
É com grande alegria que a BVPS inaugura hoje uma nova coluna, Cenas de escrita para um diário íntimo, assinada por Ítalo Moriconi. Professor aposentado de literatura brasileira e comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, formado em Ciências Sociais na UnB, com mestrado e doutorado em Letras na PUC-Rio, Ítalo Moriconi sabe pensar o contemporâneo na literatura como poucos. Neste texto de estreia, ele nos transporta para julho de 2024, oferecendo vislumbres reflexivos de seu cotidiano por meio de temas como política, cinema, pós-modernidade e telejornais. Como ele observa: “é assim que me sinto às vezes, de ressaca na vontade de tudo absorver em escrita, escrita grafofílica de sociólogo, arrumadeiro de fatos”.
A partir de agora, a cada quinze dias, sempre nas manhãs de quinta-feira, nossas leitoras e leitores poderão acompanhar as entradas do diário de Ítalo. Segundo ele, são suas “anotações desassossegadas”, rendendo homenagem a nossa colunista Alcida Rita Ramos, sua professora no começo dos anos 1970 na UnB.
Com essa nova coluna, a BVPS reafirma seu compromisso como espaço da multidisciplinaridade da pesquisa e da escrita crítica. Agradecemos ao colega por sua generosidade em compartilhar suas anotações conosco e convidamos todas e todos a acompanhá-las.
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Notas para um diário
(Julho/2024)
Por Ítalo Moriconi
Em dias de fastio da escrita, saio navegando pelo Facebook e vou catando milho e pepitas, topando com o Interessante a cada fração de segundo ocular.
Inauguro esta coluna, escrita errante de diário, registro de ideias, impressões, opiniões, reelaboradas a partir de posts ou recolhidas aqui e ali. Diário no sentido duplo de “journal”, em inglês e francês. Mas sentido entrecruzado: a escrita pessoal como espelho refratado da notícia. São minhas anotações desassossegadas. E aqui rendo homenagem a Alcida Rita Ramos, por ela e pelo título de sua coluna, “Desassossegos”, neste espaço que agora compartilhamos, a BVPS. Constato que nossa relação geométrica permanece – mestra, sempre à frente e inspiradora. Identifiquei-me com o gesto autoral de Alcida, lançando mão da obra de Fernando Pessoa. Quiçá chegamos ambos àquela etapa em que a motivação mais forte para escrever nasce da necessidade de formular nossos desassossegos. Desnecessário dizer que ao compartilhar este estado de espírito, não pretendo nem posso equiparar-me intelectualmente ao papel nodal de Alcida na Antropologia nem ao seu nível de contribuição ao pensamento em nossas Ciências Sociais que a coluna dela atesta. O pensamento em Ciências Sociais é o que temos de pensamento autônomo brasileiro, construído coletivamente, passando necessariamente pela disciplina universitária.
Oh, as Ciências Sociais. Como posso esquecer aqueles idos de 1972-3, eu nos meus 19-20 anos, vivendo o êxtase de percorrer como aluno o Minhocão da UnB, descobrindo a Antropologia nas aulas de Alcida Rita Ramos. Ela nos contava sobre seu trabalho de campo, pioneira que foi no contato com os Yanomami. Eu optara pela habilitação “Sociologia”, mas o que me pegou na graduação foi a Antropologia. Alcida era a professora que nos apresentava por dentro a experiência etnológica/etnográfica. A descoberta da Antropologia era uma adesão a toda uma nova visão e valoração estética. Tinha tudo a ver com o que eu consumia de cultura brasileira desde a adolescência nos anos 60. Alcida, a jovem que fazia a cabeça de tantos jovens, integrava uma equipe de gigantes – Julio Cesar Melatti, Roberto Cardoso de Oliveira, Roque de Barros Laraia. Tive aula com todos esses! Meu primeiro trabalho remunerado na vida foi encomendado pelo Laraia e pelo Melatti, a tradução do inglês para português de artigos de antropólogos fundadores. Se bem me lembro, Evans-Pritchard e Malinowski.
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Nos meus posts irados no Facebook, fantasio que posso intervir na bolha da opinião por onde se estendem os tentáculos de mim, que rebatem e se entretecem em enlaces de volta. Revivo as discussões de análise de conjuntura, nos meus tempos de militância.
É um hábito enraizado na infância, esse de comentar diariamente o noticiário político. Na varanda da nossa casinha na antiga Quadra 48 em Brasília, eu brincava sentado aos pés de meu avô Luigi, que lia Última Hora e passava boa parte da manhã proferindo impropérios contra a filha-da-putice cotidiana da política. Ele que tinha sido fascista na Itália, tornou-se no Brasil um fã de Brizola, de Jango. Quando se acalmava, passávamos à lição de italiano. Ele, que fora mestre de obras e capataz no chão da fábrica, organizava, no caderno impecável, com caligrafia perfeita, as frases que me fazia ler em voz alta e copiar.
O furor dos meus posts políticos. A mão de meu avô me guiando na manhã brasiliense. Tantos assuntos atiçando a opinião, logo ao raiar do primeiro sol. A matinata das clarinetas.
Houve também um diário íntimo, desde a mais tenra idade. E a retomada adulta dessa prática, de maneira eventual e esparsa, em folhas soltas, primeiro datilografadas, depois impressas. Cada vez mais essas folhas se afastavam da coisa pública, acumulavam memórias ficcionadas de aventuras amorosas casuais, fantasias eróticas realizadas ou não. Folhas soltas, mantidas em separado, em gavetas distintas dos escritos profissionais. Eu confiava que das páginas secretas do diário podia surgir alguma poesia lírica. Era o que eu buscava, mais que a confissão à destinatária inominada. A quem se endereçavam aquelas primeiras páginas? A minha mãe, disse o psicanalista. Na floresta encantada da errância entre os corpos iguais, ideais, era o desejo de minha mãe fantasmática em mim, transmudado.
[07 de julho]
Opa, pelo interfone, uma chispa de prazeres passados. O porteiro avisa. O correio deixou um pacote na portaria. É um impresso. Um livro. Ainda um livro, não um ebook. Sempre uma alegria receber novo livro de Glauco Mattoso. O prolífico poeta perverso. Da linhagem de Gregório de Matos Guerra. Mas a sátira política em Glauco não é dardo venenoso entre homens bons, é o desabafo da boca suja do povo. Boca do lobo, boca de lobo, prazeres repugnosos dos esgotos da vida. Nojo profundo para uns, riso desbragado para outros. Chega em boa hora o exemplar de Lyra suja, juntando Glauco à dupla de prolíficos que dominaram minhas leituras errantes dos últimos dias, Cezar Aira e Bernardo Soares. Cismei de explorar o Livro do Desassossego. Esqueci Pasolini, espero que apenas por um tempo.
[09 de julho]
E a França, hein. Como sempre, é a mobilização da esquerda que ergue uma reação ao avanço da ultradireita. E foi assim que uma facção de “ultra” esquerda se tornou majoritária no interior da bancada do Nouveau Front Populaire. Eu comparo os Insubmissos ao PSOL brasileiro. Não consigo ver alguém deles no cargo de Primeiro-ministro, a menos que sofresse uma metamorfose como a de Boulos, um psolista com cara de petista, assim como Haddad é o petista com cara de peessedebista.
O vídeo me traz a presença forte da juventude na política francesa. Foi a galera jovem que se mobilizou e deu essa maioria aos Insubmissos. E figuras como Bardella, Attal, que fiquei conhecendo agora pela TV global, são jovens, preparados, falam bem, inspiram confiança pelo simples fato de terem energia. Também as militantes dos Insubmissos que vi no canal 210 são incrivelmente bem articuladas. Elas fazem aquele gênero esquerda pentelha (eu já fiz esse gênero em certos debates culturais da virada dos 70/80), que interrompe quem está falando. É preciso interromper as evidências do discurso hegemônico e para isso um pouco de falta de educação é instrumental. Um imperativo da práxis política minoritária que não tem motivo para ficar inteiramente nas mãos da direita. Vi uma jovem ótima dar uma lacrada no outro jovem, da direita. O da direita reclamava que a derrota foi causada pelo que ele denunciava ter sido a campanha de difamação que teriam sofrido, inclusive com agressões físicas. A moça dos Insubmissos foi logo cortando o rapaz, mencionando as agressões e ataques racistas de militantes da direita.
[12 de julho]
Obras primas antigas na errância do zap. Ontem topei com Apocalypse Now. Rever, reler, para mim, é como ver, ler, pela primeira vez. O filme tem toda a demagogia e excesso que se poderia esperar de um grande épico americano contra a guerra, numa cultura que nos dá Hollywood, Melville, Whitman, Thomas Pynchon… Assim como na obra prima literária em que se baseia (Heart of Darkness, de Joseph Conrad), o filme é sobre o horror. O filme É o horror. A guerra do Vietnã foi horror. Este mesmo horror que prossegue e piora em Gaza. Toda guerra é horror. O colonialismo é horror.
[13 de julho]
Tiro de raspão podia ter matado Donald Trump. America/Amerika está passando para o mundo a imagem de uma turbulência que lembra a dos anos 60, década em que foram assassinados John Kennedy, Martin Luther King e Robert Kennedy. Desejos de guerra civil, por parte da esquerda nos anos 60, agora por parte da direita. Sinistro. Os comentaristas americanos parecem estar se esforçando para não fazer a analogia entre os dois momentos, simétricos inversos.
O referencial mais presente é o atentado contra Reagan, é até onde vai a memória histórica nas TVs. Olha, garoto, eu venho de antes, como sou antigo!, venho daquele dia fatídico em que uma bala matou Kennedy, tão presente em minha memória, tão remoto na memória midiática. Não existe história na superfície do agora imediato das notícias, este um clichê feliz urdido no debate sobre pós-modernismo. Desde Reagan, America/Amerika fez de si a imagem de que tinha superado esse tipo de coisa, assassinato de presidente. Porém, nesse período, outros atentados ocorreram, contra o marido de Nancy Pelosi, contra uma deputada que ficou inválida (Gaby Giffords).
Tempos incertos, para todo lado que se aponte no mapa mundi.
[13 de julho]
A presentificação, um tema recorrente na bibliografia sobre a percepção do tempo na pós-modernidade. Mas ele se refere ao horário nobre, ao mainstream da comunicação global.
Alguém ainda fala em pós-modernidade? Escrevi há anos um texto destinado ao circuito acadêmico profissional em que caracterizava o tema do pós-moderno como debate historicamente situado, num contexto em que a disciplina transdisciplinar que Fredric Jameson chamou de “Teoria” tornou-se um campo de debates sucessivos – o pós-moderno, a pós-vanguarda, o pós-colonial, o decolonial, as quatro ondas feministas (cf. Heloisa Teixeira, ex-Buarque de Hollanda).
[14 de julho]
Do Livro do Desassossego:
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.
É assim que me sinto às vezes, de ressaca na vontade de tudo absorver em escrita, escrita grafofílica de sociólogo, arrumadeiro de fatos.
Ao pegar uma edição menos poeirenta que tenho aqui da Obra Poética, como complemento à leitura de trechos e trechos do Livro, me vi voltando a tempos de escola e beabá, embora em matéria de Fernando Pessoa eu me considere um autodidata amador, enfeitiçado tardiamente, já em jovem adulto. Tinha esquecido que gosto tanto de Alberto Caeiro! Muitas páginas do Livro do Desassossego parecem ter como matéria-prima o mesmo universo sentimental e imaginário de Álvaro de Campos, extirpado de toda neurastenia e ansiedade, numa obstinação em cultivar uma espécie de olhar míope, o mundo visto pela ótica do diário de quarto de um pequeno funcionário. Avançando na leitura vi que é bem mais que isso. Refiro-me à edição organizada por Jerónimo Pizarro, para a editora Todavia, lançada em 2023.
A voz desavinda em mim interpela: aos setenta anos resolve voltar a clássicos? Não tem nada melhor a fazer, nada mais atual para ler? Você não vai conseguir preencher todas as lacunas de leitura de sua vida! O que foi, foi; o que não foi, não foi, doe os livros.
Assim caminho entre minhas estantes, catando milho e pepitas de ouro nas lombadas poeirentas. Penso que minha verdadeira vocação, depois de toda uma vida profissional, é a do livreiro apaixonado por seus livros, apaixonado por mostrá-los, beija-flor folheando frases de toda ciência, toda arte, todas as épocas.
Do Livro do Desassossego:
Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas estas civilizações? Tudo isto é-meu sonho, como as princesas da Babilônia, e o ocuparmo-nos da humanidade é fútil, fútil – uma bibliofilia de analfabeto, uma arqueologia do presente.
Seria uma boa epígrafe para o furor de meus posts políticos no Facebook. A primeira prise do dia, na matinata de clarinetas.
