Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | Marcelo Ridenti

Chegamos à sexta dupla de posts da série Modos de narrar a sociologia brasileira, que se propõe a contar uma história mais plural, descentrada e contingente dessa área do conhecimento a partir de excertos de memoriais acadêmicos selecionados pelos próprios autores-atores que a praticam. Hoje compartilharão nossas páginas os relatos de Marcelo Ridenti (Unicamp) e Jacob Carlos Lima (UFSCar). 

O recorte feito por Ridenti narra sua formação entre as Ciências Sociais e o Direito e ao mesmo tempo on the road, na condição de “turista aprendiz”, em viagens pela Europa, as Américas, o Brasil, línguas, livros e filmes que o levaram a desenvolver certa “estrutura de sentimentos” anticapitalista e uma perspectiva sociológica interdisciplinar que não separa o conhecimento da ação política, orientada pela “convicção de que a obra de Marx continua sendo a referência clássica mais adequada para pensar nosso tempo”. Jacob, por sua vez, ressalta como o trabalho – tema de que se tornaria um dos principais especialistas na sociologia brasileira – é condição e parte constitutiva de sua trajetória, marcada pelo desejo de “estudar a sociedade em sua historicidade” e compreender as dinâmicas de longa duração de funcionamento do capitalismo. Dos trabalhadores rurais à formação cotidiana da identidade e das redes sociais do operariado industrial, a agenda de pesquisas construída por Jacob permite também mapear os diversos grupos de pesquisa que constituem o campo de estudos do trabalho no Brasil. Em ambas as narrativas, vemos em operação aquela “qualidade intelectual básica para sentir o jogo que se processa entre os homens e a sociedade, a biografia e a história, o eu e o mundo”, de que fala Wright Mills.

Para conferir a apresentação e demais posts da série clique aqui.

Desejamos a todas e todos boa leitura!


Memorial (2004)

Marcelo Ridenti (Unicamp)

I. Esboço de trajetória intelectual – os anos de formação

O “anjo torto” e o mito da renúncia

De vez em quando me pergunto: por que me tornei sociólogo, abraçando ainda uma visão de mundo anticapitalista? Terá sido obra de algum anjo torto, como aquele que mandou Drummond ser gauche na vida? Como não creio em anjos (embora rezasse na infância pelo zeloso guardador), e tampouco posso ser Carlos – nem o Drummond e muito menos o outro, que tanto admiro – essa hipótese está descartada.

Seria confortável dar crédito a um certo mito, difundido no meio intelectual, especialmente no de esquerda: o amor pelo conhecimento e pela transformação da sociedade seria maior que qualquer interesse material. Assim, a opção pela vida intelectual implicaria renúncia significativa, pois é de se esperar a pobreza relativa para os intelectuais. No meu caso, o caminho da academia se impôs ao invés da carreira jurídica planejada pela família, em particular minha mãe, que foi professora de inglês em escola pública.

Sucede que esse mito não se sustenta. Como bem observou Pierre Bourdieu, “o culto do desinteresse é o princípio de uma poderosa inversão, que faz da pobreza riqueza recusada, portanto, riqueza espiritual. O mais pobre dos projetos intelectuais vale uma fortuna, aquela que se lhe sacrifica” (Bourdieu, 1996: 44). Seria difícil submeter meu itinerário intelectual à “objetivação sem complacência”, mas convém evitar mistificações. Devido ao limite de espaço, vou me deter principalmente no começo de minha trajetória como estudante e jovem sociólogo no último quarto do século XX.

Aos dezessete anos, indeciso sobre os rumos profissionais a seguir, entrei na Faculdade de Direito da USP, a opção mais óbvia e tradicional para os estudantes que escolhem as humanidades. Logo ficaria evidente que as promessas de bons rendimentos e prestígio de bacharel eram pouco para as pretensões um tanto ingênuas e ambiciosas de abraçar o mundo, deixando nele a marca criadora. Estudar e escrever sobre a sociedade e a História pareciam ser tarefas que levariam para mais perto do Olimpo do que o desperdício de talento nos infindáveis pareceres, petições e sentenças para pendengas jurídicas.

O irresistível charme da Faculdade de Direito do Largo São Francisco impediu-me de abandoná-la, em meio às amizades com jovens que ousamos retomar em 1977 as passeatas estudantis inviabilizadas pela ditadura desde o ano mítico de 1968. Certa insegurança para assumir a ruptura definitiva também colaborou para que não deixasse o curso matutino de Direito, frequentado a partir de 1978 junto com o de Ciências Sociais da USP no período noturno. Ia ao campus do Butantã sobretudo para estudar, enquanto mantinha os principais laços de amizade na Faculdade de Direito no centro da cidade. Ali enfrentávamos a sanha dos colegas de direita, que se compraziam em comparecer às assembleias estudantis para gritar em uníssono: “um, dois, três, comuna no xadrez”. Em contraste, os futuros cientistas sociais dividiam-se entre inúmeras tendências de esquerda, uma mais revolucionária que a outra. Eu apoiava a Refazendo.

Alguns professores do curso de Ciências Sociais, como Heloísa Fernandes, Paulo Silveira e Brasilio Sallum Jr., estavam entre os mais próximos no tempo de faculdade, embora eu admirasse também muitos outros: Gabriel Cohn, Juarez Brandão Lopes, José de Souza Martins, Leôncio Martins Rodrigues, Aracy Lopes da Silva, Sedi Hirano, José César Gnaccarini, Maria Célia Paoli e tantos mais, notadamente o mítico Florestan Fernandes. Ele estava afastado pela ditadura, mas em 1979, convidado pelos estudantes, ofereceu um curso informal aos sábados sobre a revolução cubana, que acompanhei até o fim. Fui influenciado sobretudo pela sua obra, ainda recente, A revolução burguesa no Brasil.

Do ponto de vista estritamente acadêmico, formava-me com boa base nos três clássicos maiores da Sociologia, enfatizados no curso de Ciências Sociais: Durkheim, Weber e Marx. Preenchi quase todos os créditos necessários ao bacharelado nas matérias de Sociologia e de Ciência Política. Na faculdade, foram oferecidas noções básicas do pensamento político de Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Locke e outros por professoras como Célia Quirino, Ruth Cardoso, Maria do Carmo Campello de Souza e Maria Tereza Sadek. E ainda cursos sobre teoria política contemporânea, Estado moderno, teoria do valor, ideologia, indústria cultural, teoria da dependência, movimentos sociais e outros temas da Sociologia e da Política. Por esse tempo, causavam-me impacto autores como o Lukács de História e consciência de classe, o Lênin de Que fazer? e de O estado e a revolução, além do Marx dos primeiros capítulos de O capital e do 18 Brumário. Vivia-se uma onda de reação ao althusserianismo, que fora influente na academia em especial na primeira metade dos anos 1970. Até para criticar, lia-se Althusser e sobretudo o Poulantzas de Poder político e classes sociais e As classes sociais no capitalismo de hoje.

Estudei Ciências Sociais e Direito, como poderia ter cursado Letras, Economia ou História. O gosto é mesmo pela unidade interdisciplinar das ciências humanas. Por isso não me considero sociólogo típico, nem me identifico plenamente com um “campo”, no sentido de Bourdieu, embora as circunstâncias da vida em geral, e da carreira em particular, tenham me alocado no campo da Sociologia. Um teste vocacional, realizado aos 14 anos de idade, apontou 95% para matemática. Isso reforça a impressão de que foram determinantes para a trajetória profissional – além de imponderáveis doses de acaso – as condições sociais e pessoais vivenciadas, que me aproximaram das ciências sociais: infância e juventude sob a ditadura, o pai simpatizante do comunismo, um avô operário, o Zeitgeist anticapitalista dos meios que frequentava nos anos 1960, 1970 e parte dos 1980, o gosto desenvolvido desde menino pela literatura e pelo cinema, a urbanização e o assentamento de um modo de vida intelectual nas metrópoles, simultâneo ao florescimento de novas classes médias ascendentes com acesso à universidade. Enfim, uma série de fatores levaram-me a compartilhar certa “estrutura de sentimento” anticapitalista – para recorrer ao termo de Raymond Williams (1979: 130-137) – ainda forte em setores de minha geração.

Rascunho de um romance de formação

Quando estava no meio dos dois cursos universitários, aos 20 anos, dei-me conta de que viraria profissional cedo demais, e de que estava passando a juventude voltado apenas a leituras e estudos, com espaço só para um cineminha e participar discretamente da política estudantil. Precisaria mudar algo na vida. Um amigo – Umberto Celli Jr., hoje professor na Faculdade de Direito da USP – pensava em partir para temporada na Inglaterra e entrei na onda, com o dinheiro que economizara ao longo da adolescência, suficiente para a passagem. De início, meus pais foram contra. Mas – quando viram que estava irredutível, dispondo-me a abandonar a Faculdade de Direito, trabalhando a fim de fazer poupança para a viagem – resolveram ajudar, desde que continuasse os estudos jurídicos. Sou grato pela compreensão e pelos trezentos dólares que me mandavam todo mês, possibilitando a experiência de ano e meio no exterior. Um sacrifício e tanto para eles que nunca haviam saído do Brasil nem cultivavam o hábito de viajar, levando vida austera que servia de exemplo para mim, minha irmã e meu irmão, mais novos que eu.

Passei o ano de 1980 na Europa, onde pude aprofundar os conhecimentos de línguas que acumulara em São Paulo ao longo da década de 1970, em cursos na Cultura Inglesa, na Casa de Dante, no Instituto Goethe e na Aliança Francesa. Foram seis meses em Londres, onde estudava inglês todas as tardes numa escola pública, a Kilburn Polytechnic. Findo o curso e obtido o certificado de proficiência em inglês da Universidade de Cambridge, um passe de trem com desconto especial para estudantes permitiu visitar quase todos os países da Europa Ocidental nos dois meses das férias de verão, sempre com hospedagem em albergues da juventude. Desde a metade da estada na Inglaterra, seguia viagem sozinho, procurando conhecer as pessoas dos locais por onde passava. Terminadas as férias, veio o curso de alemão por dois meses no Goethe Institut, em Grafing, perto de Munique, onde obtive o diploma de conhecimento básico da língua alemã, que teve pouca valia, pois logo abandonei o projeto de ser um exegeta da obra de Marx.

Permaneci outros dois meses sediado na Alemanha, realizando incursões pelo então comunista e misterioso leste europeu, onde estive por quarenta dias, em temporadas alternadas, em quase todos os países, culminando com a União Soviética, onde visitei Moscou e Leningrado. O único daqueles lugares – além da Iugoslávia – em que o “comunismo” parecia ter alguma legitimidade para as pessoas que conheci por lá.

Cláudio Abramo – correspondente da Folha de São Paulo na Inglaterra, e tio-avô de duas colegas de faculdade – foi quem me convencera numa prosa em Londres a conhecer a Europa Oriental, em especial a URSS, onde ele acreditava estar o futuro da humanidade, a despeito dos desvios burocráticos. Pude testemunhar o cotidiano naquelas sociedades, experiência vivida com intensidade pessoal e curiosidade sociológica. 

Do ponto de vista teórico, lembro de ter lido na Alemanha, em versão em inglês, o livro de Lênin Imperialismo, o estágio mais elevado do capitalismo, além de obras de literatura. Também comecei a me interessar por Freud, que viria a conhecer melhor na disciplina de Heloísa Fernandes na pós-graduação da USP (também viria a ter uma experiência significativa ao me submeter à psicanálise entre 1998 e 2002). Mas esse interesse nunca tomou rumos acadêmicos.

O despertar da vocação de cientista social, assim como o apreço pelos anos 1960 como tema de estudo, possivelmente estejam ligados às preocupações políticas de meu pai, ao infindável diálogo com ele desde pequeno, à observação de suas conversas com outros adultos e de suas leituras, por exemplo: Correio da Manhã, Revista Civilização Brasileira, mais tarde O Pasquim – todos com sede no distante Rio de Janeiro. Era um grande sujeito, marcante para quem o conheceu, homem de inteligência e sensibilidade elevadas, advogado formado na USP, mas de hábitos simples, oriundo de família operária descendente de italianos, dono de bom ouvido musical e grande voz – quase seguiu carreira como cantor lírico, barítono, mas era tímido demais para isso. Aos vinte anos, eu o considerava um ótimo pai, mas vivia atacando o que parecia ser seu reformismo ultrapassado da ótica de quem se identificava com os novos movimentos sociais que resultaram na criação do PT. Seus votos no PMDB e simpatia pelo PCB incomodaram-me até o final de sua vida, encerrada precocemente aos 57 anos, por problema no coração, em 1986, um mês e meio após o nascimento de meu filho mais velho.

Voltando à viagem de 1980-81: após um ano na Europa, consegui economizar o suficiente para fazer a travessia das Américas antes do retorno ao Brasil. Foi assim que, de janeiro a julho de 1981, viajando de ônibus, sozinho, hospedando-me nos hotéis e pensões mais baratos, fui de Nova York a Montevidéu – incluindo paradas em quase todos os países, até mesmo três semanas inesquecíveis na Nicarágua sandinista pós-revolucionária e sete dias em Havana, num tempo em que ainda era proibido ir a Cuba para brasileiros. México e Peru pareceram particularmente fascinantes pela cultura pré-colombiana. Em Lima, conheci de passagem o lendário líder popular Hugo Blanco, então trotskista. 

Naquela viagem, sempre ia ao cinema, especialmente na estada em Londres. Dava preferência a filmes clássicos em reprise. Também visitei incontáveis museus e galerias de arte, além de assistir a uma ou outra peça de teatro, ópera e exibição de orquestras. Li jornais, revistas e livros como Crime e castigo, de Dostoiévski, e Cem anos de solidão, de Garcia Marques, quando estive na Colômbia. Foram obras marcantes para a formação, assim como aquelas lidas pouco antes ou depois da viagem: as trilogias de Machado e de Graciliano, o Grande sertão de Rosa, poemas de Bandeira e de Drummond, entre tantas outras. Confesso que algumas obras tidas como marcos da literatura universal decepcionaram-me na época, como a Madame Bovary, de Flaubert, e O primo Basílio, de Eça de Queiroz – nunca entendi como alguém pode considerar Eça superior a Machado de Assis. Também tive uma fase de ler obras fracas literariamente, como alguns policiais de Agatha Christie, por volta dos 14 ou 15 anos de idade. Na juventude eu acalentava o sonho de ser escritor, realizado tardiamente com meu romance Arrigo (Boitempo, 2023), e outros em elaboração. A obra literária mais impactante para mim foi Dom Quixote de la Mancha. Na infância, o Quixote de Lobato nem me cativara, parecia um velho demente seguido pelo criado simplório. Mas o de Cervantes pareceu-me genial. Como não me identificar e rir com o idealismo do velho cavaleiro e com a sabedoria mundana do gorducho?

Com o espírito de Quixote e o pragmatismo de Sancho, completava-se uma longa travessia de formação pela Europa e Américas. Tinha como referencial longínquo a famosa viagem de Che Guevara pela América Latina em 1952. Mas em 1980-81 já não cabiam ilusões: colocar o pé na estrada perdera o caráter questionador e alternativo. Por exemplo, nos anos 1970 – com base em viagens de aventuras pela Ásia – fora lançada na França a famosa série Le guide du routard, editada em larga escala até hoje pela Hachette, com dicas para mochileiros turistas em busca de experiências alternativas, baratas e fascinantes pelo mundo afora. O famoso símbolo do guia é expressivo: um rapaz carregando nas costas o globo terrestre em forma de mochila. Ao atravessar a América em 1981, encontrei pelo caminho uma legião de jovens que seguia a rota traçada por outro manual muito bem elaborado, o South American Handbook. Era o traçado que os hispano-americanos ironicamente chamavam “la ruta gringa”. Que espelho desconfortável! A cabeça de Quixote estava encantada com os caminhos do Che, mas os pés de Sancho seguiam o chão da ruta gringa, com o patrocínio modesto, mas suficiente, dos pais.

Essa viagem teve importância decisiva para minha formação de cientista social, ela deu a noção da passagem do tempo histórico e do espaço geográfico pelo contato com várias outras sociedades, línguas e pessoas, com visões de mundo as mais díspares, que me ampliaram horizontes intelectuais, políticos e pessoais. Paradoxalmente, a estada no exterior permitiu abrir os olhos, sem receio de provincianismo, para a sociedade brasileira, que tem sido objeto principal de minhas pesquisas. Em suma, foi um ganho tornar-me “turista aprendiz”, para usar a famosa expressão de Mário de Andrade.

Nas férias escolares de verão após o retorno do exterior, o “turista aprendiz” visitou o Norte e Nordeste do Brasil, conhecendo suas principais capitais. Até hoje, é ótimo ser convidado para falar em locais fora do eixo Rio-São Paulo, o que permite constatar a existência de vida inteligente por toda parte, com a qual vale a pena dialogar. Isso também se aplica ao exterior, aonde só retornei dez anos após a viagem de 1980-81, agora para expor trabalhos sobre a sociedade, a cultura e a política brasileira em congressos e seminários realizados por instituições acadêmicas em diversos países, que culminariam com minha estada como professor visitante na Columbia University em Nova York, ocupando a cátedra Ruth Cardoso (2014-2015), e na Sorbonne Nouvelle em Paris, na cátedra Simon Bolivar (2017). O resultado acadêmico mais elaborado dessas experiências internacionais é meu livro recente sobre a Guerra Fria cultural nos anos 1950 e 1960, intitulado O segredo das senhoras americanas (ed. Unesp, 2022).

Itinerários – pós-graduação e início de carreira

Concluí o curso de Ciências Sociais na USP em dezembro de 1982 e fui convidado por Heloísa Fernandes para fazer o mestrado em Sociologia, sobre as esquerdas armadas brasileiras, tema que sempre me fascinara e Heloísa incentivava a estudar, a partir da disciplina de Sociologia do Desenvolvimento, ministrada por ela na graduação.

Em junho de 1983, veio a formatura em Direito. Estava com 24 anos de idade, dois diplomas universitários e vários de línguas. Ainda não era usual conceder bolsa aos alunos do mestrado. Nem teria mais cabimento continuar dependente dos pais. O desejo era seguir carreira universitária; eu não pretendia advogar. Preparei o currículo e fui à luta, em diferentes áreas. A despeito dos desejos, naquele momento, diversos rumos eram possíveis. Conforme a oferta do mercado de trabalho, poderia ter virado professor de História em cursinho para vestibular, professor de inglês em escola de línguas, estagiário em museu ou biblioteca, jornalista (tinha vários colegas de faculdade trabalhando na Folha de São Paulo), ou até administrador de hotel ou de empreendimento de turismo que envolvesse o conhecimento de idiomas, sem contar que não teria como recusar, caso aparecesse, um bom estágio em escritório de advocacia.

Foi então que o acaso veio a calhar. No último dia do curso de Brasilio Sallum na pós-graduação, em junho de 1983, fui até a secretaria e vi o cartaz, escrito à mão: encerravam-se no dia seguinte as inscrições de um concurso para docente substituto de Sociologia na Universidade Estadual de Londrina, a UEL. Mandei o currículo às pressas e fui chamado para realizar o exame, levando na bagagem alguns livros meus e outros que o Brasilio me emprestara. Em julho, após oito horas de ônibus, cheguei a Londrina, paixão à primeira vista. No dia seguinte, foi o sorteio do ponto da aula. Sorte de principiante: o tema foi a teoria sociológica de Karl Marx. Acabei aprovado, apesar da banca parcialmente hostil ao pensador alemão.

O destino não permitiria que meu nome integrasse por mais de um mês as estatísticas de desemprego após o término da faculdade. Encontrara trabalho longe de casa, no interior do Paraná, mas de acordo com as pretensões de seguir carreira universitária. Iniciava-se assim um período muito gratificante, uma “vida de gato”: sete anos de trabalho em Londrina, nos quais dei muitas aulas – confesso que talvez tenha aprendido mais sociologia estudando para ensinar do que nos bancos da faculdade. Integrei-me às atividades do Departamento de Ciências Sociais, ao lado de colegas como Pedro Roberto Ferreira, Nelson Tomazi e Marcos Alvarez, que chegou depois de mim. Estudei muito para fazer novo concurso e ganhar a vaga de professor efetivo.

Também viajava constantemente para cumprir os créditos da pós-graduação e para realizar a pesquisa da tese, incluindo as mais de trinta entrevistas com ex-guerrilheiros em São Paulo, Osasco, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. No começo, financiei a pesquisa por conta própria, depois obtive bolsa da ANPOCS, além de verbas da UEL e da CAPES, que me deu uma bolsa do PICD. No plano pessoal, em Londrina, acabei me casando pela primeira vez e tendo dois filhos.

No decorrer da pesquisa sobre as raízes sociais das esquerdas armadas, apareceu a oportunidade de conhecer colegas estudiosos da esquerda brasileira, a maioria dos quais integrava o Grupo de Trabalho (GT) “Partidos e movimentos de esquerda” da ANPOCS, ao qual me integrei em 1985. Fiz amizade com pesquisadores como Marco Aurélio Garcia, João Quartim de Moraes, Carlos Nelson Coutinho, Celso Frederico, Jacob Gorender, Ricardo Antunes, João Roberto Martins Filho, Gildo Marçal Brandão, Cláudio Batalha, Osvaldo Coggiola, Antônio Albino Rubim, Rubens Pinto Lyra, Sílvio Frank Alem, Marcos del Roio, Raimundo Santos, Antônio Carlos Mazzeo e outros, como Daniel Aarão Reis, que fora colega num curso de pós-graduação e com quem viria a desenvolver empreendimentos comuns. Dulce Pandolfi era das raras pesquisadoras nesse clube do Bolinha.

Viria a coordenar o GT “Partidos e movimentos de esquerda” de outubro de 1989 a outubro de 1993. Tive oportunidade de organizar uma série de seminários, mesas-redondas e cursos nas reuniões anuais da ANPOCS, da SBPC, da ANPUH, da SBS e em universidades pelo Brasil afora, com muito êxito de público, no contrafluxo da maré montante antissocialista daqueles anos, contemporânea da queda do muro de Berlim. No GT, as várias orientações de pesquisadores das esquerdas talvez possam ser agrupadas em duas correntes: uma herdeira do marxismo-leninismo, cujo representante mais destacado era João Quartim de Moraes; a outra, mais heterodoxa, tinha como principais integrantes Marco Aurélio Garcia e Daniel Aarão Reis. Eles me ensinaram – na convivência e em seus escritos – a desconfiar de qualquer verdade estabelecida e também foram exemplos como historiadores da esquerda brasileira. Essa influência intelectual, somada aos acontecimentos políticos nacionais e internacionais nos anos 1980, e principalmente à pesquisa que realizava sobre as esquerdas armadas brasileiras, distanciaram-me de concepções de partido de vanguarda e da aposta intelectual e política no bolchevismo como válido para as transformações sociais necessárias naquele final do século XX. Mas não me afastaram da convicção de que a obra de Marx continua sendo a referência clássica mais adequada para pensar nosso tempo. Por iniciativa do grupo, seria editada a História do marxismo no Brasil, de que fui coorganizador dos volumes 5 e 6 (ed. Unicamp, 2007).

Minhas pesquisas procuram vincular-se à famosa tese de Marx (1977) sobre Feuerbach: “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo”. Isso envolve não cair no engano da neutralidade axiológica, tampouco separar conhecimento de ação política. O que é muito distinto de distorcer a realidade para que ela se enquadre em modelo teórico preconcebido ou projeto político predeterminado. Investigar a realidade para transformá-la envolve um projeto radical de conhecimento objetivo que se afasta de qualquer proposta ideológica que trate o real conforme as conveniências políticas do momento, submetendo assim a análise sócio-histórica aos vaivéns da política. Implica ir além das aparências, ir “ao fim e ao fundo” – como gostava de dizer Florestan Fernandes – no desvendamento das contradições sociais, políticas, econômicas e culturais constitutivas do real.

Inspirado nessa perspectiva teórica e metodológica de analisar a sociedade como totalidade contraditória em movimento, tenho desenvolvido minhas pesquisas, influenciado também por Michael Löwy, autor cuja obra admiro desde o tempo de estudante e de quem me aproximei a partir do final dos anos 1990, com várias atividades de intercâmbio acadêmico internacional. Já na tese de doutorado, incorporara a proposta de Löwy (1979) de investigar “as mediações ético‑culturais e político‑morais” no processo de radicalização de alguns intelectuais e de parcelas das camadas médias intelectualizadas. Beneficiando-me também das discussões com a orientadora, Heloísa Fernandes, e com os colegas do GT “Partidos e movimentos de esquerda”, terminei a pesquisa em 1989. Eu a havia preparado entre os 24 e os 30 anos, faixa etária da maioria dos militantes das organizações clandestinas de combate à ditadura nas décadas de 1960 e 1970. Era uma contribuição sociológica para o acerto de contas com o passado recente; ao final do trabalho, concluía que o leninismo ou qualquer tipo de vanguardismo haviam encerrado seu ciclo histórico, mas precisavam ser examinados nos contextos políticos específicos que os geraram.

Ao ler o trabalho, Heloísa Fernandes entendeu que deveria enviá-lo diretamente ao doutorado, e não ao mestrado, como estava previsto. Ouviu o parecer do coordenador da Pós-graduação, Sedi Hirano, e me submeteram ao exame de qualificação ao doutorado, do qual participou também Francisco de Oliveira, que acabara de ingressar na USP e tive então a oportunidade de conhecer, e a quem admirava sobretudo pela sua Crítica à razão dualista. Eles gostaram do texto apresentado, um capítulo teórico da tese, sobre classes sociais e representação política.

Quase cinco anos mais tarde, esse texto da qualificação foi retomado. Após o rearranjo formal e acrescido de reflexões desenvolvidas no curso ministrado por mim na pós-graduação em Sociologia da UNESP, gerou o livro Classes sociais e representação, com prefácio de Francisco de Oliveira (ed. Cortez, 1994). Ali ficam explicitadas algumas das influências teóricas sobre minhas pesquisas: Pasukanis, E.P. Thompson, Perry Anderson, Nicos Poulantzas e Adam Przeworski. Também os brasileiros, quase todos do ambiente da USP que originou os seminários de O capital no início dos anos 1960: Michael Löwy, Roberto Schwarz, Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Ruy Fausto, Sedi Hirano – e outros fora desse círculo, como Francisco de Oliveira e Décio Saes. Sem contar os clássicos, Max Weber e, especialmente, Karl Marx.

Essa mesma base teórica informou minha pesquisa sobre a ANDES como referência para compreender as classes médias de esquerda, que resultou no livro Professores e ativistas da esfera pública (ed. Cortez, 1995). Foi o trabalho inaugural com bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq, que desde então passou a apoiar minhas investigações. O primeiro livro publicado fora um paradidático, Política pra quê (Atual, 1992), até hoje meu best seller, chegando a doze reimpressões e uma reedição atualizada em 2011. Trata dos partidos políticos brasileiros à luz dos clássicos da Sociologia.

A defesa do doutorado ocorrera em agosto de 1989. Compunham a banca: Octavio Ianni, Daniel Aarão Reis e os três professores que haviam participado do exame de qualificação. Com base na tese, publiquei em 1993 o livro O fantasma da revolução brasileira, pela editora Unesp. Todo o processo de pesquisa de anos que resultou nessa obra foi marcante em minha formação: as leituras realizadas, os documentos analisados, a construção dos dados estatísticos sobre os grupos de esquerda com base no levantamento do Projeto Brasil Nunca Mais, e ainda as longas entrevistas gravadas com ex-guerrilheiros.

Na idade da razão: UNESP e UNICAMP

Em agosto de 1990, após ser aprovado em concurso público, ingressei no Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, em Araraquara. Tive a oportunidade de manter diálogo acadêmico com vários colegas, muitos dos quais se tornaram também amigos, caso de Jorge Miglioli, Eliana Melo Souza, Renato Franco, José Antônio Segatto, José Leonardo Nascimento, Lucila Scavone, Maria Lygia Quartim de Moraes, Vera Botta, Maria Aparecida Moraes, Maria de Lourdes Scarfon, Anita Simis, Tânia Pellegrini e outros. Lá realizei a pesquisa que redundaria no meu livro mais citado, Em busca do povo brasileiro – artistas da revolução (Record, 2000, reeditado pela Unesp, 2014), baseado na tese de livre-docência que defendi em 1999, já na UNICAMP.

Aprovado em concurso, fora transferido da UNESP para o Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, em julho de 1998. Embora fosse novo na instituição, convocaram-me para coordenar o Mestrado em Sociologia, atividade exercida de março de 1999 a abril de 2001. Começava a longa jornada em Campinas, que segue até hoje, ao lado de colegas que chegaram antes de mim, como Renato Ortiz, Octavio Ianni, Elide Rugai Bastos, José Mário Ortiz Ramos, Ricardo Antunes, Márcio Naves, Maria Lygia Quartim de Moraes, Leila Ferreira, Fernando Lourenço, Walquíria e Rubem Murilo Leão Rêgo, Laymert Garcia dos Santos, Josué Pereira da Silva, quase todos atualmente aposentados. A seguir vieram Jesus Ranieri e representantes das novas gerações admitidos no departamento nos anos mais recentes. Na UNICAMP e na UNESP, formei 30 mestres, 21 doutores e supervisionei 14 pós-doutorados, além dos que estão em curso. Meus antigos orientandos são atualmente docentes e pesquisadores na USP, UNESP, UNICAMP, Unifesp, UFPR, UFG, UFMT, UFES, UFFS, UEL, Unioeste, entre outras instituições.

Cheguei ao cargo de Professor Titular de Sociologia no IFCH da UNICAMP em concurso de 2004. De 2005 a 2008, fui secretário executivo da ANPOCS, ao lado de colegas de diretoria como Gildo Marçal Brandão, Gabriel Cohn e Ruben Oliven. Aprendi muito com eles e com a experiência de alcance nacional na entidade. Isso leva à tentação de prosseguir esta narrativa, já adentrado no século XXI, que me trouxe interesse crescente pela sociologia da cultura e dos intelectuais, presente por exemplo no livro publicado pela editora Unesp em 2010, intitulado Brasilidade revolucionária. Sem contar o novo casamento, mais um filho e até um neto, fora a aventura da ficção literária. Mas não caberia ir além do limite proposto: a revisita breve aos anos de formação que nunca mais podem volver.


Referências

BOURDIEU, Pierre. (1966). As regras da arte. São Paulo: Companhia das letras.

LÖWY, Michael. (1979). Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários. São Paulo: Ciências Humanas.

MARX, Karl. (1977). A ideologia alemã (Feuerbach). São Paulo: Grijalbo.

WILLIAMS, Raymond. (1979). Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar.

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