Série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira | Carlos Benedito Martins

Dando continuidade à série Modos de narrar a sociologia brasileira, apresentamos a décima dupla de posts. Esta série busca tecer uma narrativa mais diversificada, descentralizada e contextualizada da sociologia no Brasil, utilizando trechos de memoriais acadêmicos escolhidos pelos próprios sociólogos que contribuem para o campo. Neste post, compartilhamos as reflexões de Carlos Benedito Martins (UnB) e Roberto Verás (UFPB).

Carlos Benedito Martins teve sua carreira profundamente influenciada pelo Golpe de 1964, evento que direcionou sua escolha pelas Ciências Sociais e seu compromisso com a resistência ao autoritarismo. Ao longo de sua carreira, Carlos Benedito atuou intensamente na docência e na pesquisa, com foco no ensino superior e na sociologia da educação. Seu doutorado na França, onde absorveu as ideias de Pierre Bourdieu, foi apenas um capítulo de uma carreira internacional que incluiu passagens por instituições renomadas como Columbia e Oxford. O leitor poderá acompanhar como o engajamento ativo de Martins na comunidade científica nacional o tornou uma figura fundamental para o desenvolvimento da pós-graduação em Ciências Sociais no Brasil. Roberto Véras, por sua vez, traça um paralelo entre sua trajetória nas Ciências Sociais e sua militância política, especialmente na Central Única dos Trabalhadores (CUT). Sua abordagem crítica e engajada nas lutas sociais se reflete em pesquisas sobre sindicalismo, que evoluíram para uma análise mais ampla da cidadania e democracia no Brasil. No Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (CENEDIC), Véras conviveu com os principais intelectuais críticos do país, enriquecendo sua perspectiva acadêmica.

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Desejamos a todas e todos boa leitura!


Memorial (2011)

Carlos Benedito Martins (UnB)

Introdução

Os anos iniciais, tanto de minha formação acadêmica quanto de minha atividade docente, ocorreram no contexto do Golpe de 1964 e de suas consequências políticas, econômicas e culturais. A própria escolha da área de Ciências Sociais foi motivada pela disposição subjetiva de me contrapor aos tempos sombrios instaurados pelo regime autoritário. Constato também que, ao longo das últimas quatro décadas, minha vida profissional estruturou-se pela profunda imersão na docência universitária, atividade que venho exercendo, de forma ininterrupta, desde 1972. Creio que a escolha da carreira universitária foi marcada pela disposição subjetiva de resistir resolutamente a qualquer modalidade de manifestação autoritária imposta à vida social.

Ao me inserir de maneira enraizada na instituição universitária, a prática docente pouco a pouco me conduziu a eleger a temática do ensino superior como um eixo estruturador de pesquisa, cuja problemática tenho me dedicado de forma constante ao longo de minha carreira. Durante um extenso período, me dediquei a analisar a estruturação do campo do ensino superior brasileiro a partir da década de 1960. Num período mais recente, tenho me dedicado a abordar as transformações recentes do ensino superior no plano internacional, no contexto de sua globalização. Nesse sentido, percebo que os três elementos – formação acadêmica, docência universitária e escolha da temática do ensino superior como objeto de pesquisa – constituem uma unidade em minha atuação enquanto acadêmico, cada uma dessas dimensões alimentando-se reciprocamente.

Os anos de graduação

 Foi durante o curso clássico, realizado entre os anos 1965 e 1967, no Liceu Estadual de Goiás – então prestigioso estabelecimento público de ensino localizado na cidade de Goiânia – que despertou em mim o interesse em realizar o curso de Ciências Sociais. Alguns professores responsáveis por determinadas disciplinas do Liceu estavam se graduando na Universidade Federal de Goiás (UFG). Portanto, tratava-se de jovens docentes em fase de treinamento que nos transmitiam, com notável entusiasmo, os conhecimentos que estavam adquirindo. Entre eles, destacavam-se os responsáveis pelas disciplinas de História e Geografia, que realizavam então o curso de Ciências Sociais em plena fase de implantação na UFG e que influenciaram minha opção por essa área de conhecimento. Depois de idas e vindas nas negociações familiares, realizei o vestibular e fui aprovado no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

Comecei a realizá-lo em 1968. Os primeiros meses do curso representaram uma completa decepção para quem muito esperava obter uma formação acadêmica na área escolhida. O corpo docente que o integrava naquele momento não possuía um adequado treino na área de Ciências Sociais, capaz de propiciar aos estudantes uma imersão no universo intelectual das ciências. Ademais, os professores dedicavam-se a outras atividades profissionais e, de maneira geral, mostravam-se incapazes de delinear um plano de estudos que pudesse nos orientar e motivar nossa curiosidade intelectual. Este fato era agravado pela escassez de recursos materiais que se traduzia numa biblioteca em que raramente existiam obras significativas das Ciências Sociais. Certamente, a falta de uma adequada qualificação acadêmica, bem como a inexistência de dedicação profissional de seus docentes à instituição e os parcos recursos de fontes de consulta, não constituía um fato isolado da UFG. A precária realidade institucional expressava, em maior ou menor grau, a situação do ensino superior público federal então existente no país.

No emblemático ano de 1968, em várias partes do mundo, os estudantes tiveram uma participação no cenário social que assumiu diferentes matizes políticos, segundo o contexto sócio-histórico no qual se inseriam. No Brasil, além da luta pela restauração da democracia, os estudantes intensificaram o movimento pela reforma do ensino superior. Desde o início da década de 1960, a UNE realizou uma série de Seminários Nacionais sobre a Reforma Universitária. Esse ambiente de mobilização, do qual também participei através da inserção na União Estadual dos Estudantes, vinculada à UNE, constituiu uma das fontes que me inspirou a eleger o ensino superior no país como um dos objetos que privilegiei em minhas pesquisas.

Prestes a terminar o ano letivo de 1968, em função da precária qualidade acadêmica do curso de Ciências Sociais então existente na UFG, tomei a decisão de realizá-lo na cidade de São Paulo, onde, em minha avaliação, havia uma sólida tradição acadêmica nessa área do conhecimento. Para implementar essa escolha, contei com o apoio moral e financeiro de meus pais. Como a Universidade de São Paulo não aceitava solicitações de transferência, recorri à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que aceitou minha solicitação. Antes de mudar para São Paulo, passei dois meses na França, para impulsionar o curso de francês que vinha realizando já há alguns anos na Aliança Francesa. Essa curta passagem alimentou a construção do projeto de frequentar a universidade francesa num momento posterior, com o propósito de adquirir uma formação acadêmica consistente na área de Ciências Sociais.

Na medida em que uma parte considerável de seu orçamento institucional provinha de fundos do governo federal, suas anuidades escolares eram bastante módicas naquele momento, de forma que seu funcionamento cotidiano em nada se assemelhava às empresas educacionais que viriam a constituir posteriormente uma parte expressiva do ensino superior privado no país. Em função das características sociais da clientela que a frequentava e do forte clima de vigilância e de controle político-ideológico instalado no país e na cidade de São Paulo, o movimento estudantil praticamente não existia em seu interior quando iniciei meus estudos de graduação.

Desde os primeiros contatos com o curso da PUC, percebi uma enorme diferença qualitativa com relação à experiência acadêmica que tivera anteriormente. Seu corpo docente já contava com alguns doutores – fato relativamente raro naquele momento – e com vários outros professores em vias de realização de um mestrado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo. A maior parte deles manifestava, durante as aulas, uma seriedade acadêmica e uma dedicação no acompanhamento dos estudantes. A postura e o comportamento intelectual de alguns docentes, tais como Carmem Junqueira, Maurício Tratenberg, Paulo Resende, Otília Arantes, Edgar Assis Carvalho, Gilda Portugal Gouveia e José Roberto Malufe, iram exercer profunda influência em minha conduta posterior da vida acadêmica.

O curso da PUC buscava oferecer uma formação intelectual integrada no domínio das Ciências Sociais, incentivando, para tanto, um constante diálogo entre as disciplinas básicas e as complementares que integravam sua grade curricular. Nesse sentido, as três disciplinas que constituíam o eixo central do curso – Sociologia, Ciência Política e Antropologia – ao mesmo tempo em que procuravam explicitar suas especificidades em termos de objeto e de enfoque, ressaltavam, também, a possibilidade teórica da utilização conjunta de suas respectivas perspectivas analíticas na compreensão da vida social.

Desta forma, o curso me propiciou uma preocupação constante em preservar uma unidade intelectual no interior das Ciências Sociais, procurando manter um diálogo constante entre as disciplinas básicas e complementares que constituem seu universo. Por outro lado, a formação recebida na graduação me propiciou a disposição de resistir, ao longo de minha vida acadêmica, à fragmentação da própria Sociologia, cada vez mais submetida a um vertiginoso processo de subdivisão disciplinar e de hiperespecialização temática. Como apontaram diversos autores, nem sempre tem ocorrido uma comunicação enriquecedora entre os resultados de pesquisas levadas a cabo no interior das “sub-Sociologias” e/ou áreas temáticas e as questões epistemológicas, teóricas e substantivas da própria disciplina.

Meu contato com autores significativos das Ciências Sociais, especificamente do universo da Sociologia, se iniciou, portanto, na graduação, cujo significado intelectual que teve para minha formação acadêmica poderia me levar a escrever inúmeras páginas, o que procurarei evitar. Nas aulas de Antropologia, tomei conhecimento das contribuições de autores como Lewis Morgan, Franz Boas, Bronislaw Malinowski, Radcliffe Brown, Margaret Mead, Ralph Linton, Ruth Benedict, Edmund Leach, Claude Lévi-Strauss, George Balandier, entre outros. Fiquei particularmente impactado com a denominada Escola Francesa de Antropologia, representada por Émile Durkheim e Marcel Mauss, que transitavam de maneira fluida e com elegância intelectual entre a Antropologia e a Sociologia.

As disciplinas de Ciência Política nos proporcionaram tomar conhecimento de pensadores clássicos, como Hobbes, Maquiavel, Locke, Montesquieu, Rousseau, Karl Marx, Max Weber, Alexis de Tocqueville, Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto. Na medida em que a tradição do pensamento marxista gozava de uma posição de legitimidade na universidade brasileira naquele momento, tomamos contato com várias obras de Marx, Engels, Lenin, Rosa Luxemburgo, Antonio Gramsci, Henri Lefebvre, entre outros. No início dos anos 1970, a grande repercussão no meio universitário de vários países, inclusive no Brasil, do marxismo de vertente estruturalista, nos permitiu ainda manter contato com os trabalhos de Louis Althusser, Étienne Balibar e Nicos Poulantzas.

As disciplinas ligadas à Sociologia me possibilitaram entrar em contato com seus autores clássicos, tais como Auguste Comte, Saint-Simon, Joseph Proudhon, Herbert Spencer, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber. Me possibilitaram, também, ter contato com autores contemporâneos como Talcott Parsons, Robert Merton, Hans Freyer, Karl Mannheim, Wright Mills, Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Michel Foucault. O livro de Florestan Fernandes, Fundamentos empíricos da explicação sociológica, cuja primeira edição surgiu em 1959, ao tentar aproximar autores como Marx, Durkheim e Weber para enfrentar o problema da indução na investigação sociológica, representou, para mim, um vigoroso contraexemplo dessa postura de trabalhar com os autores em termos de incomunicabilidade científica. De certa maneira, a reflexão levada a cabo nesse trabalho pioneiro antecipou avant la lettre uma nova atitude científica que ganharia impulso no interior da Sociologia a partir do final dos anos 1970, qual seja, a tentativa de estabelecer pontes de comunicação entre distintas tradições teóricas. O curso de graduação propiciou também o contato com obras significativas de cientistas sociais brasileiros, tais como Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Costa Pinto, Juarez Brandão Lopes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Luiz Pereira etc.

Devido ao leque de autores com os quais tomei contato durante o curso de graduação, senti-me instigado a manter uma atitude intelectual de abertura às distintas orientações teóricas, procurando, sem maniqueísmo, perceber seus alcances e limites explicativos. Por sinal, procurei manter essa postura intelectual na minha vida acadêmica e, posteriormente, transmiti-la aos estudantes que frequentaram meus cursos de teoria. A partir de então, passei a manifestar um destacado interesse pela Teoria Sociológica Contemporânea, não como uma finalidade em si, mas como um instrumento estratégico no processo de produção de conhecimento, concentrando posteriormente minha atividade docente nessa área de reflexão e publicando determinados trabalhos nessa mesma vertente.

Por mais de uma década, frequentei cotidianamente a PUC-SP, com enorme entusiasmo, inicialmente como aluno e posteriormente como professor, uma vez que iniciei nessa instituição os primeiros anos de minha carreira acadêmica. Foi na PUC de São Paulo que descobri e entrei em contato com a riqueza do universo intelectual das Ciências Sociais, que me seduziu intelectualmente e continua me fascinando ao longo de minha existência. Além da formação intelectual inicial na área de Ciências Sociais, a PUC me propiciou a descoberta de uma inclinação para a vida acadêmica. À medida que ia avançando no curso de graduação, sentia que estava brotando lentamente no meu interior uma paixão pelo conhecimento na área das Ciências Sociais, e, pouco a pouco, fui percebendo que estava ganhando forma no recôndito do meu ser essa estranha embriaguez que Max Weber denominou de vocação. Em suas sábias observações, a vocação na ciência, tal como na arte, implica, no entanto, uma dedicação íntima e indivisível às suas tarefas inerentes. Portanto, foi no interior dessa instituição, através do convívio com determinados docentes e colegas, que descobri que desejava orientar minha existência numa direção acadêmica na área das Ciências Sociais, particularmente da Sociologia. Foi por esse caminho que procurei trilhar desde então.

Foi também na PUC-SP, juntamente com vários colegas de minha geração que a frequentaram e ingressaram no mesmo período na carreira docente, que recebi um treinamento formal e informal para exercer a atividade de docência universitária. Creio que o processo de socialização que recebi para me tornar professor universitário me possibilitou estabelecer uma relação de profundo respeito pelos estudantes, uma atitude favorável ao seu desenvolvimento intelectual, um sentimento de dedicação intelectual para com as Ciências Sociais, mas, acima de tudo, um compromisso ético com a universidade e com sua missão social e civilizadora.

Os cursos de mestrado e doutorado que faria em seguida contribuíram para me introduzir no universo da pesquisa em Sociologia que, em larga medida, foi alimentada pela própria atividade docente que desenvolvia e pelo contexto de transformações que passaram a ocorrer no ensino superior brasileiro pós-1964.

Os anos de Pós-graduação

Mestrado

Em 1972, fui contratado como docente na PUC-SP que iniciou seu Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais no ano seguinte, sendo um dos primeiros cursos de formação pós-graduada nessa área. Na esteira da Reforma Universitária de 1968, a PUC de São Paulo passou por um significativo processo de renovação acadêmica, expresso na própria criação do ciclo básico, na constituição de departamentos acadêmicos, na regulamentação da carreira acadêmica e, sobretudo, na abertura de cursos de pós-graduação em diferentes áreas do conhecimento. Nesse contexto, iniciou-se, gradativamente, no seu interior, um processo de transição de uma instituição até então voltada basicamente para a atividade de ensino, para uma universidade comprometida com a pesquisa acadêmica, destacadamente na área de Ciências Humanas e Sociais.

O Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais foi concebido e coordenado em sua fase inicial pela professora Carmem Junqueira, e compreendia três áreas de concentração: Sociologia, Ciência Política e Antropologia. O corpo docente era constituído por um pequeno número de professores, alguns dos quais tinham acabado de realizar seu doutorado no exterior, tais como Wilmar Faria, Bolivar Lamounier e Maria Andrea Loyola, que se tornou minha orientadora de mestrado. Os demais docentes que integravam o Programa naquele momento eram Candido Procópio, Josildeth Consorte, Maurício Tratenberg, a própria Carmem Junqueira e Reginaldo Prandi. O clima intelectual do programa era bastante arejado, o que permitia a convivência e o diálogo intelectual de diferentes posturas analíticas.

Em 1978, o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais incorporou em seu corpo docente Florestan Fernandes e Octavio Ianni, que haviam sido aposentados compulsoriamente pelo regime militar. A presença desses docentes reforçava a disposição da Universidade em desenvolver uma pós-graduação na área de Ciências Sociais com elevado padrão acadêmico. Por outro lado, indicava também o espírito de contestação social da PUC ao regime autoritário implantado no país, espírito que, ao ganhar gradativamente espaço e força no interior da instituição, a conduziu a tomar a linha de frente na defesa da restauração da democracia e da defesa das liberdades civis e dos direitos humanos. Essa guinada política da Universidade contagiou parte expressiva do seu corpo docente e discente, reverberando no interior do curso de pós-graduação em Ciências Sociais e me impulsionou a realizar uma dissertação que analisasse criticamente a política educacional do regime autoritário.

Durante o curso, tive oportunidade de entrar em contato com uma bibliografia cosmopolita, até então desconhecida para mim. O curso de Teoria Política, ministrado por Bolivar Lamounier, explorou simultaneamente vários teóricos contemporâneos da área, tais como David Easton, Gabriel Almond, Robert Dahl, Seymour Lipset, Sheldon Wolin, Thomas Bender, Carl Schorske e autores nacionais que contribuíram para a formação do pensamento político brasileiro. Este curso foi importante para a formulação de meu projeto de dissertação do mestrado, na medida em que me levou a refletir sobre as relações entre a esfera política e o sistema educacional, que foi explorado na dissertação “A Empresa Cultural no Brasil: um estudo de caso”. O curso de Teoria Antropológica, ministrado pela professora Carmem Junqueira, explorou determinadas obras clássicas nessa área do conhecimento, tais como Antropologia e Sociologia, de Marcel Mauss; As formas elementares da vida religiosa, de Durkheim; A memória coletiva, de Maurice Halbwachs; Antropologia Cultural, de Franz Boas; O pensamento selvagem e As estruturas elementares do parentesco, de Claude Lévi-Strauss. Em suas aulas, a professora Carmem Junqueira desenvolvia uma formulação de uma Antropologia pautada em uma visão ampla, circunstanciada na história e no mito, procurando desvendar concepções variadas do tempo incluídas na sociedade presente.

Uma das disciplinas que marcou minha formação acadêmica foi Teoria Sociológica Contemporânea, sob a responsabilidade da professora Maria Andrea Loyola, que teve uma forte influência em minha formação em Sociologia e no meu destino profissional. Depois de terminar seu mestrado em Antropologia no Museu Nacional, em 1969, seguiu para a França, onde obteve seu doutorado em 1973, sob orientação de Alain Touraine. Seu curso procurava explorar as relações entre ator e estrutura social, nas complexas mediações entre os níveis macro e micro que a compõem, além de abordar questões pertinentes da sociologia contemporânea. A participação nessa disciplina me estimulou a investir de forma constante no conhecimento de novos autores e de problemas formulados por eles.

Foi em seu curso que entrei pela primeira vez em contato com o pensamento de Pierre Bourdieu, de cuja obra a professora Maria Andrea possuía um conhecimento substantivo. Durante a realização de seu doutorado em Paris, tinha desenvolvido laços intelectuais e pessoais com esse autor e com vários pesquisadores que integravam o Centre de Sociologie Européenne construído por ele. A instigante obra de Bourdieu, que se encontrava ainda em pleno processo de construção, era pouco conhecida no país, com exceção de alguns antropólogos e sociólogos. Ao tomar conhecimento de alguns de seus escritos, fiquei impactado com os problemas que levantava, sua postura heterodoxa diante das tradições sociológicas e a articulação realizada por ele entre pesquisa empírica e referências conceituais. Percebendo meu interesse por sua obra, a professora Maria Andrea me estimulou a aprofundar o conhecimento de seus trabalhos, que passou a constituir uma referência intelectual em minha carreira acadêmica…

Também foi durante o curso de Teoria Sociológica Contemporânea que passei a ler de forma mais cuidadosa alguns trabalhos de Erving Goffman, autor já tratado nas aulas de graduação que, no entanto, naquele momento, não havia percebido a riqueza de seu pensamento. Sua obra A apresentação do eu na vida cotidiana, escrito numa linguagem próxima à literatura, exerceu em mim desde o início um verdadeiro fascínio intelectual e foi incorporada na minha dissertação de mestrado. Gradativamente, fui penetrando em seu sofisticado, complexo e desconcertante universo intelectual. Ao realizar o pós-doutorado na Universidade de Columbia, tive a oportunidade de ler uma série de trabalhos de sua autoria que me eram desconhecidos e, ao mesmo tempo, compreender melhor o seu profundo impacto na sociologia contemporânea. Desde então, passei a penetrar com maior detalhe em seu pensamento, o que me conduziu a publicar determinados artigos sobre certos temas de sua obra e divulgar a riqueza de suas formulações para as novas gerações, a partir de minicursos realizados em congressos científicos, mas também por meio de palestras em várias instituições no país.

Ainda com relação ao curso de mestrado, não poderia deixar de mencionar a importância que três professores assumiram na minha formação acadêmica e atuação no trabalho universitário: Maurício Tragtemberg, Florestan Fernandes e Octavio Ianni. Tive a oportunidade de estabelecer um convívio intelectual extremamente frutífero com eles, através de seus cursos e também por meio de contínuas discussões informais. Gradualmente, transformaram-se em instigantes interlocutores, com os quais discuti o projeto de dissertação de mestrado, que tinha como foco principal o ensino superior brasileiro. Apesar de suas diferenças de temas de pesquisa, esses três professores possuíam em comum uma acurada reflexão sobre a vida acadêmica, bem como um elaborado pensamento a respeito do papel da universidade nas sociedades modernas. Transmitiram-me, acima de tudo, uma maneira de encarar o trabalho intelectual de forma apaixonada, que exige de seu praticante uma elevada parcela de tempo e um denso investimento de energia, mas que, ao mesmo tempo, constitui uma inesgotável fonte de prazer existencial. Eles reforçaram a percepção que vinha se formando em mim, desde os tempos iniciais de graduação na PUC, do sentimento de dignidade que reveste o trabalho acadêmico. O privilégio que tive de conviver com professores dessa estatura acadêmica e de compartilhar com eles determinadas preocupações intelectuais, contribuiu para alicerçar a reflexão sociológica não apenas na dissertação que elaborava, mas nos trabalhos posteriores que desenvolvi na área do ensino superior.

Quando os professores Florestan Fernandes e Octavio Ianni foram contratados pela PUC, exercia a função de Chefe de Departamento de Sociologia. Naquele momento, junto com outros colegas, estávamos empreendendo a reforma do curso de Ciências Sociais. Tomamos a iniciativa de convidar a ambos para integrar a comissão de trabalho, em função da larga experiência que possuíam no campo das Ciências Sociais. Sem hesitar, responderam positivamente ao convite e participaram com extrema dedicação nos trabalhos da comissão.

Essas reuniões de trabalho e outros encontros ocorridos na PUC me propiciaram a oportunidade de desenvolver uma relação de frequente convívio intelectual com os referidos professores. Ambos se interessaram pelo tema de minha dissertação e mantivemos frequentes encontros para discuti-lo, com a anuência de minha orientadora. Nesses encontros, além de me sugerir pistas de investigação, referências teóricas, indicações bibliográficas, me transmitiam informalmente um exemplar raciocínio sociológico diante do objeto que desejava investigar. O professor Octavio Ianni participou na banca de defesa de minha dissertação. Já o professor Florestan Fernandes se prontificou a escrever o prefácio para a segunda edição de meu livro, baseada em minha dissertação, que incluiu em um dos seus trabalhos.

Em dezembro de 1979, defendi a dissertação de mestrado sob o título “A Empresa Cultural: um estudo de caso”, diante de uma banca constituída pela professora Maria Andrea Loyola (orientadora) e pelos professores Cândido Procópio e Octavio Ianni. A dissertação de mestrado procurava analisar o processo de emergência e expansão de uma nova modalidade de ensino superior privado que vinha assumindo nítidos contornos na sociedade brasileira, a partir do final dos anos sessenta, propiciado pelo regime autoritário. Esse “novo ensino superior privado”, de forte ethos empresarial, tendia a contrastar com as instituições confessionais que, até então, representavam o segmento privado do ensino superior no país. A dissertação procurava, ao mesmo tempo, retraçar a gênese do processo de privatização e analisar o funcionamento de uma instituição de ensino superior específica – as Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) –, que passou a atuar na cidade de São Paulo a partir de 1967, no contexto da expansão, onde o “novo ensino privado” assumiu um papel estratégico específico.

A conclusão do trabalho indicava que a FMU representava, naquele momento, a materialização da concepção instrumentalista da educação que o regime militar tentou implantar no país. A preocupação em propiciar aos seus estudantes um ensino “mais prático” e “menos teórico”, representava um nítido corte com o cultivo de um saber crítico sobre a realidade social. O produto final propiciado pela instituição era uma inteligência disciplinada, alunos aplicados nas tarefas escolares, porém destituídos de senso crítico, e um professorado desmobilizado, colocado sob constante vigilância. Indicava, ainda, a necessidade de novas pesquisas empíricas, visando conhecer mais agudamente o funcionamento e as dimensões ideológicas que o “novo ensino privado” assumia no contexto da expansão do ensino superior. O trabalho foi aprovado com nota 10 (dez), sendo pouco tempo depois publicado em forma de livro, cuja primeira edição foi prefaciada por Maurício Tragtemberg, e a segunda, por Florestan Fernandes.

Após a defesa do mestrado, continuei exercendo a atividade docente na PUC de São Paulo. Meu desejo de prosseguir na carreira docente me conduziu a realizar o doutorado no exterior, para me familiarizar com um meio acadêmico que me propiciasse uma experiência internacional. Em 1980, recebi uma bolsa de doutorado pleno no exterior pela CAPES. Por sugestão de minha orientadora, optei por realizar o doutorado na França, levando em conta a forte influência histórica de sua produção sociológica na universidade brasileira. Ela consultou Pierre Bourdieu sobre a possibilidade de orientar minha tese de doutorado, mas por estar envolvido com o processo que o levaria a assumir a cadeira de Sociologia no Collège de France, sugeriu a professora Viviane Isambert-Jamati para minha orientadora, devido à sua liderança expressiva no campo da Sociologia da Educação na França.

Doutorado

Fui aceito para fazer o doutorado na Université René Descartes-Paris V, na área de Sociologia. Cheguei a Paris no final de 1981 e, após alguns dias, tive o primeiro encontro com minha orientadora, cujo escritório localizava-se num pequeno e charmoso edifício antigo localizado na Rue Serpente, em pleno Quartier Latin. Meus primeiros meses em Paris coincidiram com a estadia da professora Maria Andrea Loyola, minha orientadora do mestrado, que estava realizando o pós-doutorado no Centre de Sociologie Européenne (CSE), da École des Haute Études en Sciences Sociales (EHESS). Gentilmente, ela me colocou em contato com vários pesquisadores que integravam este centro de pesquisa, entre os quais destacaria Monique de Saint-Martin, François Bonvin, Francine Muel-Dreyfus, Louis Pinto e Remi Lenoir, que me acolheram de forma amical. A partir de então, passei a frequentar assiduamente a EHESS,sua biblioteca, sua cantina, os diversos seminários programados, de tal forma que o metálico edifício do Boulevard Raspail se tornou meu segundo lar em Paris. As inúmeras atividades acadêmicas que ali frequentei por quase cinco anos, cuja descrição detalhada ocuparia várias páginas deste Memorial, foram fundamentais e marcantes em meu processo de socialização na universidade e na sociologia francesas. Devo acrescentar que houve, também, uma socialização informal, na convivência intelectual estabelecida com diversos pesquisadores durante as refeições na cantina da École, cujas conversas e trocas de ideias se prolongavam na “cafétéria” anexa.

Dispor de uma bolsa de estudo permitiu que eu me dedicasse de forma integral ao doutorado, relendo os autores clássicos da Sociologia francesa, tais como Aléxis de Tocqueville, Émile Durkheim, Maurice Halbwachs etc. Ao mesmo tempo, a preocupação em me inteirar da produção sociológica que surgira nas décadas anteriores naquele momento, me levou a entrar em contato com os trabalhos de Raymond Boudon, Michel Crozier, Erhard Friedberg, Alain Touraine, Daniel Bertaux, François Dubet, Michel Wieviorka, Luc Boltanski, Monique de Saint-Martin, Francine Muel-Dreyfus, entre outros.

Durante meu doutorado, frequentei assiduamente o Centre de Sociologie Européenne,fundado por Pierre Bourdieu em 1968, que se encontrava, então, em plena atividade, desenvolvendo uma série de trabalhos sobre os processos de diferenciação social, as lutas de distintos grupos sociais contra diferentes formas de desclassificação social. Integrava, também, a pauta de pesquisa do CSE a investigação sobre o funcionamento de espaços sociais bastante diversos, analisados através do conceito de “campo”, forjado por Pierre Bourdieu. As pesquisas produzidas eram desenvolvidas numa perspectiva comparativa, daí a deliberada estratégia adotada de incentivar a presença de pesquisadores de vários países, o que conferia ao cotidiano do Centro uma visível feição cosmopolita. Nos seminários realizados, tive a oportunidade de conviver e dialogar com pesquisadores russos, finlandeses, romenos, suecos, italianos, argentinos, húngaros, mexicanos, senegaleses, argelinos e de outros países. Tive oportunidade de participar de cursos e/ou seminários oferecidos pelos professores Victor Karady, Jean-Claude Chamboredon, Claude Grignon, Daniel Pécaut e Alain Touraine. Durante o período de doutorado, mantive inúmeros encontros com Monique de Saint-Martin para discutir minha tese em seu gabinete de trabalho no CSE, e, deste então, construímos uma sólida amizade que tem persistido ao longo do tempo. Participei também de proveitoso seminário na EHESS ministrado por Yves Winkin – que acabara de defender seu doutorado na Universidade de Pensilvânia, onde encontrara Erving Goffman e Ray Birdwhistel. Seu seminário enfocou a história social das ciências sociais norte-americana, com especial destaque para a obra de Goffman. No momento em que ofereceu o seminário, estava recolhendo material para seu livro sobre Goffman, que iria tornar-se uma referência internacional sobre esse autor. Ele reconstruiu a trajetória intelectual de Goffman, destacando a influência que o Departamento de Chicago exerceu sobre sua obra, em especial, a forma de Sociologia praticada por Everett Hughes. O ambiente de discussões propiciado por esse seminário reforçou meu interesse pela obra de Goffman, que posteriormente incorporei em minha tese de doutorado. Por outro lado, o seminário despertou minha curiosidade em conhecer melhor a sociologia norte-americana.

O contato com a obra de Pierre Bourdieu e a participação em seus seminários marcaram profundamente minha formação doutoral. Em fins de abril de 1982, tive a oportunidade de assistir à sua aula inaugural no Collège de France, intitulada “La leçon sur la leçon”. Além de assistir a seus cursos no Collège de France, participei regularmente, entre 1982 e 1985, dos “seminaires fermés” que ele oferecia na EHESS para um número restrito de estudantes selecionados em função de seus projetos de pesquisa. Seus seminários eram uma ocasião de perceber como efetivamente ocorre um modus operandi da produção do trabalho científico. Ele propunha apresentar suas pesquisas em andamento, procurando mostrar como realizou a passagem da ideia abstrata à construção de um objeto bem delimitado, capaz de ser tratado empiricamente, assim como expor os problemas concretos que enfrentara durante sua pesquisa. Ao mesmo tempo, os seminários comportariam a discussão de projetos de pesquisa dos participantes ou de investigadores convidados por ele. Durante este período li uma parte considerável de seus trabalhos, discutindo-os com diversos membros de sua equipe, como Remi Lenoir, Louis Pinto, François Bonvin, Patrick Champagne, Abdelmalek Sayad, entre outros.

Em 1994, quando exercia o cargo de Diretor da ANPOCS, entrei em contato com Pierre Bourdieu no Collège de France para reiterar o convite que vários colegas brasileiros já lhe tinham feito, ao longo dos anos, para que viesse ao Brasil. Agradeceu gentilmente ao convite e manifestou a intenção de vir ao Brasil num momento posterior, cujo projeto não se concretizou. Alguns dias após o seu falecimento, em 2002, Flávio Pierruci, ex-colega de trabalho na PUC de São Paulo e amigo de longa data, então editor da Novos Estudos Cebrap, solicitou-me escrever um artigo sobre Bourdieu, no qual procurei destacar sua marcante contribuição para o campo da sociologia contemporânea.

Em julho de 1986, defendi minha tese de doutorado na Universidade René Descartes-Paris V, intitulada “Le nouvel enseignement supérieur privé au Brésil (1964-1983): rencontre d’une demande sociale et d’une opportunité politique”. Como base empírica de meu trabalho, escolhi quatro faculdades privadas da cidade de São Paulo – as Faculdades Oswaldo Cruz, Campos Sales, Tibiriçá e São Marcos – criadas entre 1967 e 1971 e que ofereciam cursos de Administração de Empresas. O trabalho procurou analisar as condições do processo de criação dessas instituições e as características sociais dos seus fundadores, de seus corpos docente e discente, tal como sua inserção no contexto mais geral do processo de transformações no campo do ensino superior brasileiro a partir do final da década de 1960. As quatro faculdades possuíam certas características sociais em comum. Seus fundadores eram empresários da educação que atuavam até então no ensino médio e que, ao perceber uma clientela potencial, passaram a criar cursos na área de Ciências Humanas, principalmente Pedagogia e Administração de Empresas. Com isso, introduziram um forte ethos empresarial nas instituições, concebidas enquanto empreendimentos lucrativos. Inicialmente, algumas dessas instituições desenvolveram suas atividades apenas no período noturno, ocupando um espaço até então ocioso em suas instalações físicas. Gradativamente, três delas passaram a funcionar nos demais turnos. Tratava-se de instituições estrategicamente situadas em bairros com densa população e eram relativamente pequenas em termos de alunado, pois possuíam em média três a quatro mil estudantes, quando já havia instituições privadas na cidade de São Paulo cuja clientela se acercava de algumas dezenas de milhares de alunos.

Os dados coletados permitiram chegar à conclusão de que as quatro instituições analisadas constituíam, naquele momento, um espaço institucional de formação de quadros médios para empresas nacionais e internacionais situadas num centro urbano dinâmico, como a cidade de São Paulo. Os depoimentos de ex-alunos dessas instituições indicavam que eles continuavam alimentando a expectativa de obter uma recompensa material de seus estudos, em função do considerável esforço que realizaram em termos de tempo, de investimento financeiro, dos diversos sacrifícios que impuseram a si mesmos e às pessoas que lhes eram próximas. Para esses estudantes, a aquisição do diploma representava algo mais do que a mera possibilidade de uma melhoria de condições de vida. De certa forma, o esforço desenvolvido por alunos e ex-alunos das quatro instituições enfocadas no trabalho os aproxima de certas características do ator esboçado por Goffman, que reivindicam uma credibilidade pessoal e social nas relações cotidianas a partir da definição e apresentação que projetam de si para as outras pessoas. Nessa direção, mesmo se colocado sob suspeita social, a aquisição do diploma adquire forte valor subjetivo, uma vez que passa a ser percebido como um trunfo potencial no processo de (re)definição da identidade pessoal desses estudantes. O título acadêmico assume, de certa forma, na representação desses estudantes, um valor quase mágico, a partir do qual pretendem se demarcar do meio modesto de onde vieram. O trabalho de tese colocou em relevo o elevado preço humano, assim como a pesada sobrecarga econômica e emocional que determinados estudantes dessas instituições assumiram para levar adiante seu projeto de acesso ao ensino superior.

Atividades Profissionais, Publicações e Participação na Comunidade Científica

Como foi salientado anteriormente, iniciei minhas atividades docentes em 1972, na PUC de São Paulo, onde havia terminado o curso de Ciências Sociais no ano anterior. Inicialmente, ministrei a disciplina de Metodologia Científica no Ciclo Básico e posteriormente concentrei minhas atividades no Departamento de Sociologia, onde assumi a responsabilidade da disciplina Formação do Pensamento Sociológico. Foi a partir das leituras e discussões com os estudantes realizadas nesse curso que comecei a escrever o livro O que é Sociologia?. Contei, para tanto, com o incentivo de vários colegas de trabalho da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP, especialmente de Florestan Fernandes e Octávio Ianni. Inicialmente, voltado para um público-não especializado, este livro passou a ser indicado e adotado em inúmeras instituições acadêmicas do país, de tal forma que, desde sua 1ª edição, lançada em 1982, foram vendidos mais de 500 mil exemplares até a defesa do Memorial.

Como a situação financeira da PUC de São Paulo havia se deteriorado na década de 1980, decidi continuar minha carreira acadêmica em outra instituição após o término do doutorado. Escolhi a UnB, em função do que sua criação representou no processo de inovação acadêmica na história do ensino superior brasileiro. Em julho de 1986, ingressei no Departamento de Sociologia da UnB, através de uma bolsa de recém-doutor do CNPq e, em março do ano seguinte, passei a integrar o corpo docente efetivo, após realizar concurso público, obtendo a primeira colocação. Desde então, com enorme prazer venho exercendo minhas atividades acadêmicas neste Departamento, que tem pautado sua existência por um pluralismo teórico e por um clima de cordialidade e respeito mútuo entre seus participantes

Ao longo dos anos no Departamento de Sociologia da UnB, concentrei minha atuação docente, tanto na graduação como na pós-graduação, basicamente em duas áreas temáticas que se encontram intimamente interligadas com minhas preocupações intelectuais e atividades de pesquisa: Teoria Sociológica Contemporânea e Sociologia da Educação. Se a temática do ensino superior constituiu um eixo que perpassa meus trabalhos acadêmicos, as questões teóricas mais gerais em Sociologia, destacadamente a de sua fase contemporânea, também ocuparam uma centralidade em minha atividade acadêmica. Considero que os cursos de Teoria Sociológica representam um enorme desafio para o docente. Em boa medida, ele oferece uma oportunidade para manifestações exibicionistas e/ou narcísicas de cultura sociológica do docente que, a partir desse expediente, procura consciente e/ou inconscientemente obter uma legitimidade em questões teóricas por parte dos alunos e/ou de seus pares. Corre-se, também, o risco de apresentar a Teoria Sociológica como uma finalidade em si mesma, como um tema complexo e profundo que apenas alguns intelectuais possuem a chave enigmática de sua decifração. Na contramão dessa tendência, tenho procurado apresentar a Teoria Sociológica como um modus operandi, ou seja, uma fonte de inspiração para orientar a prática científica e organizar a reflexão no campo da Sociologia. A sua utilização possui finalidade de produzir conhecimentos empíricos e deve ser constantemente (re)avaliada em termos de seus alcances e limites no processo de investigação da realidade social.

Áreas de publicações

Ao escrever o prefácio da segunda edição do meu livro, Ensino pago: um retrato sem retoques, baseado na minha dissertação de mestrado, Florestan Fernandes assinalou que:

Valorizo muito este livro de Carlos Benedito Martins. Gosto tanto deste livro que o utilizei várias vezes em aulas e em conferências. Ele é um documento, no sentido de que os sociólogos também elaboram os testemunhos de sua época e uma devastadora avaliação objetiva da “construção do sistema” no ensino superior. […] Carlos Benedito Martins avançou corajosamente na desmistificação do objeto de sua investigação e realizou um enquadramento vigoroso da totalidade da contrarrevolução – ensino superior privado – indústria cultural – acumulação acelerada de capital. Ele apanhou o renascer influx da escola superior isolada e a modelagem do ensino universitário necessário à reprodução do sistema capitalista de poder. […] Ele desdobra a análise que comecei em A Reforma Universitária consentida e enquadra precisamente o que se pretendia com aqueles acordos (MEC-Usaid) que não levaram em conta ‘os valores democráticos da educação e da pesquisa científica’ dominantes nos centros imperiais. […] O livro abre horizontes, como uma aragem de ar puro.

Esse livro representou um marco inicial num itinerário que me conduziu gradativamente a selecionar o ensino superior como uma vertente de pesquisa, cujo campo temático tenho me dedicado a explorar de forma constante ao longo de minha carreira acadêmica. Com o propósito de sistematizar as linhas gerais de minha produção intelectual – que não é necessariamente linear – destaco brevemente, para maior clareza de exposição, tanto os eixos de trabalho que têm sido privilegiados, como as questões que emergiram durante a sua realização, ressaltando que os diferentes aspectos abordados se encontram intimamente interligados:

(I) A formação do campo do ensino superior brasileiro contemporâneo pós-64 constituiu um objeto de estudo que perpassa vários trabalhos que realizei em distintos momentos, inspirando-se na noção de “campo”, formulado por Bourdieu. A exploração desse objeto me levou a analisar a inserção das instituições públicas e privadas no interior desse campo. Para desenvolver essa análise, abordei determinados temas que contribuíram no processo de configuração do ensino público e privado no interior do sistema, tais como: política educacional do Estado para o ensino superior nacional; Reforma Universitária de 1968; processo de diferenciação institucional dos estabelecimentos; proposta de reforma do ensino superior do governo Lula.

(II) A constituição do sistema nacional de pós-graduação também foi explorada em vários trabalhos. Abordei a emergência da pós-graduação, seu efeito modernizador no campo do ensino superior brasileiro e a participação diferencial das instituições públicas e privadas na oferta de programas de pós-graduação. Enfoquei a relação entre pós-graduação e mercado de trabalho em determinadas áreas do conhecimento. Abordei também a inserção da área da Sociologia no contexto da pós-graduação nacional, enfatizando seu processo de expansão e interiorização, de tal forma que a pós-graduação em Sociologia encontra-se praticamente instalada em todo o território nacional. Nessa esteira, determinadas publicações organizadas por mim abordaram as temáticas que vêm sendo exploradas pela Sociologia realizada no país, em sua fase contemporânea.

(III) Numa fase mais recente, que coincidiu com a realização de pós-doutorado na Universidade de Columbia e Oxford, passei a abordar a relação recíproca entre processo de globalização e ensino superior. Neste sentido, tenho publicado uma série de artigos analisando determinadas transformações que estão ocorrendo no ensino superior, tais como: (I) processo de desterritorialização do ensino superior; (II) crescente mobilidade acadêmica internacional; (III) surgimento e impacto dos rankings internacionais; (IV) corrida em determinados países e/ou instituições de ensino superior para construir universidades de padrão mundial (world class university), num contexto de acirrada competição internacional por prestígio acadêmico.

(IV) A análise da relação entre processo de globalização e ensino superior me conduziu à área da Sociologia dos Intelectuais, na medida em que, enquanto categoria social, tem participado de forma intensa nestes debates em diversos países. Uma parte expressiva da produção do conhecimento sobre várias dimensões das transformações do ensino superior no contexto contemporâneo, tende a ser realizada no interior das universidades e/ou de órgãos conexos, contando com a participação de acadêmicos. Por outro lado, os intelectuais tendem a demarcar suas posições, perante outros atores incluídos neste debate, reivindicando para si uma legitimidade acadêmica, amparada na posse individual de um capital cultural e também alicerçado no prestígio acadêmico das instituições nas quais trabalham. Neste sentido, tenho realizado pesquisas sobre a inserção de intelectuais no campo do ensino superior nacional e internacional, por meio do debate de questões pertinentes à esta área de pesquisa, através da produção de livros e artigos, participação em seminários, colóquios nacionais e/ou internacionais etc. Isto é, trata-se de analisar uma modalidade de engajamento que ocorre especificamente no campo intelectual,em contraposição a outras formas de ação que os intelectuais possam assumir, seja no universo da política, na economia e/ou no meio sindical.

Pós-doutorado e Participação na Comunidade Científica

O projeto de realizar um pós-doutorado numa universidade norte-americana fazia parte de meus propósitos. Em 2005, candidatei-me a uma bolsa de Professor Sênior da Comissão Fulbright – que foi aprovada – para realizar o pós-doutorado na Universidade de Columbia, em Nova York, no Center for Brazilian Studies. Como se tratava de uma bolsa de duração de quatro meses, pleiteei uma bolsa da mesma modalidade à CAPES, que também foi concedida, dando-me a possibilidade de realizar meu pós-doutorado num período de 12 meses. O projeto apresentado para ser desenvolvido durante esse período possuía dois objetivos simultâneos: (I) detectar e analisar algumas tendências centrais do ensino superior contemporâneo no plano internacional; e (II) investigar como a sociologia contemporânea dialoga teórica e empiricamente com as transformações centrais que estão em curso no ensino superior internacional. Além disso, (III) entrar em contato de forma sistemática com a sociologia norte-americana, principalmente com sua produção contemporânea.

Em março de 2006, iniciei o estágio pós-doutoral, que constituiu uma experiência marcante na minha vida acadêmica. O professor Albert Fishlow, então Diretor do Center for the Study of Brazil,propiciou-me excelentes condições de trabalho acadêmico, permitindo-me usufruir da qualidade excepcional das bibliotecas, dos inúmeros seminários e atividades acadêmicas da Universidade de Columbia. Ao mesmo tempo, com sua gentileza peculiar, colocou-me em contato com o Departamento de Sociologia de Columbia, apresentou-me a diversos professores da instituição que poderiam ser meus interlocutores, entre os quais os professores Gil Eyel, que trabalha com Teoria Sociológica Contemporânea e Sociologia dos Intelectuais, e Kevin Dougherty, com longa tradição na área da Sociologia voltada para a análise do ensino superior.

Utilizando diariamente a biblioteca central da Universidade de Columbia, concentrei minhas leituras sobre a produção sociológica a respeito das transformações que estavam ocorrendo no ensino superior em nível internacional. Aproveitei o ensejo para me inteirar da produção sociológica que analisava o próprio ensino superior norte-americano. O professor Kevin Dougherty me recebeu de forma calorosa, não só me permitindo expor-lhe o projeto que orientava minhas preocupações intelectuais e minhas leituras, como me convidando a participar do seminário que estava desenvolvendo sobre The American Universitiesno qual analisava o ensino superior americano, suas hierarquias internas e o acesso desigual às suas instituições de prestígio acadêmico. Nosso contato passou a ser constante: ele me recebeu inúmeras vezes em sua sala de trabalho para trocar informações e ideias sobre o ensino superior e forneceu-me valiosas referências bibliográficas. Convidou-me, outrossim, a integrar um seminário que estava organizando para o início de 2007, cuja temática era ensino superior no contexto da globalização. Em uma de nossas conversas, sugeriu-me entrar em contato com o professor Floyd Hammack, seu parceiro em várias publicações, que trabalhava com Sociologia da Educação na New York University. O contato com a NYU foi muito enriquecedor, pois pude perceber o vigor acadêmico de determinadas universidades que operam na cidade de Nova York, entre as quais, sem dúvida, destacam-se a Universidade de Columbia e a NYU. O professor Hammack também me acolheu de forma amável, convidando-me a participar de seu curso Sociology of Higher Education, voltado para o complexo sistema de ensino superior americano, a partir de uma extensa e pertinente bibliografia, que me foi extremamente útil na compreensão desse diversificado sistema de ensino.

Ainda na Universidade de Columbia, entrei em contato com o professor Jonathan Cole, do Departamento de Sociologia, que foi aluno de Robert King Merton e concentrou seus trabalhos nas áreas de Sociologia da Ciência e do Ensino Superior. Trata-se de um dos mais reconhecidos sociólogos norte-americanos nessa área de trabalho, com sólido conhecimento sobre o ensino superior norte-americano e internacional. No primeiro encontro que mantive com ele, expus minhas preocupações intelectuais sobre as tendências internacionais do ensino superior. Recebi de sua parte um apoio bibliográfico e, posteriormente, um convite para participar do seminário que oferecia aos seus orientandos. Continuei a manter um contato acadêmico com o professor Cole após o pós-doutorado, o que me permitiu estar com ele em seu gabinete de trabalho nas duas vezes em que fui professor-visitante na Universidade de Columbia – sendo que, da última vez, em fevereiro de 2010, ele me ofereceu o livro que acabara de publicar e que se tornou uma referência na área. O Professor Gil Eyel me convidou a participar de seus seminários sobre Teoria Sociológica Contemporânea, assim com a Professora Vera Zolberg que oferecia esta disciplina na New School, com a qual estabeleci laços de amizade e, lamentavelmente, faleceu em 2016. Tive, também, a oportunidade de participar dos Seminários de Graig Calhoun, que me acolheu calorosamente, cujo teor de suas discussões versava sobre o livro que estava organizando, denominado American Sociology: an history, que me foi extremamente proveitoso para ter um conhecimento sobre a formação e desenvolvimento da sociologia norte-americana.

Os seminários e leituras que realizei durante o pós-doutorado estenderam meu escopo de reflexão sobre o ensino superior, até então voltado basicamente para o contexto nacional. A perspectiva internacional sobre o ensino superior que passei a incorporar tem orientado atualmente minha reflexão, produção intelectual e elaboração de projetos de pesquisa nessa área de estudo. Essa perspectiva comparativa em dimensão internacional encontra-se, também, presente nos cursos que passei a oferecer no Brasil sobre ensino superior, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Ao mesmo tempo, a disposição de ultrapassar a fronteira nacional e enfocar transformações que estão ocorrendo no ensino superior em escala internacional manifestou-se no recém-criado GT Educação Superior na Sociedade Contemporânea, da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), iniciativa conjunta de minha parte e da professora Clarissa Baeta Neves. Realizei também um pós-doutorado na Universidade de Oxford em 2011, onde continuei dando continuidade às minhas pesquisas sobre globalização do ensino superior e Teoria Sociológica Contemporânea, entrando em contato com os trabalhos de John Urry, Martin Albrow, Roland Robertson, Karen Barkey, Stathis Kalvas, entre outros.

Após a minha contratação como docente do Departamento de Sociologia da UnB, passei a me inserir nas associações científicas da área de Ciências Sociais. Assumi por diversas vezes o GT Educação e Sociedade da ANPOCS (1990-1992; 2002-2004 e 2008 -2010). Nessa atuação, contribui para a institucionalização da área de ensino superior que, a partir de 2010, passou a ter uma visibilidade no interior da ANPOCS. Participei também na ANPOCS como seu Diretor (1992-1994), Membro de Relações Internacionais (1994-1996), Membro do Comitê de Assessoramento Institucional (1998-2000) e Membro do Comitê de Pós-graduação (2003-2004 e 2008-2010). Participei de forma contínua por mais de 30 anos nos Encontros da ANPOCS, coordenando inúmeras Mesas Redondas e Fóruns e assumi a coordenação de duas publicações da ANPOCS, os livros: Para onde vai a Pós-Graduação em Ciências Sociais no Brasil? (2005) e Horizontes das Ciências Sociais no Brasil (2010). Desde a refundação da SBS, no Congresso realizado em Brasília em 1987, participei ativamente de sua reconstrução e em sua trajetória nos dias correntes. Juntamente com a Professora Clarissa Baeta Neves, institucionalizamos a área de ensino superior através da criação do GT Ensino Superior na Sociedade Contemporânea, que passou a funcionar regularmente desde 2010. No interior da SBS, assumi os cargos de Diretor, Vice-Presidente e Presidente por dois mandatos (2015-2019), num momento particularmente difícil, no qual a Sociologia foi atacada pelo governo Bolsonaro, fato este que conduziu a SBS formar uma parceria com a Associação Brasileira de Antropologia, Associação Brasileira de Ciência Política e ANPOCS, que culminou na criação de uma rede informal destas associações, denominada de “A4”, que passou a atuar na defesa da autonomia das Ciências Sociais diante do autoritarismo do governo vigente.

Ao lado destas atuações, nos últimos 30 anos, me envolvi de corpo e alma no processo de consolidação do sistema nacional de pós-graduação e do campo da pós-graduação de Sociologia realizada no país, procurando levar adiante o trabalho da geração pioneira neste processo de institucionalização. Durante mais de 10 anos integrei a Área de Sociologia da CAPES, nas gestões dos professores Sérgio Miceli, Alice Rangel, Maria Arminda e Reginaldo Prandi. Neste contexto, participei, através de diversas formas, no processo de criação de aproximadamente 15 cursos de mestrado e doutorado na área de Sociologia, contribuindo, naquele momento, para sua implantação em todo o território nacional. Nesta direção, os posteriores Comitês da Área na CAPES levaram adiante este processo, que permitiu uma significativa descentralização do campo da Sociologia no país e a incorporação de uma nova geração de sociólogos em diversas universidades. Após ter deixado o Comitê de Sociologia, passei a integrar a Assessoria da Presidência da CAPES, nas gestões de Maria Andrea Loyola, Abílio Baeta Neves, Jamil Cury e nos anos iniciais de Jorge Guimarães, sem deixar minha atividade de ensino e pesquisa na UnB. Neste contexto, participei da elaboração de dois Planos Nacionais de PG, o do IV PNPG e o PNPG de 205-2010, no qual atuei como um dos seus formuladores e, também, como secretário- executivo.

Gostaria de acrescentar minha inserção na comunidade científica internacional. Em função dos Pós-doutorados que realizei na Universidade de Columbia, assim como na Universidade de Oxford e, também, na London College University, pude construir laços de interações acadêmicas com colegas destas instituições, especialmente com os professores Albert Fishlow, Kevin Dougherty, Vera Zolberg, Craig Calhoun, Jonathan Cole, Gil Eyel, Charles Lemert e Brian Alleyne, Vick Loveday, Svenja Bromberg, que integram o corpo docente do Departamento Goldsmiths de Sociologia da Universidade de Londres. Na medida em que tenho frequentado como pesquisador, de forma regular, a École des Hautes Études en Sciences Sociales, mantenho interações acadêmicas com Gisèle Sapiro, Luis Pinto, Luc Boltanki e, também, com Frederic Labaren da École Normale Superiére Paris Saclay. Ao mesmo tempo, atuei como Visiting Scholar em diversas instituições, como na Universidade de Columbia, Universidade Livre de Berlim, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Universidade Hong Kong e Universidade Nacional de Singapura.

Creio que o Prêmio de “Excelência Acadêmica Flávio Pierucci”que me foi atribuído pela ANPOCS em 2021, representou um reconhecimento de minha longa inserção na comunidade acadêmica nacional, meu empenho na construção do sistema de pós-graduação nacional, assim como na área de Sociologia, ao lado de minha produção acadêmica.

Ao apresentar determinados marcos de minha trajetória acadêmica neste resumo do Memorial, percebo, mais uma vez, que a instituição universitária se constituiu, para mim, junto com a Sociologia, um dos espaços determinantes na minha formação intelectual e existencial, ao ponto de impregnar a construção da minha identidade pessoal. A Universidade e a Sociologia têm representado, para mim, um locus privilegiado a partir do qual procuro compreender a trama complexa da vida social e um espaço para atuar na sociedade. Tenho procurado transmitir, para várias gerações, o denso capital teórico e empírico acumulado por esta disciplina, a riqueza e o fascínio existente em seu universo intelectual, através dos cursos de graduação e pós-graduação, mas também por meio de constantes participações em conferências e fóruns científicos. Tenho, também, procurado contribuir no processo de produção de novos conhecimentos, realizando pesquisas individuais e/ou através de redes de pesquisadores nacionais e estrangeiros. Creio que minha trajetória universitária representou um esforço de concretizar alvos institucionais e o cumprimento de encargos das atividades de ensino, pesquisa e participação na comunidade acadêmica. Neste sentido, procurei levar a sério a advertência feita por Weber em seu ensaio “A Ciência como vocação”, quando afirmou que: “Nada é digno do homem enquanto ser humano, a menos que ele possa empenhar-se na realização de suas tarefas com dedicação apaixonada”. Tudo que tenho feito na minha vida profissional foi movido por entusiasmo, dedicação e paixão, comprometido com a transformação da sociedade brasileira a partir do meu trabalho.