alguém deixa de ser igual para se tornar diferente? Pode ser um processo relativamente longo ou instantâneo. Pode ser cercado de dor existencial ou física, ou ambas. É o que pretendo mostrar. Desculpo-me por esse interlúdio um tanto narcisista, mas necessário para levar a cabo o argumento.
Tinha 7 anos quando me trasladaram ao Brasil a bordo do navio espanhol Cabo de Hornos. Passamos um mês atravessando o Atlântico, os adultos com o coração nas mãos no meio da Grande Guerra, enquanto eu explorava até o limite aquele mundo flutuante, na verdade, um recipiente fechado que Erving Hoffman qualificou, junto com prisões e asilos, como “instituição total”. Pai, mãe e quatro irmãs (eu, caçula) desembarcamos no Rio de Janeiro e passamos logo a Vitória, a insular capital do Espírito Santo. Começava o meu rito de passagem, com todas as letras e dores.
Desavisados, meus pais proletários matricularam-me no elitista Sacré Coeur de Marie. Foi o meu primeiro (talvez o único, verdadeiro) purgatório. Havia o bullying (usa-se esta palavra como se a língua portuguesa desconhecesse o fenômeno) da meninada entretida em escarnecer da nova atração que balbuciava uma gíria esquisita. Mas havia também o vaivém dos vultos soturnos das freiras, como aves de mau agouro, enclausurando o meu destino. Punham-me de castigo no corredor por razões que há muito já esqueci ou nunca soube, provavelmente, por falta das habituais benesses vindas de patronos ricos e por dificuldades de entender as aulas, porque, afinal, aquilo que falavam era também uma gíria esquisita para mim. Talvez tenham sido os piores quatro anos da minha vida. Décadas mais tarde, reconheci naquele tormento o início da trilha que me levaria à antropologia e, principalmente, à etnografia indígena. Afinal de contas, acabou sendo um bullying produtivo.
Quando li em José Saramago que “crescer à sombra” tem suas vantagens, aderi imediatamente à ideia. Pois, se não houvesse Vitória, não haveria Niterói. E foi em Niterói que, finalmente, saí das trevas da humilhação para o sol radiante da superação. Como se deu isso? Estou convencida de que foi um processo semiconsciente a me empurrar para um porto seguro que ninguém pudesse assaltar. “Se”, como imagino ter imaginado, “sou punida por incompetente, inadequada, obtusa, aproveito a mudança de cidade para desviar a rota e me impor em grande estilo. Só há uma maneira de fazer isso: cultivar algo que nunca me possa ser usurpado: a inteligência”. Essa guinada sempre me lembra da jura de Scarlett O’Hara ante sua terra arrasada que o vento levava: “I’ll never be hungry again!”.
Em Niterói, fui matriculada num colégio particular ‒ o Colégio Brasil, pertencente a uma família negra de maneiras extremamente elegantes ‒ lamentando não ir para o Instituto de Educação, escola pública de excelência, como era antigamente. Pus mãos à obra e, a partir de então, nunca deixei de ser a primeira aluna da classe. Respeito, admiração e até inveja foram sentimentos que me embalaram e inebriaram a partir dos 11 anos de idade e por toda a idade escolar. Foram sete anos de estudo, amizades, descobertas, diversão, mas nunca de integração plena. Sempre mantive um tantinho de alteridade, como que guardando para uso posterior. A inquietação interna permaneceu em dormência até surgir a faculdade.
A Faculdade de Filosofia em Niterói começou particular e depois se federalizou, tornando-se a Universidade Federal Fluminense. Em 1957, ainda tínhamos o regime de ano letivo completo. Daquele universo de escolhas possíveis, optei pelo curso de Geografia, que eu via como o portal para o mundo das viagens, mas não para qualquer lugar. Eu era vertiginosamente atraída pela Amazônia, a mata verde, ainda sem cara humana. Foi justamente nas aulas de antropologia, ministradas pelo Professor Luiz de Castro Faria, que eu lhe vi a cara e era uma cara indígena! Ali, aos vinte anos de idade, finalmente soube que seria antropóloga de verdade. Tinha me encontrado com a minha vocação!
Para quem sentiu na pele os efeitos deletérios da alteridade, faz bem procurar os poucos canais legítimos que a sociedade nos abre para uma vida plena. Talvez as artes sejam o veículo mais óbvio, mais vistoso e mais trilhado para expressar sem riscos (ou quase) discrepâncias entre a pessoa e o seu meio social. Permitem projetar no extra real o que o real nos nega. Mas, para isso, há que se ter inclinação e, de preferência, talento. O perigo de estar lúcida, livro recente de Rosa Montero, ilustra fartamente como distúrbios psicológicos servem de propulsor a belas obras, mesmo com alto custo pessoal. Chega-se mesmo a cogitar que um desacerto mental ou social ‒ quanto mais forte, melhor ‒ é condição sine qua non para se produzir algo de valor.
Pessoalmente, encontrei na antropologia o canal mais condizente com as minhas habilidades e com a minha vivência passada e expectativas de futuro. O foco na diversidade humana permite que naveguemos pela heterogeneidade do mundo sem, digamos, levantar suspeitas. O vasto mundo etnográfico que nos alimenta não precisa ser extra real para ser desafiante. Não é preciso criar ficção para imaginarmos mundos fantásticos, já que o universo humano real é mais rico do que o inventado por um literato. Sob o manto de ciência que guarnece a antropologia, temos licença para desafiar impunemente ideias recebidas e questionar o que quisermos (ou quase). E como temos questionado! Como temos desafiado! Divulgamos e explicamos o que é estranho ao nosso mundo.
Mas, a eterna pergunta continua a nos assombrar: por acaso melhoramos este mundo? Será que conhecimento é suficiente para gerar respeito pelo Outro? Na dimensão pública, tudo tem indicado que não. Já na pessoal, não tenho dúvida. Quando percebi a potência existencial da antropologia, agarrei-me a ela com unhas e dentes. Sim, eu era antropóloga sem saber. Foi descobrindo o Outro na figura dos indígenas que, num efeito de espelho, comecei a me revelar a mim mesma. Foram eles, vistos pelo prisma da antropologia, que me abriram ‒ a mim, que também sou, ou já fui Outra ‒ a trilha para o sentido da vida.
No entanto, muitos são Outros sem o saber. Nas aulas de pós-graduação, especialmente no mestrado, eu tinha o hábito de perguntar aos alunos por que haviam escolhido antropologia. As respostas eram as mais diversas, mas, invariavelmente, havia sempre um elemento de desconforto, inconformidade ou insatisfação social, muitas vezes camuflado. A isso passei a chamar de descompasso. E lhes contava o meu. Era comum ver neles uma expressão de eureca ao conectarem seu descompasso com a atração pela antropologia. Isso rendia algumas horas de discussão que era um duplo desvendamento: o pessoal e o disciplinar. Com isso queria mostrar-lhes que, ao abraçar a antropologia, não nos limitamos a um treinamento profissional, mas estamos desenvolvendo o nosso Bildung.
Viver a alteridade é ser atraído pela alteridade com a reconfortante sensação de não estar sozinho. Dentre muitos exemplos possíveis, cito o da etnógrafa Carmen Lucia da Silva, que se destaca pela extraordinária relação que construiu com oito sobreviventes da sociedade Xetá do Paraná, oficialmente declarada extinta em 1964. Não devo, nem quero comparar a minha experiência com a de Carmen, pois são estruturalmente distintas e física e existencialmente incomparáveis. Trago à baila o seu caso apenas para reforçar a ideia de que a alteridade individual tem uma dimensão de imprevisto e tempo variado para se instalar. No meu caso, em 30 dias, passei de “nativa” para estranha. No caso de Carmen, se assim posso dizer, passou de “normal” para “vulnerável”. Guardadas as devidas diferenças, que não são poucas, ambos os casos me servem para discutir o papel da alteridade individual, como criadora de empatia e rapport, na compreensão da alteridade sociocultural.
Na infância, Carmen sofrera um grave acidente que afetaria sua saúde pelo resto da vida. Mas a água fervente que lhe escaldou o corpo não queimou o seu espírito, nem desarmou o seu sorriso. Pelo contrário, pareceu acentuá-los. No pungente relato que é a sua dissertação de mestrado (Sobreviventes do extermínio: uma etnografia das narrativas e lembranças da sociedade xetá, Universidade Federal de Santa Catarina, 1998), Carmen desvenda a agonia da extinção grupal e o tormento das fugas, dos raptos e da sobrevivência em condições extremamente hostis. Com um grau de empatia extraordinário, ela fez a proeza de reunir parentes que nem se sabiam vivos e criar um novo sentido de comunidade xetá. Uma das mulheres, ainda incrédula, declarou que fora dormir pobre e acordara rica, pois agora tinha a companhia de gente sua! De emoção em emoção, Carmen vai nos apresentando vidas dispersas, histórias desfiguradas, sobrevivências precárias e improvisadas, mas, graças à força do seu rapport como pesquisadora, acabou por criar uma verdadeira aldeia virtual. Na intimidade das rodas de conversa, os Xetá mais velhos, raptados ainda adolescentes, mas com pleno comando da língua e dos costumes do grupo, reconstituíram para ela e para si mesmos não só os seus caminhos pós-extinção, mas a organização da própria sociedade xetá como a viveram na infância (tema da tese de doutorado de Carmem, Em busca da sociedade perdida. O trabalho da memória dos Xetá, Universidade de Brasília, 2003). Tamanha sintonia entre etnógrafa e “etnografados” clamava pela pergunta: como conseguiu? Carmen repete a resposta dos Xetá: “porque você também é uma sobrevivente”!
Se o meu desterro ‒ um passeio marítimo se comparado à tragédia vivida por Carmen ‒ foi uma espécie de acidente infantil, seria eu também uma sobrevivente? Viria daí o meu fascínio pela antropologia ‒ a disciplina desterrada por excelência ‒ e a minha ligação quase visceral com povos indígenas? Do fundo das minhas memórias, necessariamente seletivas como todas as memórias, posso dizer que sim, ter sido transplantada de um país a outro teve o efeito de me abrir a grande fenda do desconforto existencial e, em consequência, me deixar conduzir pelo imã da alteridade.
Brasília, 1º de fevereiro de 2024
A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere