
Chegamos hoje ao quinto texto de Ítalo Moriconi em sua coluna Cenas de escrita para um diário íntimo. Desta vez, Itálo divide conosco mais um trecho de seu diário de viagem à Itália, no início de 2023. Reflexões sobre o tempo – o passado que atrai mais que o futuro – misturam-se a cenas do cotidiano italiano, como a busca por livros, a gastronomia local e as escavações arqueológicas que desvendam camadas subterrâneas da história. Com olhar crítico, Moriconi transita entre temas íntimos e universais: a solidão, as guerras, a memória familiar e os dilemas do presente. Um texto que é ao mesmo tempo introspectivo e expansivo, perfeito para quem busca uma leitura que entrelaça vida, história e literatura.
No ano passado, já publicamos alguns trechos do “Diário na viagem – Itália, 2023”. Para conferi-los, clique aqui e aqui. Outros posts desta coluna podem ser acessados aqui.
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Diário na viagem II, 2023
Por Ítalo Moriconi
[22 de fevereiro – Rio de Janeiro, quarta-feira de cinzas]
Deixar esses esplendorosos dias de sol e de nudez a céu aberto para enfurnar-me no inverno (também radioso nos dias de sol) pode parecer maluco. O hábito vem da minha profissão, pois professor universitário só pode viajar de férias em meses de frio. Descarto verões no hemisfério norte. De calor escaldante já me basta o Rio. Aprecio a solidão introspectiva dos dias surdos de inverno ao norte. Mas bati ponto na banda que bate que bota ribomba em bum de baticum.
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Na beira para os 70 anos, sou impelido a me tornar um anjo de Klee, aquele mesmo, a que todos nos apegamos por instigação de Walter Benjamin. Na beira dos 70, não se pode descartar o futuro. De costas, sou projetado para esse desconhecido, que se tornou surpreendente no presente século. Mas não consigo deixar de manter os olhos fixos no passado. O passado tem me atraído mais atenção e tesão que futurologias.
Na Itália, tudo que conta é passado. E, no presente, o benessere dos turistas e visitantes, o malessere dos imigrantes. Entro numa de Álvaro de Campos, vejo no passado um campo minado, eu levando porrada de mim mesmo, mas ereto e com olhar triunfante de costas atravessando presentes, a cabeça girando 360º. De repente o giroscópio parou e se fixou no passado. Que importam tantos presentes simultâneos? Escolha o seu.
[25 de fevereiro – já em Perugia, Úmbria, Itália]
Jantar agradável ontem no restaurante Cantinone. A companhia de Vera e Claudio é sempre agradável e juntou-se a nós um professor da UnB que está aqui como Visitante, lecionando Literatura Portuguesa, o Edvaldo Bérgamo. Claudio é um autêntico umbro e conta muitas coisas interessantes sobre Perugia, assim como a Vera Lúcia, que é apaixonada pela história local, tal como e. Só que ela sabe tudo e eu apenas sei retalhos, que logo esqueço quando volto para o Brasil. Esta é a quarta vez que passo um período de quatro semanas aqui. À saída, nos esperava um frio bem maior do que fazia até ontem, e com chuva. O proprietário conta histórias do lugar em que se situa o restaurante. Na verdade, o restaurante, como o nome indica, situa-se no espaço das cantinas em que na Idade Média as freiras serviam comida e abrigo gratuitos aos trabalhadores braçais. As cantinas foram escavadas pelos arqueólogos. Se algo muda na imutável Perugia é sua paisagem subterrânea, devido à contínua atividade de escavação. Há toda uma Perugia subterrânea redescoberta e reutilizada ao longo de anos e anos de trabalhos arqueológicos. A conversa com o proprietário se estende, a Vera se entende com ele para futuramente realizar no lugar almoços de grupos de professores. Fala-se dos terremotos da Umbria; todos aqui já tiveram experiência de terremotos. Comenta-se que, pelo menos no centro storico de Perugia, as casas e prédios não caem, mesmo quando o mesmo terremoto causa tragédias em municípios próximos. A explicação estaria justamente nas estruturas subterrâneas de Perugia, sobre as quais se sustentam as edificações da cidade compacta, desde o tempo dos etruscos, há mais de 2 mil anos atrás. Funcionam como pilares ou anteparos, de modo que quando a terra treme, as edificações balançam como navios, mas não desabam.
Tiro o sábado para ir e voltar ao centro do centro storico. O dia começa ao meio-dia. Subo a ladeira da via Cesare Battisti, da qual se avista um belíssimo panorama – a vista alcança até os Apeninos, onde se localiza a cidadezinha em que meu pai nasceu, Fossato di Vico. Subo e desço a ladeira três vezes. A primeira para comprar roupas. É dia do Sbarracco, a queima total dos estoques de inverno. Encontro pouca coisa daquilo que preciso realmente, que se resume a alguma roupa íntima de frio. Como pizza na hora do almoço, em pé no balcão. Compro a magnífica porchetta da clássica barraca em frente aos correios, para comer mais tarde, portare via. Desço e subo a ladeira da Via Cesare Battisti mais duas vezes. Faço isso porque ainda não encontrei lugar para urinar na cidade; não é como no Rio, em que se sinto vontade urgente de mijar, entro em qualquer botequim.
Depois do sbaracco, subi e desci a ladeira para fazer compras no supermercado. Comprei comida para 2 ou 3 dias. E na minha terceira ida meu destino foi La Feltrinelli, a livraria. Passei lá algumas horas, folheando livros e trazendo para casa uma breve história de Perugia, um livro de Renzo Paris recém-publicado sobre a amizade entre Moravia e Pasolini, a tradução italiana (por sorte bilingue) do poema de Anne Carson a partir de Helena de Troia, de Euripedes. Comprei também o próprio texto de Euripedes. Não sei se vou lê-lo. Seria bom ter duas vidas. Será que minha aposentadoria me concede isso? Uma dupla jornada de puro prazer? Antes de ir para a Feltrinelli, passei na veneranda Confeitaria Sandri, onde comi os últimos strufoli da estação (são os doces com mel vendidos apenas na época do Carnaval) e tomei um café correto com grappa, seguindo o exemplo de Claudio na véspera. A grappa no café me animou para o mundo dos livros, a errar pelas estantes sem nenhum compromisso, nenhuma bibliografia obrigatória.
[26 de fevereiro]
Trouxe muito trabalho para fazer nesses primeiros dias. Os dias cinza e frios ajudam o recolhimento. Só saio depois do almoço, para a passegiatta da tarde. Mas a minha passegiatta é mais cedo que a dos locais, que por volta de uma, duas da tarde, ainda estão em casa para o almoço; aqueles que almoçam em casa. Passo no mercado e volto para o meu Airbnb para iniciar uma segunda rodada de trabalho no fim da tarde, um horário em que as ruas de Perugia se enchem de gente. Consegui terminar o relatório num dia só e à noite, bem tarde, acabei relendo boa parte da antologia de Ricardo Domeneck, sobre a qual me foi encomendada uma resenha pela revista Ouriço, de Minas Gerais. A resenha veio toda à minha cabeça. Agora é só concretizá-la. Sentar o rabo.
Começo a corrigir os trabalhos dos alunos.
[27 de fevereiro]
Hoje, pela primeira vez desde que cheguei, não consegui realizar a meta de minha sonoterapia anual no inverno do norte. Dormi sete horas. Ou seja, acordei em déficit, como sempre acontece no Rio. Um pequeno déficit, mas posso senti-lo agora, não estou com aquela energia total que as oito horas de sono (contínuas, interrompidas apenas pelas duas ou três urinadas) dão, sem precisar da muleta da cannabis depois. Cai no sono muito tarde ontem. Sempre assisto um pouco de televisão na cama. A âncora do telejornal me avisou que horas eram. Já uma e vinte da madrugada. Eu pensei – tudo bem. Vou acordar 9 e meia da manhã. Mas acordei às 8 e meia, o que me desapontou.
[03 de março]
Passo o dia lendo os trabalhos dos alunos da UFRJ. Elaboro pareceres meticulosos para cada um deles, pois todos receberão a mesma menção final “A”. Através dos pareceres posso estabelecer distinções, pontuar os que estão melhores e indicar as falhas ou faltas dos que não foram tão brilhantes. Mas todos foram excelentes em aula. O curso sobre biografias de escritores foi estimulante e houve participação intensa de todos. Foi gostoso ir ao Fundão uma vez por semana. Despeço-me da rotina docente. Virei uma espécie de campeão de uma crítica biográfica. É certo que existe o biografema, de Barthes, ou a grafia de vida, de Silviano Santiago, investindo no recorte biográfico tópico contra as ilusões da biografia de vida inteira. Seja como for, para uma peça crítica sobre obra individual, o exercício de uma abordagem crítico-biográfica terá que ter como pano de fundo uma compreensão ampla da totalidade da obra. Não consigo me libertar da linearidade diacrônica, sem desprezar sincronias, transversalidades, afinidades aleatórias.
[10 de março]
Pois é, vocês aí torrando no calor do Rio de Janeiro e eu aqui em recolhimento invernal, de pijaminha no gelado frio da Úmbria. Gostoso dar um tempo. É possível sobreviver sem assistir Globonews todas as tardes e/ou noites. Solidão, solitude, garantia de paz para ler a esmo e escrever sem ansiedade longe da dispersão carioca. O sol me puxa com violência para fora da cama. Dispo o pijaminha, saio pelado pela orla divina de deuses pagãos, pecaminosos. As notícias chegam aqui de todo jeito, elas vêm pela tela do computador. Não se trata de jejum nem abstenção. Tenho opinião sobre tudo, como sempre, mas falta-me o apetite para a diatribe feicebuquiana. Aqui também tem notícia. Só se fala na guerra da Ucrânia e no naufrágio do navio de imigrantes na costa da Calábria. Cheguei aqui há dez dias e logo entrei na livraria Feltrinelli, como no Brasil entraria na Travessa, na Martins Fontes. Dou de cara com o recentíssimo livro de Edgar Morin, lançado em janeiro de 23, Di guerra in guerra – Dal 1940 all’Ucraina invasa na tradução italiana. Aos 101 anos de idade ele faz uma retrospecção das guerras europeias que viveu para terminar com um libelo contra a guerra da Ucrânia, contra todas as guerras, contra os crimes de guerra de todos os lados. Onde vai terminar a escalada? A Rússia insiste. O eixo EUA-UE insiste. Como ficamos?
Mas o que seria necessário para acabar a guerra?
Isso não está em pauta agora. Agora no máximo poderia haver o cessar fogo. Estão acontecendo coisas muito HORROROSAS no campo de batalha. A população civil, se não está sendo assassinada nos bombardeios, precisa evacuar correndo as áreas em que rolam os combates, na região do Donbass. Os homens adultos ucranianos perderam suas vidas, estão na luta, se sobreviverem à guerra o que terão de sobra será uma outra vida, quebrada. Os ucranianos adotaram a guerra de guerrilhas contra os tanques russos, conduzidos por soldados improvisados que Putin tirou da cadeia. Há uma resistência civil ucraniana, a TV italiana chama os civis da resistência ucraniana de “partigiani” – ironia! a palavra usada para denominar os resistentes comunistas e democratas europeus contra o nazifascismo na Segunda Guerra.
Morin acha que há, sim, perigo de algo como uma Terceira Guerra. O Japão rearmar-se é um perigo. Veja-se o que o Japão fez com a China em tempos idos. Se havia dúvidas quanto à força telúrica do nacionalismo ucraniano, um dos efeitos da agressão russa foi fortalecê-lo. É o que Morin diz: a história europeia mostra que sempre que um país ataca outro, o povo do país atacado desenvolve fortíssimos sentimentos de unidade nacional, até mesmo os cria. O horror, o horror se sucede, se acumula. As cenas da guerra da Ucrânia evocam em tudo e por tudo aquelas da Segunda Guerra Mundial. Por que eu deveria me importar com isso? E as guerras e massacres horripilantes na África, no Tigré, ontem mesmo, anteontem? Como nas cenas do filme francês Dos homens e dos deuses, baseado em fatos reais ocorridos no Mali. Os agressores jihadistas superarmados entram nos vilarejos e, do alto de seus cavalos, tanques ou o que seja, vão cortando a cabeça de quem encontram no caminho, velhos, mulheres, crianças. Seu primeiro objetivo é massacrar os milenares cultos africanos, populares, assim como toda e qualquer nuance de gênero.
Eis o homem! Com ou sem o sol pecaminoso da orla carioca. O que tenho eu a ver com isso. Sempre fui não-homem, semi-macho, fugia da briga na saída da escola, sou daqueles que dão uma boiada para não entrar numa briga física e dez ou cem para sair dela, correndo. Mas eu, com meus óculos de dez graus e a proteção de mamãe-vovó-empregada, sempre fui apaixonado pelas histórias de guerra, pela análise de estratégias de guerra. Acho que me sentiria bem participando de um comando, orientando a guerra intelectualmente, botando a galera para matar e morrer, eterno papel dos intelectuais. Mas numa guerra de resistência, sei disso, mesmo os intelectuais de óculos se enchem de uma coragem física que não sabiam que tinham e arriscam a vida. Numa guerra, não tem senão, ou mata ou morre. Cada passo dado é risco iminente de perda da vida, do olho, da perna, do braço, do pênis.
O pelotão ucraniano ataca os dinossáuricos tanques russos, mata todo mundo lá dentro e sai na neve a festejar, entoando cânticos populares arcaicos, velhos de séculos. Alegria de matar quem quer te matar. Sangue e horror. A canção da carnificina. Minha paixão intelectual pelas guerras vem certamente das histórias contadas por meu pai, que viveu a Segunda e viu a sua Itália destruída, atravessou o oceano para ser feliz ao sul do Equador; ele teve tempo. E meu avô, que viveu três, a começar pela Primeira, sim, a louca Primeira Guerra. Há três anos, fazia sucesso a memória (em livro e documentário) de um ancião italiano da geração de meu avô, sobrevivente, arrancado de casa aos 17 anos para ir para o front da horrífica Primeira Guerra. Ele relata seu primeiro enfrentamento corpo a corpo, soldado contra soldado, lutando fisicamente de baioneta na mão. “Naquele primeiro dia, tendo morto um soldado inimigo com faca e baioneta, senti que me tornara um animal”.
Sabe o que seria necessário para acabar com a guerra da Ucrânia?
Que os ucranianos renunciassem definitivamente à Crimeia. A própria Europa já deu perdido. Que os russos aceitassem um protocolo de gestão compartilhada do Donbass, sob supervisão estrangeira. Que se garantisse uma conexão por terra entre a Rússia e a Crimeia, mas que a Ucrânia mantivesse o controle da região ou da maior parte dela.
Que o povo fosse consultado no voto! sob supervisão da ONU.
Que a Ucrânia se comprometesse a jamais integrar a OTAN.
Que talvez Odessa se mantivesse como área livre, sob gestão internacional.
Mas isso é o mais difícil.
Veja-se o desastre que é o mundo ter deixado Jerusalém na mão de Israel e não sob a responsabilidade direta de uma autoridade internacional.
Outro dia aconteceu aqui a Marcha da Paz, uma passeata de umas 300 pessoas que foram a pé, neste frio, durante a madrugada, daqui de Perugia até a cidade de Assis, terra de São Francisco. Que a imagem de Francisco nos acalme e nos permita prosseguir vivendo no pecado de tanta indiferença e impotência, gozosamente dionisíaca ou inocentemente burguesa.
***
(Versos para um diário)
Tudo prolifera –
os tentáculos das notícias
e das infinitas realizações humanas
assim como as maldades, as carnificinas, as indiferenças
sufocam –
só a indiferença conseguiria impor foco ao caos
ordenado pela crueldade e ausência de beleza
de um Deus cego, um ponto de luz apagado,
disseminado em mil demônios, daimons, dervixes.
Era um fantasma.
A tua guerra não é mais triste que a minha,
nem a minha mais horrenda que a tua.
14 de março
Pausa para ler jornal do Brasil.
Hoje Chico Alves levanta uma pergunta pertinente no site do Uol.
Será que Braga Netto sabe quem mandou matar Marielle e Anderson?
Será que Braga Netto sabe quem mandou matar Marielle e Anderson?
Será que Braga Netto sabe quem mandou matar Marielle e Anderson?
[15 de março]
Em debate, o filme vencedor do Oscar deste ano, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo.
Quem sabe mais para a frente eu me adapte aos novos modos. Achei o filme chato, ruim de ver. No entanto, faço aqui uma observação. Ele me apresentou algo formalmente inovador, embora para mim tedioso. Numa palavra, a estética do filme é a estética dos games, dos Minecraft da vida e outros, que a geração do meu neto curte. Me senti coroa demais. Incapaz de estabelecer uma empatia inteligente com essa estética. No entanto, é forçoso reconhecer: a pedagogia do presente e do futuro imediato passa necessariamente por esse tipo de linguagem. No estágio atual, a linguagem dos games é a linguagem de narrativas interativas virtuais. Não sei muito sobre metaverso, mas sei bastante das cabeças, corpos e comunicação multitarefa, multi multi multi, multi multi tudo ao mesmo tempo aqui agora titânico que angustia e dá ansiedade.
Queria poder acompanhar, precisarei de bengala para caminhar, quando? Dentaduras duplas, inda sou bem novo? Acho que não. Já tenho implantes, antiquíssimo Carlos. Uma nova age of anxiety? O que vejo é que a geração multiversada não se angustia e vive despreocupada na fragmentação total do sentido, ou aparência de sentido. Perguntaria Lydia Tar, do filme com Cate Blanchett: o que fazer com tanto saber acumulado? Necessariamente transformá-lo em games. O mais chato do filme é o excesso de coreografia kung fu. Uma tremenda perda de tempo! Registre-se que no meio do excesso de imagens inúteis, dá, sim, pra perceber as boas atuações. Agora é assim, as boas atuações aparecem em clipes. E o happy ending deixa claro – é mais uma produção hollywoodiana gênero banal, como bem observa o crítico da Folha, Inácio Araújo.
