BVPS Celebra | 1.000 posts

Hoje, 9 de novembro, é dia de festa na BVPS: chegamos ao nosso milésimo post. Foram muitas as iniciativas promovidas nesses mais de sete anos de existência do Blog. Queremos aproveitar essa data especial para destacar algumas delas, além, é claro, de agradecer aos/às nossos/as autores/as e leitores/as, que formam o sistema e o ambiente em que temos o prazer de promover a comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes.

A Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) foi criada em 2013 como uma iniciativa de inovação e responsabilidade institucional pela área de pensamento social, idealizada por Nisia Trindade Lima (Fiocruz e atualmente Ministra de Estado da Saúde do Brasil), Antonio Brasil Jr. (então na UFF, hoje UFRJ), André Botelho (UFRJ) e outros pesquisadores e instituições acadêmicas. Esse trabalho vem, desde então, sendo aperfeiçoado através do Blog da BVPS, investido da missão de estabelecer um novo paradigma de relacionamento das ciências sociais com públicos mais amplos e diversos. O Blog orienta-se menos pela ideia de “divulgação” – que pressupõe o conhecimento como um bem valioso de um que se transmite a outro –, muito ligada às ciências naturais e sua linguagem menos acessível ao público leigo, e mais por uma “comunicação pública” que visa descentrar o problema do produtor/destinatário do conhecimento e convida especialistas acadêmicos a, paralelamente, enfrentarem os muitos desafios de comunicação de suas pesquisas. Parece um deslocamento por demais sutil, mas nem tanto. Ele aposta que a inovação exige a construção de consensos entre as redes da sociedade como um todo, dentro e fora da universidade, e que essa própria separação dicotômica está obsoleta.

Essa diretriz se baseia num entendimento de que a cultura editorial das ciências sociais tende a pensar os artigos, entre editores, autores e público, como produtos finais e prontos (um ponto de chegada) de pesquisas individuais, em vez de uma etapa de um processo (e, assim, um ponto de partida) de formulação e resolução de novos problemas, ou novos desdobramentos de pesquisa de problemas conhecidos.

No Blog da BVPS procuramos radicalizar esse paradigma comunicacional a fim de explorar a simultaneidade dos públicos destinatários dos discursos acadêmicos e o próprio caráter reflexivo do conhecimento produzido pelas ciências sociais — o que Anthony Giddens chamou de “dupla hermenêutica” para indicar que as descobertas e teorias das ciências sociais não estão separadas do universo de significação e ação de que elas tratam. A reflexão sobre processos sociais (teorias e observações sobre eles) continuamente penetra, se solta e torna a penetrar o universo de acontecimentos que eles descrevem. O “social” permeia todas as atividades humanas e compreendê-lo não é prerrogativa das ciências sociais. E essa é sua maior diferença para outras ciências, já que não existe tal fenômeno no mundo da natureza inanimada, indiferente a quase tudo o que os seres humanos possam pretender saber a seu respeito. Mas, por sua parte, e ao seu modo, os atores leigos são também teóricos sociais, que interpretam o mundo social e ajudam a constituir as atividades e instituições que são o objeto de estudo dos cientistas sociais especializados. Os cientistas sociais não negarão que os preconceitos também são teorias (mesmo que, para nós cientistas, equivocadas) que formam o senso comum, assim como as generalizações de toda sorte são o principal “método” na vida cotidiana de os atores abordarem a “realidade”, sem o qual esta existiria para nós como uma bricolagem de experiências desconexas e de impressões sensoriais.

O Blog da BVPS investe em produção de conhecimento, portanto, com a consciência da reflexividade do conhecimento sociológico que é apropriado pelos atores sociais e retorna mais complexo para nós mesmos, aumentando e aperfeiçoando a qualidade dos nossos desafios. A comunicação pública da ciência que defendemos não dilui os diferentes atores do conhecimento – cientistas sociais e observadores sociais leigos –, mas coloca-os numa dinâmica de interação mais democrática e produtiva. Importante ressaltar a propósito o caráter deliberada e provocativamente multidisciplinar do Blog com outras áreas de conhecimento, notadamente as literaturas e as artes. E, ainda, o fato de o Blog constituir um espaço de formação de editores/as, autores/as e leitores/as de comunicação pública das ciências sociais, literaturas e artes, e apostar sempre na conversa entre diferentes gerações.

Criado em 2017, o Blog da BVPS publicou seu primeiro post no dia 6 de março. A cada ano, nossos acessos vêm aumentando substancialmente: em 2017 foram 3.086 visualizações e 1.775 visitantes; em 2018, 7.713 visualizações e 4.405 visitantes; 2019, 8.660 visualizações e 5.089 visitantes; em 2020 [o ano de maior acesso], 87.565 visualizações e 53.157 visitantes; em 2021, 27.124 visualizações e 16.072 visitantes; em 2022, 23.268 visualizações e 14.388 visitantes; 2023, 45.286 visualizações e 24.922 visitantes; em 2024 (até 08/11): 68.373 visualizações e 46.359 visitantes.

Gráfico 1. Estatísticas de acessos ao Blog da BVPS entre março de 2017 e novembro de 2024.

Entre 2017 e 2024, tivemos quatro editores responsáveis: Antonio Brasil Jr. (UFRJ), Lucas Carvalho (UFF), Andre Bittencourt (UFRJ) e Maurício Hoelz (UFRRJ). Como editores, Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ), Lucas van Hombeeck (PPGSA/UFRJ), Rennan Pimentel (PPGSA/UFRJ, atual IESP/UERJ) e Rodrigo Jorge Ribeiro Neves (UFRJ). Em maio deste ano, João Mello (PPGSA/UFRJ), Maria Gabriella de Faria (PPGCS/UFRRJ), Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ) e Onildo Araújo Correa (PPGSA/UFRJ) se somaram à equipe editorial do Blog.

Alguns destaques na nossa produção: em 2017, fizemos o BVPS Modos de Usar, com postagens sobre Florestan Fernandes e Maria Isaura Pereira de Queiroz; em 2018, Homenagem a Ricardo Benzaquen, então falecido, publicando textos sobre ele e trechos da sua dissertação de mestrado, “Gênios da pelota”. BVPS Ideias: promoveu ensaios avulsos sobre pensamento social com pesquisadores da área. Fizemos e publicamos ainda uma longa entrevista com Silviano Santiago em torno dos 40 anos de Uma literatura nos trópicos.

Em 2019, inauguramos as práticas das colunas temporárias: foram criadas Interpretações do Brasil e política, com curadoria de Leonardo Belinelli; Interpretações do Brasil e musicalidades, de Pedro Cazes; Arte e sociedade, de Sabrina Parracho Sant’Anna, e Interpretações do Brasil e Poéticas, de Lucas Van Hombeeck.

Em 2020, nos lançamos ao então mais ousado projeto de alcance internacional: a série especial Pandemia, Cultura e Sociedade com 32 ensaios inéditos, além de poemas, de sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e críticos literários. Bem como o Simpósio Mundo Social e Pandemia em parceria com a revista Sociologia & Antropologia e com a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). O Simpósio soma 14 posts, com a participação de 69 sociólogos/as pertencentes a instituições de pesquisa de 18 países e dos 5 continentes.

Foi também o ano de celebração dos centenários de Florestan Fernandes, de Celso Furtado e de Luiz de Aguiar Costa Pinto, com posts especiais sobre cada um deles.

Em 2021, inauguramos a coluna MinasMundo. O experimento Bastidores da pesquisa ouviu, por exemplo, André Botelho e Danilo Martuccelli sobre suas pesquisas recentes. No mesmo ano, preparando o debate para as efemérides comemoradas em 2022, fizemos o marcante Simpósio 22: Projetos para o Brasil em parceria com a ANPOCS e o Suplemento Pernambuco. Foram 4 posts com 28 respostas de variados pesquisadores sobre o bicentenário da Independência e o centenário do Modernismo.

Em 2022, inauguramos as colunas Palavra Crítica, com curadoria de Rodrigo Jorge Ribeiro Neves, e Primeiros Escritos, voltada para estudantes de pós-graduação, com coordenação de Caroline Tresoldi e Rennan Pimentel. Fizemos a primeira edição da Ocupação Olhares, Axé: outros intérpretes do Brasil; além de entrevistas com Wander Melo Miranda, Heloisa Buarque de Hollanda, Lilia Schwarcz, Mary Luz Serrano, Anna Faedrich, Antonio Kuschnir e Eliane Robert Moraes.

Em 2023 teve início a nossa parceria com o site Outras Palavras, que republica posts nossos quinzenalmente. Fizemos a primeira edição da Ocupação Mulheres, com 15 posts e 18 autoras e autores. A ocupação, uma série de matérias sobre mulheres intelectuais, gênero, feminismos e temas afins, se multiplicou em sua 2ª edição, em 2024, com a participação de 48 pesquisadoras, envolvendo 13 universidades de todas as regiões brasileiras.

2023 também foi o ano do experimento pedagógico Série Nordeste, que publicou com antecedência de uma semana aulas do curso de Sociologia III ministrado por André Botelho no IFCS/UFRJ e também posts de conteúdos adicionais com convidados – foram 23 posts de 21 autores e 2 posts bônus com trabalhos de conclusão da disciplina.

Outro experimento importante e inovador foi a Hospedagem Vale quanto pesa, que reuniu jovens autores com quarenta anos ou menos para reescreverem os 19 ensaios do livro de Silviano Santiago que então comemorava 40 anos de publicação.

Foi um ano intenso 2023. Tivemos ainda três outras iniciativas importantes: a breve série A Sociologia como o quê?, reunindo reflexões sobre as tarefas prementes da Sociologia em contextos de crise; a inauguração da série BVPS Autorais, com a publicação de 11 textos de Alcida Rita Ramos; e a BVPS Coletâneas, que reuniu 13 posts em comemoração aos 130 anos de Mário de Andrade. O Simpósio Essa tal classe média contou com 7 posts e 27 especialistas de diferentes áreas das ciências sociais, humanas e literaturas discutindo particularidades e universalidade da classe média no Brasil.

2024 também tem sido um ano movimentado na BVPS. Logo em fevereiro, Alcida Rita Ramos estreou coluna própria, a Desassossegos, com crônicas quinzenais que misturam suas memórias de etnóloga e suas indagações do presente. Em março, além da segunda edição da Ocupação Mulheres, que já mencionamos, Brasilio Sallum Jr. passou a ocupar a Autorais com textos que cobrem seu arco de notável atuação na sociologia brasileira. Importante ainda foi o Especial BVPS: Passados-futuros do Golpe de 1964, com 16 posts em torno dos 60 anos do golpe militar de 1964.

Ainda em março tivemos uma nova estreia: a BVPS Coleção, com o título Genealogia de uma viagem a Minas. Viajantes provocadores são provocados, de Silviano Santiago. A BVPS Coleção é mais um de nossos experimentos, se propondo a reunir publicações do Blog ou de outras plataformas que formem um conjunto expressivo sobre um tema, questão ou mesmo autor/a.

No segundo semestre tivemos a inauguração de mais duas colunas quinzenais: em julho, iniciamos a Coluna Renato Ortiz e, em outubro, publicamos os primeiros textos da coluna Cenas de escrita para um diário íntimo, assinada por Ítalo Moriconi. Renato vem provocando nossos leitores com breves textos que, no entanto, desfiam amplas e desafiadoras questões das ciências sociais. Já Ítalo tem apresentado suas reflexões cotidianas sobre literatura, cultura, política a partir de entradas de seu diário.

Entre julho e setembro esteve no ar a série Modos de Narrar a Sociologia Brasileira. Desenvolvida em parceria com o Grupo de Trabalho de Pensamento Social no Brasil da ANPOCS e com o Comitê de Pesquisa da mesma área da SBS, a série publicou 26 excertos de memoriais – escolhidos pelos próprios autores – de sociólogas e sociólogos brasileiros. Embora se concentrem nas experiências individuais, pudemos observar que os memoriais são reveladores das dinâmicas coletivas – de cooperação e competição – e das redes de colaboração que moldam a sociologia brasileira.

Desde agosto, temos publicado a série Mitomanias/mitologias. Até agora sairam 33 posts, além da apresentação dos curadores. Livremente inspirada no Mitologias de Roland Barthes, a série propõe discutir as tramas inconscientes de nossas práticas sociais. Da música sertaneja à depressão medicalizada, da democracia aos filmes infantis, do futebol às salas de espera, passando por tornozeleiras eletrônicas, celebridades, tatuagens ou empreendedorismo, autoras e autores de diferentes gerações e áreas de pesquisa vem promovendo reflexões sobre o vasto horizonte de vivências e expectativas, símbolos e significados que compõem o nosso cotidiano. A série “mito/mito”, como a chamamos em nossas trocas diárias de WhatsApp, ainda continua por mais algumas semanas.

Em agosto inauguramos também uma nova identidade visual do Blog que, dialogando com a ideia de redes da primeira identidade, materializa-se em elementos concretos. Os elementos que integram a composição do painel de abertura, desenhado por Joana Lavôr, estão sendo destacados um por um nos posts. Assim, na repetição com diferença, eles são marcos de itinerários plurais de leitura e também companhias para leitores e leitoras.

No mês de setembro teve início uma série especial sobre a Coleção Pensamento Político e Social da editora Hucitec, criada em 2010 por Elide Rugai Bastos, Gabriela Nunes Ferreira e André Botelho, com Maurício Hoelz completando o time atual de diretores. Temos promovido reflexões sobre títulos específicos e em conjunto, resenhas, memórias, entrevistas com autores e outras atividades que visam informar leitoras e leitores, em geral, e pesquisadoras e pesquisadores da área de pensamento social e político, em particular.

Em outubro, publicamos uma pequena série dedicada a um tema central para a compreensão da política brasileira: o poder local e as eleições municipais. Foram 8 posts, com reflexões históricas e/ou de conjuntura sobre as dinâmicas políticas que ocorrem nos municípios brasileiros.

Também em outubro começamos uma nova edição da série Autorais, agora com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, curada por Fabiano Santos e Johnny Nogueira. Os primeiros textos do autor tratam da questão da imaginação política brasileira, um tema central em seu pensamento que, para dizer o mínimo, contribuiu para originar uma área de pesquisa nas ciências sociais brasileiras. Com a série Autorais, temos procurado colocar em circulação textos de um mesmo autor ou autora que cubram, de modo representativo, suas atividades de pesquisa.

Na BVPS Coleção, publicamos mais dois títulos no segundo semestre: Helô no Jornal do Brasil (1980-2005), de Heloisa Teixeira, e Que não temo contrastes nem mudanças,/Andando em bravo mar, perdido o lenho”: Antropologia como escrita, de Alcida Rita Ramos. Ainda estão em preparação novas brochuras: Sociologia Política do Nordeste, Essa tal classe média e Ocupação Mulheres.

Muitos outros textos tiveram publicações avulsas, ou em colunas fixas (como a Primeiros Escritos e a MinasMundo). Não podemos deixar de destacar também nosso singelo tributo, com 6 posts, a Charles Pessanha, um dos maiores nomes da editoração cientifica brasileira.

O ano ainda não acabou na BVPS, mas já estamos preparando ações para 2025. No início do ano, temos prevista a publicação do Glossário Silviano Santiago, com 20 verbetes escritos por pesquisadores latino-americanos. Em março, comemoraremos nosso aniversário de 8 anos com uma nova edição da Ocupação Mulheres. Elisa Reis e Sérgio Adorno vão ocupar a série Autorais. E teremos ainda as séries Sociologia Política do Nordeste II, Classes médias à brasileira II: horizontes de expectativas da juventude e Formação e pesquisa na pós-graduação para o século XXI, esta última em parceria com o GT de Pós-Graduação da SBS.

Com essas diferentes frentes de publicação, a BVPS tem perseguido sua missão de formação e divulgação da comunicação pública acadêmica, de editores e leitores. Nossa atuação inovadora e coordenada – sediada no Núcleo de Estudos Comparados e Pensamento Social (UFRJ, UFF e UFRRJ) – está rendendo frutos para além das nossas (sempre fluidas) fronteiras. Hoje, agências de fomento nacionais e regionais já não aceitam propostas sem planos de divulgação dos resultados das pesquisas, e a própria Capes sinaliza uma valorização da comunicação pública na avaliação dos programas de pós-graduação. Quem disse que não vale a pena lutar pela inovação?

Maurício Hoelz (UFRRJ, editor responsável)
Caroline Tresoldi (PPGSA/UFRJ, editora executiva)
André Botelho (UFRJ, coordenador)
Andre Bittencourt (UFRJ, ex-editor)
Antonio Brasil Jr. (UFRJ, ex-editor)
Lucas Carvalho (UFF, ex-editor)
Rodrigo Jorge Ribeiro Neves (UFF, ex-editor)
João Mello (PPGSA/UFRJ, assistente editorial)
Maria Gabriella de Faria (PPGCS/UFRRJ, assistente editorial)
Miguel Cunha (PPGCS/UFRRJ, assistente editorial)
Onildo Araújo Correa (PPGSA/UFRJ, assistente editorial)
Rennan Pimentel (IESP/UERJ, assistente editorial)