Cenas de escrita para um diário íntimo | Coluna de Ítalo Moriconi

No último texto do ano de Ítalo Moriconi em sua coluna Cenas de escrita para um diário íntimo, um turbilhão de temas — da nostalgia das bancas de jornal à política da pós-verdade — entrelaça poesia, envelhecimento e os mitos da modernidade. O que significa atravessar o portal da velhice? E como nossa relação com a informação, a verdade e o espetáculo molda os tempos em que vivemos? Perguntas que emergem de um texto que é, ao mesmo tempo, diário, manifesto e invenção literária. A coluna de Ítalo se despede de 2024, mas retorna em 2025 com muitos outros vislumbres reflexivos de seu cotidiano. Não perca!

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Quem assina o diário

Por Ítalo Moriconi

[17 de outubro]

Tenho saudade do tempo em que a banca de jornais aqui da minha esquina copacabânica vendia jornais do mundo inteiro. Eu gastava uma grana que ainda não tinha e lia e me deliciava com tudo, de New York Times a Le Monde, a Libé, Economist, Financial Times. No começo – meu começo é meados dos anos 1970 –, havia mais algumas bancas em Copacabana que vendiam imprensa internacional. Com o tempo, elas deixaram de vender importados e ficaram só mesmo a da Duvivier, e lá do outro lado, para o sul, atravessando a fronteira de bairros, a banca da General Osório. A banca da Duvivier ficava aberta 24h e não vendia nada senão jornais e revistas, material impresso, colorido, distribuído em seções. Quem quisesse outra coisa na naite que buscasse a farmácia do Zé das Medalhas na Prado Jr., os puteiros da região, o sanduíche do Cervantes. Hoje em dia, nem existem mais as bancas. Virou tudo quiosque, vendendo quinquilharias para atrair os turistas, a lembrancinha para levar para querides.

Um amigo me envia o pdf completo do Le Monde de dias atrás. Faço a rolagem na tela. Scroll. A cobertura do resultado eleitoral americano me parece muito melhor que o que tenho visto de manchete e lido a voo de pássaro nas newlettters americanas que recebo. Na parte cultural, vinte anos da morte de Jacques Derrida. Estão republicando Spectres de Marx. Fico feliz, mencionei esse livro na minha coluna do blog da BVPS.

[28 de outubro]

Eis o rapaz aquático e feliz
Eis o rapaz grávido de luz
mais límpido que o verso que o diz.
(Sandro Penna)

Quando ainda garoto, ele escrevia em seu diário que suas únicas paixões eram a política e a poesia. Mas não qualquer política. Por política, ele entendia “marxismo”. Ele queria compreender, buscava informação o mais de dentro possível. E apreender o entorno, em frases sintéticas e livres, soltas, respiradas, no jogo fascinante dos versos sobre a página. Uns dez anos depois, o que ele desejava realmente, na militância, era ainda o ficar por dentro, era o nível de informação trazido pelas exaustivas e excitantes análises de conjuntura, nas longas reuniões domingo adentro. “Já vai sair pra reza?” perguntava o porteiro, quando ele passava de saída, cedinho, com a agenda na mão. As pautas estavam todas lá. Não era reza, era reunião de base, de comitê, de grupo.

[29 de outubro]

PÓS-VERDADE

O tema da pós-verdade permanece válido para pensarmos os novos tempos da política. Para trás fica o arranjo global que se seguiu imediatamente ao fim do poder soviético na Rússia. A aprovação do Brexit em 2016 é por muitos considerada a primeira vitória eleitoral baseada na manipulação dos fatos, os fatos inventados ocupando o lugar dos fatos ocorridos na elaboração das retóricas e argumentos em disputa nas esferas públicas.

Com ele, o Reino Unido se desgarrava de um dos mais emblemáticos projetos de mundo urdidos no pós-Segunda Guerra Mundial: uma união europeia ocidental para acabar com todas as guerras e para defender o sistema ocidental contra a antiga URSS. A União Europeia antecipava algo importante na etapa posterior do pós-Guerra Fria: a aglutinação de nações em unidades continentais maiores, como o Mercosul e a pretendida Alca.

***

A política da pós-verdade, praticada pelo que temos chamado de extrema direita, esteve em pleno vigor na campanha eleitoral brasileira de 2018.

Um comentário que a gente ouve entre amigues e comentaristas televisivos, quando a conversa ou a pauta resvala para a eleição americana, é o espantoso que é Donald Trump continuar tendo o apoio de metade da opinião política americana, diante de tudo que se sabe dele e de tudo que se ouviu e viu dele, quando presidente. No meu rápido giro recente pela Florida e Nova Iorque, a experiência mostrou que no papo político informal, interlocutor trumpista ouve com cara de paisagem aquilo que não trumpista está dizendo e no final simplesmente replica “OK, but I’m Trump, I vote Trump”.

Existe uma questão de política da Comunicação aí.

Elemento central no universo da pós-verdade é a recusa taxativa de uma parte expressiva da opinião pública acreditar em qualquer coisa que a mídia e os personagens da mídia, as celebridades pop, estejam dizendo. As pessoas se sentem oprimidas pela Avalanche de Informações e Verdades trazidas pela Midiasfera. Tudo para essa quase maioria ou maioria é armação. Para essas pessoas, as fake news são as news produzidas pelos esquemas profissionais e empresariais clássicos e não aquelas que viralizam sem controle nas redes. Nunca é demais lembrar que talvez se possa datar o nascimento da pós-verdade bem antes do Brexit, já na invasão do Iraque, quando os Estados Unidos dos neoconservadores de Bush enganaram as pessoas bobas do mundo com a lenda das “armas de destruição em massa” que o Iraque possuiria escondidas e que depois se viu que não existiam. Seria interessante fazer um levantamento histórico das fake news propagadas pela própria mídia corporativa.

As redes contemporâneas de fake news nos Estados Unidos amplificaram uma tendência que vinha do surgimento dessas grandes mídias empresariais, porém dissidentes, tipo Fox News, apoiadas na negação total, sem explicação, de tudo que era dito por todas as outras mídias, em tom populista de esculacho do status quo. E, de repente, nós, companheiros de viagem da assim chamada esquerda, viramos os conservadores, os defensores do establishment social-liberal ocidental, contra o ataque da insurreição de direita. A insurreição anti-iluminismo, anticiência, como se viu, pior ainda, na pandemia. A FoxNews levava para a Nuvem Total da Comunicação o que já existia disseminado em eras pregressas, que eram os talk shows radiofônicos retrógrados, reacionários, fundamentalistas evangélicos broncos, supremacistas, já alimentando o sonho da guerra civil que faz parte da margem mais extrema do extremismo trumpista.

***

O voto contra o trumpismo representa a metade da sociedade que ainda leva a sério as verdades, a busca pela mais precisa comprovação factual, a valorização do conhecimento científico, histórico, escolar e universitário.

Mas a outra metade nos contestará. Dirá que eles sim, eles é que são os portadores da verdade. Da Verdade com v maiúsculo, a verdade bíblica, religiosa. É com base nessa Verdade deles que os evangélicos reacionários recusam tudo aquilo que para nós é a Verdade. Tudo. Para eles, tudo que é dito pelas mídias é falso e inútil. Sobra apenas o que o pastor diz que a Bíblia diz. Vivemos no indecidível. A luta real, decisiva, se dá de maneira disseminada na sociedade, não pode ser resolvida por uma eleição apenas. Pouco importa se a candidatura de Kamala tem fraquezas e vulnerabilidades. Não deixar Trump sentar-se de novo na cadeira de presidente é apenas um gesto de barragem, de tentativa de contenção.  

A margem é estreita.

O que nos indigna, sequer emociona o outro lado.

[15 de dezembro]

Abro o diário e penso escrever temas íntimos, mas a página na tela suscita a política. É meu dazibao pessoal, a página das imprecações, das indignações, da retórica para criar efeitos e trazer pessoas para o meu lado.

Hesito em admitir, no espelho cruel do meu diário, que entrei nos setentanos e que sou um aposentado. Queria que fosse fake news. A posição de aposentado às vezes soa indigna. No entanto, não me envergonho; ao contrário, como cidadão tenho que me orgulhar. Trata-se de um direito justo, conquistado aos 65 anos, em retribuição por meus 45 anos de serviço no ensino universitário. “Eu detesto ter 65 anos, detesto ter 70”, me diz a interna máscara rosnante, ressentida com a ordem de Deus. O sentimento de justiça vem acompanhando de culpa social. Tenho sorte de aposentar-me como servidor público. Devemos renunciar a esse privilégio, comparando com as aposentadorias pelo INSS?

Escrever um diário, na história de minhas teimosias, não combina com velhice, com o tema do envelhecimento, a questão do fim da vida num mundo em que tanta gente ultrapassa lépida o umbral dos 70. Eu escrevia o diário na adolescência para fixar o momento presente de minha juventude, pois sabia que a memória daqueles dias se perderia. Cismei que precisava manter o testemunho escrito do que estava vivendo. Meu psicanalista pontuou que o diário secreto, na verdade, era endereçado à figura de minha mãe. Representação de representações. Segredo de poeta é segredo de polichinelo, cifrado ou não. Não me passava pela cabeça que escrever o diário do envelhecimento podia ser uma proposta também.

***

Ele temia o momento em que pintaria o portal do envelhecimento. Vivia alimentado pelo mito publicitário da eterna juventude, ele, sorridente, jovial, esportivo. Os limites físicos vão surgindo pouco a pouco, exigem uma gestão de si, o cuidado de si. Deixar a literatura para a velhice, como passatempo de aposentado, era o fim da picada, era o sinal da derrota existencial.

Chegar aos 70 atrasado em relação a si mesmo.

[16 de dezembro]

Uma diferença fundamental entre escrita de diário para postar e escrita de diário literária é a lacuna temporal. É certo que para fazer diário-literatura é preciso fazer strip tease. Mas existe a distância entre o momento do ato da escrita e sua apropriação pela leitura literária. O autor literário estará sempre disfarçado pelo recuo temporal e pelo estilo, paixão criptografada.

O strip literal, o mostrar-se em pelo, tornou-se tão corriqueiro nos nossos dias! Corriqueiro no tempo real da comunicação privada clandestina, ou nem tanto. As pessoas estão trocando imagens de si peladas, com naturalidade. Mas essa não é uma realidade total, pois um número imenso de pessoas ainda se comporta de maneira decorosa e quer distância ou tem pânico de sexo.

À distância, vejo entre muitos jovens pequeno-burgueses de hoje uma relação com a sexualidade bem menos traumática do que aquela que marcou o meu grupo geracional, que foi o da liberação – dificultosa para muitos.

Tenho a impressão que a sexualidade dos jovens das periferias e favelas é diferente da classe média alta. Entre os jovens das escolas caras imperam o flex e o não binário. Lógico que jovens de classe média e do povão interagem, estão aí os bailes funk que não me deixam mentir. São tantas as histórias de sexo e amor interclasse. Nas favelas, temos as mães adolescentes.

Tudo se resume no espetáculo, o espetáculo de si entre peguetes de aplicativo e o grande espetáculo propriamente dito, explosão de estímulos prazerosos, pedagogia do/no entretenimento.

Teria o mito psi de édipo, com seus traumas e culpas, perdido validade? Se eu quisesse pensar sobre isso, e que tópico!, eu ia querer pensar na direção de uma resposta sim e imagino, na minha profana ignorância, que exista vasta bibliografia sobre isso, em psicanálise e em ciências sociais.

Depois da morte de Deus, a morte de Édipo.

[17 de dezembro]

DORIAN
É no teu retrato de bom moço
que me fio.
Não conseguiria de outra forma.
Não conseguiria lidar com os fantasmas
de um ser selvagem, todo exposto
em espetáculo público.
Você me conduz com decoro, discrição,
pelos caminhos desavisados da degeneração.
Sobre ela seria possível inventar? alguma
expressão lírica, descobrir alguma força renascitura
(certamente os direitos do fim, da terra)?
Te observo daqui, ao telefone,
falando aos que ligam, aos que me procuram,
a gentileza de meu bom moço,
seus modos bastam como plenitude,
onde outrora, em contraste,
rimas e versos tentavam domar explosões.
                  (italomóri assina)

[18 de dezembro]

Exerço minha nova assinatura poética, tateio. Já fui Junior, já eliminei o Junior, hoje sou um Sênior Junior, rasgando a terra com as unhas, em busca do nome enterrado, o bebê ancião.

SEM TÍTULO
A sombra da terra de origem
esvaneceu-se, fiapos de nuvem
entre as montanhas amenas, as oliveiras,
percursos de trem
e um oceano inteiro, o salto
interplanetário, em meio a estrelas
escassamente intuídas.

O sortilégio do Amazonas, a foz,
fontes inexauríveis do fluxo vital,
cipós entrelaçados num tempo ancestral
de mais esfumada lembrança: enredos
transgressivos, como se de – ene – ah!

Na cabine que atravessa a Itália
(a Roma antiga)
tudo se tornou longe, lendário,
material para um romance,
para um devaneio solitário.

        [italomóri]

[19 de dezembro]

As nuvens estão negras, em circunvoluções convulsivas.
Macabramente elas acenam para a história dos vencedores.
Quando virá o temporal?
“Ai, que cenário apocalíptico!”
Melhor é cultivar meu jardim, a poesia, as mal traçadas, as linhas.
No infinito da linguagem, no buraco negro do nome, lume.