Silviano chega aos 88 anos criando vida nova e longa para Machado de Assis

Para celebrar o aniversário de Silviano Santiago, hoje, 29 de setembro, a BVPS lança uma edição especial trazendo fragmentos do segundo caderno de O grande relógio do mundo, ainda em escrita pelo autor. Nele, o crítico e romancista nascido há 88 anos em Formiga-MG realiza um experimento desconstrutor do eurocentrismo na comparação inédita entre Marcel Proust e Machado de Assis. Machado ressurge nos cadernos de Silviano como pioneiro de uma escrita introspectiva, radicalmente crítica da sociedade.

Diz Silviano: “Se se colocasse de um lado o legado de Machado de Assis e do outro, o de Marcel Proust, tudo indicaria que não faria sentido contrastar as respectivas obras geniais. O primeiro deixa uma obra que tem sido lida pela melhor crítica sociológica brasileira e internacional e o outro se afirma como sendo o responsável pelo máximo que pode atingir uma longa narrativa subjetiva e introspectiva. Pensei que Machado nos revelava nos seus cinco principais uma escondida ‘sociedade de corte’ no século 19 do Novo Mundo, a brasileira monárquica e escravocrata, enquanto Proust catava os cacos que restavam da realeza francesa. O inviável se torna viável, desde que se leia Machado pelo legado proustiano e Proust pelo legado de Machado, procurando encontrar em ambos os principais pontos de força e de vulnerabilidade que também são os meus, de responsável por uma leitura em fragmentos de questões julgadas improváveis pela tradição ocidental”.

Amanhã, segunda-feira, às 19 horas na Travessa Ipanema, Rio de Janeiro, será lançando o primeiro caderno da série de O grande relógio: A que hora o mundo recomeça (Editora Nós). Parabéns, duplamente, para Silviano, e muitas felicidades!

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O Lobo Neves, político do Império, leitura do capítulo 58 das Memórias Póstumas

Por Silviano Santiago

1. A “confidência” do Lobo Neves ao protagonista Brás Cubas

Ainda há ingênuos observadores de si mesmos que acreditam existir “certezas imediatas”; por exemplo, “eu penso”, ou, como era superstição de Schopenhauer, “eu quero”: como se aqui o conhecimento apreendesse seu objeto puro e nu, como “coisa-em-si”, e nem de parte do sujeito e nem de parte do objeto ocorresse uma falsificação.

Nietzsche, Para além do bem e do mal, §16

Na prosa machadiana, a narrativa intervém tendo à mão um bisturi que rasga a pele de dois conhecidos recursos retóricos, a confidência e o aparte. No capítulo 48 das Memórias póstumas de Brás Cubas, o Lobo Neves, ao introverter o próprio olhar, faz a autópsia [1] dos inesperados sentimentos que experimenta quando exerce a legítima paixão política, sentimentos tão mais escondidos dos olhos dos eleitores quanto mais repugnantes.

Não é daquele dia que, na performance política na capital do Império, o Lobo Neves vem padecendo e remoendo a melancolia causada pelas comoções negativas. Em confiança, ele confidencia ao amigo Brás Cubas os tumultos interiores negativos. O elenco dos sentimentos melancólicos reativados pelo bisturi da introspecção é copioso e o transcrevo: “invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades”. Um verdadeiro inferno o cotidiano da vida política na corte. Todos os golpes baixos de luta livre são permitidos na performance conservadora e risonha dos políticos. São permitidos, embora só se tornem visíveis sob a forma de silêncio conivente. Aborrecimentos, desânimos e enfado corrompem a já longa prática profissional do Lobo Neves.

De repente, ele não aguenta mais a pressão interna e se extroverte em confidência ao já introspectivo protagonista e narrador das memórias póstumas.

A sua confidência expressa o coração ferido, lacerado e combalido. Diz que o político não é um ser humano unidimensional. Está consciente do painel íntimo em nada entusiasmante em que se pintam os efeitos tardios do grito do Ipiranga sobre os colonos que, ao se tornarem livres do jugo lusitano, se aprontam para imaginar ou inventar, legislando em causa coletiva, a nova e soberana comunidade nacional. O eu privado, pintado com as cores do sigilo, da amargura e do ressentimento, se recusa a fazer o acerto de contas com os pares, mas se abre, em fala confidencial, ao amigo Brás Cubas. Diz o que tinha de pôr pra fora. Então, se retrai. Transforma a fala confidencial num nada, “desculpe aquele desabafo; tinha um negócio, que me mordia o espírito”.

O desabafo acaba por significar politicamente o inevitável fracasso da nação recém-emancipada no atual cenário político nacional e internacional.

Resultante da introspecção, o diálogo íntimo do sujeito com ele se desenrola como se transposição de conhecido poema de Charles Baudelaire, cujo estranho título é uma palavra grega, “Heautontiroumenos”, a significar “o carrasco de si mesmo”. Dois versos do poeta, autor de Mon coeur mis à nu, bastam para que se compreenda a mecânica de funcionamento da nova prosa machadiana e a sua eficácia: “Tête-à-tête sombre et limpide / Qu’un coeur devenu son miroir”.

O amigo Lobo Neves tivera a coragem de lobrigar, de maneira sombria e límpida, a imagem carcomida do coração, tal como refletida no espelho em que se transforma o órgão pulsante. Ressalta-se o tête-à-tête ensimesmado e autorreflexivo em que o drama do cidadão brasileiro figura o protagonismo político tal como descrito no poema baudelairiano. Sou “la plaie et le couteau” – sou a ferida e o punhal. A “confidência” do Lobo Neves é um exercício espiritual de faquir [2] deitado em cama de pregos pontiagudos, posto em contraste com os “exercícios espirituais” incutidos por Santo Ignacio de Loyola e seus seguidores na consciência cristã dos colonizados brasileiros.

O político oitocentista extroverte os sentimentos íntimos e repugnantes e, graças à prosa machadiana, o leitor tem acesso ao seu verdadeiro caráter. Transformou-se em ser humano irresponsavelmente responsável pelo seu destino e pelo futuro político da comunidade nacional, que ele e os pares estão a desenhar no parlamento nacional.

Um exercício de introspecção? sim. Doloroso e contemplativo, à moda de faquir? sim. Acrescente-se que seria recomendável definir introspecção como aconselha o contemporâneo Michel Foucault. Antes de ser apenas uma decifração do sujeito por ele próprio, a introspecção da prosa machadiana é uma abertura de si sobre si mesmo. É a janela da alma, em que o próprio sujeito se debruça, a fim de convidar o outro a entrar na intimidade dele pela porta a ser escancarada.

Tudo isso está evidente no capítulo 58. “Confidência”, das Memórias póstumas. Voltemos a ele para a leitura textual. O Lobo Neves abre primeiro uma “fresta” da intimidade a Brás Cubas e só depois é que lhe “escancara a porta”. Ilumina-se (para si e para o outro) a vida íntima do cidadão, carcomida pelas invejas, perfídias e intrigas dos colegas. Lobo Neves consegue dar voz – e continuo a citar o capítulo “Confidência” − a “um desejo que não quer acabar de morrer”. Evidenciam-se, na confidência, a paixão política, o desprazer na prática, o sofrimento íntimo e, finalmente, o desejo de sobrevida de um habituado – viciado, seria exagero? − a repetições. A ambição política de Lobo Neves, o que nela sobrevive “andava cansado de bater as asas, sem poder abrir o voo”. Sua imaginação política é a de um Ícaro que bate e bate as asas sem se distanciar da terra. Não ganha a altura mínima para atingir a autonomia de voo. Despencaria e se espedaçaria definitivamente no chão, se fosse coerente com “o desejo que não quer acabar de morrer”.

A “glória pública”, reconhecimento nacional e/ou internacional de uma bela carreira no parlamento, meta final da vida, vira brincadeira de profissional ambicioso, hábil e engenhoso, cujo reconhecimento positivo só é atestado pelos pares. Por duas vezes sucessivas, o Lobo Neves não suporta mais conviver consigo e extroverte as mágoas que se acumulam sob o peso das comoções tristes e amargas. Extroverte-se ao amigo Brás Cubas, que de ouvinte se transforma em imagem especular do coração desnudado. O Lobo Neves mal adivinha que está a entregar a camuflada matéria-prima da política nacional a um espelho falante, que, por sua vez, age como atento médico-legista de almas carcomidas [carunchadas] pela paixão (lá está Machado a recuperar o substantivo “carcoma”, caruncho, hoje perdido). Com gosto, o espelho falante, Brás Cubas, reproduzirá a seu leitor as palavras íntimas e alheias, ditas em confidência:

[A confiança,] de fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia [Lobo Neves] confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência; faltava-lhe a glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi que a ambição dele [a glória pública] andava cansada de bater as asas, sem poder abrir o voo. Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades.

Terminada a segunda das confissões – a introversão é seguida de extroversão –, o Lobo Neves aperta a mão do futuro espelho falante, o narrador Brás Cubas, e lhe pede desculpas pelo desabafo. O desnudamento do coração teria sido desnecessário e inútil. Apaga tudo! diz o Lobo Neves ao Brás Cubas. Apaga todas as palavras que lhe disse. Foram motivadas por problema passageiro. Brás Cubas diverge do confidente e divergirá de si mesmo, pois de protagonista vira Narrador de uma narrativa segundo os princípios da introspecção moderna. O narrador é um ficcionista e reproduz no papel tudo o que foi confidenciado:

pediu-me que não referisse a ninguém o que se passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada.

A cena pungente da introspecção, extrovertida em confiança, não é segredo a ser confiado a qualquer público e o será pelo romance machadiano. Acaba por ganhar a dimensão definitiva de um “nada”, a significar o desencanto com a vida profissional. Um nada soprado por palavras íntimas que, se escritas, estão destinadas a ganhar o oblívio. Elas não movimentam o trabalho disciplinado e consciencioso do representante do cidadão no Parlamento.

A introspecção é contundente. Eis que alguns políticos do grupo do Lobo Neves entram na sala. O exercício de vivissecção do coração carcomido volta ao esconderijo onde se resguardava da interferência mundana. Autocrítico e impiedoso na autópsia de sua performance política, o Lobo Neves guarda distância do eu sigiloso e se exibe em sociedade como se sósia, seu duplo, um doppelganger, para me referir a um dos topos mais populares da grande literatura ocidental no século 19. Na verdade, ele vira o faquir às avessas. Deveria ter-se consolado com o colchão macio e confortável do lar.

Com um piparote, o Lobo Neves se despede do atrevido confidente e renasce sósia submisso às pressões sociais e políticas do convívio com os colegas de parlamento. Não é diferente do verdadeiro Cotrim, o cunhado racista do Brás Cubas. A autópsia do coração político, se narrada como era na verdade, seria semelhante a palavras fantasiosas em boca maledicente de inimigo ou de detrator do Lobo Neves. O autoexame e a confidência decorrente estariam à espera de romance a ser escrito pelo amigo Brás Cubas, “um recluso”, como ele próprio se autodefine. O Narrador desse romance teria de trair a confiança nele depositada pelo confidente, pelos vários confidentes.

São múltiplas e variadas as subjetividades e as intimidades que se revelam na moderna prosa introspectiva de Machado de Assis.

Demonstra-se, no caso em pauta, que a alegre confraternização entre os pares, que segue à confidência, parece inicialmente postiça, e na verdade o é, para logo reaparecer como “natural”. E é nessa condição que o narrador/protagonista dá por fechado o capítulo intitulado “Confidência”. A camaradagem entre os pares é natural e motivo para a “alegria” reinante no país entusiasmado pela emancipação. Falsa é a ambição política. Postiço o sósia feliz da vida. Falsa a alegria de todos. Só é real o jogo político.

Num laudo necrológico, a confidência do Lobo Neves se mostraria inverossímil e só se mostra verdadeira no romance realista brasileiro escrito por Machado de Assis.

Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princípio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.

Machado inventa um lugar – a narrativa brasileira de ficção pós-romântico-nacionalista − em que a figura do narrador/protagonista passa a se constituir por cima dos personagens a fim de dialogar, à maneira do faquir, com o leitor. Esclarece-se o “nada” – o hábito do Lobo Neves − que é o alicerce de sustentação da personalidade do “mais afortunado dos homens”, junto aos pares no parlamento.

2. O aparte do narrador Brás Cubas

Did you never hear an aside before? I’m warming up for my last soliloquy. (Você nunca ouviu um aparte antes? Estou me esquentando para o último solilóquio.)

Samuel Beckett, Fim de jogo, fala de Clov

Antes de lembrar Beckett, vem-me à mente um famoso verso de Fernando Pessoa. A confidência é, no romance machadiano, o nada que é tudo. Na escrita ficcional das memórias póstumas, a confidência exerce desempenho semelhante ao do aparte no desenrolar duma peça de teatro. O aparte da “confidência” – mesmo sendo afinal um nada – não se furta a enriquecer o conhecimento do leitor sobre a narrativa ficcional. A confidência se apresenta menos como fala introspectiva dirigida a interlocutor privilegiado. Apresenta-se mais como alerta, levantado de maneira sub-reptícia e direta ao público que assiste ao espetáculo, ou a quem lê o romance. O interlocutor de Lobo Neves e narrador das memórias póstumas é apenas um comunicador (um traidor da confiança?) que ganha o privilégio de receber e poder divulgar a confidência alheia. Por confiança do confidente e por inconfidência sua, o narrador/protagonista Brás Cubas revela o coração desnudado do político brasileiro, ou os vários corações a serem desnudados no decorrer da trama romanesca.

Não se confunda, pois, a confidência na prosa machadiana com um mero caco [3] de ator exibido, a flertar egoisticamente com a gargalhada fácil e ruidosa que arranca da plateia graças à reconhecida e intransferível verve pessoal. A confidência é a razão de ser do drama narrado, o seu alicerce, logo volatizado, mas a lembrar uma cena futura de solilóquio, a se frustrar, e que, no entanto, é destacada em peça de William Shakespeare ou apenas anunciada em peça de Samuel Beckett.

“Você nunca ouviu um aparte antes? Estou me esquentando para o último solilóquio”.

Há algo na prosa introspectiva machadiana que distancia o chamado grande público e lembra o presente teatro pós-dramático. Em cena aberta, o ápice propriamente trágico ou melodramático da situação está sendo sempre adiado.

Se a cada volta do parafuso na trama de Brás Cubas a melancólica performance do cidadão na cena política nacional se anuncia é para que a narrativa entre em conúbio (sic) com a galhofa. Melancolia do personagem e galhofa do leitor. A alegria entre os personagens é a resultante de solilóquio a ser nunca proferido. É, pois, uma galhofa que o narrador oferece diretamente ao leitor, não se duvide. Em romance brasileiro dominado pela estética oitocentista, o novo e estapafúrdio casal de vocábulos – melancolia e galhofa – entra em cena para que o leitor possa desconstruir a alegria na feliz camaradagem entre os homens políticos no poder.

São eles sósias [doppelganger] comprometidos no exercício dos conchavos e das falcatruas.

A pseudo alegria dos sósias não se relaciona a um dos temas mais extraordinários da época, a dita “força maior” da vida, a alegria, tal como desenvolvida por Friedrich Nietzsche e apropriada e desenvolvida na segunda metade do século 20 por Gilles Deleuze e, principalmente, por Clément Rosset em A força maior. A dita alegria do mais afortunado dos homens, o político, é mera embromação de bobo-alegre, pra inglês ver, como se diz na língua popular no Brasil. Tal é a evidência da importância da embromação em gesto público que, nos dias de hoje, os sambistas criaram o neologismo “embromation”.

A embromação do cidadão/eleitor pelo político passa a conduzir a vida-e-profissão dele no projeto de autonomia da nação, a se frustrar cada vez mais. Sub-repticiamente, ou inverossimilhantemente, o riso postiço dos sósias, natural ainda que falso, torna-se a expressão maior dos embromadores e se transforma em hábito entre os pares, sendo um verdadeiro obstáculo à soberania da nação. Dado à publicidade pelo romance de 1881, o hábito recebe contorno preciso graças ao corte cirúrgico, a autópsia performado pelo bisturi da narrativa introspectiva machadiana.

O hábito sabota a alegria totalitária dos Ícaros da primeira hora da autonomia nacional, para se transformar em desajustado e inapropriado andaime de construção, a serviço da vontade da cidadania brasileira, em tempos de descolonização.

3. A confidência do personagem e o aparte do narrador

Pelo viés da confidência do personagem, extrovertida em inconfidência pelo narrador, o personagem se desdobra pelo contraditório, ou pelo nada. Trata-se de efeito da autoavaliação do desempenho profissional e público do político, de responsabilidade do próprio sujeito (ainda que, posteriormente, a aferição seja dada pelo confidente como um “nada”). Nada que nunca chegará a ser tudo. Poderosos e enriquecidos, Ícaros melacólicos!

Eis uma das principais revelações da retórica da introspecção como posta em prática por Machado de Assis em sua prosa ficcional.

O procedimento merece ser destacado, observado e analisado pelos historiadores da literatura brasileira. Sua inspiração é evidentemente nebulosa. Propomos uma hipótese. Pode ter sido suscitada na leitura por Machado de Edgar Allan Poe e no convívio com os seus contos. Já então Poe é o prosador e poeta do Novo Mundo mais apreciado pelos grandes escritores europeus, em particular pelo poeta Charles Baudelaire, seu tradutor ao francês. A não esquecer a tradução por Machado do poema “O corvo”. Em paralelo à invenção da narrativa introspectiva na língua portuguesa por Machado de Assis, destaco pelo sim e pelo não – sempre com intenção quase didática − um conto de Poe, “The story of William Wilson”. Publicado em outubro de 1839 é um dos mais populares do norte-americano.

A energia narrativa das Memórias póstumas de Brás Cubas (a explodir em capítulos curtos e de títulos provocativos, em desvios de rumo e distrações indispensáveis, às vezes chocantes, às vezes inebriantes, que motivam a cronologia ficcional a desobedecer ao sentido do calendário coma única força persuasiva da verdade) visa a desnaturalizar a personalidade achatada – flat, chapada, para usar o adjetivo de E. M. Forster − do homem político brasileiro. E, pelo avesso da desnaturalização, a personalidade achatada ressalta o político no ambiente de trabalho rotineiro e entediante, hegemônico na Corte imperial.

Na prosa machadiana, a desnaturalização da personalidade achatada do cidadão ou do homem político tal qual visa a alimentar as reflexões do leitor sobre a sociedade nacional, paralisada por lugares-comuns. O Brasil autônomo se endivida cada vez mais junto ao grande capital oportunista que nos chega da Europa, em particular da Inglaterra. Ao desestabilizar a alegria do cidadão dito probo, desestabiliza também a gloriosa arquitetura sociopolítica e econômica em formatação numa sociedade de corte.

Pelo recurso à introversão-do-Lobo-Neves/extrovertida-ao-Brás-Cubas, a composição ficcional machadiana passa a apresentar na literatura brasileira oitocentista um modo moderno e pessoal de caracterização do personagem round, redondo, para lembrar o seu oposto, flat, chapado, tal como proposto pelo romancista Forster. A energia da ficção machadiana se recarrega por intempestivas e chocantes surpresas, apenas sussurradas (valho-me do verbo de Poe, como se verá adiante) pelo personagem Lobo Neves, a se autoanalisar. Quando trabalhadas pela inconfidência do narrador Brás Cubas, as confidências do Lobo Neves redundam num tapa “na face do gosto público”, para retomar o título do manifesto futurista russo.

A “Estória de William Wilson”, conto de Poe, não é necessariamente conhecido dos atuais leitores brasileiros. Por servir de exemplo da moderna narrativa introspectiva/extrovertida e como representativa da figura hoje clássica do doppelganger, julguei importante apresentar antes um resumo da trama do conto. Poderá ajudar a elucidar certos detalhes linguísticos do que vimos entendendo não só por criação do duplo, como pelo processo de desdobramento do personagem em verdadeiro-e-sósia (o Lobo Neves, ou ainda o cunhado Cotrim). O resumo do conto estará também a apontar para a gênese, ainda nas Memórias póstumas de Brás Cubas, do importantíssimo personagem Quincas Borba o cachorro de mesmo nome.

Na prosa machadiana, a presença do Quincas (apelido de Joaquim, por sua vez, nome próprio de Machado e de Nabuco) excederá a participação de personagem num único romance. No romance seguinte ao de 1881, que tem por título o seu nome, o Quincas reganha a força de herói, responsável que será pela máxima “Ao vencedor as batatas”.

Primeiro, o resumo do conto de Poe.

O seu narrador, William Wilson, que é também o protagonista, encontra no primeiro dia de aula um colega que leva o mesmo nome que ele e dele se aparenta em tudo: mesma forma de agir, de andar, de falar e de se vestir. Uma só diferença entre os dois, o colega fala com voz sussurrada [já se entende a razão para o itálico]. Detestam-se por serem tão parecidos. Distancia-os, diz o narrador, a maneira como o sussurrante está sempre a dar conselhos ao protagonista, que os despreza, embora admita que, se os tivesse aceitado, não teria caído nas desgraças que sofre. Os tormentos são efeito de armadilhas que William Wilson monta, põe em prática e nunca dão certo. A relação dos dois era competitiva. Um dos duplos quer subjugar o outro, mas o narrador/protagonista do conto não quer ser o submisso e, por isso, está sempre na defensiva.

Correm-se os anos, William Wilson, o protagonista, se afunda na decadência moral e espiritual. Envolve-se em orgias, traições e jogos de azar. Em certo momento da vida, quando se apronta, na mesa de carteado, para limpar um colega de universidade, intervém um ser estranho em tudo semelhante a ele. Intervém e denuncia o golpe planejado. A partir daí, todas as vezes que William Wilson estava para passar a perna num patinho, o duplo aparece e susta a ação. Não há alternativa para o protagonista. Para continuar a viver bem e com satisfação, tem de matar o seu implacável perseguidor que, na verdade, vive dentro dele, a sussurrar. O assassinato do sussurrante levará também o protagonista a desaparecer. O carrasco de si mesmo se suicida?

A cena final do conto é brilhante nas ambiguidades que são despertadas no leitor pelo conflito mortal entre o protagonista que fala e o personagem que, ao ganhar fala, deixa de sussurrar:

Era Wilson, mas ele falava, não mais num sussurro, e eu podia imaginar que era eu próprio quem estava falando, enquanto ele dizia: “Venceste e eu me rendo. Contudo, de agora por diante, tu também estás morto… morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu vivias… e, na minha morte, vê por esta imagem, que é a tua própria imagem, quão completamente assassinaste a ti mesmo![4]


Notas

[1] Valho-me da palavra do narrador de Dom Casmurro, como poderia valer-me da palavra vivissecção, se aludisse ao conto “A causa secreta”. Para os conceitos de autópsia e de necrópsia, leia-se: “O confisco do cadáver de Machado de Assis pelos monarquistas”, publicado na revista serrote (n. 45, nov. 2023).

[2] Leia-se o capítulo 49, “A ponta do nariz”, das Memórias Póstumas.

[3] Caco: a fala inexistente no texto da peça, mas que o ator introduz no desenrolar cena, de forma cômica em geral.

[4] Cf. “It was Wilson; but now it was my own voice I heard, as he said: “I have lost. Yet from now on you are also dead — dead to the World, dead to Heaven, dead to Hope! In me you lived — and, in my death— see by this face, which is your own, how wholly, how completely, you have killed — yourself!”

A foto que abre o post é de autoria de Ana Alexandrino