
No post de hoje da série Modos de narrar a sociologia brasileira, trazemos os relatos de José Ricardo Ramalho (UFRJ) e Leonilde Servolo de Medeiros (UFRRJ), que dialogam e se somam para colocar em foco o mundo dos trabalhadores urbanos e rurais.
Ao narrar os “princípios” (na múltipla acepção da palavra) de sua trajetória vocacionada ao estudo do processo do trabalho e da classe trabalhadora – área da qual se tornaria um dos expoentes na sociologia brasileira –, o recorte feito por José Ricardo dá também um testemunho pungente da vida universitária nos “tempos difíceis” da ditadura militar, revelando que as Ciências Sociais foram para ele, mais do que uma mera escolha profissional, uma opção política e militante pela resistência e o enfrentamento à repressão e à opressão.
Leonilde, por sua vez, relata seu percurso marcante – que alia pesquisa e atuação politicamente consequentes – na área da sociologia rural. Desde a descoberta do tema nas aulas de Maria Isaura Pereira de Queiroz na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, acompanhamos através de sua narrativa a formação de um robusto programa intelectual voltado para o rural, que compreende o estudo das tensões de classe geradas pela transformação da terra em mercadoria, as lutas por reforma agrária, os assentamentos rurais, o sindicalismo, o agronegócio, a violação dos direitos no campo e a constituição – no CPDA/UFRRJ, onde fez sua carreira – de um centro de documentação destinado a preservar tanto material de pesquisa quanto a própria memória de parcelas dos trabalhadores do campo.
Para conferir a apresentação e demais posts da série clique aqui.
Desejamos a todas e todos boa leitura!
Memorial[1]
Leonilde Servolo de Medeiros (UFRRJ)
A graduação
Iniciei a graduação em Ciências Sociais na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em 1968. As características peculiares desse momento, dada a conjuntura política que o país atravessava, foram marcantes para mim. Lidar com a nova situação e a particularidade do momento foi difícil. Era uma jovem da periferia paulistana, que havia lido muito (literatura nacional e internacional, história do Brasil), tinha bom preparo acadêmico, mas pouca experiência de vida e bagagem política: nunca fora sequer a uma assembleia estudantil do grêmio do meu colégio, que, por sua vez, não era muito ativo em termos políticos. Quando comecei a frequentar assembleias na Universidade, espantava-me o reducionismo das análises políticas dos dirigentes estudantis. Mas, obviamente, não tinha a mínima coragem de contestá-las publicamente. Simplesmente ouvia, entre perplexa e fascinada por aquela energia que jorrava na crítica ao regime e que parecia cheia de certezas sobre a eficácia do grito “abaixo a ditadura!”
Embora em 1968 já estivesse em construção, no bairro do Butantã, uma cidade universitária, os cursos de Ciências Sociais, Filosofia e Economia da USP ainda estavam em Higienópolis, perto do centro da cidade, na rua Maria Antônia, que se tornaria famosa em 1968 pela batalha campal contra um grupo de estudantes do Mackenzie ligados ao Comando de Caça aos Comunistas.
Logo nos primeiros dias percebi que entrava em outro mundo e me sentia um tanto estranha nele. Encontrei a Faculdade ocupada pelos estudantes, em luta pela admissão dos excedentes (os que haviam conseguido nota mínima no vestibular, mas não estavam classificados para ingresso pela escassez de vagas), por reforma universitária, pelo fim da cátedra (eu sequer sabia exatamente o que isso significava). As aulas demoraram para começar, os estudantes estavam em greve e a Maria Antônia era um turbilhão. A maioria de meus colegas havia feito curso preparatório para os exames vestibulares e isso fazia uma enorme diferença: além de um lugar de formação acadêmica para enfrentar as provas, os “cursinhos” eram, naquele momento, antes de mais nada, um espaço fundamental de socialização política.
O que ocorria nos corredores da antiga Faculdade de Filosofia era surpreendente e impactante para mim. Enquanto eu não tive “aula” no sentido convencional do termo, a inquietação e o aparvalhamento cresciam. Obviamente não percebia que as aulas estavam ali, na experiência dos corredores da casa centenária, nas assembleias e discussões e na rua, ponto de início de várias passeatas e protestos.
Nosso primeiro semestre foi bastante conturbado do ponto de vista acadêmico. As aulas começaram tarde em relação ao que era o calendário letivo usual e eram frequentemente suspensas para reuniões e assembleias, onde se faziam intensas discussões sobre reforma universitária, fim da cátedra, necessidade de comissões paritárias para rever relações de poder bastante hierarquizadas que marcavam a universidade. Também nelas se fazia a crítica ao regime e o chamado para participação nas manifestações.
Durante uma nova ocupação da universidade, que ocorreu em julho, alguns professores decidiram dar cursos de curta duração como forma de manter a constante presença dos alunos no prédio num período que normalmente era de férias. Não sei bem por qual razão, escolhi o módulo oferecido pela professora Maria Isaura Pereira de Queiroz, sobre messianismo. Possivelmente, em função de leituras anteriores e mal digeridas de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. Ela publicara havia pouco tempo seu livro Messianismo no Brasil e no mundo, muito comentado nos corredores. Encantei-me com o tema, com os estudos sobre o rural e com a figura carismática de Maria Isaura. Não mais abandonei o tema desde então, embora abordando-o, ao longo de minha trajetória, por diferentes lentes.
A orfandade intelectual a que eu e meus contemporâneos fomos condenados em 1969 pelos efeitos do AI-5 teve repercussões profundas sobre a formação acadêmica de toda uma geração. Não apenas perdemos a possibilidade de ter como professores os grandes mestres da Sociologia e da Ciência Política (Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Paula Beiguelman, Emília Viotti da Costa, entre outros), aposentados compulsoriamente no início de 1969, como também tivemos que conviver com a decorrente desestruturação relativa do curso e a mudança, no final do ano de 1968, da rua Maria Antônia, com todo seu simbolismo, para a Cidade Universitária, localizada do outro lado do rio Pinheiros, distante do centro e de seu burburinho.A perplexidade se abateu sobre os corredores da universidade que construía e prezava a imagem de maior centro de pesquisas e geração de conhecimento do Brasil, em especial no curso de Ciências Sociais.
Nesse contexto, ao longo do curso, o trabalho com as grandes correntes de pensamento das Ciências Sociais foi pouco sistemático, uma vez que as disciplinas básicas, a serem cursadas nos dois primeiros anos, foram duramente afetadas pela turbulência do período. Não por acaso, os cursos optativos de perfil teórico denso eram os mais demandados pelos alunos que tinham maiores pretensões acadêmicas. Dentre eles, dois tiveram especial peso na minha formação teórica: Teoria Política e Sociologia do Desenvolvimento. No primeiro, ministrado pelos professores Francisco Weffort e Lúcio Kovwrick, tive meu contato inicial com Gramsci, autor que leio e releio até hoje e que foi fundamental fonte de inspiração teórica na minha formação. No segundo, o professor Luiz Pereira introduzia uma reflexão sobre o caráter do capitalismo nas sociedades periféricas e apresentava criticamente o debate entre as diversas correntes sobre o tema. Naquele momento, ele terminara um de seus livros de maior repercussão, Ensaios sobre sociologia do desenvolvimento, e trazia para as aulas as reflexões que estava fazendo e os textos com os quais dialogava. Líamos Mannheim, Baran, Sweezy, Magdoff, entre outros. Para Luiz Pereira, a questão era superar as abordagens econômicas e produzir, como diz o título do livro, uma sociologia do desenvolvimento, buscando caracterizar o subdesenvolvimento (categoria em voga na época) como realização de um tipo macroestrutural, o capitalismo. Revendo hoje esse percurso, chama-me a atenção o fato de, apesar da amplitude das leituras, não lermos sistematicamente nesse momento aquele que já então era reconhecido como o grande sociólogo brasileiro e o criador do que depois veio a ser chamada de “Escola Paulista de Sociologia”: Florestan Fernandes.
Uma terceira disciplina marcou minha trajetória, mas por outro viés: a Sociologia Rural, oferecida pela professora Maria Isaura Pereira de Queiroz, então a grande especialista sobre o tema na USP. Essa opção, em 1970, significou, para mim, mais do que a perspectiva de um aprendizado teórico, a possibilidade de vivenciar uma experiência de pesquisa empírica e de retomar o contato com o tema que me encantara por ocasião de meu ingresso na universidade. O interesse pelo tema foi tão grande por parte de um grupo de alunosque a professora se dispôs, no ano seguinte, a nos oferecer uma nova disciplina, para abordar as concepções desenvolvidas pelos agricultores sobre o seu trabalho, sobre o Estado, suas relações com os demais setores da sociedade, entre outros temas.
Nas duas oportunidades, o interesse central era repensar o suposto atraso da agricultura, provocando a reflexão sobre o significado social da adoção ou não de inovações tecnológicas no processo de produção. Estávamos no início dos anos 1970 e a discussão fazia eco aos debates dos anos 1960, em especial ao livro de Caio Prado, a Revolução brasileira. Mas também repercutia a modernização que se adensava no campo e colocava questões-chave sobre os impasses da adoção de tecnologias em especial por pequenos agricultores, como os produtores de arroz nos polders do Vale do Paraíba.
Se as questões referentes ao meio rural desde logo despertaram meu interesse, havia uma evidente contradição entre a problemática desenvolvida especialmente por Luiz Pereira e a forma como as questões eram tratadas na disciplina Sociologia Rural, de caráter mais empírico. No curso de Sociologia do Desenvolvimento, a partir dos grandes paradigmas da sociologia, representados por Durkheim, Weber e Marx, bem como da leitura de Mannheim, procurava-se o instrumental teórico para entender o tema do desenvolvimento/ subdesenvolvimento e optava-se pela análise deste último como categoria histórica, realização de um tipo macroestrutural: o capitalismo. A pergunta básica era: o que faz com que áreas ou regiões capitalistas economicamente atrasadas se determinem como subdesenvolvidas? Essa era a porta pela qual era introduzida a problemática das classes sociais, dos movimentos políticos e do planejamento, entendido, sob a ótica de Mannheim, ou, na perspectiva de Luiz Pereira, como “forma histórica de controle social inovador, racional, indireto, especializado, centralizado e inclusive multidimensional” (Pereira, 1970: 15), capaz de permitir a construção deliberada da história, a partir, como afirmava Pereira, de possíveis historicamente dados. Por aí chegávamos também ao marxismo, apreendido não nas suas formulações gerais e abstratas, mas como caminho para entender a desigualdade de desenvolvimento entre países e regiões distintas, o papel do Estado e da planificação, entre outras questões. Fiel à tradição uspiana, no entanto, esse modelo não deixava de ser mesclado por elementos de outros paradigmas, especialmente Weber, no que se refere à construção de “tipos ideais”.
Em 1971, já no último ano da graduação, tinha claro que faria o mestrado para minha profissionalização como professora e pesquisadora, e buscava uma opção de tema de pesquisa. Tinha claro também o desejo de continuar estudando o meio rural mas sob uma outra ótica, distinta da que vinha exercitando com Maria Isaura Pereira de Queiroz. Buscava um olhar que partisse da abordagem marxista e me colocasse no campo de debates trazidos pela minha experiência com a Ciência Política e a Sociologia do Desenvolvimento. Por isso, procurei para me orientar o professor José de Souza Martins.
Martins, nesse momento, era bastante jovem (tinha pouco mais de 30 anos) e acabava de ser credenciado como professor da pós-graduação. Era ligado a Florestan Fernandes, a Luiz Pereira e às preocupações desses pesquisadores referentes às particularidades do capitalismo brasileiro. Embora já tivesse sido aluna de Martins na disciplina Sociologia I, quando do meu ingresso na FFCL/USP, e conhecido seu rigor, por vezes mesclado com rispidez em relação aos estudantes, ele se tornou uma possibilidade concreta de orientação quando o vi expondo, em 1971, numa reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Curitiba, um trabalho sobre frentes de expansão e frentes pioneiras, depois publicado no livro Capitalismo e tradicionalismo. Na comunicação se desenhava a abordagem que me fascinava e se contrapunha àquela de Maria Isaura Pereira de Queiroz: tratava-se de, a partir de um ponto de vista sociológico, entender “quais as relações sociais que tornam singular o sistema social na zona pioneira” (Martins, 1975: 44). Esta era compreendida como instauração de um empreendimento econômico, que tinha como ponto de partida a propriedade privada da terra, impondo a “mediação da renda da terra entre o homem e a sociedade” (Martins, 1975: 47). Nessa concepção estava embutida uma questão que me aparecia como central: as tensões de classe que emergiam com a transformação da terra em mercadoria, mas que eu só conseguia perceber, naquele momento, em termos bastante abstratos. Aprovada na seleção, comecei o mestrado em 1972.
Mas não concluí com Martins e sim na Ciência Política, com Braz Araújo.
EXPERIÊNCIAS DE PESQUISA
Primeiras experiências profissionais
Desde meados dos anos 1970 comecei a trabalhar profissionalmente como pesquisadora. Não tinha terminado sequer o mestrado, mas algumas oportunidades se abriram e tratei de explorá-las. Fui convidada, no final de 1975, a participar, como socióloga, de uma equipe de pesquisa interdisciplinar, no Departamento de Economia Rural da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), no campus de Botucatu da recém-criada Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). O objetivo da pesquisa, coordenada pelo recém mestre em Economia Rural pela Escola Superior de Agricultura, Luiz de Queiroz (Esalq/USP), e jovem professor do Departamento de Economia Rural da FCA/Unesp, José Graziano da Silva, era avaliar o peso da chamada “pequena produção” na agricultura brasileira, a partir dos dados do cadastramento das propriedades rurais realizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 1967 e 1972.Tal trabalho fora encomendado à equipe pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), entidade cuja existência eu desconhecia até então. A experiência dessa pesquisa foi muito importante para mim. Foi meu primeiro contato com uma equipe de tradições distintas de pensamento e multidisciplinar (agrônomos, economistas, sociólogos, extensionistas).
Naquele momento, investimos muito no trabalho com os dados estatísticos, fizemos um enorme esforço de elaboração teórica, mas não lembro de, em algum momento, nos termos perguntado e conversado sobre as razões que levaram a Contag a demandar esse estudo. Só bem mais tarde, no início dos anos 1990, numa aproximação com o Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da Central Única dos Trabalhadores (DNTR/CUT), é que fui perceber a importância política da questão, tanto no sentido de afirmar o peso econômico da categoria e buscar seu reconhecimento e políticas públicas que a protegessem, quanto no que ela refletia de esforço político interno de unificação da diversidade de segmentos que compunham o sindicalismo rural e de afirmação da importância da distribuição de terra, bandeira que a Contag alimentou desde o final dos anos 1960.
Também participava ativamente de um grupo que se reunia regularmente na Unicamp e discutia questões agrícolas e agrárias. Dele faziam parte José Graziano da Silva (que havia se transferido de Botucatu para o Instituto de Economia daquela Universidade, onde fazia o doutorado); Angela Kageyama, que havia sido minha colega de pesquisa em Botucatu; Renato Maluf, hoje meu colega no CPDA/UFRRJ; Sérgio Silva; Maria Nazareth Wanderley, que estava então chegando do exterior e depois se tornou minha orientadora de doutorado; Sonia Bergamasco, colega de departamento em Botucatu. Era um clima instigante de debate, num grupo pequeno (ironicamente chamado por alguns economistas da Unicamp de “grupo do matinho”) que também realizava reuniões maiores e seminários com pesquisadores de outras instituições. Nesse grupo, aprofundávamos a discussão sobre as mudanças pelas quais o campo brasileiro vinha passando, as transformações no trabalho e o aparecimento da agroindústria.
Além disso, ainda frequentava as reuniões na Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp), que estava sendo ativada na época e abrigava um grupo que envolvia jovens acadêmicos que tinham as questões do campo como seu objeto de pesquisa.
Em meados de 1978 fui convidada para ser professora e pesquisadora do então denominado Centro de Pós-graduação em Desenvolvimento Agrícola, que funcionava no antigo Solar da Marquesa, um local bucólico no final da rua Pacheco Leão, no Jardim Botânico, aos pés da Floresta da Tijuca. Era um curso novo, que começara a funcionar em 1976, ligado à Escola Interamericana de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (EIAP/FGV). Resultado de um convênio entre a Fundação Getúlio Vargas e a Secretaria de Planejamento Agrícola do Ministério da Agricultura (Suplan/MA), era uma experiência pioneira de curso interdisciplinar, temático e voltado prioritariamente para dar formação, nível de Mestrado, a técnicos do setor público agrícola.
O CPDA me ofereceu também outros espaços de discussão que foram fundamentais na minha formação. Quando cheguei, estava em fase final de negociação, pela Coordenação do Centro, um ambicioso e inédito projeto de intercâmbio que tinha por objetivo agrupar, em seminários regulares, pesquisadores dos mais diferentes pontos do país de forma a trocar suas experiências de pesquisa em torno do tema agricultura. A iniciativa, financiada pela Fundação Ford, foi batizada de Projeto de Intercâmbio de Pesquisa Social em Agricultura (Pipsa).Foi-me entregue a Secretaria do Projeto, o que significava não apenas um trabalho burocrático, mas principalmente de organização e incentivo dos grupos e reuniões.
Ali nascia uma experiência pioneira, que articulava os diferentes polos de produção acadêmica do país, não sem polêmicas: a proposta era de que nesse espaço fossem discutidos trabalhos ainda em andamento. Não se tratava de resultados de pesquisa, prontos para publicação, mas de textos em construção que quisessem se beneficiar do debate. Muitos deles eram projetos de dissertação ou textos/capítulos preliminares. Não faltou quem achasse que haveria riscos de “roubo de ideias” em iniciativas como essa. Mesmo assim, o projeto teve forte adesão de pesquisadores, tanto dos pouco conhecidos (os que, como eu, ainda estavam fazendo seus mestrados e davam seus primeiros passos na carreira acadêmica) quanto daqueles que já despontavam como nomes notáveis nas ciências sociais voltadas para as questões rurais, como é o caso de Aspásia Camargo, Beatriz Heredia, Lygia Sigaud, Maria de Nazareth Wanderley, Sonia Bergamasco… Do ponto de vista de minha formação tanto acadêmica como pessoal, a importância desses eventos foi enorme. Engajei-me, para além das tarefas organizativas do Pipsa, no grupo Movimentos Sociais.
Além das aulas e da coordenação do Pipsa, ao chegar ao Rio, retomei contato com lideranças sindicais que havia conhecido nas Reuniões sobre Mão de Obra Volanteem Botucatu e pude adentrar num novo universo: as lutas no campo, para além do que sabia delas a partir da leitura de textos e de pesquisa em jornais do período anterior ao golpe. Visitei, acompanhando o presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Rio de Janeiro, Eraldo Lírio de Azevedo, várias áreas rurais marcadas por conflitos, em especial Angra dos Reis, Cachoeiras de Macacu, Nova Iguaçu e Cabo Frio. Tive ainda a oportunidade de conhecer, com a intermediação de Eraldo, José Pureza da Silva, liderança de conflitos de terra nos anos 1950-1960 no estado, que também me convidou para ir com ele visitar algumas áreas. Em razão dos contatos com a Fetag/RJ, fui chamada a participar como observadora do III Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais, em maio de 1979. Os debates foram surpreendentes para uma jovem pesquisadora, que fazia seus primeiros contatos com a vida sindical rural. Lá conheci antigos militantes de base das Ligas Camponesas e os “pequenos produtores” que, até então, só me apareciam como reflexões teóricas e números nas estatísticas cadastrais do Incra. Percebi a força e complexidade das demandas por reforma agrária que percorriam minha dissertação de mestrado, então ainda em elaboração. Tomei conhecimento do vigor e capacidade de argumentação de algumas lideranças sindicais e vislumbrava ali um fértil campo de pesquisa.
Novas temáticas e investimentos de pesquisa
A partir de meados da década de 1990, dediquei-me também a explorar os debates sobre reforma agrária e assentamentos rurais, tema que ganhava grande visibilidade, em especial a partir do governo Fernando Henrique Cardoso, com o aumento das ocupações e pressões sobre o governo para efetivar desapropriações e assentar famílias. Nos anos que se seguiram, os assentamentos rurais tornaram-se meu objeto de pesquisa privilegiado. Ainda em 1997, Sérgio Leite (então professor recém-concursado) e eu apresentamos um projeto a um edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) propondo-nos a analisar o impacto dos assentamentos rurais em algumas unidades da Federação, situadas em diferentes regiões do país e com características bastante diversas: Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Acre e Sergipe. Além dos resultados econômicos, interessava-nos estudar as transformações na situação das famílias e as relações entre os assentamentos e o poder local (prefeituras, vereadores, grupos políticos locais), buscando entender como as ações do governo federal, que muitas vezes se faziam sem consultas a esses atores, provocaram significativos rearranjos na política local, em especial em pequenos municípios.
O primeiro resultado foi publicado como livro pela editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na coleção Estudos Rurais, em 1999, e reeditado em 2009. Nele, fazíamos um percurso histórico da configuração da questão agrária nas diferentes unidades da Federação estudadas, de forma a entender as condições particulares de cada uma delas e suas implicações sobre o perfil dos assentamentos. Depois, publicamos outra coletânea, com alguns dos resultados finais, mas com preocupações menos abrangentes, no sentido de que cada equipe contribuiu com um texto que explorava diferentes dimensões da pesquisa, sem um roteiro comum, como foi no caso anterior.
O tema dos assentamentos e suas vicissitudes ainda resultou em três outros investimentos. Por demanda de Osvaldo Russo, do recém-criado Núcleo de Estudos Agrários e do Desenvolvimento, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (Nead/MDA),realizamos, logo a seguir, Sérgio Leite e eu, desta vez em colaboração com Moacir Palmeira, Beatriz Heredia e Rosângela Cintrão, uma pesquisa intitulada “Os impactos regionais da reforma agrária: um estudo a partir de áreas selecionadas”. Levada adiante entre janeiro de 2000 e dezembro de 2001, foram selecionadas para estudo algumas áreas de grande concentração de assentamentos. Com isso, pretendíamos ter um ponto de partida diferente do projeto anterior, valorizando não unidades da Federação e sua diversidade, mas as implicações da própria concentração de assentamentos em determinados territórios. O suposto era que a concentração, em si mesma, poderia ser um fator potencializador de impactos. A análise incidiu sobre os impactos econômicos da produção dos assentados, condições de vida, organização familiar, demografia regional, estrutura fundiária, participação política em organizações diversas.
Naquele momento, era o processo molecular que nos interessava. Mais do que apontar fracassos ou sucessos, buscávamos identificar mudanças, a partir da comparação entre a situação daquele momento e a anterior, seja no plano local, seja na trajetória das famílias.
Ainda no que eu poderia chamar de ciclo de pesquisa sobre assentamentos, um novo investimento foi no estado do Rio de Janeiro, por uma equipe coordenada por Sérgio Leite, Afrânio Garcia, Mario Grynszpan e por mim. O projeto, intitulado “Assentamentos rurais em perspectiva comparada: análise das dimensões econômica, social, política e ambiental”, foi financiado pela Fundação Ford e iniciou-se em 2000. Tratava-se de um estudo comparativo de quatro assentamentos localizados em pontos diferentes no estado do Rio de Janeiro e com características bastante distintas. A pesquisa pretendia fazer uma análise mais fina das vivências dos assentados e investigou o processo histórico que deu origem a esses assentamentos, as condições econômicas dos assentados (por meio da análise de orçamentos domésticos), as formas de sociabilidade e poder e as dimensões culturais envolvidas na sua constituição.
Sindicalismo e movimentos sociais rurais
Em meados dos anos 1990, logo após finalizar o doutorado, fui convidada por Regina Novaes para dividir com ela a coordenação de uma pesquisa sobre sindicalismo rural, encomendada pela CUT e pela Contag. Com a filiação da Contag à CUT, no congresso da Contag de 1995, desenhou-se um grande projeto de formação de lideranças, a ser desenvolvido em três anos. A primeira fase, de um ano, envolveria um diagnóstico de estratégias locais de desenvolvimento, a ser feito por uma equipe coordenada por José Eli da Veiga, então professor da USP, e também uma análise do sindicalismo rural brasileiro nos anos 1990, a ser coordenada por Regina Novaes e por mim. O objetivo era obter subsídios para a elaboração de um projeto de “desenvolvimento rural sustentável”, que era chamado pelo sindicalismo de “alternativo”. O projeto foi extremamente rico, na medida em que me permitiu não só voltar ao contato com o sindicalismo, como atualizar algumas concepções e perceber importantes mudanças internas com a ascensão na direção de segmentos da agricultura familiar e deslocamento dos assalariados, mas também, em alguma medida, da luta por terra.
A partir de 2003, com as pesquisas sobre assentamentos finalizadas ou em fase final, retornei à investigação mais sistemática sobre movimentos sociais. Para tanto, precisava aprofundar a reflexão teórica. A disciplina Sociologia Política que então criei como optativa da Linha de Pesquisa Movimentos Sociais do CPDA/UFRRJ foi fundamental para isso.Nesse momento, havia me tornado bolsista de produtividade do CNPq e também fora contemplada com um auxílio do Programa Cientistas do Nosso Estado da Fundação Carlos Chagas Filho de Apoio à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj). Isso criava novas condições para o trabalho, inclusive me permitindo recursos para apoiar os trabalhos de orientandos e fortalecer o Núcleo de Movimentos Sociais.
Incursões nos estudos sobre o agronegócio
Sempre dividida entre pesquisas sobre movimentos sociais e sua inter-relação com políticas públicas, acabei participando de outro projeto que me levou a atualizar reflexões feitas, em diversos momentos de minha trajetória, embora sem principalidade, sobre as classes dominantes no Brasil rural. Trata-se da pesquisa “Sociedade e economia do agronegócio. Um estudo exploratório”, financiada pela Fundação Ford e coordenada por Beatriz Heredia, Moacir Palmeira, Sergio Leite e por mim. O estudo buscou analisar os processos sociais, econômicos e políticos que marcaram a expansão do chamado “agronegócio” no meio rural brasileiro.
Esses investimentos me deram chaves importantes para refletir sobre a dinâmica da representação política do setor, bem como para pensar a importância social e política de pequenos, médios e grandes empresários da soja, que disputam entre si (no caso dos pequenos, trata-se da sobrevivência no ramo), mas que parecem comungar de uma mesma concepção de mundo.
Trabalhadores, repressão e resistência
Meu investimento na história das lutas sociais no campo, sob diferentes dimensões, levou-me a uma aproximação com outra temática que, de alguma forma, estava presente em trabalhos anteriores, mas não com principalidade: os conflitos fundiários e trabalhistas na ditadura, pouco explorados na bibliografia corrente.
Em 2012, realizou-se em Brasília o Encontro Unitário dos Trabalhadores das Terras, das Águas e da Floresta. Nele, entre outros assuntos, foi pautada a necessidade de uma investigação dos crimes contra camponeses cometidos ao longo da ditadura. Não por acaso, uma vez que poucos meses antes a Comissão Nacional da Verdade (CNV) começara a operar. A partir dessa proposta, um grupo de acadêmicos, a Contag e o MST montaram uma equipe que se autointitulou Comissão Camponesa da Verdade e se dispôs a buscar informações sobre violações de direitos humanos na ditadura militar. Essa comissão articulou-se com o GT sobre Camponeses e Indígenas da Comissão Nacional da Verdade e dele recebeu apoio, na forma de passagens para reuniões em Brasília, todas elas realizadas na sede da Contag.
Ao mesmo tempo que a CNV realizava seu trabalho, instalou-se (como ocorreu em diversos estados do país) a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro. Os membros da Comissão articularam uma parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro, de modo que esta agência lançasse um edital para selecionar projetos direcionados a temas relacionados a direitos humanos que pudessem subsidiar os trabalhos da CEV-Rio. Apresentei um projeto voltado para pesquisa sobre violação dos direitos no campo e fui contemplada.
Desde que comecei a pesquisa, o tema me capturou e a ele tenho me dedicado desde então. Vários orientandos meus exploraram (ou ainda estão explorando) questões não aprofundadas na pesquisa ou mesmo expandindo as reflexões para áreas correlatas, como é o caso da relação entre campesinato e as tentativas de criar focos de guerrilha no meio rural, ou dos projetos de colonização na ditadura, em especial os criados nos primeiros anos do regime militar e pouquíssimo conhecidos.
Trabalho com acervos documentais
O relato das minhas atividades de pesquisa não se completa sem uma descrição, mesmo que breve, de seu resultado mais precioso para mim: a constituição, no CPDA/UFRRJ, de um centro de documentação, destinado a preservar tanto material de pesquisa como a própria memória de parcelas dos trabalhadores do campo. O ponto de partida foi o material documental que acumulei durante as pesquisas que já tinha feito.
Esse investimento me levou a dialogar sobre algumas técnicas básicas de tratamento de acervos, mas principalmente refletir do ponto de vista teórico e metodológico sobre o que significa um arquivo voltado para o mundo do trabalho. Meus investimentos nesse campo foram reforçados pelas discussões que tiveram lugar nos seminários intitulados “O mundo dos trabalhadores e seus arquivos”, antes mencionados. Participei de todas as edições, quer como expositora, quer organizando grupos de trabalho. As trocas de experiências com Vicente Rodrigues e Inez Stampa, responsáveis pelo projeto “Memórias reveladas” do Arquivo Nacional, com Antonio Marques, do Centro de Documentação da Central Única dos Trabalhadores, e com Elina Pessanha, do Arquivo da Memória Operária do Rio de Janeiro (Amorj), foram centrais para a melhoria de algumas atividades, mas principalmente para reforçar minha convicção sobre a importância de acervos desse tipo.
Nota
[1] Excerto do Memorial intitulado Percursos acadêmicos e envolvimentos profissionais: dimensões da questão agrária brasileira através de uma biografia, publicado em Kato, Karina; Medeiros, Leonilde S. de (orgs.), Memórias e trajetórias acadêmicas: o rural como reflexão e de vida. v. 3. Seropédica: Ed. da UFRRJ, 2023. Disponível em https://institucional.ufrrj.br/portalcpda/volume-3-memoriais-docentes-cpda/
Referências
Pereira, Luiz. (1970). Ensaios de sociologia do desenvolvimento. São Paulo: Pioneira
Martins, José de Souza. (1975). Capitalismo e tradicionalismo. São Paulo: Pioneira.