Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | José Ricardo Ramalho

No post de hoje da série Modos de narrar a sociologia brasileira, trazemos os relatos de José Ricardo Ramalho (UFRJ) e Leonilde Servolo de Medeiros (UFRRJ), que dialogam e se somam para colocar em foco o mundo dos trabalhadores urbanos e rurais.

Ao narrar os “princípios” (na múltipla acepção da palavra) de sua trajetória vocacionada ao estudo do processo do trabalho e da classe trabalhadora – área da qual se tornaria um dos expoentes na sociologia brasileira –, o recorte feito por José Ricardo dá também um testemunho pungente da vida universitária nos “tempos difíceis” da ditadura militar, revelando que as Ciências Sociais foram para ele, mais do que uma mera escolha profissional, uma opção política e militante pela resistência e o enfrentamento à repressão e à opressão.

Leonilde, por sua vez, relata seu percurso marcante – que alia pesquisa e atuação politicamente consequentes – na área da sociologia rural. Desde a descoberta do tema nas aulas de Maria Isaura Pereira de Queiroz na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, acompanhamos através de sua narrativa a formação de um robusto programa intelectual voltado para o rural, que compreende o estudo das tensões de classe geradas pela transformação da terra em mercadoria, as lutas por reforma agrária, os assentamentos rurais, o sindicalismo, o agronegócio, a violação dos direitos no campo e a constituição – no CPDA/UFRRJ, onde fez sua carreira – de um centro de documentação destinado a preservar tanto material de pesquisa quanto a própria memória de parcelas dos trabalhadores do campo.

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Desejamos a todas e todos boa leitura!


Memorial (1999)

José Ricardo Ramalho (UFRJ)

Ciências Sociais, em tempos de repressão

No contexto de uma realidade marcada pela desigualdade e pela dura repressão dos anos 1960/70, as Ciências Sociais adquiriam uma importância que ultrapassava a simples escolha de uma profissão e desafiavam a trabalhar na produção de um conhecimento que fosse claramente um instrumento de intervenção. Foi assim que a escolha da Sociologia se colocou para muitos de nós que ainda secundaristas participávamos das grandes passeatas de 1968.

No início de 1970, comecei a graduação na mesma Faculdade que, já agora, depois da Reforma Universitária, passava a ser o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Era a primeira turma a funcionar no prédio da antiga Escola Nacional de Engenharia, no Largo de São Francisco.

Sob repressão, não preciso dizer que foram tempos difíceis para todos, alunos e professores. Para nós estudantes, muitos hoje colegas de trabalho no IFCS, os quatro anos foram um período de formação importante, apesar dos muitos obstáculos. Pelo lado da sociabilidade, configurou-se uma situação em que experimentávamos, ao mesmo tempo, a construção de fortes laços que nos uniam na resistência comum às ameaças que se impunham (pessoas estranhas, portando armas, travestidas de estudantes, dentro das salas de aula) e o exercício extremado das divergências políticas sobre o melhor caminho para enfrentar a ditadura. O espaço acadêmico, portanto, encontrava-se totalmente contaminado pela política. As discussões entre nós ficavam marcadas pelas posições basicamente marxistas que faziam parte das explicações sobre a realidade que fundamentavam estratégias implementadas pelos grupos políticos de esquerda. Nem todos estavam familiarizados com esse debate, embora ele fosse norteador da classificação que se fazia dos professores a partir de seus enfoques e da bibliografia que escolhiam para os seus cursos.

A matriz de explicação marxista foi o ponto de partida das minhas primeiras leituras sistemáticas. Os primeiros conceitos norteadores da reflexão foram inevitavelmente “modo de produção”, “infra e superestrutura”, “luta de classes”. Talvez mesmo por causa da proibição que pairava sobre eles, Marx, Engels e os demais autores dessa corrente, especialmente os estruturalistas, como Louis Althusser e Nicos Poulantzas, foram lidos e relidos. E se incorporaram ao discurso assumido nos trabalhos e nas intervenções em sala de aula, até mesmo como um ato de desafio ao regime. Nessa época, a leitura do mundo passava necessariamente pela análise marxista e outras metodologias tinham sempre que sofrer a crítica dessa visão. No entanto, o curso de graduação me deu oportunidade de estudar outros autores e conhecer outras perspectivas, e em nenhum momento estive fechado a outras formas de explicação científica.

Para os professores também eram tempos difíceis tendo que fazer face aos interventores que ocupavam os cargos de direção. O Departamento de Ciências Sociais, especialmente, sofria com a cassação de seus melhores quadros em 1964, e com o controle político permanente exercido sobre os que permaneceram e sobre os novos professores que aos poucos foram começando a recompor o quadro docente. Foi uma geração que exerceu seu ofício entre a restrição à liberdade imposta de dentro da instituição e a cobrança implacável dos alunos com respeito a um posicionamento político explícito contra a ditadura. Muitos deles se defrontaram com essa situação oferecendo o que de melhor podiam trazer das disciplinas que lecionavam, sem nunca trair os valores que nos eram mais caros.

Com esses professores aprendi o que podiam dar de melhor – ora através do conhecimento de teoria social, especialmente dos clássicos, ora através de suas experiências de pesquisa junto aos mais variados grupos sociais.

Nesse contexto, tive oportunidade de, através de trabalhos de curso, sair entrevistando pessoas e começar a enfrentar as questões que estavam presentes nos vários textos que era estimulado a ler. A presença de jovens antropólogos na docência colocou a Antropologia como uma novidade para os que só pensavam em termos de análises marxistas. Trouxe também um instrumental diferente para viabilizar um contato com a realidade e com as classes trabalhadoras. Portanto, ler e discutir Lévi-Strauss, Malinowski, Radcliffe-Brown, Leach, Godelier significou uma revelação na época e parecia nos oferecer os instrumentos de aproximação muito maior com nosso objeto de pesquisa. Associada à leitura desses autores fizemos também com os professores do IFCS a discussão dos sociólogos da escola paulista, fornecendo elementos para conhecer o Brasil e as classes populares – Florestan Fernandes, Caio Prado Júnior, Octavio Ianni, Antonio Candido, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Fernando Henrique Cardoso, Leôncio Martins Rodrigues, Juarez Brandão Lopes, José Albertino Rodrigues.   

Devo reconhecer a importância dos professores que nos propiciaram espaço de liberdade de expressão nos quais realizávamos verdadeiros happenings em vez de simples seminários que assim se transformavam em demonstrações simuladas de protesto contra as condições de opressão que estávamos vivendo. Música, galhofa e literatura, tudo misturado com o texto de sociologia a ser debatido em classe, permitia a um bom grupo de alunos escapar do marasmo imposto pela repressão buscando sempre soluções criativas para movimentar os cursos menos interessantes e suscitava uma intensa sociabilidade que nos permitia suportar (mas nem sempre) aquela realidade que às vezes significava “perder” um colega, desaparecido no período de férias.

Sociologia e militância política nos anos 1970

Tornar-se um cientista social naquela época passava também pela necessidade de exercer algum tipo de militância que auxiliasse um processo de transformação social. Isso certamente incluía manter contato com os trabalhadores, agentes potenciais da transformação. Ainda enquanto estudante de Ciências Sociais estive engajado em duas atividades que já apontavam nessa direção: em primeiro lugar, o trabalho de educação popular junto aos moradores da favela do Catumbi, no Rio de Janeiro. Eu e um grupo de amigos, muitos colegas do IFCS, nos oferecemos para trabalhar voluntariamente em um curso de preparação para o “Artigo 99”, nome dado à possibilidade legal de obter, através de um exame do MEC, diploma de primeiro grau para estudantes mais velhos ou que tinham parado de estudar.

A responsabilidade de organizar e coordenar o curso, nos obrigou a estudar as disciplinas tradicionais da escola de primeiro grau e nos empurrou para o desafio de ensinar. Acima de tudo, no entanto, o convívio com aqueles trabalhadores, homens e mulheres, jovens e velhos, que compareciam regularmente às nossas aulas noturnas, revelou, na prática, as dificuldades impostas pelas barreiras de classe e mostrou que o diálogo com os trabalhadores não era tarefa tão fácil de se cumprir.

A outra atividade militante, na verdade, se confundiu com minha iniciação à pesquisa em Ciências Sociais. A proximidade familiar com o trabalho de resistência construída por setores progressistas das Igrejas católica e protestante – o que em seguida viria a se constituir no Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) –, e a minha busca pessoal por um contato permanente com a realidade social brasileira me deslocaram durante dois períodos de férias escolares para o interior de Goiás, como assistente de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Goiás a pedido da Diocese de Goiás, através de seu bispo D. Tomás Balduíno.

Foi então que conheci o antropólogo e poeta Carlos Brandão, com quem realizei longos períodos de trabalho de campo e aprendi muito. Durante meses a fio estivemos percorrendo o interior de Goiás. Com minha vivência essencialmente urbana e com gostos urbanos, me surpreendi com a riqueza cultural das regiões por onde andei. Talvez por essa razão, e por ser originário também do Rio de Janeiro, Brandão me atribuiu na primeira parte da pesquisa a responsabilidade de cuidar do setor referente às formas de trabalho no pequeno lugarejo em que ficávamos. Assim, no primeiro volume da pesquisa, posteriormente publicado pela Universidade Federal de Goiás, abordei o tema das alternativas do trabalho urbano em uma sociedade rural. A ideia foi inicialmente caracterizar o “concentrado urbano” no campo, seu papel como mercado, como introdutor de produtos industrializados (acabando com as atividades artesanais) e como local de moradia de trabalhadores rurais, expelidos das fazendas e transformados em trabalhadores diaristas, o que barateava a aquisição de mão-de-obra para o trabalho nas lavouras. Aprender a pesquisar, aprender a fazer entrevista, a controlar as impressões, a observar e a descrever os ambientes e as condições fazem parte do nosso ofício, e posso afirmar que o gosto por isso eu adquiri em grande parte nessa época em Goiás.

Passei também por experiências únicas, em particular aquela em que após entrevistarmos um dos fundadores da pequena cidade na qual nos hospedávamos, sem saber que ele estava ameaçado de morte por fazendeiros poderosos da região, fomos tomados por pistoleiros de aluguel. Dessa não sei como escapamos, afora algumas coincidências providenciais que nos desviaram do caminho em que o ameaçado nos procurou de arma em punho e de algumas pessoas da região que esclareceram, antes do encontro fatal, o equívoco que esse senhor estava cometendo. Na verdade, parte da cidade ficou em dúvida se éramos mesmo pistoleiros, o que nos deu a oportunidade, passado o grande susto, de entrevistar as pessoas sobre como seria o nosso próprio fim, e sobre o tema da violência no cotidiano da comunidade que até aquele momento teimava em ficar escondido até das nossas conversas informais.

Pós-graduação – os laços com a USP

Formado no Rio de Janeiro, optei por fazer meu mestrado na Universidade de São Paulo, por várias razões. Estava decidido a investir no estudo das classes trabalhadoras, em especial na questão dos marginalizados. Na época, a discussão sobre a teoria da marginalidade na América Latina aparecia com bastante ênfase no debate sociológico, os textos de Aníbal Quijano e José Nun eram muito utilizados e alguns sociólogos brasileiros também participavam do debate. A economia brasileira: crítica à razão dualista, de Francisco de Oliveira, marcou época e influenciou muito as novas interpretações; e as teses de Luiz Antônio Machado da Silva e Lúcio Kowarick me deram os fundamentos para ousar entrar numa variação desse tema da marginalidade – o lugar do “crime” nas estruturas marcadas por desigualdades sociais profundas dos países na América Latina e no Brasil. “Crime e marginalidade no meio urbano brasileiro” foi o nome do projeto de pesquisa de mestrado, apoiado por uma bolsa de estudos da FAPESP, para ser desenvolvido sob orientação da professora Ruth Correa Leite Cardoso. Mudei-me para São Paulo e experimentei a condição de ser um estudante de pós-graduação em tempo integral.

A mudança para São Paulo trouxe muitas novidades. Entre elas um novo círculo de amigos e interlocutores, em especial Carlos Alberto Ricardo e Fany Ricardo, antropólogos com os quais iria me reencontrar mais tarde em trabalhos de assessoria. Estudar na USP me deu uma fantástica sensação de estar pela primeira vez experimentando uma vida universitária. Passava os dias inteiros no campus, frequentando os cursos, biblioteca, participando de reuniões de trabalho e outras atividades da pós-graduação. Os cursos que escolhi tiveram um efeito benéfico para minha integração. Não posso deixar de mencionar o conhecimento que adquiri sobre Gramsci nas aulas sempre brilhantes de Francisco Weffort. Ali se congregavam alunos de mestrado e doutorado e as discussões eram acirradas e democráticas.

As aulas de Sociologia Urbana de Lúcio Kowarick confirmaram para mim o interesse no debate sobre os “marginalizados”, trazendo à baila a temática das cidades. Foi em uma aula de Kowarick que decidimos juntos não nos calar sobre o assassinato de Wladimir Herzog nos porões do DOI-CODI de São Paulo. Interrompemos a aula e fomos todos para a famosa missa na catedral da Sé, manifestar a nossa indignação. Era o ano de 1975.

Sob orientação de Ruth Cardoso tive contato com uma literatura antropológica fundamental para a construção metodológica do meu objeto de pesquisa. Mas Ruth, além das aulas, promovia encontros entre os seus orientandos para discutir o andamento das pesquisas de cada um, o que passava aos que estavam começando uma enorme confiança e o estímulo da boa interlocução.

Mas, para estudar o “crime” na perspectiva que eu havia traçado, se impunha a necessidade de falar com aqueles aos quais eram imputados “crimes” de um modo geral. Mas como contactá-los? Desde o início a ideia era recorrer aos participantes do mundo do crime ainda nas ruas, mas isso esbarrava na extrema dificuldade de estabelecer um contato frequente, além da questão da segurança pessoal. A partir do momento que tive acesso à Casa de Detenção de São Paulo, decidi estudar o “crime” dentro da cadeia. Foram cerca de quinze meses de visitas frequentes ao maior presídio da América Latina, onde realizei várias entrevistas gravadas com os presos. Isso representou um grande desafio para mim. Naquele tempo, pesquisadores eram vistos com suspeição pela própria instituição e pelos presos. E abordar a criminalidade através desse tipo de instituição total, na linha de pensamento de Erving Goffman, trouxe novos elementos para a proposta inicial da investigação, já que a discussão sobre criminalidade passava agora, também, pelas regras existentes na instituição.

À medida que realizava o trabalho, fui descobrindo gradativamente um outro lado das velhas hipóteses sobre as causas do “crime” e dos “criminosos”, um lado “positivo” da existência do crime que tinha implicações para a manutenção do sistema social. As características da “delinquência” e os indícios do “crime” se relacionavam com as características e indícios da pobreza. O modo de identificar um “delinquente” estava sempre muito mais referido a aspectos próprios das pessoas enquanto membros desses grupos sociais do que à evidência de delitos cometidos por eles. Vigiar e punir, de Michel Foucault, sobre a história das prisões, foi extremamente oportuno nesse estágio do trabalho. Foucault me permitiu fazer o retorno a uma análise mais geral sobre as ligações do sistema penitenciário com o desenvolvimento do sistema capitalista, sem ter que minimizar o valor elucidativo da análise dos dados obtidos através do estudo de caso.

O produto final dessa pesquisa resultou na minha dissertação de mestrado, que contou com a interlocução e a influência decisiva de Neide Esterci. Criminalidade era um tema pouco explorado nos estudos de Ciências Sociais naquela época e o tipo de abordagem era original nos quadros da produção brasileira sobre o tema. Tanto é verdade que quando minha dissertação se transformou no livro Mundo do Crime – a ordem pelo avesso (Graal, 1979 e 1983) passei uma boa parte dos anos seguintes falando em diversos lugares e órgãos da imprensa sobre o assunto.

Trabalho e trabalhadores

A classe trabalhadora brasileira sempre fez parte das minhas preocupações. Mesmo quando investigava a criminalidade e os presos, essa questão se colocava. No entanto, prosseguir com o tema do mestrado parecia mais aconselhável em termos de carreira acadêmica. Abandonar o tema naquele momento significava, de certa forma, começar tudo de novo. Optei pelo desafio.

A conjuntura do final dos anos 1970 e início dos 1980 era de movimentação operária e sindical. A onda grevista que marcou o Brasil nessa época tinha como núcleo básico os metalúrgicos do ABC paulista e representou uma efetiva oposição não só ao patronato e às leis que controlavam as atividades dos sindicatos, mas também ao próprio regime militar.

Passei a combinar pesquisa e assessoria. Era o tempo de ascenso dos movimentos populares, da multiplicação das organizações não governamentais e da ampliação do seu papel. A partir do final dos anos 1970 e durante boa parte dos anos 1980 atuei no trabalho de assessoria aos movimentos populares através do Centro Ecumênico de Documentação e Informação – o CEDI. Não foi fácil conjugar as exigências de um contato direto com os agentes sociais, o trabalho docente na universidade e a pesquisa na pós-graduação. Procurei a todo custo não abandonar nenhuma dessas instâncias, o que na maior parte do tempo me custou questionamentos de todos os lados. No entanto, esse convívio foi extremamente útil para um trabalho acadêmico dedicado aos estudos do trabalho e das organizações sindicais.Durante quatro anos mantive contato permanente com a Igreja Católica e os movimentos sociais de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o que me proporcionou conhecer na prática os problemas dos trabalhadores nas suas fábricas e nos bairros em que moravam. Não eram só os baixos salários e o autoritarismo das chefias, mas também as condições de saúde, a educação e a segurança pública. Participei de campanhas políticas, movimentos de reivindicação por passarelas e me envolvi no movimento grevista de 1981 da FIAT Caminhões. O tema de minha pesquisa de doutorado surgiu no processo de elaboração da publicação Aconteceu Especial, “Fiat 1981 – Uma greve pelo direito ao trabalho” (CEDI). Ao entrevistar as lideranças da greve, descobri um mundo muito mais complexo e interessante que ia além do movimento grevista em si. Ao entrevistar os operários antigos percebi que havia muitas menções a um passado em que o padrão de relações com os trabalhadores era considerado melhor; e também que um movimento sindical ativo teria sido praticado no período anterior ao golpe militar de 1964.

A referência a esse passado despertou minha curiosidade sociológica, principalmente porque eu não conseguia aceitar, mesmo naquele contexto de luta política, as acusações de “medrosos”, “reacionários” que se faziam. Aquelas breves indicações sobre o passado me haviam deixado convicto de que o que estava sendo denominado “reacionarismo”, na verdade, apontava para uma necessidade de entender, de forma mais complexa, o processo pelo qual se definem os papéis desempenhados dentro de uma cena política, compreendendo-se aí as ações políticas em um sentido amplo que inclui as pequenas manifestações de resistência ao processo de dominação – o qual, no caso da FNM [Fábrica Nacional de Motores], se configurava não só no processo de trabalho e na esfera de domínio do capital, mas também fora da fábrica, na esfera da reprodução social do trabalhador, através do controle das vilas operárias e da “cidade” construída para servir à fábrica. Percebia que a definição de política, de participação política ou mesmo de consciência de classe, por parte dos mais engajados na ação política, não captava a dimensão desse processo de tomada de consciência que se constrói no dia a dia do processo de trabalho, nos conflitos com os superiores, nas relações de amizade e de vizinhança, na consolidação de relações sociais formadoras de uma cultura da classe operária e de uma consciência de identidade e de posição na sociedade hierarquizada.       Foi partindo de tal concepção mais ampla de política, voltada para a construção de uma identidade de classe, que resolvi, tomando como base o depoimento dos trabalhadores mais antigos, muitos dos quais haviam participado da própria construção da fábrica na década de 40, investigar o passado da fábrica, mais particularmente o período em que ela pertenceu ao Estado e foi conhecida nacionalmente pela sigla FNM.

Nessa época estava preocupado em trazer mais elementos para a discussão sobre as diferentes formas de dominação utilizadas na história da indústria brasileira e também em estudar as formas de resistência postas em prática pelos trabalhadores. Fruto de uma conjuntura de guerra, a FNM passou, no período de sua construção, por uma fase de militarização das relações de trabalho, na qual, em contrapartida ao respeito que a fábrica mantinha quanto à legislação trabalhista, exigia dos trabalhadores um comportamento marcado pela obediência à hierarquia e aos desígnios do seu comandante, um brigadeiro da aeronáutica que congregava poderes inclusive para prender os considerados infratores. O modelo de dominação que se constituiu apresenta algumas características relacionadas com a conjuntura da época. O rigor disciplinar, o apelo ao patriotismo, o projeto de uma “cidade dos motores” autossuficiente em alimentação e moradia, todos esses aspectos foram acionados e conferiam uma particularidade significativa à FNM. A própria gestão do brigadeiro, marcada pela “personalização” das relações estabelecidas com os trabalhadores, revelava traços de formas de dominação existentes em muitas empresas privadas, embora a fábrica mantivesse uma estrutura burocratizada e militarizada.

Superada, no entanto, essa fase de militarização, a FNM, transformada em Sociedade Anônima (1947) e adaptada à indústria automobilística, reproduz basicamente um esquema tradicional de dominação no que se refere à fábrica com vilas operárias, exercendo domínio sobre a esfera da reprodução social dos trabalhadores. A fase da FNM como parte da indústria automobilística representa o seu período de existência mais importante e significa também a concretização efetiva do modelo de dominação que começou a se implantar na época de sua construção. Embora variando suas características – a militarização e os acampamentos de solteiros, na primeira fase; o controle civil e as vilas operárias, na segunda fase – em toda a sua história como fábrica estatal, a FNM guardou a intenção de fazer daquela organização uma “escola” para a formação de uma força de trabalho disciplinada e treinada para as atividades fabris.

Assim, quando “a política invade a FNM”, nos anos 60, e esse modelo de dominação é colocado em xeque pelos operários organizados, acaba-se manifestando uma oposição ao movimento sindical pelo fato de estarem os trabalhadores convencidos de que os “benefícios sociais” oferecidos pela fábrica ao longo dos anos eram sinais evidentes de sua “boa intenção” com os trabalhadores.

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