Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | Jacob Carlos Lima

Chegamos à sexta dupla de posts da série Modos de narrar a sociologia brasileira, que se propõe a contar uma história mais plural, descentrada e contingente dessa área do conhecimento a partir de excertos de memoriais acadêmicos selecionados pelos próprios autores-atores que a praticam. Hoje compartilharão nossas páginas os relatos de Marcelo Ridenti (Unicamp) e Jacob Carlos Lima (UFSCar). 

O recorte feito por Ridenti narra sua formação entre as Ciências Sociais e o Direito e ao mesmo tempo on the road, na condição de “turista aprendiz”, em viagens pela Europa, as Américas, o Brasil, línguas, livros e filmes que o levaram a desenvolver certa “estrutura de sentimentos” anticapitalista e uma perspectiva sociológica interdisciplinar que não separa o conhecimento da ação política, orientada pela “convicção de que a obra de Marx continua sendo a referência clássica mais adequada para pensar nosso tempo”. Jacob, por sua vez, ressalta como o trabalho – tema de que se tornaria um dos principais especialistas na sociologia brasileira – é condição e parte constitutiva de sua trajetória, marcada pelo desejo de “estudar a sociedade em sua historicidade” e compreender as dinâmicas de longa duração de funcionamento do capitalismo. Dos trabalhadores rurais à formação cotidiana da identidade e das redes sociais do operariado industrial, a agenda de pesquisas construída por Jacob permite também mapear os diversos grupos de pesquisa que constituem o campo de estudos do trabalho no Brasil. Em ambas as narrativas, vemos em operação aquela “qualidade intelectual básica para sentir o jogo que se processa entre os homens e a sociedade, a biografia e a história, o eu e o mundo”, de que fala Wright Mills

Para conferir a apresentação e demais posts da série clique aqui.

Desejamos a todas e todos boa leitura!


Memorial (2006)

Jacob Carlos Lima (UFSCar)

1. O início: a Universidade Federal da Paraíba

Foi na Universidade Estadual de Campinas, em 1981, por mero acaso, que vi o edital de concurso público da Universidade Federal da Paraíba para professor auxiliar – graduado em Sociologia, Ciência Política e outras disciplinas. Não pensei duas vezes. Estava no segundo ano de formado e as perspectivas no ensino médio, do qual era professor, eram desanimadoras: escolas degradadas, professores e alunos desmotivados e desinteressados, baixos salários, violência nos colégios. Também não existia a disciplina Sociologia no ensino médio e então eu ministrava História, Geografia, Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e qualquer outra “matéria” que inventassem para algo assemelhado a humanidades.

No início do segundo semestre de 1981, tinha sido chamado pela Universidade Federal do Acre, para a qual enviei um currículo por sugestão de uma colega de mestrado que tinha sido contratada pela UFAC. Teria que assumir os encargos docentes, imediatamente, mas como eu estava finalizando os créditos do mestrado, declinei do convite e, em dezembro, junto com um colega de graduação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP), Ivo Ferreira Brito, tomei um ônibus da Itapemirim e prestei o concurso na UFPB: eu na Sociologia e ele na Ciência Política. Os pontos do concurso chegaram à véspera de pegarmos o ônibus e aproveitamos as 52 horas de viagem para ler a bibliografia recomendada, no meio de 50 passageiros, entre eles o que pareciam umas 200 crianças, de retorno para as festas de final de ano na Paraíba.

A finalidade era fazer o concurso para saber como era, adquirir experiência e me preparar para um próximo. Terminou não sendo necessário, pois fomos aprovados e classificados, os dois em terceiro lugar, embora com notas semelhantes aos segundos colocados que se classificaram melhor por serem mestres. A banca de Sociologia foi composta pelo Professor Silvio Maranhão, da Universidade Federal de Pernambuco e por dois professores da UFPB, René Philipe Vandezande e Cornelius Van Der Poel.

Após a divulgação dos resultados do concurso, voltamos a São Paulo e retomamos nossas atividades. Em março de 1982, fui convidado por dois colegas da Escola de Sociologia e Política, André Fischer (hoje professor da FEA-USP) e Albério Neves (hoje professor da UNESP-Franca) a participar de uma pesquisa, desenvolvida na Faculdade de Economia e Administração da USP, sobre os impactos comunitários do Programa Pró-Álcool na região Centro-Oeste. Fui então para a cidade de Formosa, no entorno de Brasília e, depois, para Sinop, Mato Grosso, localizada nas margens da rodovia Cuiabá-Santarém, junto com outros membros da equipe, com a função de entrevistar pessoas representativas desses municípios e fazer um relatório de campo.

Permaneceria nessa pesquisa não fosse um telefonema do Professor Francisco Foot Hardman, então professor da UFPB, me consultando sobre o interesse em assumir uma vaga de docente na UFPB. Solicitei uma semana de prazo e em 15 de abril assumi duas disciplinas do Departamento de Ciências Sociais, no Campus de João Pessoa: Introdução à Sociologia, para o curso de Engenharia Civil, e Sociologia da Saúde para o curso de Enfermagem. Tendo uma semana para me preparar para as disciplinas, solicitei ajuda à então coordenadora da Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a Professora Carmem Sylvia Junqueira, que me forneceu programas de disciplinas correlatas ministradas pelo Departamento de Ciências Sociais da Universidade os quais me ajudaram a elaborar os primeiros programas de curso.

Quando cheguei a João Pessoa, era mestrando em Ciências Sociais na PUC-SP e já tinha terminado a pesquisa de campo para a dissertação. Ao assumir os encargos na UFPB e mudar radicalmente de vida aos 27 anos, interrompi a elaboração da dissertação. Retomei-a sete meses depois, em novembro de 1982, escrevendo as primeiras versões do texto que enviava pelo correio para meu orientador. Em 1983, defendi a dissertação.

2. Recuperando a formação

Fiz minha graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A escolha do curso veio de um desejo nascido desde o então ginásio, o de estudar a sociedade em sua historicidade. Mesmo sem ter claro o que seria isso, crescia meu interesse por temas sociais, políticos, econômicos e culturais, alimentado pela leitura de jornais e revistas e pelo encontro com a literatura brasileira e estrangeira. A escolha da Escola deu-se pela aura que a acompanhava por ter sido primeira escola de Sociologia da América Latina. Não era mais a Escola de Sociologia e Política que trouxe para o Brasil a tradição da Escola de Chicago, com Donald Pierson e outros sociólogos e antropólogos americanos; da Revista de Sociologia, a primeira do país, além de alunos ilustres como Florestan Fernandes e Juarez Brandão Lopes. A partir da metade dos anos 60, a Escola perdeu não só os seus financiamentos internacionais, mas também o apoio do governo estadual. Com a estruturação do sistema de pós-graduação no país, no final dos anos 60, sua pós-graduação manteve o sistema anterior de mestrados e doutoramentos sem apoio das entidades de fomento, vindo a encerrar suas atividades no início dos anos 80. Parodiando a “segunda” Escola de Chicago, a partir dos anos 30, posso dizer que integrei, talvez, a “segunda” Escola de Sociologia Política, que se encerra nos anos 80.

A experiência na “escolinha”, como a chamávamos, foi múltipla: cultural, política e existencial. Apesar da sempre presente crise econômica que ameaçava sua existência, o debate cultural era intenso e constituía-se num microcosmo da efervescência por que passava a sociedade brasileira no período. Embora fossemos menos de 200 estudantes nas oito turmas que a compunham (nos períodos matutino e noturno), nós nos considerávamos o centro do mundo. A repressão política ainda persistia, com prisões eventuais de colegas, fechamento do Diretório Acadêmico e a presença constante de “olheiros” do regime (reais ou imaginários), mas a liberdade, dentro dos portões do casarão da Rua General Jardim, era total. Num momento em que os livros eram um problema de segurança nacional, estudávamos os textos de Marx, Lênin e autores marxistas em quase todas as disciplinas. Num momento em que a polaridade ideológica era a tônica, nas aulas de Sociologia recusávamos não apenas o funcionalismo, mas também qualquer outra corrente teórica considerada “burguesa”, independentemente de conhecê-la efetivamente, situação que se alterou progressivamente no decorrer do curso.

Pela manhã eu assistia às aulas, à noite ia para a militância político-acadêmica dentro dos muros da escola e nos bares e calçadas da vizinhança. Era 1976. Nos anos seguintes, uma crise de gestão afetou a escola de forma mais intensa, com greves e demissões de professores, e o não pagamento dos que lá ficavam ou o atraso permanente dos seus salários. Embora a Escola fosse uma fundação privada, era uma instituição complementar da Universidade de São Paulo. Os alunos, portanto, a consideravam uma escola pública (isto é, gratuita) e o movimento discente discutia a legitimidade do pagamento de mensalidades.

Uma preocupação constante, para mim, enquanto cursava a graduação, era a profissionalização e a possibilidade efetiva de continuar na área. A necessidade de construir uma carreira acadêmica impunha-se entre as poucas opções oferecidas no mercado para a permanência no “campo” da sociologia. E esta se tornou minha meta, com a busca constante de estágios e cursos de curta duração promovidos por centros acadêmicos, associações e outras instituições acadêmicas ou para-acadêmicas.

Fui aluno de professores que posteriormente se destacaram na pesquisa sociológica e antropológica, como Maria da Glória Gohn, Márcia de Paula Leite, Kabengele Munanga, Carlos Serrano, Horácio Gonzáles, hoje professores da Unicamp, USP e Universidade de Buenos Aires. Apenas um professor, Vicente Unzer de Almeida, era remanescente do período áureo da Escola, e encontrava-se prestes a se aposentar, tendo dela se desligado no final de 1977. Possuía diversos artigos sobre “estudos de comunidade” publicados na Revista de Sociologia, nas décadas de 50 e 60. Nesse mesmo ano, assisti ao que foi, talvez, a última defesa de doutorado, pelo menos com grande repercussão: José Chasin, então professor de Filosofia e Filosofia Política da ESP, com a tese “O Integralismo de Plínio Salgado”, com banca composta, entre outros, pelo Professor Florestan Fernandes. Posteriormente, José Chasin foi professor da Universidade Federal da Paraíba, e sua mulher, Esther Vaissman (hoje na UFMG), foi minha colega de Departamento.

Os embates ideológicos entre professores, a formação de grupos de apoio às diversas tendências, embora todos se definissem no campo da esquerda, abriram-me perspectivas teóricas, acadêmicas e políticas. Marx era a referência hegemônica, estudado a partir de duas grandes tendências: de um lado os lukacsianos e de outro o marxismo estrutural francês, com Althusser pontificando. Outras vertentes teóricas eram também estudadas, embora “criticamente”. Aliás, o “criticamente” fazia parte de todos os discursos sem que isso significasse necessariamente conhecimento a respeito do objeto criticado.

Meu contato mais sistemático com a perspectiva weberiana aconteceu através da Ciência Política. Robert Michels provocou minhas certezas ao discorrer acerca da inevitabilidade da burocratização-corrupção das instituições, sindicatos e partidos – mesmo os de esquerda –, certezas que eu tentava defender. A leitura, porém, insidiosamente, plantou dúvidas nunca superadas. Também me chamou a atenção o conjunto da obra de Max Weber, que, embora com textos presentes em praticamente todas as disciplinas, era estudado de forma insuficiente. O semestre sempre acabava quando íamos aprofundar as leituras dos textos de Weber.

Na Sociologia Brasileira, a grande descoberta foi Gilberto Freyre, inicialmente pela leitura do próprio autor, seguido pelos comentadores de sua obra. À deliciosa leitura de Casa-grande & senzala, uma demonstração que sociologia poderia significar textos bem escritos e agradáveis de ler, seguiu-se uma discussão sobre Nordeste, de 1938, que seria confundido com uma análise marxista, pela agudeza das suas críticas à estrutura social da região, se seu autor não estivesse identificado.

A necessidade de trabalhar – desde que terminei o então curso ginasial – obrigava-me a procurar, permanentemente, “fontes de renda”. Até entrar na faculdade trabalhei em banco e em empresas privadas. De início, na função de office boy e, depois, de auxiliar de departamento de pessoal. O literal desespero com o trabalho em escritório e a falta de perspectiva de maior satisfação profissional ou mesmo salarial (participei de uma das primeiras reestruturações bancárias em 1972, no bojo da qual fui demitido), contribuíram para a busca de outras opções.

Ao mesmo tempo, o trabalho em departamento de pessoal, que me dava acesso aos registros de experiências dos funcionários nas greves (nos arquivos constavam anotações sobre a participação em movimentos grevistas ocorridos até 1964), dos episódios de insubordinação, além dos projetos de disciplinarização e de racionalização do trabalho pelas empresas, chamou minha atenção para a questão do trabalho em suas múltiplas dimensões. Além desse cotidiano de trabalho cheio de inseguranças e tensões, também contribuiu para o desenvolvimento de meu interesse pela questão “trabalho” uma experiência familiar pautada pela “condição operária”: minha mãe, filha de imigrantes italianos que trabalhavam em colônias de fazendas de café, no interior paulista, posteriormente foi operária têxtil e encerrou sua “carreira” profissional como costureira domiciliar; meu pai, filho de pequenos proprietários rurais do nordeste baiano, migrou para São Paulo e foi mestre de obras na expansão do serviço de águas e esgoto da cidade e, posteriormente, motorista de ônibus, atividade na qual se aposentou.

Sempre vivemos no bairro da Mooca, em São Paulo, historicamente operário – o que marcou um cotidiano de referências a situações de trabalho e vida sindical de familiares, vizinhos e de colegas que rapidamente entraram para o mercado de trabalho. Em alguns momentos, no pré-64 meu pai participou da atividade sindical, no esquema populista dominante, atuando em campanhas eleitorais para o sindicato dos motoristas e para candidatos a cargos políticos da cidade e do estado, com reuniões em minha casa e uma infinidade de material de campanha que terminava como brinquedos em minhas mãos. Essa situação influenciou, muito provavelmente, minhas opções posteriores de carreira no que se refere aos temas de pesquisa escolhidos.

A partir do terceiro ano da graduação, lecionei em escolas estaduais de ensino médio, atividade que me possibilitava grande flexibilidade de horário, não interferindo nas atividades do curso. Eu era contratado para substituir professores em licenças e afastamentos diversos e era demitido quando retornavam. De meados da graduação até o início do mestrado, durante três anos e meio, lecionei na periferia sudeste de São Paulo, fronteira com o ABC, então mobilizado com as greves dos trabalhadores metalúrgicos. Vários alunos eram filhos de metalúrgicos, e a efervescência das fábricas entrava pelo colégio com panfletos e discussões possibilitando-me acompanhar o que acontecia no ABC paulista, na perspectiva dos atores envolvidos.

Em 1979, no meu último ano de graduação, descobri a Sociologia Rural. A área vinha assumindo grande visibilidade a partir do debate a respeito da modernização da agricultura paulista e da figura do trabalhador “boia-fria”, além da retomada da discussão da “questão agrária”, da luta pela terra e da reforma agrária no quadro da lenta e gradual abertura política do governo Geisel. Os estudos sobre o colonato nas fazendas de café, principalmente o livro de José de Souza Martins, e de outros autores referências na área, como Caio Prado Júnior, Maurício Vinhas de Queiroz, Alberto Passos Guimarães, Florestan Fernandes, que discutiam a expansão do capitalismo no campo, despertaram minha atenção e decidi que esta seria a área de minha especialização no mestrado.

Questões bastante objetivas (eu precisava continuar trabalhando) dirigiram meus esforços para a PUC-SP. Candidatei-me à seleção sem me preocupar muito com o pagamento do curso. Afinal, minha perspectiva era continuar trabalhando e não me ocorria pleitear uma bolsa de estudos. Entretanto, a partir do segundo semestre do mestrado, obtive uma bolsa do CNPq com a qual pagava as mensalidades da PUC, o que me possibilitou cursar as disciplinas com mais tranquilidade, embora continuasse mantendo um turno de 20 horas/aulas semanais na rede estadual de ensino.

Se na Escola de Sociologia, a crise do marxismo se confundia com as crises pelas quais passava a própria Escola (as brigas departamentais se confundiam com as brigas de tendências político-partidárias então em reorganização) e com certa anarquia que já era sua marca registrada, na PUC o marxismo se debatia entre a ortodoxia e o estruturalismo em suas variações. Gramsci se impunha, por um lado, e Foucault se insinuava de forma crescente, por outro.

Nesse período, fui aluno de nomes consagrados da Sociologia Brasileira: Octavio Ianni, Florestan Fernandes, Vilmar Faria e Candido Procópio Ferreira de Camargo foram meus professores, além de contar com palestras e conferências de outros professores da PUC, como Francisco de Oliveira, Maurício Tratemberg, entre tantos outros. No final dos anos 70, a PUC-SP tinha abrigado parte significativa dos professores da USP que foram afastados pelo regime militar, principalmente na área de Ciências Humanas e Sociais.

Meu tema de pesquisa focalizou os trabalhadores rurais. Lendo o jornal Movimento, no final de 1979, uma notícia destacava o que, pelo menos na época, foi considerado o primeiro movimento grevista no meio rural paulista dos anos 70. Uma paralisação de trabalhadores das grandes plantações de bananas destinadas à exportação, no litoral sul paulista que, junto com o Vale do Ribeira (onde houve tentativas de treinamento de guerrilhas no final dos anos 60), constituía a maior região produtora do estado de São Paulo e também a mais pobre.

Decidi pesquisar as condições de vida e trabalho desses trabalhadores para explicar como a greve aconteceu. Fiz uma extensa pesquisa bibliográfica sobre a produção de bananas e a constituição de grandes empresas exportadoras na região. Meu tema era objeto de comentários divertidos de colegas e professores, sobre seu caráter exótico e sua “tropicalidade”. Mas a pesquisa de campo, realizada no início de 1982, na fronteira sul do município de São Paulo com o município de Itanhaém, revelou-se bem pouco “exótica”. Entre os contrafortes da Serra do Mar e a rodovia Pedro Taques, que em sua margem esquerda era cada vez mais ocupada com casas de veraneio dos paulistanos, existia um outro mundo: quente, úmido, chuvoso, ora cinza dos nevoeiros, ora exuberante no verde das matas e bananais, e povoado por enxames do mosquito “borrachudo” que infernizavam a vida de quem se atrevesse a penetrar na região.

Uma questão observada foi a relação rural-urbano presente nas fazendas. Em 15 minutos, vindo das praias urbanizadas chegava-se aos bananais ermos que pareciam estar fora do mundo. Seus trabalhadores, quando perdiam os empregos, tentavam sobreviver com a venda de bugigangas nas praias, um indicativo de certa circularidade entre esses espaços. Influenciado pelo livro de Maria Conceição D’Incao –Boia-fria: acumulação e miséria, lançado uns dois anos antes, eu procurava discutir o trabalho permanente dos bananais e a manutenção das vilas de trabalhadores dentro das fazendas como necessidade de uma produção que exigia cuidados perenes frente às tendências da agricultura paulista de utilizar trabalho temporário. Contrapunha a tese de D’Incao à perspectiva de José de Souza Martins, do Cativeiro da terra, que discutia as colônias de trabalhadores e a imobilização da força de trabalho na cafeicultura dado os cuidados requeridos, num contexto histórico diferente, mas que permitia relativizar as tendências mais recentes na agricultura de utilização de trabalho temporário. Os bananais possuíam vilas de trabalhadores em seus domínios, assim como “armazéns” de mantimentos que mais os aproximavam da plantation tradicional, exigindo imobilização dos trabalhadores pelas exigências de cuidados perenes.

Fui orientado pelo Professor Octavio Ianni, de quem morria de medo toda vez que encontrava. Para mim, Ianni representava a Sociologia brasileira e minhas questões de pesquisa pareciam irrelevantes e insuficientes a cada vez que me preparava para discutir o projeto. Apesar de sua disponibilidade e afabilidade, nunca consegui estabelecer uma relação menos formal com ele. Minha ida para a Paraíba, no meio do curso, fez com que a orientação fosse realizada por cartas e telefonemas, situação que me deixava menos tenso.

Em setembro de 1983, defendi a dissertação “Os bananeiros de Itanhaém: relações de trabalho na bananicultura do litoral sul paulista”[1]. Minha banca examinadora foi composta pelos professores Octavio Ianni, Carmem Sylvia Junqueira, da Antropologia e Geraldo Muller, da Economia. O convite ao Professor Muller aconteceu por minha sugestão pela então recente publicação, em 1980, pelos Cadernos CEBRAP, de sua pesquisa sobre o Vale do Ribeira. Em “Estado, estrutura agrária e população”, discutia as peculiaridades da questão regional no estado de São Paulo permitindo uma maior compreensão da cultura de exportação inserida numa região caracterizada pelo baixo desenvolvimento econômico e social.

Após a defesa retomei as atividades na UFPB, onde permaneci até o início do doutorado, cinco anos depois, em 1987.

3. O ensino e a pesquisa: primeiros momentos

A adaptação inicial à UFPB fez com que eu deixasse de lado a dissertação de mestrado para me dedicar às disciplinas e à organização da minha vida pessoal na nova cidade e no novo emprego, pelo menos no primeiro semestre de 1982.

A partir do segundo semestre de 1982, discutia a dissertação com colegas do Departamento de Ciências Sociais. Vários deles pesquisavam temas análogos e teve início uma troca fecunda de experiências mantida até as nossas respectivas defesas. A Professora Maria Ângela Sitônio Wanderley foi minha principal interlocutora no período, pois também finalizava sua dissertação em Sociologia na Universidade Federal de Pernambuco. Em decorrência da divisão do trabalho na própria UFPB, contudo, a Sociologia Rural estava concentrada no campus de Campina Grande, que possuía um mestrado específico nessa área e um curso de graduação em Ciências Sociais. No campus de João Pessoa, sem curso de graduação em Ciências Sociais, havia, porém, um mestrado temático em Ciências Sociais: “Política e Trabalho” – que refletia os interesses de pesquisa dos professores. Mestrando, eu não participava da pós-graduação, mas aos poucos fui me inserindo nos projetos de pesquisa.

A Universidade experimentava um momento de expansão nunca visto, chegando a se constituir na terceira universidade federal do país em termos de orçamento. Havia uma ampla renovação do corpo docente, com professores em início de carreira em processo de titulação, saindo e retornando de cursos de pós-graduação; projetos de pesquisa eram discutidos e implementados; novos cursos e novas disciplinas eram implantadas. Algumas das atividades iniciadas nesse período se mantiveram nos anos subsequentes ou influenciaram fortemente as decisões futuras sobre o encaminhamento das pesquisas desenvolvidas por mim ou das quais participei.

No segundo semestre de 1982, ministrei a disciplina Sociologia Urbana para os cursos de Arquitetura e de Serviço Social. Apesar de ter estudado na Escola de Sociologia e Política, que introduziu a tradição da Escola de Chicago nos estudos urbanos no Brasil, foi ao ministrar a disciplina que estudei de forma sistemática a sociologia norte-americana na vertente interacionista. Foi quando reli Simmel e a questão da interação social como fundamento da compreensão das relações sociais estabelecidas na grande cidade. Inicialmente, abordava a Escola de Chicago com viés marxista, a partir de um artigo-síntese de Ruben George Oliven, da UFRGS, chamado “A cidade como categoria sociológica”, publicado no livro Urbanização e mudança social no Brasil. No artigo, os estudos de Chicago eram classificados no item “cidade como variável independente”, em contraposição à variável dependente representada pelos estudos históricos-estruturais, considerados mais abrangentes por analisarem a cidade dentro de dada estrutura social. Meu programa da disciplina iniciava-se, assim, com a Escola de Chicago e prosseguia com os textos de Manuel Castells (1979), Jean Lojkine (1981) e Henri Lebfreve (1978), então expoentes do marxismo “francês” nos estudos urbanos.

Aproximei-me de colegas do Departamento de Arquitetura que pesquisavam a questão urbana e o trabalho no meio urbano. Em colaboração com eles escrevi duas comunicações apresentadas em congressos de arquitetura e posteriormente publicadas em sua versão integral ou como resumo. A primeira comunicação foi transformada em artigo com o título “Sobre a gestão democrática das cidades”, em coautoria com Alberto Cignoli (hoje professor da Universidad Nacional de Mar del Plata, Argentina), no qual discutia a influência dos novos movimentos sociais urbanos na gestão da cidade. A publicação do artigo aconteceu no terceiro número do que viria a ser a Revista Política e Trabalho, do atual Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPB. Um resumo do trabalho foi publicado na Revista Projeto (n. 44, out., 1982), do Instituto de Arquitetos do Brasil. A segunda comunicação, escrita com Nelci Tinem, “Notas sobre a urbanização paraibana”, discutia os aspectos históricos sociais na constituição de João Pessoa e de sua estrutura urbana, os ciclos econômicos no Nordeste e sua representação espacial nas habitações, ruas e logradouros de uma cidade perto de seus 450 anos. Seu resumo foi publicado na Revista Módulo, como “O urbano na Paraíba no início do século”[2]. O texto completo, entretanto, foi divulgado apenas em formato mimeografado entre os alunos, estando disponível na sala de leitura do departamento. A temática originou minha primeira orientação de monografia em um curso de graduação (de arquitetura) intitulada “A urbanização paraibana no início do século”, defendida por Germana Terceiro Neto em 1985[3].

Ainda em 1983, comecei a participar do projeto “Fontes para a história da industrialização do Nordeste”, financiado pela FINEP, integrando uma rede de pesquisa que tinha na UNICAMP sua origem. Na UFPB, a pesquisa era desenvolvida no Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR), na época o principal núcleo de pesquisa da área de humanidades. O grupo de pesquisa era coordenado pelo Professor Mauro Guilherme Pinheiro Koury e contava com a participação de grande equipe que se desfez rapidamente, pois quase todos os seus integrantes saíram para realizar cursos de pós-graduação. O que era uma equipe com mais de vinte pessoas, ficou reduzida a cinco com alguns auxiliares. Em termos teóricos, fui introduzido ao marxismo da história social inglesa nas leituras de Thompson e de Hobsbawn e nos estudos sobre o cotidiano na formação de uma identidade operária, o que hoje poderia ser considerado (na época não se discutia isso) a redescoberta de dinâmicas de longa duração na compreensão do capitalismo (principalmente na Sociologia do Trabalho), além de crítica à perspectiva althusseriana de estruturas sem agentes.

Essa foi minha entrada “oficial” na temática de pesquisa a que me dedico ainda hoje. Pesquisei a industrialização regional, as formas de organização do trabalho e dos trabalhadores no Arquivo Histórico e Geográfico Paraibano e Pernambucano, no Gabinete Português de Leitura em Recife e no jornal Diário de Pernambuco, além de participar de seminários organizados pelo NDIHR. A pesquisa, que originalmente objetivava a construção de um banco de dados, despertou o meu interesse em investigar a formação do operariado industrial na região Nordeste, assunto então pouco estudado.

Ainda em 1983, já mestre, encaminhei um projeto ao CNPq no qual solicitava financiamento de pesquisa. O projeto “Mercado de trabalho e mão de obra no Nordeste – Paraíba e Pernambuco, 1889-1930” teve início no final de 1984. Constituiu-se no embrião da minha tese de doutorado, pois me dediquei, particularmente, ao estudo da formação do operariado fabril em Pernambuco a partir da permanência de uma cultura operária historicamente construída em suas vilas e cidades operárias. Tinha lido o artigo de Leite Lopes e Machado da Silva sobre os trabalhadores fabris do município de Paulista em Pernambuco[4], ponto partida da minha própria problematização. O artigo discutia a imobilização da força de trabalho pela moradia e a conformação de grupos operários para atender as necessidades da produção fabril. Ao mesmo tempo, apontava para a formação de uma identidade operária construída no cotidiano da cidade-fábrica. A pesquisa durou um ano e resultou em três comunicações nas quais caracterizava o operariado fabril do período, o contexto de surgimento das indústrias (têxteis, principalmente) e a construção de identidades operárias nas vilas-cidades operárias e o nascente movimento operário[5].

Com a saída da maioria dos pesquisadores e desentendimentos entre o coordenador do projeto (que o abandonou) e a coordenação do NDIHR, fiquei como um dos responsáveis pela finalização da pesquisa e pela elaboração e apresentação do relatório final.

Nesse início de carreira acadêmica fui beneficiado por duas ordens de fatores na UFPB. A primeira, pelo retorno de um conjunto de colegas que tinham realizado seus doutorados no exterior e que trouxeram para a universidade o estado das artes do debate sociológico contemporâneo: autores como Edward. P. Thompson, Cornelius Castoriadis, Pierre Bourdieu, André Gorz, Eric Hobsbawn e outros que, pelo menos para mim, em 1982-1983, ainda eram pouco conhecidos. O retorno desses professores imprimiu nova dinâmica ao mestrado de Ciências Sociais, que progressivamente se tornou referência na região. Participavam os professores Ana Maria Quiroga, Fausto Neto, Lourdes Maria Bandeira, Maria Carmela Buonfiglio, Christian Azais, Francisco Foot Hardman, entre outros, que tornaram estimulante o ambiente intelectual das Ciências Sociais na UFPB. A par das questões teóricas e de pesquisa havia a efervescência do contexto político que tinha na Universidade um polo de referência para o debate: a luta pela redemocratização e a retomada dos movimentos sociais.

Devo destacar ainda a visibilidade do movimento feminista nesse período, extremamente vigoroso. Na capital de um estado conservador, política e culturalmente, por razões históricas e econômicas (era o estado que mais expulsava população e menos recebia migrantes), a universidade repleta de “estrangeiros” e milhares de estudantes contribuiu para mudanças nesse quadro. Movimentos, como o “Maria Mulher”, discutiam o machismo e a violência contra a mulher de forma pioneira e impulsionaram outros movimentos culturais e de defesa de minorias como gays e negros. Manifestações públicas desses grupos incomodavam a boa sociedade local e aumentavam a visibilidade das suas reivindicações ao expor e discutir situações de violência e de abuso de poder, fosse de membros da elite, fosse no cotidiano das classes populares.

A Universidade teve um papel de agente modernizador da sociedade local. Se no início da década de 1980 a imprensa local bramia contra os “estrangeiros” que ocupavam os postos de trabalho dos paraibanos (o Estado era, e continua sendo, o principal empregador) e semeavam a dissolução dos valores tradicionais, no final dessa mesma década, a Universidade com todos os de fora já interagia relativamente bem com a sociedade local. Não que os conflitos estivessem superados, mas tinha-se chegado a formas de acomodação mútua.

Esse contexto alimentava o debate acadêmico, no qual a temática dos movimentos sociais era preponderante. Em 1985, sob a coordenação do mestrado em Ciências Sociais, foi realizado em João Pessoa o seminário “Movimentos sociais: para além da dicotomia rural-urbano”. O seminário resultou de uma articulação entre pesquisadores da região em um projeto de pesquisa comum que originou publicações e outras atividades e que deu início aos encontros bianuais Norte-Nordeste de Ciências Sociais. Os pesquisadores participantes tornaram-se referência da Sociologia não apenas regionalmente, mas contribuíram para a consolidação do “campo” em termos nacionais: Inaiá Carvalho, Anete Leal Ivo, Antonio Sérgio Guimarães, Nadya Araújo Guimarães (BA), Salete Cavalcante (PB-PE), César e Irlys Barreira, Linda Gondim (CE), Ilza Araújo Leão de Andrade (RN), Tamara Cohen Egler (PB), além dos pesquisadores da UFPB já citados.

Em 1983 assumi a chefia do Departamento de Ciências Sociais, junto com a Professora Maria Yara Matos, na qual permaneci até o final de 1984. Posteriormente, em momentos específicos, nos anos de 1985 e 1986, assumi a vice coordenação e a coordenação pró-tempore do Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR).

Minha inserção na pós-graduação deu-se em 1985, quando ministrei disciplinas junto aos mestrados: de Ciências Sociais – Organização do trabalho industrial; de Engenharia de Produção – Sociologia da Produção – e de Serviço Social – Estudos de Comunidade. Fui membro de duas bancas examinadoras de mestrado, de dois professores do Departamento de Arquitetura da UFPB: uma no mestrado em Ciências Sociais da UFPB, de João Roberto Lavieri – “Conflitos fundiários urbanos na Grande São Paulo”, em 1985; e outra de Nelci Tinem – “O profissional de planejamento urbano” –, no mestrado em Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1986.

Ainda em 1985, passei a integrar o recém-organizado Grupo de Pesquisa Interdisciplinar “Tecnologia e Trabalho”, coordenado pela Professora Maria Carmela Bonfiglio, com o desenvolvimento do projeto de pesquisa “Inovações Tecnológicas e Processo de Trabalho: o Caso das Telecomunicações na Paraíba”, que envolvia professores-pesquisadores dos departamentos de Ciências Sociais e de Engenharia de Produção.

A integração ao Grupo de Pesquisa coordenado pela Professora Carmela significou entrar no debate nacional da Sociologia do Trabalho, cujas temáticas se expandiram e consolidaram a disciplina a partir das reuniões anuais da ANPOCS. Os estudos se concentravam na análise dos processos de trabalho enquanto elementos de formação de identidades operárias, dos processos de qualificação e desqualificação, do recorrente controle do saber operário no capitalismo, e da construção de consensos e dissensos a partir do chão de fábrica. Stephen Marglin (1989), Harry Braverman (1981), Harley Shaiken (1981), Christian Palloix (1980), Benjamin Coriat (1982), André Gorz (1989), Michel Burawoy (1982), eram então as referências internacionais.

No Brasil, o estudo de John Humphrey (1982) com os operários do ABC, sua vinculação com novas tecnologias produtivas e organizacionais inaugurou um novo momento da disciplina, tendo por referência o chão de fábrica. Os resultados da pesquisa se contrapunham à tese de Leôncio Martins Rodrigues (1970) que tinha na origem dos trabalhadores a justificativa de sua satisfação na indústria automobilística do início dos anos 60, apontando a situação pré-conflitual que se manifestou na década seguinte.

A pesquisa sobre a Companhia Telefônica da Paraíba (TELPA) desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa incluiu diversos seminários teóricos e levantamentos de campo. Discutia os efeitos das tecnologias digitais sobre a qualificação dos trabalhadores, sobre a intensidade do trabalho e sobre o nível de emprego. Seus resultados apontavam para a grande expansão da empresa a partir da adoção de contínuas inovações tecnológicas e de uma intensa profissionalização de seus quadros gerenciais, mesmo considerando seu caráter estatal e as influências políticas na indicação de seus dirigentes. A adoção de técnicas gerenciais racionalizadoras e a qualificação elevada de seus trabalhadores se constituíam em elementos de destaque. A empresa poderia ser considerada “fordista” no sentido dos benefícios oferecidos aos funcionários. Dentro do sistema Telebrás, se destacava pela modernização e crescimento, até sua privatização no governo FHC. Os resultados da pesquisa foram apresentados em eventos nacionais e publicados[6].

4. O doutorado

A volta dos professores do doutorado no início dos anos 80 na UFPB marcou também as mudanças na carreira docente, na qual a titulação progressivamente se impunha. Para nós, então da nova geração, o doutorado se constituía em condição para avançar na carreira em termos de pesquisa e pós-graduação. A partir de 1986, eu e os colegas que ingressaram na UFPB a partir de 1981 começamos a nos preocupar com onde fazer o doutorado. As opções nacionais ainda eram restritas (IUPERJ, UNB, USP, UNICAMP e PUC-SP) e as vagas limitadas. Um convênio firmado entre o mestrado de Ciências Sociais e a Universidade de Amiens, na França, constituía-se no caminho quase natural para os quadros da UFPB. Três colegas do departamento de Ciências Sociais foram para lá se titular e eu também apresentei minha candidatura. Entretanto, por motivos de ordem pessoal e familiar, eu precisava ficar no Brasil. A despeito de ser paulistano e da volta a São Paulo para cursar o doutorado parecer uma alternativa desejável, a Universidade de São Paulo sempre foi muito distante, não apenas geograficamente, mas igualmente pela minha trajetória social e acadêmica, me parecia inalcançável. A tutoria, dominante até então, implicava a existência de relações acadêmicas com os professores orientadores, coisa de que eu não dispunha. Consultei meu ex-professor de Antropologia, Carlos Serrano, e indaguei quais os critérios de seleção vigentes. Para minha surpresa, soube que naquele ano haveria uma seleção alternativa à tutoria decorrente de um acordo entre os professores do programa, no qual se decidiu por um pool de vagas que seriam colocadas em disputa. Sugeriu que me inscrevesse e indicasse o Professor Orlando Pinto de Miranda que trabalhava próximo à minha temática de pesquisa como possível orientador (sua tese de doutorado tinha sido sobre trabalhadores metalúrgicos em Osasco-SP). Fui sem grandes expectativas para a banca de seleção do doutorado composta pelos professores Sérgio Adorno, Irene Cardoso e Aparecida Joly Gouveia, mas saí bastante animado com a recepção simpática e calorosa. Fui aprovado e, em 1987, dei início ao meu curso de doutorado.

No início do doutorado, cursei a disciplina da Professora Elisabeth Lobo, que mantinha um grupo de discussão sobre a questão trabalho, dominação e resistência. Participei igualmente da disciplina da Professora Helena Hirata, então professora visitante na USP, sobre processo de trabalho e divisão sexual do trabalho. As disciplinas e o grupo de discussão propiciaram o convívio com colegas que são, até hoje, referência na Sociologia do Trabalho em várias regiões do país: Brasília Ferreira (UFRN), Magda Almeida Neves (UFMG, PUC-MG), Leila Blass (PUC-SP), Lorena Holzmann (UFRGS), Silvia Araújo (UFPR), Vera Silva Telles (USP), Heloisa de Souza Martins (USP) e Carmem Lúcia Evangelho Lopes.

Sob a coordenação das Professoras Elizabeth Lobo e Helena Hirata, os estudos sobre trabalho eram fortemente marcados pelos estudos de gênero, uma tendência que não se restringia à USP. O fortalecimento do Grupo sobre Processo de Trabalho na ANPOCS foi marcado por essa intersecção presente nas pesquisas de Márcia de Paula Leite e Leda Gitahy da UNICAMP, Nadya Guimarães (UFBA-USP), Bila Sorj, Alice Abreu, Elina Pessanha e Regina Morel, professoras da UFRJ, e Laís Abramo, da OIT, entre outras, que o constituíram desde o início[7].

Os seminários da área se difundiram pelo país e, em várias situações, algumas colegas, jocosamente, me autorizaram a participar dos debates de gênero. Mais de dez anos passados, o filho da Professora Helena Hirata perguntou-me por que havia tantas mulheres na Sociologia do Trabalho no Brasil. Respondi que essa presença marcante coincidiu com o aumento expressivo da participação das mulheres no mercado e nos coletivos de trabalho, impondo a discussão do “sexo do trabalho” no estudo das transformações na organização do trabalho e nos espaços extra fábrica, no cotidiano e nas formas de resistência à dominação.

Entretanto, os estudos do trabalho se desenvolviam em outra vertente, mais tradicional, que pode ser denominada de “Sociologia Política do Trabalho”, na qual a ação coletiva e a atuação sindical eram dominantes. Autores como Leôncio Martins Rodrigues (USP), Maria Hermínia Tavares da Silva (USP), Iram Jácome Rodrigues (USP), Heloisa Martins Rodrigues (USP), José Ricardo Ramalho (UFRJ), Ricardo Antunes (UNICAMP) e Armando Boito Junior (UNICAMP), marcaram o campo com estudos sobre o novo sindicalismo, principalmente no ABC paulista e no Rio de Janeiro.

Além dos cursos voltados à temática do trabalho, no doutorado, cursei disciplinas para atualização teórica ou empírica, com os professores Gabriel Cohn, Antônio Flávio Pierucci e Michel Löwy.

O encontro com o orientador também se revelou surpreendente. Considerado uma pessoa de difícil trato, se mostrou bastante amigável e desenvolvemos relação pessoal que extrapolou o espaço acadêmico quando se aposentou na USP e foi trabalhar na UFRN. Mais que sociólogo, um escritor prolífico, foi torturado regularmente com meus textos preliminares, nos quais corrigia forma e conteúdo. Vale destacar ainda sua lealdade com os orientandos, apoiando-os de forma sistemática, embora sem abandonar o senso crítico.

Em um percurso paralelo à pesquisa do doutorado, gostaria de me referir a um projeto que inscrevi num concurso ANPOCS/Inter-American Foundation, em colaboração com o Professor Paulo de Tarso Medeiros, colega de Departamento na UFPB, que dava continuidade e atualizava as minhas preocupações com a questão urbana. O projeto “Classe média na Paraíba: perfil e representações” recuperava a autoconstrução de valores e de identidade de um grupo social restrito numericamente, mas influente sociologicamente a partir de uma perspectiva bourdiesiana. Discutia-se a questão do individualismo e os comportamentos sociais de camadas médias, basicamente originárias do funcionalismo público, na cidade de João Pessoa, e suas orientações políticas e culturais, em um contexto de homogeneização crescente desses setores considerando-se consumo, hábitos e estilos de vida[8]. Esse “desvio” de percurso refletiu a permanência de meus interesses pelos estudos do urbano que reaparecerão, não diretamente em pesquisas coordenadas por mim, mas na orientação de dissertações e de teses sobre o tema.

Meu projeto de tese de doutorado buscava discutir os impactos das mudanças tecnológicas e organizacionais na constituição de um novo operário fabril em Pernambuco. Aos poucos, entretanto, abandonei a ideia de estudar processo de trabalho. A multiplicação de pesquisas sobre o processo de trabalho em diversos ramos industriais tratava detalhes técnicos-operacionais de forma excessivamente descritiva e desconsiderava outros elementos presentes na constituição de atores coletivos. Alterei meu objeto, recuperando os estudos anteriores realizados sobre os operários pernambucanos. Passei a defender a hipótese de uma continuidade histórica na identidade operária, formada desde o início da industrialização, e que tinha sido mantida, em grande parte, a despeito da ruptura política, tecnológica e organizacional representada pela crise dos anos 50-60 e das novas indústrias do pós-Sudene.

Tinha por referência a reorganização do movimento operário no final dos 70 e seu dinamismo em Pernambuco. Tratava-se de um processo no qual mudanças e permanências se faziam presentes na experiência operária, no sentido thompsoniano, e no qual a classe estava num permanente fazer-se (Thompson, 1987). Juntava a essa discussão a contribuição de Adam Przeworski (1989) sobre o processo de organização-desorganização-reorganização da classe operária como caráter do próprio capitalismo. O referencial cultural renovava a abordagem de fundamentação marxista, enriquecendo o processo de constituição da classe e relativizando seus determinismos. Przeworski aproximava Marx de Weber, o que, para críticos como Francisco de Oliveira, estaria mais próximo de Weber do que de Marx[9].

Duas outras referências teórico-empíricas fundamentais para a construção do objeto foram: a) a tese de doutorado de Antonio Sérgio Guimarães (1988), então professor da Universidade Federal da Bahia, Factory Regime and Class Formation: The Petrochemical Workers in Brazil, na qual abordava o processo de formação do novo operariado baiano a partir da complexo petroquímico, discutindo o conceito de regimes fabris e da classe em formação; e b) a tese de doutorado de José Sérgio Leite Lopes (1988), publicada como livro A tecelagem dos conflitos de classes na cidade das chaminés, uma análise antropológica da constituição do operário fabril realizada a partir do estudo de caso da fábrica Paulista, no município do mesmo nome, na Grande Recife. A pesquisa de Leite Lopes apontava os elementos subjacentes na constituição da identidade operária a partir do processo de imobilização da força de trabalho (questão que abordei, a partir de outro recorte, na minha dissertação de mestrado). A cidade operária, a família operária, a divisão sexual do trabalho, as relações do patriarca-proprietário com as operárias, enfim, a introdução da cultura do cotidiano na construção de identidades. As formas de resistência presentes na constituição desse operariado, a construção e o desmonte do sistema de dominação representado pelo sistema fábrica-cidade operária, uma antecipação, em certa medida, das proposições fordistas.

No desenvolvimento da tese, trabalhei com dois grupos operários: os têxteis representativos da velha classe operária tradicional em Pernambuco, reciclada nas novas fábricas pós-Sudene, e os metalúrgicos, ponta do movimento operário do novo sindicalismo, final dos anos 70, e representativos dos novos grupos formados. Entre a nova e a velha classe operária, defendia que havia mais continuidades do que rupturas.

Após o término dos créditos, passei o ano de 1989 em Recife fazendo pesquisa de campo e em 1990 terminei as últimas entrevistas com trabalhadores de gerações distintas dos dois grupos selecionados. Uma das preocupações da pesquisa foi verificar as estratégias utilizadas pelos trabalhadores para se manterem num mercado de trabalho restrito. Experiência e qualificação eram elementos básicos na permanência no mercado, mesmo considerando que, no caso dos têxteis, a qualificação fosse considerada restrita e obtida na própria fábrica. Entre os metalúrgicos, embora a formação técnica fosse mais comum, esta não garantia emprego: as fábricas preferiam trabalhadores com experiência, independente de formação. A qualificação era fornecida a partir do treinamento no dia a dia da fábrica.

A permanência como operário significava ocupação reconhecida e status. E um dos elementos dessa permanência estava nas redes sociais informais entre os trabalhadores que garantiam não apenas o encontrar o emprego, mas também mantê-lo. A questão das redes sociais me chamou a atenção e voltei a ela nas pesquisas posteriores, com a preocupação de discutir teoricamente o conceito de redes sociais e sua eficácia explicativa na compreensão de determinados fenômenos sociais.

Finalizei a tese no início de 1992 e a defendi em maio desse ano com o título de A formação do operariado fabril no desenvolvimento industrial de Pernambuco. A banca foi composta, além do orientador, pelos professores Francisco de Oliveira, Maria Hermínia Tavares, José Sérgio Leite Lopes e Francisco Foot Hardmann. Os questionamentos maiores foram feitos pelo Professor Francisco de Oliveira, que discutiu a tese da permanência de uma identidade operária frente à informalidade dominante em Pernambuco e a circulação dos trabalhadores entre um mercado e outro. O Professor Oliveira contrapôs à interpretação que estava sendo defendida a da existência de uma classe inacabada evidenciada pela circulação permanente dos trabalhadores no mercado de trabalho formal e informal, desenvolvida, principalmente, em seus ensaios “As hostes errantes” e “O elo perdido”[10]. Eu discutira suas proposições na tese, mas chegava a conclusões diferentes, insistia na afirmação da experiência operária como elemento constituinte da identidade de classe, assim como de seu caráter permanentemente inacabado, organizando-se, desorganizando-se e reorganizando-se.

Textos preliminares e trechos da tese foram apresentados em congressos e alguns deles foram publicados em cadernos de textos da UFPB[11]. A tese completa foi publicada em 1996, com o título de Trabalho, mercado e formação de classe: estudo sobre operários fabris em Pernambuco (Lima, 1996). O prefácio, escrito pelo meu orientador, tornou-se um texto à parte, dado seu caráter literário e absolutamente simpático e generoso ao autor. Recebi mais comentários sobre o prefácio do que sobre o livro propriamente.


Notas

[1] Uma síntese da dissertação foi publicada nos cadernos Textos NDIHR, n. 7, da UFPB, em janeiro de 1985, com o título “Sobre bananas e bananeiros: produção mercantil e relações de trabalho”.

[2] Módulo Especial. XII Congresso Brasileiros de Arquitetos Vilanova Artigas. Belo Horizonte, 30 de outubro a 3 de novembro de 1985.

[3] Sobre a gestão democrática da cidade. Textos de Debate, n. 3, mestrado em Ciências Sociais – UFPB, 1983; Notas sobre a urbanização paraibana. João Pessoa, mimeo, 1983.

[4] O artigo foi publicado no ano de 1979, “Estratégias de trabalho, formas de dominação na produção e subordinação doméstica de trabalhadores urbanos”, incluído no livro Mudança Social no Nordeste: a reprodução da dominação. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

[5] Duas das três comunicações foram publicadas como artigo e capítulo de livro: a “Formação do operariado fabril no Nordeste¨, publicado na Revista Política e Trabalho, em 1985; “Indústria e Trabalho no Nordeste”, foi apresentado no II Encontro Norte-Nordeste de Ciências Sociais, em Fortaleza, e publicado no livro Relações de trabalho e relações de poder: mudanças e permanências, Fortaleza, UFC, 1987. O terceiro foi apresentado na SBPC, em Curitiba, Paraná, em 1986, sob a forma de comunicação: “O trabalho industrial no Nordeste”.

[6] “Mercado de trabalho e políticas de emprego: as telecomunicações na Paraíba”, com Márcio Botelho da Fonseca, foi apresentado na reunião anual da SBPC em Brasília, em 1987; “Inovações tecnológicas e processo de trabalho em telecomunicações: o caso TELPA”, em conjunto com a equipe (Maria Carmela Bonfiglio, Márcio Botelho, Juan Dowling, Geraldo Maciel Araújo e Maria de Lourdes Barreto Gomes), apresentado no Seminário Padrões Tecnológicos e Políticas de Gestão: Processos de Trabalho na Indústria Brasileira, promovido pela USP, em 1988, e publicado nos anais do Seminário e posteriormente na forma de artigo nos Cadernos de Tecnologia e Trabalho (n. 2, 1990), publicação do Grupo de Pesquisa.

[7] O recorte de gênero não era necessariamente o objeto central de estudo dessas pesquisadoras.

[8] A pesquisa, de recorte qualitativo, teve seus resultados apresentados em 1988 no III Encontro Norte-Nordeste de Ciências Sociais, em Natal – “Nordeste o que há de novo”, e foi publicada nos Cadernos de Ciências Sociais do mestrado de Ciências Sociais da UFPB em 1990.

[9] Conforme resenha de Francisco de Oliveira sobre o livro em 1989.

[10] OLIVEIRA, Francisco de. Nordeste anos 70: as hostes errantes. Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, 1(1), dezembro de 1981; Elegia para uma re(li)gião: SUDENE, Nordeste, Planejamento e conflito de classe. 3a ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981; O elo perdido: classe e identidade de classe. São Paulo, Brasiliense, 1987.

[11] “A nova classe operária no nordeste”, no III Encontro de Ciências Sociais do Norte-Nordeste, em Natal, 1988; “Operários fabris em Pernambuco: mercado de trabalho e estrutura de classe”, resultado de meu exame de qualificação, no XV Encontro Anual da ANPOCS, em 1991; “Modernização industrial e estrutura ocupacional: o setor têxtil e metal-mecânico em Pernambuco”, em 1992 nos Cadernos Tecnologia e Trabalho, n.3; “Experiência e qualificação: situação de classe entre operários fabris” nos Cadernos de Textos do mestrado de Ciências sociais, também em 1992; “Mercado de trabalho e nova classe operária: uma revisão temática”, nos Cadernos de Textos do mestrado de Ciências Sociais, em 1993.

Referências

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Burawoy, Michael. (1982). Manufacturing Consent. Chicago: University of Chicago Press.

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