
Um dos maiores nomes da teoria social das últimas décadas, Jeffrey Alexander, autor do manifesto “O novo movimento teórico” que marcou toda uma geração, está se aposentando. Na próxima semana, nos dias 25 e 26 de outubro, o Centre for Cultural Sociology (CCS) da Universidade de Yale sediará um seminário para discutir o legado de Alexander na sociologia.
Hoje, a BVPS se soma às homenagens ao sociólogo estadunidense com a publicação de três textos que discutem suas contribuições. O primeiro deles é assinado por Frédéric Vandenberghe, professor do Departamento de Sociologia e do PPGSA da UFRJ.
Vandenberghe, que estará presente no seminário em Yale, destaca algumas continuidades e descontinuidades no percurso teórico de Alexander, desde as revisões dos clássicos da sociologia até suas formulações mais recentes sobre a esfera civil, passando pela construção do “Programa Forte para a Sociologia Cultural”, institucionalizado no CCS. A sociologia cultural proposta por Alexander promoveu a “virada cultural” nas ciências sociais, inaugurando um trabalho original com amplas ressonâncias no debate sociológico contemporâneo.
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Jeffrey Alexander se aposenta de Yale
Por Frédéric Vandenberghe (UFRJ)
Agora que está se aposentando da Universidade de Yale, Jeffrey Alexander está entrando no final do outono de sua vida.[1] É uma bela estação, com um tapete de folhas sob os pés, um testemunho de meio século no centro da sociologia americana, propício à meditação e à retrospecção coletiva. Desde seus primeiros artigos de jornal sobre leitura rápida, rock psicodélico e protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã até seus últimos escritos sobre como a instituição do “cargo” poderia salvar a República Americana, Alexander seguiu um longo e sinuoso caminho pela teoria social, sociologia cultural e teoria da esfera civil (Mast, 2015; Vandenberghe & Weiss, 2022; Côté, 2023).[2] Ele ingressou em Harvard como aluno de graduação em 1965, onde teve aulas de teoria política, literatura e estudos dramáticos e se envolveu em ativismo estudantil. Em 1969, mudou-se para a Universidade da Califórnia em Berkeley para fazer doutorado em sociologia com Neil Smelser em sociologia clássica e se dedicou a uma tentativa heroica de reescrever e atualizar A estrutura da ação social, o livro-manifesto da teoria social de Talcott Parsons (2010). Em quatro volumes magistrais com uma infinidade de notas de rodapé, algumas das quais eram mini ensaios em si, ele apresentou uma reconstrução sistemática e crítica das obras de Marx, Weber, Durkheim e Parsons. Todo o empreendimento foi construído sobre uma grade metateórica que distingue os vários tipos de ação social e ordem social e inspeciona suas inter-relações. O trabalho foi impulsionado pela intuição de que nenhuma teoria social poderia se sustentar por si só. Somente quando tomadas em conjunto, de modo que se corrijam e se complementem mutuamente, é que uma teoria social verdadeiramente geral, que dialogue com todas as possibilidades de articular ação e ordem sem redução, poderia ser possível. Com sua ênfase idealista na dimensão simbólica da realidade social, Alexander permaneceu fiel ao projeto neokantiano de Parsons. Como Parsons, ele estava buscando articular as representações coletivas de Durkheim com a teoria da ação de Weber. A incorporação dos diferenciais de poder e do conflito de classes permitiu que ele também imprimisse um impulso transformador ao voluntarismo e alinhasse o funcionalismo à teoria crítica.
A publicação de Theoretical Logic in Sociology (Lógica Teórica na Sociologia), em 1982-1983, atraiu enorme atenção e o colocou na primeira divisão da teoria sociológica, onde ele poderia competir de igual para igual com Pierre Bourdieu, Jürgen Habermas e Niklas Luhmann. Contornando Anthony Giddens e ignorando completamente a teoria da estruturação, ele elaborou sua própria posição contra seus colegas europeus, explorando o neofuncionalismo como uma alternativa à teoria dos sistemas de Luhmann, lançando a sociologia cultural como uma alternativa à sociologia da cultura de Bourdieu e promovendo a teoria da esfera civil como uma alternativa à teoria da sociedade civil de Habermas.
Alexander tornou-se professor titular da UCLA em 1981 e, junto com Piotr Sztompka, fundou o Comitê de Pesquisa em Teoria Sociológica (RC16) da ISA no mesmo ano. Abrangendo todo o desenvolvimento da teoria sociológica no pós-guerra, incluindo o revisionismo neomarxista, as sociologias de conflito weberianas e as revoluções californianas na microssociologia, ele aplicou mais uma vez seus preceitos metateóricos e publicou seus cursos de teoria sociológica contemporânea na UCLA em Twenty Lectures (Alexander, 1987).
Desde a virada do século, Jeffrey Alexander abandonou em grande parte o campo da teoria social. Isso não significa de forma alguma que ele tenha parado de teorizar, mas, com exceção de um texto sobre Bourdieu e um adieu a Talcott Parsons, ele interrompeu suas leituras interpretativas-reconstrutivas dos trabalhos de outras pessoas e, posteriormente, passou da teoria social geral para as teorias sociológicas de alcance médio. Quando chegou à Universidade de Yale em 2001, assumindo a chefia de departamento de sociologia de 2002 e reconstruindo-o como bastião anti-positivista, o programa de pesquisa neodurkheimiano, lançado com desenvoltura como o “programa forte em sociologia cultural” (Alexander, 2022: 119-149), já estava em pleno andamento.
Alexander sempre foi um jogador de peso no mercado acadêmico, hábil em puxar as cordas institucionais e em atrair pessoal para uma rede de autores em expansão continua. O “programa forte” foi institucionalizado no Centre for Cultural Sociology (CCS), o reduto e a base de lançamento de um movimento acadêmico global bem-sucedido, com várias séries de livros nas editoras de maior prestígio (Polity, Palgrave, Oxford University Press, Cambridge University Press) e, desde 2013, também sua própria revista, a American Journal of Cultural Sociology.
A sociologia cultural confrontou os estudos culturais em seu próprio terreno, mas sem a bagagem marxista (Gramsci, Althusser) e sem os maneirismos pós-estruturalistas, feministas e pós-coloniais que caracterizaram o antigo Centro de Estudos Culturais Contemporâneos (CCCS) de Birmingham. Desde o início, Jeffrey Alexander estava mais interessado na reconstrução da teoria e da sociedade do que em sua desconstrução. Fascinado pela função mitopoética da cultura e por sua capacidade de revelar mundos por meio de palavras e imagens, ele pegou suas pistas nas Formas Elementares de Durkheim para entender as estruturas profundas de significado que conferem significado à realidade e orientam os atores em momentos de maior intensidade social e política. Estendendo a oposição de Durkheim entre o sagrado e o profano das sociedades primitivas para as modernas e da religião para todos os sistemas culturais, ele tomou a decisão fatídica de transformar o binário em um transcendental da vida social. A partir de então, o “código binário” estaria no centro tanto da “hermenêutica estrutural” (Alexander, 2003), que analisa os códigos culturais, os gêneros e as narrativas que impulsionam a ação social, quanto da “pragmática cultural” (Alexander, 2017; 2022), que investiga a vida social como uma performance dramática na qual os atores dão vida aos códigos e roteiros. Todos os desenvolvimentos posteriores dentro do programa de pesquisa da Escola de Yale (a teoria do trauma social, a sociologia do mal, a virada icônica, a socialização dos problemas sociais etc.) demonstram em estudos de casos concretos, por meio de uma aplicação hábil da perspectiva estrutural e dramática na pesquisa social narrativa, como a luta pelos significados culturais mantém a sociedade unida ou a faz desmoronar, fazendo-a avançar ou retroceder.
A sociologia cultural introduziu a “virada cultural” das ciências humanas nas ciências sociais. Se ela trouxe de volta seus interesses iniciais em literatura, teatro e artes, que haviam sido suspensos durante a primeira fase de sua carreira, The Civil Sphere (Alexander, 2006) trouxe à tona as lutas democráticas por reconhecimento. O livro funde uma teoria normativa de ideais democráticos de solidariedade e justiça e uma teoria sociológica de instituições políticas e movimentos sociais em uma aplicação exemplar dos preceitos da sociologia cultural. A esfera civil, uma contração da esfera pública e da sociedade civil, é um domínio de autorrepresentação de uma comunidade que, de fato, inclui todos os cidadãos, ao mesmo tempo em que distingue, de fato, os que são civis e civilizados dos que não são. Embora a teoria da esfera civil encapsule os ideais de solidariedade e justiça, ela também investiga empiricamente o que ameaça sua própria existência, não apenas nos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump (Alexander, 2022: 333-345), mas, como pode ser visto na série de livros que ele coordena na CUP, também em outras partes do mundo, inclusive na América Latina (Alexander, 2022: 347-363).
Em uma entrevista publicada na revista Sociologia & Antropologia em 2019 (v. 1, n. 9), Alexander dá uma ideia dos projetos inacabados nos quais ainda está trabalhando (um livro sobre ícones materiais, um sobre esfera civil global e outras vinte palestras sobre sociologia cultural). Presumivelmente, eles o manterão ocupado durante sua aposentadoria.
Notas
[1] Para marcar a sua aposentadoria, o Centro para a Sociologia Cultural de Yale organiza uma conferência agora em outubro sobre o seu legado.
[2] Os primeiros textos jornalísticos do Harvard Crimson (com entrevistas notáveis com The Doors e Jefferson Airplane) estão disponíveis on-line aqui.
Referências
ALEXANDER, Jeffrey C. (1982-1983). Theoretical Logic in Sociology (4 vols.). Berkeley: University of California Press.
ALEXANDER, Jeffrey C. (1987). Twenty Lectures. Sociological Theory since World War II. New York: Columbia University Press.
ALEXANDER, Jeffrey C. (2003). The Meanings of Social Life. A Cultural Sociology. Oxford: Oxford University Press.
ALEXANDER, Jeffrey C. (2006). The Civil Sphere. Oxford: Oxford University Press.
ALEXANDER, Jeffrey C. (2017). The Drama of Social Life. Cambridge: Polity.
CÔTÉ, Jean-François. (2023). Jeffrey Alexander and Cultural Sociology. Cambridge: Polity Press.
MAST, Jason. (2015). Alexander, Jeffrey C. (1947–). In: WRIGHT, D. (ed.). International Encyclopedia of the Social & Behavioral Sciences (Second Edition). Amsterdam: Elsevier, p. 523-528.
PARSONS, Talcott. (2010 [1937]). A estrutura da ação social: Um estudo de teoria social com especial referência a um grupo de autores europeus recentes. Petrópolis: Vozes.
VANDENBERGHE, Frédéric & WEISS, Raquel. (2022). Introdução: Da teoria social à sociologia cultural: a obra pioneira de Jeffrey C. Alexander. In: ALEXANDER, Jeffrey. Sociologia cultural: Teoria, performance, política. Rio de Janeiro: Ateliê de humanidades, p. 7-33.
