Desassossegos | Coluna de Alcida Rita Ramos

A coluna desta semana de Alcida Rita Ramos (UnB) traz uma reflexão sobre a solidão daqueles forçados a ser “Só” no mundo: indígenas marginalizados ou últimos sobreviventes de seus povos. O que acontece quando, arrancados da convivialidade, restam apenas os estrangeiros a esmagar sua vontade? Em um texto que percorre histórias reais, Alcida revela o quão cruel pode ser a realidade vivida; mas também oferece um vislumbre da resiliência de pessoas que, entre trágicos escombros, permanecem a lutar.

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Por Alcida Rita Ramos (UnB)

É-me impossível imaginar como seria a vida de quem ficou absolutamente só no mundo, solitário sobrevivente de alguma hecatombe, vinda da natureza ou de atos humanos, que varreu seu povo da face da terra. Não consigo formar na mente a figura de uma pessoa brasileira, absolutamente só, pranteando seus mortos, rodeada de estrangeiros estrangulando sua vontade, seus movimentos, seu futuro. Mas não é preciso tanto esforço para conceber como, um por um, todos os membros de centenas de povos indígenas das Américas definharam, vítimas das contínuas ondas de invasores e suas pestilências que assolaram o continente americano desde a abrupta chegada de um certo italiano a serviço da Espanha. Quantas pessoas desgarradas, solitárias, têm vivido, ao longo de meio milênio, num limbo humano, órfãs à deriva, fugindo do cerco dos conquistadores? Ficções um tanto atabalhoadas, como a de Fenimore Cooper n’O último dos moicanos, não competem com a crueza da realidade vivida… e morrida.

Alguns exemplos do último século, arautos do que foi e do que, pelo que tudo indica, ainda virá, mostram a que extremos chega um ser humano quando arrancado da convivialidade que dá sentido à vida e que é, afinal, a base da nossa humanidade. Um punhado de homens e mulheres sobreviveram ao extermínio de seu povo com uma garra, determinação e coragem que mal consigo imaginar. São exemplos da desumanidade de uns contra a humanidade de outros. Aqui vão uns poucos desses exemplos.

Darcy Ribeiro, em Os Índios e a Civilização (primeira edição, 1979) levou-me às lágrimas com o desfecho do extermínio dos Oti, povo aparentado aos Xavante, que vivia nos Campos Novos do Paranapanema, em São Paulo. Caçados até à extinção, restaram duas pessoas. “Em 1908, elas foram vistas pela última vez: eram então duas mulheres apenas, sentadas ao lado da estrada, cobrindo o rosto com as mãos”. Vergonha, humilhação, dor, desesperança estão todos contidos nas seis últimas palavras.

Nas filmagens de Terra dos Índios, de 1979, Zelito Viana encontra, muito idosa, Dona Maria Rosa, a última sobrevivente dos Ofaié Xavante. Mostra-lhe uma gravação feita tempos antes com um de seus parentes. Tomada de surpresa, num misto de comoção e júbilo, ela sorri para a máquina e se engaja numa conversa animada com a voz do parente morto, como se ele estivesse ali, de corpo presente, confinado no gravador, ouvindo o que ela dizia. Falava na sua própria língua, que não usava desde que se viu só, cercada pelos assassinos do seu povo, ladrões de sua terra. Ao ver a cena, não sabemos se rimos, como Dona Maria Rosa, ou se choramos com o desalento da impotência.

O caso Ishi é o mais célebre do gênero O último dos … Membro de um dos pequenos grupos étnicos que se espraiavam por toda a Califórnia, por 50 anos, Ishi perambulou pela paisagem semi-agreste do centro-norte do estado, até que, nos primeiros anos do século XX, apareceu, alquebrado, no pátio de um matadouro na cidadezinha de Oroville, provavelmente, uma antiga corrutela brotada da corrida do ouro que devastou indígenas e ambiente no século XIX.

Despido, macilento e ressabiado, Ishi foi levado pelo xerife para dormir na cadeia, único lugar que julgou seguro para criatura tão vulnerável! Começa aí uma relação que se tornou antológica nos anais da antropologia norte-americana. Alfred Kroeber, jovem professor do nascente departamento de antropologia da Universidade da Califórnia em Berkeley, acolheu Ishi e, como ninguém sabia a que grupo pertencia, criou o nome Ishi para ele e Yahi para a sua etnia.

Ishi na cadeia de Oroville, 1911

No livro Ishi’s brain. In search of America’s last “wild” Indian, de 2004, o jovem antropólogo Orin Starn acompanha a trajetória desse californiano de raiz com o intuito de traçar o paradeiro do seu cérebro, desaparecido depois que Ishi morreu de tuberculose em 1916 num hospital de Berkeley. Contra todas as indicações antropológicas, o médico que o tratou decidiu fazer uma autópsia e cremar o corpo. Faltava o cérebro. Quem o teria roubado? O sumiço tornou-se cause celèbre.

Com paciência de detetive, o incansável Starn matou a charada. O ilustre professor Alfred Kroeber, que se havia oposto à autópsia em respeito aos costumes indígenas da Califórnia, despachou, ao que parece, na surdina, o cérebro de Ishi para seu colega na Smithsonian Institution em Washington, DC, o igualmente ilustre professor de antropologia física, Aleš Hrdlička, notório acumulador de cérebros humanos. Aparentemente, foi apenas um ímpeto de colecionador, pois nada foi feito com aquele, nem com os outros cérebros da sua imensa coleção armazenada em vastos tanques de metal nos depósitos da Smithsonian.

Lá atrás, em 1911, Kroeber instalou Ishi no museu de antropologia que ainda montava na cidade. Ali ele vivia e exibia a um público sedento de exotismo a sua pessoa e habilidades na produção de pontas de flecha e outros instrumentos tradicionais. Apesar dos muitos esforços, ninguém conseguiu saber, afinal, que língua falava Ishi. Gravou histórias para o linguista Edward Sapir, ensinou a Kroeber preciosos aspectos da sua cultura “Yahi”, mas evitava a todo custo falar dos últimos tempos em que viu morrer seus quatro últimos companheiros: a mãe, a esposa e outros dois parentes. Logo depois, absolutamente sozinho, sucumbiu ao cerco e se apresentou, derrotado, ao conquistador. Como a ironia não perdoa, teria que ser no espaço de um abatedouro urbano.

Ishi foi objeto de livros, inúmeras matérias de jornais e se transformou numa celebridade, antes de cair no esquecimento. Nos anos 70, a viúva de Kroeber, Theodora, publicou o livro Ishi. The last of his tribe, edulcorando a experiência e dando uma sobrevida à visibilidade do caso.

Orin Starn, tendo atravessado o continente norte-americano à procura do famoso cérebro do último homem selvagem, encontrou-o boiando em formol num daqueles depósitos da Smithsonian em Maryland. Sua saga em busca do cérebro perdido termina depois da repatriação dos restos mortais de Ishi por indígenas do norte da Califórnia que, finalmente, deram um funeral digno e completo às suas cinzas e cérebro. Era o ano 2000, aquele que desconsertou a humanidade com o “bug do milênio”.

Oitenta e cinco anos depois de Ishi sucumbir ao cerco americano, na Amazônia brasileira, um indígena desconhecido surge no campo de visão do país. “O homem”, dizia uma matéria de jornal em 2022, “conhecido por viver sozinho e isolado na densa floresta Amazônica, morreu como o último homem de seu povo, sem que sua etnia e sua língua fossem descobertas”. A era dos megaprojetos militares, que tanto afetou lugares como Rondônia, levou ruína e morte a centenas de povos indígenas até então sem contato com o mundo exterior. O extermínio foi fulminante para alguns daqueles povos. A exemplo da Califórnia, o oeste amazônico abrigava uma grande quantidade de pequenos grupos étnicos e uma imensa diversidade de línguas e culturas indígenas. O grupo de Tanaru era um deles.

Em 1995, eram quatro pessoas. No ano seguinte, era apenas esse homem, que ficou conhecido como “O índio do buraco” ou Tanaru, nome de um rio nas proximidades. Por quase 30 anos, conseguiu driblar o assédio de todo e qualquer branco e repeliu, mesmo a flechadas, quem se aproximasse demais do seu abrigo, fosse fazendeiro, funcionário da Funai, jornalista, antropólogo ou representante de Ong.

Tanaru. Foto Vincent Carelli, 1996

Corumbiara, o filme de 1996 de Vincent Carelli, exibiu pela primeira vez o “índio do buraco”. A expressão facial de Tanaru é de perplexidade e revela ao “mundo a solidão do sobrevivente de genocídio”. Coincidências que nos desassossegam: como no caso de Ishi, nos últimos dias de vida coletiva, Tanaru tinha a companhia de apenas quatro companheiros que foram morrendo e o deixando só.

Na fuga constante, Tanaru erigiu 53 choupanas e perfurou centenas de buracos, alguns com profundidade superior a dois metros, cuja função continua um enigma. Segundo reportagem de Vinicius Sassine, Tanaru, sozinho, “foi responsável por preservar uma ilha de vegetação amazônica, de 8.070 hectares rodeada de descampados e fazendas na região de Corumbiara (RO)”. Viveu, portanto, intensamente, aplicando a sabedoria ancestral ao ofício de sobreviver e preservar total autonomia. Com invejável clarividência do que representa o contato com o agronegócio, Tanaru preferiu o isolamento a pagar o preço da degradação física e moral que a submissão traz consigo. Tudo indica que, sabendo que a morte se aproximava, Tanaru preparou-se para ela. Altair Algayer, o funcionário da Funai que encontrou o seu cadáver, comentou: “Ele só não sepultou o próprio corpo porque isso é impossível. Estou convicto de que executou todos os rituais fúnebres de seu povo”.

Ao contrário de Ishi, Tanaru foi extremamente meticuloso em ocultar os seus conhecimentos culturais do mundo exterior, deixando nos brancos um incômodo vácuo de informações científicas e midiáticas. Ao contrário de Ishi, preferiu viver a vida inteira na fuga a se humilhar ao inimigo. A primeira foto do Ishi rendido mostra um ser humano esquelético, em andrajos, olhar atônico, ombros caídos, contra um pano de fundo vazio. A primeira foto de Tanaru revela um rosto assustado, desafiador, alerta, envolto por vegetação emaranhada. Ao contrário de Ishi, cuja morte foi monitorada e manipulada pelo médico americano, Tanaru gerenciou o próprio processo de morrer. Como que intuindo o trágico fim de Ishi, ele parece ter tomado todas as providências para escapar daquele destino ignóbil. Nunca perdeu o controle do seu próprio ser, negou ao invasor o gosto da vergonha e da derrota e legou aos curiosos cientistas a frustração de não conseguirem desvendar os mistérios de sua existência. Foi a dignidade em forma humana.

Os dramas de Ishi e Tanaru são como flagrantes do momento exato da consumação de um extermínio, quando até o último vivente desaparece. Estamos mais habituados a situações limite, como os Xetá no Paraná, os Avá-Canoeiro em Goiás, os Akuntsu e Kanoê, vizinhos de Tanaru em Rondônia, minúsculos grupos humanos lutando para sobreviver com um punhado de pessoas que não têm mais condições de se autorreproduzir. Mais frequentes ainda são os registros históricos de centenas de sociedades indígenas que pereceram longe da nossa vista. A Ishi e a Tanaru devo a fortuna de expandir minha consciência dessa tragédia para além do esperado.

Em contraponto ao tema do “último de sua raça”, temos o caso do indígena bororo Tiago Marques Aipobureu analisado por Florestan Fernandes em 1945. Usando o léxico da época, Florestan refere-se a Aipobureu como “um bororo marginal”, com certeza, influenciado pela ampla divulgação do livro The marginal man. A study in personality and culture conflict, de Everett Stonequist, publicado em 1937.

A “marginalidade” de Aipobureu foi construída pelos missionários salesianos que viram no jovem indígena ‒ nasceu por volta de 1898 ‒ material promissor para o sacerdócio e o missionismo. Adolescente, foi mandado para a Europa em 1913, até que a saudade o trouxe de volta dois anos depois. Começou aí sua sina de desgarrado. Jogado na encruzilhada de caminhos que se bifurcavam, passou a viver na ambiguidade entre o caminho bororo e o caminho católico. Casou-se com mulher bororo, tentou ser o professor que os salesianos almejavam, mas inclinou-se para a vida de caça, pesca e roça. No entanto, roubado do tempo de aprendizagem das coisas bororo, mostrou-se imprestável como caçador, levando a família à miséria. A mulher o abandonou, os parentes o rejeitaram e, ao se voltar novamente para os missionários, foi igualmente rechaçado por ser bororo demais e cristão de menos. Florestan Fernandes comenta: “Tiago Marques gostava muito da mulher o dos filhos, mas nada podia fazer. Fora educado para viver entre brancos e não para enfrentar os perigos do mato e a dura vida de sua tribo, sem os menores recursos e o conforto da civilização”. Herbert Baldus acrescenta: “Assim, tornou-se solitário, solitário entre os seus e estranho aos estranhos”. E Florestan completa: “Sentindo-se repelido pelos seus, respondeu com o isolamento”. Um bororo que acabou como persona non grata entre os bororo por não ser suficientemente bororo.

Menos dramática, menos romântica e menos chamativa do que a saga de Ishi e de Tanaru, mas não menos dolorosa, a vida de Aipoburei demonstra até que ponto interferências externas podem destruir o âmago mais profundo de uma pessoa.

Mais uma vez, vislumbramos como é ser só no meio da multidão.


A imagem que abre o post é de Joana Lavôr e a foto de Alcida Rita Ramos é de autoria de André Aquere

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