Coleção Pensamento Político e Social da Hucitec | Resenha de “Afetos, relações e encontros com filmes brasileiros contemporâneos”, por Lucca Adrião

Na série especial sobre a Coleção Pensamento Político e Social da Hucitec, trazemos hoje resenha de Lucca Nicoleli Adrião sobre o livro Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos, de Denilson Lopes, professor titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Lançado em 2016, o livro reúne 10 ensaios que oferecem uma leitura crítica sobre a condição de jovens artistas que, paralelamente à pressão da indústria cultural e ao aumento do custo de vida, buscam, por meio da arte, novas formas de criação e de solidariedade. Se o papel do artista é ser um “criador de afetos”, o cerne do livro, como sugere Lucca Nicoleli Adrião, é o constante movimento de “uma viagem afetiva pelos filmes brasileiros”.

A Coleção Pensamento Político e Social, da editora Hucitec, foi criada em 2010 por Elide Rugai Bastos (Unicamp), Gabriela Nunes Ferreira (Unifesp) e André Botelho (UFRJ), com Maurício Hoelz (UFRRJ) completando o time atual de diretores. Nesta série especial da BVPS, vamos retomar títulos publicados, alguns deles já clássicos da área de pesquisa em suas intersecções entre a sociologia e a ciência política, sobretudo, mas também cultura contemporânea. Publicaremos reflexões sobre títulos específicos e em conjunto, resenhas, memórias, entrevistas com autores e outras atividades que visam informar leitoras e leitores, em geral, e pesquisadoras e pesquisadores da área, em particular.

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Resenha de Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos

Por Lucca Nicoleli Adrião (PPGCOM-UFPE)

Na epígrafe do livro Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos (2016), de Denilson Lopes, Michel Foucault pede por uma crítica com “centelhas de imaginação” (p. 7). Contra a crítica sentenciosa, há a defesa de um outro gesto, aquele que toque, com a maciez dos dedos, o fenômeno de um mundo muito mais sensível. Fala-se de “fazer existir”, através do ofício do crítico, uma obra, uma frase ou uma ideia; fala-se de acender fogos, olhar a grama crescer e escutar o vento, sentir a espuma do mar. De trazer consigo “os raios de possíveis tempestades”. Essa crítica, pois, é sempre aquela que vislumbra mais, que encontra o que há de potencial e instável no universo estético, indo em direção à existência. Aos afetos, às relações e aos encontros, por assim dizer? É sempre escrever, mas escrever a partir de obras de arte, mais do que sobre obras de arte; produzir suas próprias imagens, mais do que escrever sobre imagens. É ver além, na imanência.

O que Denilson oferece ao leitor, que aguarda naquela coleção de ensaios a realização desse pedido com Foucault à espreita, é um tipo de crítica que nunca se desvencilha da sensibilidade com que se vive a vida. O exercício do pesquisador pode parecer simples no papel, mas se trata de um trabalho cuidadoso e inventivo de uma escrita sensível, reflexiva, absorvida pelas impressões pessoais de um homem que se vê habilitado a falar com fluência de suas próprias experiências. Trata-se de uma escrita, também, que nunca perde o chão sólido da discussão teórica consistente, a leitura aproximada de suas fontes e um conhecimento contextualizado de seus objetos. Seus textos ensaiam o delicado equilíbrio entre a impressão e a teoria, entre a fruição e a matéria da arte.

É um livro, como nos diz o autor, gerado a partir das experiências de encontros, tanto com filmes como com seus realizadores e realizadoras. São a Mostra de Tiradentes e a Semana dos Realizadores os palcos dessa aproximação entre o pesquisador-crítico e o meio cinematográfico brasileiro. Se um escrito quer abordar uma determinada realização, a escolha reflete algo daquilo que toca com mais força, ou uma conversa que desponta como brecha para a escrita, algo que lhe ocorre e lhe faz querer imergir, encontrar respostas na profundidade da experiência estética. Se Denilson ainda reconhece os caminhos da pesquisa voltada à ampliação das noções que regem uma tradição do cinema brasileiro, e identifica bons trabalhos que mapeiam de forma mais sistemática suas novas tendências – como o Cinema de Garagem cunhado por Marcelo Ikeda e Dellani Lima, “primeira tentativa de dialogar em parte com os filmes presentes neste livro” (p. 22-23) –, o nome do seu livro é sugestivo: não afetos, relações e encontros voltados ao “cinema brasileiro”, mas a filmes brasileiros. São filmes, apenas filmes, que movem o escritor.

Não se pretende, portanto, uma compreensão totalizante de um momento do cinema brasileiro: há um despojamento da categorização de movimentos e das ferramentas dispostas pelo autorismo – “trabalhos diferentes de um mesmo diretor podem me levar do encantamento ao tédio” (p. 22) – para que a escrita se guie, de forma mais pura, pelas sensações. Menos panorama histórico, mais um relato de encontros. Relatados por alguém que se insere como observador do mundo; um flâneur nos corredores de festivais, exibições de cinema, mostras de arte e ambientes voltados às expressões e vivências queer.

No primeiro ensaio da coleção, Denilson se faz um homem a flanar. O texto em formato de carta é destinado ao cineasta Leonardo Mouramateus, ou simplesmente a “Leo”, de quem o remetente se despede com um carinhoso “Bjs, Deni”. O lugar da amizade, da escrita e da vida é o coração do livro de Denilson. Na carta escrita e endereçada ao cineasta cearense vivendo em Portugal, um passeio pela trajetória de um estudioso que pesquisou de Visconti a Autran Dourado, une-se àquela de um cineasta, desde seus curtas em diálogo com Bresson e Pedro Costa até a produção em andamento do seu primeiro longa-metragem na Europa, em uma tentativa de estarem juntos, caminhando em passos distintos, países distintos, mas ainda conectados, em uma viagem afetiva pelos filmes brasileiros; por angústias, anseios, paixões compartilhadas.

A precisão argumentativa e a sutileza das percepções em toda a pesquisa também pressupõem um caminho, que se mantém coerente em sua deambulação – mas que também abre margem a belos descaminhos. Uma leitura do filme Transeunte, de Eryk Rocha, pode transformar-se no ponto de contato entre Denilson e seu objeto, do personagem que transita pelas ruas do Rio de Janeiro, buscando algo mais nos banais e pequenos momentos, ao crítico que admira as paisagens, e que investiga, à sombra de um olhar crítico sobre o filme, o andar como afeto, constelando personagens que andam, caminham, percorrem, transitam, deambulam… um tratado sobre uma forma de existência: “Expedito serei sou fui eu” (p. 55). Do livro, florescem pequenos detalhes que enriquecem a leitura, eles mesmos áreas de uma paisagem a ser, por nós, admirada. Textos que se deslocam, com o destino a flanar, encontrando cantos e esquinas à reflexão preciosa.

E de que mais se constitui essa paisagem? De afetos, amizades, objetos, das luzes e cores das festas, de uma perspectiva antiutópica do cinema brasileiro, desenhando a linha do horizonte, do artifício e do camp, da melancolia dos dias, e também de outras paisagens, filmes de paisagens e rostos que se tornam paisagens. Os interesses acadêmicos de Denilson Lopes se concentram em questões que orbitam ao redor desse e de alguns outros selecionados conceitos, que são informados pela bibliografia dos campos das artes e da imagem, da filosofia, da literatura, da teoria queer. O olhar diferenciado a ideias bem trabalhadas por outros pensadores é o que permite uma senda aberta a um mundo novo, visto por olhos muito particulares. [The world] “consists of three or four hills and a cloud”, diria Wallace Stevens em um poema, citado como um fragmento disperso na folha deste livro carregado de fragmentos poéticos.

Uma importância fundamental é dada ao conceito de afeto, ao campo de discussões centrado na ideia de afetos e suas diferentes abordagens teóricas relacionadas. Em O Que é a Filosofia?, livro escrito por Gilles Deleuze e Félix Guattari – livro que, nas palavras do autor, “me ajudou na leitura dos filmes mais do que os trabalhos específicos de Deleuze sobre cinema” (p. 35) –, os afetos são entendidos como “devires não-humanos”, e a obra de arte como bloco de sensações, constituídos de “afetos e perceptos”. O papel do artista seria, nessa abordagem, o de ser um criador de afetos, um criador de mundos. Sem a pretensão de escrutinar as diferenças entre afetos e sentimentos, dando maior volume àquilo que atravessa e faz vibrar o corpo, o que se torna elementar à pesquisa que toma forma em Afetos, Relações e Encontros é a exploração de tais afetos, de tais mundos: o mundo criado pelos filmes, o mundo criado pelo cinema, o mundo criado pela arte e o mundo criado pela escrita atenciosa deste livro, um livro dedicado aos afetos.

Denilson ainda arrisca criar terminologias nesse universo afetivo, como “afetos pictóricos”, que “emergem da problematização entre cinema e pintura como uma forma distinta de pensar os filmes fora da esteira do cinema clássico, do cinema de gênero ou do cinema moderno” (p. 37); ou “afetos queer”, que se endereçam ao camp e ao artifício e encontram suas constelações pessoais – Oscar Wilde, Marcel Proust, Joris-Karl Huysmans (p. 159). Não são essas discussões apartadas de uma relação com a tradição teórica: as páginas voltadas à temática queer, por exemplo, são bem informadas, com referências ao contexto global e latino-americano. Menos ainda da prática corrente da vida: também percorremos as boates, assistimos juntos a ele as performances das drag queens. Um amigo dirá, sobre um desses espaços, “é a nossa Paris is burning” (p. 124), informação prosaica que o autor adiciona como crucial à construção do seu texto que não se desvincula, também, das relações e dos encontros. Denilson sai dos filmes, conta uma história outra da experiência LGBTQIA+: “como estar junto, como compartilhar, compor outras redes e famílias, outras heranças e futuros” (p. 114).

É fato que os afetos estão na obra de arte: eles emergem do encontro, são uma relação. A pesquisa, a escrita, a leitura e a participação em eventos são todos modos de se encontrar com filmes. Elementos pontuais de uma obra florescem como sensações materiais, que definem uma experiência e integram a constituição do barro com que Denilson modela seu pensamento. O modesto microcosmo povoado de “ruínas pobres” em Histórias que só existem quando lembradas, onde não há nostalgia nem melancolia, enseja um belo escrito sobre os espaços arruinados e de suas imagens sem o peso da história – tão diferentes em natureza daquelas imagens criadas pela caneta de Autran Dourado, insiste o pesquisador que já havia se debruçado sobre a literatura do mestre mineiro em seu doutorado – e a morte como extinção, como apagamento, um desaparecimento para ser esquecido (p. 90). O primeiro plano da nuvem, em Estrada para Ythaca, pode ser a abertura para um ensaio que tem a incerteza como a seta que aponta à estrada.

Pois o capítulo dedicado a Estrada para Ythaca, filme dirigido pelo quarteto de cineastas irmãos Pretti (Ricardo e Luiz) e primos Parente (Pedro Diógenes e Guto Parente), será aqui uma peça central, que justifica os potenciais maiores do cinema que move Denilson. O que une, no filme, é a amizade, o desejo de estar juntos, e de fazer um cinema como trabalho coletivo que constitui um modo de vida. Da imagem granulada de um road movie que viaja a caminho de um outro cinema no Terceiro Mundo (essa é a razão de aludir a Glauber Rocha no filme de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin), despreocupado e desprendido de amarras estéticas, o cinema é integrado à existência do grupo de amigos, indissociável dos afetos que os cercam.

A reflexão que surge, então, é a do fracasso como motor ao cinema independente, uma perspectiva antiutópica do cinema. O fracasso é a sombra que paira sobre o filme; sua conotação negativa pode ser a primeira interpretação, mas à palavra se atribui um sentido que vai muito além (porque é além que se quer chegar) das usuais associações entre sucesso e mercado. Ser independente é fracassar nesse sentido, pois é encarar arte enquanto um desejo, mais do que uma opção, sem que exista muito, a priori, a não ser o desejo de fazer. O artista opta pela brisa e pela resistência, encontra-se na margem, e ali pode respirar, ter seu espaço certo no mundo.

Um espaço no mundo, finalmente, pois é dele que se fala no livro inteiro. Entre outros tantos temas, o cosmopolitismo é um dos que regem esse estudo, um cosmopolitismo enquadrado enquanto afeto por si mesmo. Auxiliada por um referencial tão grandioso quanto Homi Bhabha e Scott Malcolmson, a busca por um sentimento de mundo (pode-se sentir o mundo?) consegue ser vislumbrada naquilo que Denilson chama de “cosmopolitismo dos pequenos gestos”, que pode fazer, nos curtas-metragens de Leonardo Mouramateus, da Fortaleza uma Europa; de uma coleção de fotos, toda uma experiência compartilhada com amigos que se encontram ao redor do globo. Um cosmopolitismo que pode ser praticado no quarto, pela arte e pela leitura deste livro, enfim.

Na ocasião do relançamento deste Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos, o mundo girou. As folhas secas no chão, pelas quais o flâneur passava e optava por escrever sobre a um amigo distante, já cederam o espaço a outras estações. As nuvens no céu de Ythaca foram carregadas, choveram, dissiparam; o ciclo continua, outros filmes foram feitos, outras criações. À altura deste relançamento, Leonardo Mouramateus lança seu terceiro longa-metragem, a história de uma jovem entre Lisboa e Fortaleza, mais um entre os nossos cosmopolitismos. Tudo se altera no fio do tempo, da pedra a erosão extrai os resíduos, mas a amizade persiste. Os afetos, relações e encontros, como crítica e aproximação com as artes, como modo de vida, são as coisas que persistem. O interesse atual no livro, longe de ser apenas uma retrospectiva de um momento pouco considerado do cinema brasileiro, é o interesse em metodologias que vão de encontro com a vida, aquilo pelo que Denilson Lopes preza sobretudo, aquilo que é sua grande contribuição.